Ato 1 - Cena IV
CENA IVelestina e Adriano Adriano – Bem;
agora que a velha bruxa nos deixou em paz, permite que eu beije essa mãozinha
de anjo. (Beija-a) Ah! Que louco que sou! Eu tinha assentado de pedra e cal que
devia brigar contigo, e cometi a inconseqüência de te beijar a mão...veja só que tolo!
Celestina –
Brigar comigo?... e por quê?...
Adriano – Porque
de algum tempo a esta parte eu te vejo menos vezes.
Celestina –
Adriano, é preciso que eu te dê tempo para trabalhar.
Adriano – Mas,
amiga de minh’alma, eu só trabalho bem quando estás presente: teu olhar me
inspira, o sorrir de teus lábios enche de fogo minha imaginação, teu falar
meigo derrama doçura angélica em minhas melodias, teu coração me exala o
suspiro, que quando estou só, procuro debalde... e se para completar um
pensamento, ou pôr o remate em uma harmonia, uma nota me falta, acho-a sempre
nas covinhas de tuas faces.
Celestina –
Sim... sim... mas também tu me abraças muitas vezes e isso te faz perder o
compasso.
Adriano – É
possível. Conversemos, porém sobre outro assunto; por que motivo vejo eu em
alta noite luz no teu quarto?...
Celestina –
Luz?...
Adriano – Creio
que não me enganei: dali descubro a tua janela: será, que me deixas de noite
para ir celebrar um comércio clandestino com espíritos e duendes?... haverá
feitiçarias em teu quarto?... heim, Celestina?... Celestina, fala; tira-me
deste labirinto em que me vejo perdido.
Celestina –
Ah!... sim... se tens visto luz no meu quarto... é porque... eu tenho medo de estar só de noite
no escuro, e conservo acesa uma lamparina.
Adriano –
Lamparina?... que má lembrança! Tens medo de ficar só de noite?... por que
então me não chamas para te fazer companhia?... Celestina – Que dizes, Adriano?... pois esqueces...
Adriano – é
Verdade... é verdade... seria isso inconseqüente... inconveniente...
prejudicial, e muito próprio para dar que fazer às más línguas: eu não sou
assaz licencioso, Celestina, para brigar contigo por este motivo; e seu para
ser teu inseparável companheiro não te ofereço já o meu nome, meus dois nomes
até, Adriano Jenipapo, é que não desejo que venhas partilhar comigo de pão mal
amassado, o único que me concede este mundo patife!
Celestina – Mas
quando se ajuntam dois, ajuda um ao outro a carregar a pobreza e reúne-se o
pouco que cada uma ganha de sua parte.
Adriano – Sim...
é isso... não há dúvida nenhuma; mas quando desses dois uma ganha somente –
nada – e o outro de seu lado traz para o monte unicamente um – zero —, por mais
que se somem as duas parcelas quinhentas vezes por dia, o resultado da operação
dá sempre – coisa nenhuma – e isso é o diabo, Celestina!
Celestina (Suspirando) – Tens razão; é necessário
esperar...
Adriano –
Esperar... esperar... é exatamente o que eu recomendo aos meus credores;
desconfio, porém, que tanto lhes recomendarei que esperam, que acabarei por não
ter quem me fie um pão e uma gota d’água!...
Celestina –
Coragem! Ninguém como eu tem mais direito a aconselhar a coragem: tu o sabes
já; nasci no seio da riqueza; mas era filha natural, e quando meu bom pai
morreu, os parentes dele e meus queimaram o testamento, e enxotaram-me para o
meio da rua.
Adriano – E a
vítima foi olhada como uma criatura desprezível! E os larápios, que queimaram o
testamento, transformaram-se com a rica herança, que roubaram, em homens de bem
e de gravata lavada!... É preciso confessar que o maior maluco deste mundo é o
mesmo mundo!
Celestina –
Fecharam-se-me todas as portas, e todos me repeliram; desanimava já, quando
ouvi soar a meus ouvidos: “Eis uma mulher perdida!” Levantei a cabeça, e disse:
“Não me perderei”: corri a uma igreja, e rezei por meu pais, e por mim; quando
saí da igreja, tinha já o coração cheio de esperança e de coragem; trabalhei...
sabia bordar, bordei; sabia desenhar, desenhei; cosi, copiei manuscritos, e
música, e finalmente vi que podia com o meu trabalho viver independente de
todos, e pura aos olhos de Deus; hoje desprezo os meus verdugos, amo-te,
Adriano; mas amo-te honesta, casta e virtuosa para ser digna de ti quando me
deres a mão de esposo, se o nosso amor for abençoado por Deus. Assim pois,
Adriano, coragem! Coragem, e trabalho!
Adriano – Oh! Tu
me animas sempre! E animemo-nos ainda mais agora, Celestina, porque aproxima-se
o momento, que deve realizar nossos sonhos de ventura.
Celestina – Como
então?...
Adriano – Meu
editor me espera daqui a pouco para ajustar comigo o preço de uma composição
que ontem lhe enviei, e ao mesmo tempo espero vender uma ópera ao teatro
Provisório, e conto com um lugar na orquestra do teatro de S. Pedro.
Celestina – Se
tudo isso se puder realizar...
Adriano –
Realizar-se-á, estou seguro; tenho todas as condições que se requerem.
(canta)
A fortuna é Qual moça galante,Que nos traz em constante lidar;Já provoca, já foge, e já volta,Te que sempre se deixa apanhar E contando já com o meu próximo adiantamento, receberei aqui visitas esta noite. Celestina – E que visitas?...
Adriano – Alguns amigos camaradas de colégio: o que havia de ser, Celestina?... na última corrida de cavalos interessei-me por um maldito mouro de crinas brancas e de cauda preta; tinha-me esquecido que de um mau mouro não se pode fazer bom cristão, e ainda mais era um diabo de cavalo que pertencia a todos ao mesmo tempo, porque tinha todas as cores: era um cabalo que fazia furor,
um cavalo da moda! Apostei por ele e perdi! Perdi um bolo inglês e doze
garrafas de champanhe!
Nunca mais confiarei em animais, que pertençam a
todas as cores.
Celestina – E
portanto pagas hoje o bolo inglês e o champanhe?...
Adriano – É
verdade! Faço esse obséquio aos meus amigos: também eles têm-me recebido tantas
vezes em suas casas, que hoje por minha parte quero também recebê-los: o pior é
que os meus amigos são ricos, e eu pobre; oh!... não é inveja, é orgulho:
quando eu vejo que eles se deitam sobre bilhetes do banco, e eu não possuo
coisa nenhuma, Celestina, daria sem hesitar tudo, absolutamente tudo quanto
possuo, para ter uma renda de cem contos de réis.
Celestina – Vou
deixar-te em sossego para que te ocupes dos preparativos do teu bolo inglês;
mas olha, toma cuidado em ti, Adriano; tu tens a cabeça muito fraca... não te
adiantes muito pelo champanhe...
Felisberto (Entrando) Ora graças, que uma vez o encontrei!...