Ato 1 - Cena II O Primo da Califórnia · Capítulo 3 de 31
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Ato 1 - Cena II

CENA IIBeatriz e Celestina

Celestina – Bom

dia, senhor Beatriz; o senhor Adriano não está em casa?...

Beatriz – sumiu-se logo depois do almoço: também é provável que não

esperasse pela sua visita, porque a senhora tem passado dois dias sem aparecer.

Celestina – não

me tem sido possível.

Beatriz – Sim...

sim... entendo isto às mil maravilhas! E, quanto a mim, minha menina, julgo que

faz muito bem em ir pondo o anzol a outro peixinho.

Celestina – O

que quer dizer com isso, senhora Beatriz?...

Beatriz – Eu nem

de leve pretendo ofendê-la; minhas intenções são muito boas; e olhe, menina,

tal como aqui me vê, já tive meus trinta e seis anos de idade, e então cometi a

fraqueza de deixar o meu coração prender0me na patrona de um cabo-deesquadra;

oh! Quanta sedução que tinha!...

Celestina – O

que, senhora Beatriz?... a patrona?...

Beatriz – Não,

menina; o cabo-de-esquadra.

Celestina – E

deixou-se enganar por ele?...

Beatriz – Também

não, e a prova é que ele me desposou; mas passei uma vida de trabalho e

pobreza, porque o triste Pancrácio apenas tinha de mais que os outros

cabos-de-esquadra uma pequena pensão; mas também tinha de menos que os outros

uma perna... era a direita; logo a direita!... a mais bonita de suas duas pernas!...

Celestina – mas

eu não compreendo que relação...

Beatriz – Não

compreende?... mas, minha menina, a moral da história está mesmo saindo pela

ponta dos dedos! Em uma palavra, moça e bela, como a senhora é, não deve

votar-se sem mais reflexão ao amor de um mancebo, que não tem aquilo com que se

compram os melões; olhe, o senhor Adriano padece a moléstia mais feia e mais

terrível deste mundo.. tem a tísica das algibeiras.

Celestina – Ah!

Era isso?... pois é precisamente porque Adriano é pobre, que eu gosto, quero e

hei de amá-lo sempre e cada vez mais. (Canta)

Minh’alma foi sempre rude,Nunca aprendeu a contar;Não serve pra guarda-livros;O que sabe é só amar!

O meu Adriano é pobre,Mas não indigno de mim;Eu amo a sua pobreza;“Gosto bem de ser assim!” Beatriz – Sim...

sim... idéias romanescas, poesias, e pensamentos generosos; mas o diabo me leve

se a senhora for capaz de fazer ferver uma panela no fogo com um soneto, ou com

uma idéia generosa.

Celestina – Mas

bem que o senhor Adriano não esteja em muito boa posição: o que prova que ele

seja tão pobre, como a senhor o diz?...

Beatriz – Quando

se está devendo cinco patacas a sua criada, minha menina...

Celestina (à

parte) Pobre moço!... (A BEATRIZ) Eis

aí como se faz uma acusação injusta!... ele me havia encarregado de lhe

entregar essa quantia, e eu não tendo vindo aqui há dois dias, deixei de

cumprir tal comissão. (Dá dinheiro)

Beatriz (recebendo) – É singular! Ainda ontem

falei-lhe nesta continha, e ele nada me disse.

Celestina –

Poder-se-ia ter esquecido, ou não quereria falar no meu nome.

Beatriz (À parte) – Aqui há coisa! Mas como já tenho nas unhas o meu

dinheiro, fica o exame desta geringonça para depois.

Celestina – E Adriano sem voltar!...

Beatriz – Não pode tardar... foi dar lição de música à filha do senhor Pantaleão, o proprietário desta casa: isto basta para o fazer suar! A filha de um antigo taberneiro, ridículo, exigente, e vaidoso da sua fortuna! O ventas de mono não tem na boca senão – a sua fortuna!... – Porém... ouço os passos e a voz do senhor Adriano...

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