Ato 1 - Cena IX O Primo da Califórnia · Capítulo 10 de 31
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Ato 1 - Cena IX

CENA IXPantaleão e Adriano desesperado Pantaleão –

Usemos do meu direito de proprietário para tratar a este mequetrefe como

convém.

Adriano (Atirando com o chapéu, e um rolo de músicas)

– Estúpido editor! Falta-me à palavra! Recusa minhas músicas!... é necessário,

diz ele, que eu tenha um nome... um nome!... um nome preciso eu para qualificar

tão indigno procedimento!... e eu, que calculava com isso. (Sentidamente)

obrigado a empenhar o meu relógio... a última lembrança de minha mãe! (põe uma

clareza ou papel sobre a mesa) Porém, ele está seguro, e apenas puder tirá-lo

do Monte de Socorro...

Pantaleão –

Penso que, enfim, o senhor se resolverá a prestar-me dois minutos de atenção!

Adriano – Ah! É

Vossa Senhoria, senhor Pantaleão?... perdoe-me, não o tinha visto... chegou

muito a propósito...

Pantaleão – A

propósito?... então está de maré cheia?...

Adriano – Sim;

em maré cheia de tristeza... de angústias... de cólera... de...

Pantaleão – É

moeda que não corre em minhas propriedades.

Adriano – Pois

vejamos: o que quer o senhor de mim?...

Pantaleão – Duas

coisas muito simples: primeira, despedi-lo de inquilino de uma das minhas

propriedades; segunda, despedi-lo de mestre de música de minha filha Ifigênia

Pantalôa.

Adriano (À

parte) – Como via tudo a melhor! Queda!... em cima de queda, coice... em cima

de coice... um dardo, que atravesse a esta súcia toda! Estou bonito! Estou

mesmo a ver jurar testemunhas!... ( A PANTALEÃO)

Suponho que tenho o direito de perguntar-lhe os motivos de duas despedidas tão

súbitas, como intempestivas. Pantaleão

– Pois não! Eu lhe satisfaço: não me convém que o senhor continue a dar lições

de música à minha filha, porque vejo que ela nenhum progresso faz; gasto em sua

educação seiscentos mil réis por ano, e isto dura já há dez anos, o que perfaz

a quantia de seis contos de réis, que com juros compostos, iam muito longe, e

minha filha se vai tornando muito cara!

Adriano – E

tenho eu a culpa de que Dona Ifigênia não tenha disposições para a música?...

Pantaleão – Quê!

Pois a filha de um homem rico, de um homem que já teve duas vendas e que é hoje

senhor de tantas propriedades, deixaria de ter disposições para a música?...

ela tem habilidade... mesmo habilidade rara, o que lhe falta é um mestre de

capacidade.

Adriano (À

parte) – E ature-se lá um estúpido destes! (A PANTALEÃO) Então é este o único motivo por que sou despedido?...

Pantaleão – Além

disso ela tem coração... esse coração tem suas fraquezas... e eu tenho reparado

que minha filha quando olha para o senhor fica sempre vermelha como um camarão.

Adriano –

Sim?... talvez aperte muito o espartilho.

Pantaleão – Em

suas lições de desenho ela não faz um nariz, uma orelha, um olho, que eu não

encontre o seu mesmo nariz, a sua mesmíssima orelha, e até o seu mesmíssimo

olho!... em bom português: desconfio que minha filha está se apaixonando pelo

senhor.

Adriano – É

possível... e realmente isso não me faz mal nenhum.

Pantaleão – Mas

a mim faz muito: eu, que já tive duas vendas, e que sou hoje senhor de tantas

propriedades; eu que tenho uma certa posição, que sou capitão da guarda

nacional, não havia de ir entregar minha linda filha a um pobre músico, que nem

ao menos paga o aluguel da casa em que mora.

Adriano – Não

briguemos por isso: pagarei o aluguel desta casa...

Pantaleão –

Pagarei, pagarei, e pagarei, está o senhor a me dizer há três meses!... e eu

devo afirmar-lhe que por este terceiro andar acabam de me oferecer mais quatro

mil réis por mês, além do que o senhor me devia pagar, e portanto...

Adriano – Pois

bem, eu cedo; dê-me um pequeno quarto, uma mansarda qualquer em relação com os

meus poucos meios, e amanhã mesmo estarei mudado; pode crer: dou-lhe palavra de

honra que em menos de um quarto de hora mudarei toda a minha mobília... a minha

louça... os meus trastes de luxo... enfim, tudo... tudo...

Pantaleão – Devera?... eis aí um corretivo ao mau procedimento que

tem tido comigo: há aqui por cima deste sobrado, um sótão em que o senhor se

acomodará perfeitamente.

Adriano – Ah! É

num buraco que fica aqui por cima?... pois está tratado; serve-me às mil

maravilhas... vou transformar-me em rato... Que bom agouro... os ratos quando

são grandes, são tão felizes e respeitados!...

Pantaleão – Mas

insisto sempre no que lhe disse a respeito de minha filha, e quero que me pague

o que me deve: preciso de dinheiro, senhor, e de muito dinheiro: vou entrar em

negociações importantes; o monopólio da carne fresca e do toucinho é uma mina

aberta, e os homens de bem não devem perder a pechincha; vou portanto abrir de

novo as minhas vendas, e tornar a viver entre as pipas e os paios, e sobre as

mantas de carne seca!

Adriano (À

parte) – Donde nunca deveríeis ter saído, taberneiro de um figa!

Pantaleão – Não se esqueça do que acabo

de lhe dizer; ficaremos amigos como dantes, logo que me pagar o que me deve! (À

parte) minha filha apaixonada de um farroupilha: que humilhação!... (A ADRIANO) Jovem músico, locatário

insolúvel, dinheiro quanto antes, e adeus... (Canta)

Da carne fresca e toucinhoNo monopólio me empenho;Chore o povo muito embora,Eu com isso nada tenho;Quero dinheiro e depressa,Que o monopólio começa.

Adriano – Da

carne seca e toucinho

No monopólio se empenha;Em tais biltres é precisoQue a polícia os olhos tenha;Polícia, acode depressa,Que o monopólio começa.

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