Ato 1 - Cena XIV
CENA XIVOs Mesmos, menos Beatriz Adriano –
Sirvamo-nos de bolo inglês!...
Ernesto –
Proponho que se dê carta de naturalização a este bolo; parece estar tão
gostoso, que vale a pena fazer-se dele uma conquista nacional.
Adriano – Os vossos copos, senhores...
Eduardo – Eu cá
tenho um copo de meio quartilho.
Ernesto – E eu
um de lavores dourados!...
Adriano –
Perdoai-me, senhores, o meu aparelho se acha m pouco desprovido...
Eduardo – Isto
dobrará ainda o nosso prazer...
Adriano –
Misturemos o champanhe como o Reno e o madeira; viva quem mais beber! (Bebe)
Ernesto –
Excelente bolo!... mandarei o meu groom aprender
com Adriano a fazer bolo inglês.
Eduardo – Ah! Tu
tens um groom?
Ernesto – Desta
altura... (Fazendo sinal de pequeno
tamanho) inglês de puro sangue...
Adriano (À
parte) – E eu?... só tenho por groom a
velha Beatriz!... nada... vou embebedar-me. (Bebe)
Ernesto (A EDUARDO) – A propósito: sabes, que
comprei um cabriolé?... oh! Coisa encantadora.
Adriano (À parte) – E eu?!!! Eu cá tenho os
ônibus ou as gôndolas em lugar do cabriolé... oh! Sorte endemoninhada!...
Eduardo – Eu
pretendo ter um carro magnífico, logo que herdar de meu tio, o conselheiro,
trinta contos de réis de renda anual!... nada menos que isso.
Adriano – Então tu tens um tio com
trinta contos de réis de renda?... (Bebe)
Ernesto – Eu conto que minhas tias
me deixarão muito mais do que isso... Florindo e Júlio têm igualmente belas
heranças em perspectiva... oh! Que belo uso faremos de tanto dinheiro!...
Adriano (À
parte) – Todos eles têm parentes milionários... e eu?... eu tenho as algibeiras
em trapos, e nunca me acontece cair-me o dinheiro por elas abaixo! Nem passado,
nem parente, nem futuro, sou um pinga na extensão da palavra! Ora isto faz
ferver o sangue! (Bebe)
Ernesto – E quem
será tão desgraçado que não tenha tios, ou tias ricas?...
Adriano –
Apoiado! Qual será, qual esse desgraçado?
Ernesto – Então,
tu também os tens?...
Adriano – Ora
seguramente! (À parte) É boa! Então por que não posso ter também os meus
parentes?
Eduardo –
Onde mora teu tio?...
Adriano –
heim?... (Bebe)
Eduardo – Teu
tio onde existe?
Adriano – Meu
tio?... não é precisamente um tio... é um primo... oh! Um parente de
desempenho! (À parte) Que mentira tão miserável!
Todos – Um
primo!...
Adriano – Sim...
um primo, que habita na Califórnia... Paulo... Cláudio... Jenipapo... tal
qual... e eu que sou o seu único herdeiro. (À parte) todos eles têm tios ou
tais, não é muito que eu arranje um primo para mim. (Bebe, e já meio tonto aos
outros) Vocês bebem muito sofrivelmente!
Ernesto (Aos
outros) – Eis aqui um parente, cuja existência me parece contestável: (A Adriano) então teu primo é muito
rico?... o senhor Paulo... Cláudio... Jenipapo?...
Adriano – Oh! Imensamente rico! Foi há quatro anos para a
Califórnia, e hoje possui nada menos que dois mil contos... cinco milhões. (À
parte) Eu arranjo esta fortuna toda com a maior facilidade... é uma riqueza,
que não me custa nada.
Ernesto – E tu,
sem dúvida, entreténs com ele a mais viva correspondência... Mostra-nos algumas
de suas cartas.
Adriano –
Nada... ele não me escreve há muito tempo; simples delicadeza de sua parte...
não quer arruinar-me com os portes do correio.
Ernesto (Aos
amigos) – Vejam que desculpa! (A Adriano)
Pode ser que teu primo já tenha morrido.
Adriano – Qual!
Se ele tivesse morrido já me tinha mandado participar...
Ernesto – Pois
então bebamos à sua saúde!...
Adriano
(Bebendo) – Sim... bebamos! Isto não pode fazer mal nenhum a meu primo.
Adriano –
Sofrido tenho até hojeAs privações da pobreza; Mas em breve irei gozar Todo o luxo da riqueza. Todos – Oh! Vem depressa,Feliz herança!
Tu nos prometesGrande folgança.
Todos – Viva!
Viva!
Ernesto – Oh!
Que soberbo futuro!...
Adriano
(Enfraquecendo) – Sim... o futuro... é meu, não tem dúvida; eu sou muito amido
do futuro... oh! Que belo primo!
Eduardo – A
saúde das nossas namoradas!... viva!
Todos – Hip!
Hip! Hip! Urrha!
Adriano –
Viva... meu primo... oh! Sim... meu rico primo...
Adriano – Morre
já, querido primo,E deixai-me o teu dinheiro;Sobe p’ra o céu direitinho,Mas que eu seja o teu herdeiro Todos – Oh! Vem
depressaFeliz herança!
Tu nos prometesGrande folgança. Eduardo
(Mostrando Adriano) – Oh! Ei-lo adormecido!
Ernesto –
Efeitos do champanhe! Pobre rapaz, não está habituado.
Adriano
(Balbuciando) – Excelente... oh!... o que eu tenho... é... o que eu não
tenho... ah! ah! como eles engoliram a história do primo da... Califórnia...
ah!... ah!...
Ernesto – O que
é que ele está dizendo?
Eduardo – Oh! Eis aqui como é a grande
herança do nosso pobre Adriano!...
Adriano
– Ah!... como é... doce... do... doce (Adormece)
Ernesto – Meus amigos, uma idéia!
Todos – Qual?...
Ernesto – Vós
sabeis que eu tenho amigos na redação de todos os jornais; pois bem, graças à
imprensa, vou dar em um mesmo dia vida e morte a esse primo fantástico
imaginado por Adriano; eu quero realizá-lo a fim de o poder matar.
Todos –
Excelente idéia!...
Ernesto – Amanhã
Adriano contará com esta herança imaginária; essa riqueza lhe durará talvez um
dia: nós nos divertiremos com a sua surpresa e com a sua alegria; ele pretendeu
divertir-se à nossa custa; pois bem, seremos nós que nos divertiremos à custa
dele!
Todos – Apoiado!
Apoiado!
Ernesto – Ele
está profundamente adormecido: venha uma pena e papel... ides admirar a beleza
do meu estilo. (Escreve) “Uma carta da Califórnia, datada de 25 de outubro
próximo passado, anuncia com certeza a morte de um brasileiro... “ O nome e
sobrenome do fabuloso primo?...
Eduardo
– Paulo Cláudio Jenipapo.
Ernesto
(Escrevendo) – “De nome Paulo Cláudio Jenipapo, estabelecido na
Califórnia há quatro anos: morreu sem deixar filhos,
ficando único herdeiro de sua fortuna, que sobe a cinco milhões, um primo –
Adriano Jenipapo – jovem músico estabelecido no Rio de Janeiro”.
Todos – Muito
bem! Muito bem!
Ernesto – Amanhã
esta notícia aparecerá publicada nos três jornais diários da
Corte.
Todos – Bravo!
Ernesto – Ah!
meu pobre Adriano!
Eduardo – Ei-lo
que abre a boca!
Ernesto – ele
sonha talvez com a sua pobreza; amanhã sonhará ainda, mas sonhará em completa
vigília, então terá um verdadeiro sonho de ouro!
Eduardo – Mais
um copo de vinho!
Ernesto – Sim, à
saúde de Adriano, e da sua riqueza! (Enchem os copos)
Ernesto – Em
pobreza adormecido
Há de rico amanhecer;Mas no fim de poucas horasPobre outra vez há de ser. Todos – Que viva
o herdeiroDos cinco milhões,Milhões que não valemNem cinco tostões!
Todos - Hip! Hip! Hip! – Urrha!...
FIM DO ATO PRIMEIRO
ATO IIO teatro representa a saleta baixa, irregular e pobre de uma mansarda; os traste e mobília da sala do primeiro ato estão em desordem.