Ato 1 - Cena II
CENA IIBeatriz e Celestina
Celestina – Bom
dia, senhor Beatriz; o senhor Adriano não está em casa?...
Beatriz – sumiu-se logo depois do almoço: também é provável que não
esperasse pela sua visita, porque a senhora tem passado dois dias sem aparecer.
Celestina – não
me tem sido possível.
Beatriz – Sim...
sim... entendo isto às mil maravilhas! E, quanto a mim, minha menina, julgo que
faz muito bem em ir pondo o anzol a outro peixinho.
Celestina – O
que quer dizer com isso, senhora Beatriz?...
Beatriz – Eu nem
de leve pretendo ofendê-la; minhas intenções são muito boas; e olhe, menina,
tal como aqui me vê, já tive meus trinta e seis anos de idade, e então cometi a
fraqueza de deixar o meu coração prender0me na patrona de um cabo-deesquadra;
oh! Quanta sedução que tinha!...
Celestina – O
que, senhora Beatriz?... a patrona?...
Beatriz – Não,
menina; o cabo-de-esquadra.
Celestina – E
deixou-se enganar por ele?...
Beatriz – Também
não, e a prova é que ele me desposou; mas passei uma vida de trabalho e
pobreza, porque o triste Pancrácio apenas tinha de mais que os outros
cabos-de-esquadra uma pequena pensão; mas também tinha de menos que os outros
uma perna... era a direita; logo a direita!... a mais bonita de suas duas pernas!...
Celestina – mas
eu não compreendo que relação...
Beatriz – Não
compreende?... mas, minha menina, a moral da história está mesmo saindo pela
ponta dos dedos! Em uma palavra, moça e bela, como a senhora é, não deve
votar-se sem mais reflexão ao amor de um mancebo, que não tem aquilo com que se
compram os melões; olhe, o senhor Adriano padece a moléstia mais feia e mais
terrível deste mundo.. tem a tísica das algibeiras.
Celestina – Ah!
Era isso?... pois é precisamente porque Adriano é pobre, que eu gosto, quero e
hei de amá-lo sempre e cada vez mais. (Canta)
Minh’alma foi sempre rude,Nunca aprendeu a contar;Não serve pra guarda-livros;O que sabe é só amar!
O meu Adriano é pobre,Mas não indigno de mim;Eu amo a sua pobreza;“Gosto bem de ser assim!” Beatriz – Sim...
sim... idéias romanescas, poesias, e pensamentos generosos; mas o diabo me leve
se a senhora for capaz de fazer ferver uma panela no fogo com um soneto, ou com
uma idéia generosa.
Celestina – Mas
bem que o senhor Adriano não esteja em muito boa posição: o que prova que ele
seja tão pobre, como a senhor o diz?...
Beatriz – Quando
se está devendo cinco patacas a sua criada, minha menina...
Celestina (à
parte) Pobre moço!... (A BEATRIZ) Eis
aí como se faz uma acusação injusta!... ele me havia encarregado de lhe
entregar essa quantia, e eu não tendo vindo aqui há dois dias, deixei de
cumprir tal comissão. (Dá dinheiro)
Beatriz (recebendo) – É singular! Ainda ontem
falei-lhe nesta continha, e ele nada me disse.
Celestina –
Poder-se-ia ter esquecido, ou não quereria falar no meu nome.
Beatriz (À parte) – Aqui há coisa! Mas como já tenho nas unhas o meu
dinheiro, fica o exame desta geringonça para depois.
Celestina – E Adriano sem voltar!...
Beatriz – Não pode tardar... foi dar lição de música à filha do senhor Pantaleão, o proprietário desta casa: isto basta para o fazer suar! A filha de um antigo taberneiro, ridículo, exigente, e vaidoso da sua fortuna! O ventas de mono não tem na boca senão – a sua fortuna!... – Porém... ouço os passos e a voz do senhor Adriano...