Ato 2 - Cena XIV
CENA XIV
Eduardo, Ernesto, Adriano, Celestina, Beatriz e os amigos.
Ernesto – Oh!
Muito bem, Adriano; como vamos de fortuna?...
Adriano – Vinde,
meus amigos, vinde tomar parte da minha alegria: eu estou nadando em um mar de
ouro!
Eduardo – Nós
sabemos tudo.
Ernesto
(Tristemente) – Teu primo é morto, não é assim?...
Adriano (Como
querendo chorar) – Ah!... é verdade!...
Beatriz (O
mesmo) – Ah! é verdade! Era muito bom moço!
Eduardo – Então
estás muito aflito?...
Adriano – Sim
tenho chorado... este é já o terceiro lenço; os outros ficaram ensopadinhos de
lágrimas; e contudo eu conhecia muito pouco a meu primo... apenas nos tínhamos
visto, quando mamávamos: porém, a morte é sempre uma separação dolorosa.
Ernesto –
Escuta, Adriano; tu és sensível?...
Adriano – Ao
menos tenho essa pretensão, e as minhas lágrimas sinceras...
Ernesto – E eras
muito amigo de teu primo?...
Adriano – Oh! O
mais que é possível...
Ernesto –
Abraça-me, pois, meu amigo, enxuga o pranto; ele não está morto.
Adriano
(Estupefato) – Não... não... não... não está morto?!!
Beatriz – Não
está morto?... isso era o diabo agora!
Celestina – Como
o sabe, senhor?...
Ernesto – Não
está morto, porque nunca esteve vivo.
Adriano – Isto
não é brincadeira; creio que é negócio muito sério!
Ernesto – Ontem,
aquecido pelo champanhe, tu te gabaste de ter na Califórnia um primo senhor de
milhões...
Adriano – Eu...
eu disse isso?... é possível; porquanto não me lembro de coisa alguma!
Ernesto – E
querendo zombar de nós, apenas nos lembraste a idéia de uma caçoada.
Adriano – Uma
caçoada!... como?... este artigo do jornal?...
Ernesto – Não
passa de uma invenção nossa!
Adriano – Pobre
outra vez!... (Caindo numa caixa) Eu... morro agora por força!
Celestina – Meu
Deus! Adriano não está bom!
Beatriz – E eu a
gastar políticas com um musicozinho tão ordinário! com uma bisca, com um
farroupilha desta qualidade!... Vou já participar ao senhor Pantaleão. (Vaise)
Ernesto – Que é
isto, Adriano?... sê homem: se tivéssemos previsto, que sentirias tanto um
simples gracejo de amigos...
Adriano – Ah!
meus amigos, eis aqui uma comédia muito capaz de acabar em tragédia... Eu
estava tão feliz!...
Celestina –
Eis-nos de novo em nossa boa mediocridade.
Adriano – Não! Não posso suportar semelhante desgosto! Isto é um salto mortal! É muito melhor atirar-me de uma janela abaixo! (Corre e esbarra-se com FELISBERTO)