Ato 1 - Cena XIV O Primo da Califórnia · Capítulo 15 de 31
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Ato 1 - Cena XIV

CENA XIVOs Mesmos, menos Beatriz Adriano –

Sirvamo-nos de bolo inglês!...

Ernesto –

Proponho que se dê carta de naturalização a este bolo; parece estar tão

gostoso, que vale a pena fazer-se dele uma conquista nacional.

Adriano – Os vossos copos, senhores...

Eduardo – Eu cá

tenho um copo de meio quartilho.

Ernesto – E eu

um de lavores dourados!...

Adriano –

Perdoai-me, senhores, o meu aparelho se acha m pouco desprovido...

Eduardo – Isto

dobrará ainda o nosso prazer...

Adriano –

Misturemos o champanhe como o Reno e o madeira; viva quem mais beber! (Bebe)

Ernesto –

Excelente bolo!... mandarei o meu groom aprender

com Adriano a fazer bolo inglês.

Eduardo – Ah! Tu

tens um groom?

Ernesto – Desta

altura... (Fazendo sinal de pequeno

tamanho) inglês de puro sangue...

Adriano (À

parte) – E eu?... só tenho por groom a

velha Beatriz!... nada... vou embebedar-me. (Bebe)

Ernesto (A EDUARDO) – A propósito: sabes, que

comprei um cabriolé?... oh! Coisa encantadora.

Adriano (À parte) – E eu?!!! Eu cá tenho os

ônibus ou as gôndolas em lugar do cabriolé... oh! Sorte endemoninhada!...

Eduardo – Eu

pretendo ter um carro magnífico, logo que herdar de meu tio, o conselheiro,

trinta contos de réis de renda anual!... nada menos que isso.

Adriano – Então tu tens um tio com

trinta contos de réis de renda?... (Bebe)

Ernesto – Eu conto que minhas tias

me deixarão muito mais do que isso... Florindo e Júlio têm igualmente belas

heranças em perspectiva... oh! Que belo uso faremos de tanto dinheiro!...

Adriano (À

parte) – Todos eles têm parentes milionários... e eu?... eu tenho as algibeiras

em trapos, e nunca me acontece cair-me o dinheiro por elas abaixo! Nem passado,

nem parente, nem futuro, sou um pinga na extensão da palavra! Ora isto faz

ferver o sangue! (Bebe)

Ernesto – E quem

será tão desgraçado que não tenha tios, ou tias ricas?...

Adriano –

Apoiado! Qual será, qual esse desgraçado?

Ernesto – Então,

tu também os tens?...

Adriano – Ora

seguramente! (À parte) É boa! Então por que não posso ter também os meus

parentes?

Eduardo –

Onde mora teu tio?...

Adriano –

heim?... (Bebe)

Eduardo – Teu

tio onde existe?

Adriano – Meu

tio?... não é precisamente um tio... é um primo... oh! Um parente de

desempenho! (À parte) Que mentira tão miserável!

Todos – Um

primo!...

Adriano – Sim...

um primo, que habita na Califórnia... Paulo... Cláudio... Jenipapo... tal

qual... e eu que sou o seu único herdeiro. (À parte) todos eles têm tios ou

tais, não é muito que eu arranje um primo para mim. (Bebe, e já meio tonto aos

outros) Vocês bebem muito sofrivelmente!

Ernesto (Aos

outros) – Eis aqui um parente, cuja existência me parece contestável: (A Adriano) então teu primo é muito

rico?... o senhor Paulo... Cláudio... Jenipapo?...

Adriano – Oh! Imensamente rico! Foi há quatro anos para a

Califórnia, e hoje possui nada menos que dois mil contos... cinco milhões. (À

parte) Eu arranjo esta fortuna toda com a maior facilidade... é uma riqueza,

que não me custa nada.

Ernesto – E tu,

sem dúvida, entreténs com ele a mais viva correspondência... Mostra-nos algumas

de suas cartas.

Adriano –

Nada... ele não me escreve há muito tempo; simples delicadeza de sua parte...

não quer arruinar-me com os portes do correio.

Ernesto (Aos

amigos) – Vejam que desculpa! (A Adriano)

Pode ser que teu primo já tenha morrido.

Adriano – Qual!

Se ele tivesse morrido já me tinha mandado participar...

Ernesto – Pois

então bebamos à sua saúde!...

Adriano

(Bebendo) – Sim... bebamos! Isto não pode fazer mal nenhum a meu primo.

Adriano –

Sofrido tenho até hojeAs privações da pobreza; Mas em breve irei gozar Todo o luxo da riqueza. Todos – Oh! Vem depressa,Feliz herança!

Tu nos prometesGrande folgança.

Todos – Viva!

Viva!

Ernesto – Oh!

Que soberbo futuro!...

Adriano

(Enfraquecendo) – Sim... o futuro... é meu, não tem dúvida; eu sou muito amido

do futuro... oh! Que belo primo!

Eduardo – A

saúde das nossas namoradas!... viva!

Todos – Hip!

Hip! Hip! Urrha!

Adriano –

Viva... meu primo... oh! Sim... meu rico primo...

Adriano – Morre

já, querido primo,E deixai-me o teu dinheiro;Sobe p’ra o céu direitinho,Mas que eu seja o teu herdeiro Todos – Oh! Vem

depressaFeliz herança!

Tu nos prometesGrande folgança. Eduardo

(Mostrando Adriano) – Oh! Ei-lo adormecido!

Ernesto –

Efeitos do champanhe! Pobre rapaz, não está habituado.

Adriano

(Balbuciando) – Excelente... oh!... o que eu tenho... é... o que eu não

tenho... ah! ah! como eles engoliram a história do primo da... Califórnia...

ah!... ah!...

Ernesto – O que

é que ele está dizendo?

Eduardo – Oh! Eis aqui como é a grande

herança do nosso pobre Adriano!...

Adriano

– Ah!... como é... doce... do... doce (Adormece)

Ernesto – Meus amigos, uma idéia!

Todos – Qual?...

Ernesto – Vós

sabeis que eu tenho amigos na redação de todos os jornais; pois bem, graças à

imprensa, vou dar em um mesmo dia vida e morte a esse primo fantástico

imaginado por Adriano; eu quero realizá-lo a fim de o poder matar.

Todos –

Excelente idéia!...

Ernesto – Amanhã

Adriano contará com esta herança imaginária; essa riqueza lhe durará talvez um

dia: nós nos divertiremos com a sua surpresa e com a sua alegria; ele pretendeu

divertir-se à nossa custa; pois bem, seremos nós que nos divertiremos à custa

dele!

Todos – Apoiado!

Apoiado!

Ernesto – Ele

está profundamente adormecido: venha uma pena e papel... ides admirar a beleza

do meu estilo. (Escreve) “Uma carta da Califórnia, datada de 25 de outubro

próximo passado, anuncia com certeza a morte de um brasileiro... “ O nome e

sobrenome do fabuloso primo?...

Eduardo

– Paulo Cláudio Jenipapo.

Ernesto

(Escrevendo) – “De nome Paulo Cláudio Jenipapo, estabelecido na

Califórnia há quatro anos: morreu sem deixar filhos,

ficando único herdeiro de sua fortuna, que sobe a cinco milhões, um primo –

Adriano Jenipapo – jovem músico estabelecido no Rio de Janeiro”.

Todos – Muito

bem! Muito bem!

Ernesto – Amanhã

esta notícia aparecerá publicada nos três jornais diários da

Corte.

Todos – Bravo!

Ernesto – Ah!

meu pobre Adriano!

Eduardo – Ei-lo

que abre a boca!

Ernesto – ele

sonha talvez com a sua pobreza; amanhã sonhará ainda, mas sonhará em completa

vigília, então terá um verdadeiro sonho de ouro!

Eduardo – Mais

um copo de vinho!

Ernesto – Sim, à

saúde de Adriano, e da sua riqueza! (Enchem os copos)

Ernesto – Em

pobreza adormecido

Há de rico amanhecer;Mas no fim de poucas horasPobre outra vez há de ser. Todos – Que viva

o herdeiroDos cinco milhões,Milhões que não valemNem cinco tostões!

Todos - Hip! Hip! Hip! – Urrha!...

FIM DO ATO PRIMEIRO

ATO IIO teatro representa a saleta baixa, irregular e pobre de uma mansarda; os traste e mobília da sala do primeiro ato estão em desordem.

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