Ato 2 - Cena I
CENA IAdriano e Beatriz Adriano – Eis-me
aqui em uma mansarda! Por cima de um terceiro andar! Se vou neste subir
continuado, em pouco tempo mandam-me morar nas montanhas da lua! Não pode haver
dúvida nenhuma, eu me acho em uma alta posição! Brigam tanto por esse mundo por
causa das altas posições... e eu me vejo sossegadamente de posse da que me
concedeu o meu amigo do monopólio do toucinho!... Vamos, senhora Beatriz,
acabemos com isto.
Beatriz – É
necessário não ter muita pressa; já estou bastante moída, e fique sabendo, que
se me não tivesse pago o mês adiantado, não era capaz de me obrigar a subir até
este buraco.
Adriano – Pois a
viagem não é das mais longas... do terceiro andar a este meu novo palácio não
há senão uma escada.
Beatriz – Mas
quando se tem já subido dez vezes!...
Adriano – Sempre
lhe acho de mau humor, senhora Beatriz!
Beatriz – E
queria que estivesse muito derretida?... é boa!... uma senhora, que era no
outro tempo chamada a formosa Beatriz, e que depois foi casada com um
cabode-esquadra, ver-se enfim reduzida a representar o papel de criada de um
músico!
Adriano (À parte) – A
maldita velha é mil vezes pior que uma maitaca! E eu forçado a sofrer seus maus
modos, e suas insolências! Oh! Sorte de uma figa!...
Beatriz – Toda
vossa mobília se reduz a isto, ou tendes mais alguma coisa lá embaixo?...
Adriano –
Senhora Beatriz, no que diz respeito à mobília, dixit! Mas lá embaixo ainda está o que eu tenho de mais precioso, o
meu violão e as minhas músicas.
Beatriz – As músicas?... assim mesmo talvez que algum
fogueteiro as quisesse comprar para fazer bombas, e desse por elas duas ou três
patacas; e se além disso o senhor vendesse estes trastes a algum belchior,
poderia ser que...
Adriano – Silêncio! A senhora parece haver prometido aos santos de sua maior devoção o não abrir a boca hoje, que não seja para dizer parvoíces; fique pois grunhindo sozinha, que irei eu mesmo buscar aqueles inapreciáveis objetos. (Vai-se)