Ato 1 - Cena IV O Primo da Califórnia · Capítulo 5 de 31
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Ato 1 - Cena IV

CENA IVelestina e Adriano Adriano – Bem;

agora que a velha bruxa nos deixou em paz, permite que eu beije essa mãozinha

de anjo. (Beija-a) Ah! Que louco que sou! Eu tinha assentado de pedra e cal que

devia brigar contigo, e cometi a inconseqüência de te beijar a mão...veja só que tolo!

Celestina –

Brigar comigo?... e por quê?...

Adriano – Porque

de algum tempo a esta parte eu te vejo menos vezes.

Celestina –

Adriano, é preciso que eu te dê tempo para trabalhar.

Adriano – Mas,

amiga de minh’alma, eu só trabalho bem quando estás presente: teu olhar me

inspira, o sorrir de teus lábios enche de fogo minha imaginação, teu falar

meigo derrama doçura angélica em minhas melodias, teu coração me exala o

suspiro, que quando estou só, procuro debalde... e se para completar um

pensamento, ou pôr o remate em uma harmonia, uma nota me falta, acho-a sempre

nas covinhas de tuas faces.

Celestina –

Sim... sim... mas também tu me abraças muitas vezes e isso te faz perder o

compasso.

Adriano – É

possível. Conversemos, porém sobre outro assunto; por que motivo vejo eu em

alta noite luz no teu quarto?...

Celestina –

Luz?...

Adriano – Creio

que não me enganei: dali descubro a tua janela: será, que me deixas de noite

para ir celebrar um comércio clandestino com espíritos e duendes?... haverá

feitiçarias em teu quarto?... heim, Celestina?... Celestina, fala; tira-me

deste labirinto em que me vejo perdido.

Celestina –

Ah!... sim... se tens visto luz no meu quarto... é porque... eu tenho medo de estar só de noite

no escuro, e conservo acesa uma lamparina.

Adriano –

Lamparina?... que má lembrança! Tens medo de ficar só de noite?... por que

então me não chamas para te fazer companhia?... Celestina – Que dizes, Adriano?... pois esqueces...

Adriano – é

Verdade... é verdade... seria isso inconseqüente... inconveniente...

prejudicial, e muito próprio para dar que fazer às más línguas: eu não sou

assaz licencioso, Celestina, para brigar contigo por este motivo; e seu para

ser teu inseparável companheiro não te ofereço já o meu nome, meus dois nomes

até, Adriano Jenipapo, é que não desejo que venhas partilhar comigo de pão mal

amassado, o único que me concede este mundo patife!

Celestina – Mas

quando se ajuntam dois, ajuda um ao outro a carregar a pobreza e reúne-se o

pouco que cada uma ganha de sua parte.

Adriano – Sim...

é isso... não há dúvida nenhuma; mas quando desses dois uma ganha somente –

nada – e o outro de seu lado traz para o monte unicamente um – zero —, por mais

que se somem as duas parcelas quinhentas vezes por dia, o resultado da operação

dá sempre – coisa nenhuma – e isso é o diabo, Celestina!

Celestina (Suspirando) – Tens razão; é necessário

esperar...

Adriano –

Esperar... esperar... é exatamente o que eu recomendo aos meus credores;

desconfio, porém, que tanto lhes recomendarei que esperam, que acabarei por não

ter quem me fie um pão e uma gota d’água!...

Celestina –

Coragem! Ninguém como eu tem mais direito a aconselhar a coragem: tu o sabes

já; nasci no seio da riqueza; mas era filha natural, e quando meu bom pai

morreu, os parentes dele e meus queimaram o testamento, e enxotaram-me para o

meio da rua.

Adriano – E a

vítima foi olhada como uma criatura desprezível! E os larápios, que queimaram o

testamento, transformaram-se com a rica herança, que roubaram, em homens de bem

e de gravata lavada!... É preciso confessar que o maior maluco deste mundo é o

mesmo mundo!

Celestina –

Fecharam-se-me todas as portas, e todos me repeliram; desanimava já, quando

ouvi soar a meus ouvidos: “Eis uma mulher perdida!” Levantei a cabeça, e disse:

“Não me perderei”: corri a uma igreja, e rezei por meu pais, e por mim; quando

saí da igreja, tinha já o coração cheio de esperança e de coragem; trabalhei...

sabia bordar, bordei; sabia desenhar, desenhei; cosi, copiei manuscritos, e

música, e finalmente vi que podia com o meu trabalho viver independente de

todos, e pura aos olhos de Deus; hoje desprezo os meus verdugos, amo-te,

Adriano; mas amo-te honesta, casta e virtuosa para ser digna de ti quando me

deres a mão de esposo, se o nosso amor for abençoado por Deus. Assim pois,

Adriano, coragem! Coragem, e trabalho!

Adriano – Oh! Tu

me animas sempre! E animemo-nos ainda mais agora, Celestina, porque aproxima-se

o momento, que deve realizar nossos sonhos de ventura.

Celestina – Como

então?...

Adriano – Meu

editor me espera daqui a pouco para ajustar comigo o preço de uma composição

que ontem lhe enviei, e ao mesmo tempo espero vender uma ópera ao teatro

Provisório, e conto com um lugar na orquestra do teatro de S. Pedro.

Celestina – Se

tudo isso se puder realizar...

Adriano –

Realizar-se-á, estou seguro; tenho todas as condições que se requerem.

(canta)

A fortuna é Qual moça galante,Que nos traz em constante lidar;Já provoca, já foge, e já volta,Te que sempre se deixa apanhar E contando já com o meu próximo adiantamento, receberei aqui visitas esta noite. Celestina – E que visitas?...

Adriano – Alguns amigos camaradas de colégio: o que havia de ser, Celestina?... na última corrida de cavalos interessei-me por um maldito mouro de crinas brancas e de cauda preta; tinha-me esquecido que de um mau mouro não se pode fazer bom cristão, e ainda mais era um diabo de cavalo que pertencia a todos ao mesmo tempo, porque tinha todas as cores: era um cabalo que fazia furor,

um cavalo da moda! Apostei por ele e perdi! Perdi um bolo inglês e doze

garrafas de champanhe!

Nunca mais confiarei em animais, que pertençam a

todas as cores.

Celestina – E

portanto pagas hoje o bolo inglês e o champanhe?...

Adriano – É

verdade! Faço esse obséquio aos meus amigos: também eles têm-me recebido tantas

vezes em suas casas, que hoje por minha parte quero também recebê-los: o pior é

que os meus amigos são ricos, e eu pobre; oh!... não é inveja, é orgulho:

quando eu vejo que eles se deitam sobre bilhetes do banco, e eu não possuo

coisa nenhuma, Celestina, daria sem hesitar tudo, absolutamente tudo quanto

possuo, para ter uma renda de cem contos de réis.

Celestina – Vou

deixar-te em sossego para que te ocupes dos preparativos do teu bolo inglês;

mas olha, toma cuidado em ti, Adriano; tu tens a cabeça muito fraca... não te

adiantes muito pelo champanhe...

Felisberto (Entrando) Ora graças, que uma vez o encontrei!...

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