Ato 1 - Cena IX
CENA IXPantaleão e Adriano desesperado Pantaleão –
Usemos do meu direito de proprietário para tratar a este mequetrefe como
convém.
Adriano (Atirando com o chapéu, e um rolo de músicas)
– Estúpido editor! Falta-me à palavra! Recusa minhas músicas!... é necessário,
diz ele, que eu tenha um nome... um nome!... um nome preciso eu para qualificar
tão indigno procedimento!... e eu, que calculava com isso. (Sentidamente)
obrigado a empenhar o meu relógio... a última lembrança de minha mãe! (põe uma
clareza ou papel sobre a mesa) Porém, ele está seguro, e apenas puder tirá-lo
do Monte de Socorro...
Pantaleão –
Penso que, enfim, o senhor se resolverá a prestar-me dois minutos de atenção!
Adriano – Ah! É
Vossa Senhoria, senhor Pantaleão?... perdoe-me, não o tinha visto... chegou
muito a propósito...
Pantaleão – A
propósito?... então está de maré cheia?...
Adriano – Sim;
em maré cheia de tristeza... de angústias... de cólera... de...
Pantaleão – É
moeda que não corre em minhas propriedades.
Adriano – Pois
vejamos: o que quer o senhor de mim?...
Pantaleão – Duas
coisas muito simples: primeira, despedi-lo de inquilino de uma das minhas
propriedades; segunda, despedi-lo de mestre de música de minha filha Ifigênia
Pantalôa.
Adriano (À
parte) – Como via tudo a melhor! Queda!... em cima de queda, coice... em cima
de coice... um dardo, que atravesse a esta súcia toda! Estou bonito! Estou
mesmo a ver jurar testemunhas!... ( A PANTALEÃO)
Suponho que tenho o direito de perguntar-lhe os motivos de duas despedidas tão
súbitas, como intempestivas. Pantaleão
– Pois não! Eu lhe satisfaço: não me convém que o senhor continue a dar lições
de música à minha filha, porque vejo que ela nenhum progresso faz; gasto em sua
educação seiscentos mil réis por ano, e isto dura já há dez anos, o que perfaz
a quantia de seis contos de réis, que com juros compostos, iam muito longe, e
minha filha se vai tornando muito cara!
Adriano – E
tenho eu a culpa de que Dona Ifigênia não tenha disposições para a música?...
Pantaleão – Quê!
Pois a filha de um homem rico, de um homem que já teve duas vendas e que é hoje
senhor de tantas propriedades, deixaria de ter disposições para a música?...
ela tem habilidade... mesmo habilidade rara, o que lhe falta é um mestre de
capacidade.
Adriano (À
parte) – E ature-se lá um estúpido destes! (A PANTALEÃO) Então é este o único motivo por que sou despedido?...
Pantaleão – Além
disso ela tem coração... esse coração tem suas fraquezas... e eu tenho reparado
que minha filha quando olha para o senhor fica sempre vermelha como um camarão.
Adriano –
Sim?... talvez aperte muito o espartilho.
Pantaleão – Em
suas lições de desenho ela não faz um nariz, uma orelha, um olho, que eu não
encontre o seu mesmo nariz, a sua mesmíssima orelha, e até o seu mesmíssimo
olho!... em bom português: desconfio que minha filha está se apaixonando pelo
senhor.
Adriano – É
possível... e realmente isso não me faz mal nenhum.
Pantaleão – Mas
a mim faz muito: eu, que já tive duas vendas, e que sou hoje senhor de tantas
propriedades; eu que tenho uma certa posição, que sou capitão da guarda
nacional, não havia de ir entregar minha linda filha a um pobre músico, que nem
ao menos paga o aluguel da casa em que mora.
Adriano – Não
briguemos por isso: pagarei o aluguel desta casa...
Pantaleão –
Pagarei, pagarei, e pagarei, está o senhor a me dizer há três meses!... e eu
devo afirmar-lhe que por este terceiro andar acabam de me oferecer mais quatro
mil réis por mês, além do que o senhor me devia pagar, e portanto...
Adriano – Pois
bem, eu cedo; dê-me um pequeno quarto, uma mansarda qualquer em relação com os
meus poucos meios, e amanhã mesmo estarei mudado; pode crer: dou-lhe palavra de
honra que em menos de um quarto de hora mudarei toda a minha mobília... a minha
louça... os meus trastes de luxo... enfim, tudo... tudo...
Pantaleão – Devera?... eis aí um corretivo ao mau procedimento que
tem tido comigo: há aqui por cima deste sobrado, um sótão em que o senhor se
acomodará perfeitamente.
Adriano – Ah! É
num buraco que fica aqui por cima?... pois está tratado; serve-me às mil
maravilhas... vou transformar-me em rato... Que bom agouro... os ratos quando
são grandes, são tão felizes e respeitados!...
Pantaleão – Mas
insisto sempre no que lhe disse a respeito de minha filha, e quero que me pague
o que me deve: preciso de dinheiro, senhor, e de muito dinheiro: vou entrar em
negociações importantes; o monopólio da carne fresca e do toucinho é uma mina
aberta, e os homens de bem não devem perder a pechincha; vou portanto abrir de
novo as minhas vendas, e tornar a viver entre as pipas e os paios, e sobre as
mantas de carne seca!
Adriano (À
parte) – Donde nunca deveríeis ter saído, taberneiro de um figa!
Pantaleão – Não se esqueça do que acabo
de lhe dizer; ficaremos amigos como dantes, logo que me pagar o que me deve! (À
parte) minha filha apaixonada de um farroupilha: que humilhação!... (A ADRIANO) Jovem músico, locatário
insolúvel, dinheiro quanto antes, e adeus... (Canta)
Da carne fresca e toucinhoNo monopólio me empenho;Chore o povo muito embora,Eu com isso nada tenho;Quero dinheiro e depressa,Que o monopólio começa.
Adriano – Da
carne seca e toucinho
No monopólio se empenha;Em tais biltres é precisoQue a polícia os olhos tenha;Polícia, acode depressa,Que o monopólio começa.