Ato 2 - Cena XVI
CENA XVIOs ditos, Pantaleão e Beatriz Pantaleão – Isso
é um horror! É uma ladroeira!... uma infâmia!...
Todos – Que
aconteceu?...
Pantaleão – O
senhor músico, meu locatário, é vítima de uma mistificação! Ele é tão rico,
como aqui, a velha Beatriz!
Felisberto – Que
diabo é isto?... quem me dará um fio para sair deste labirinto!
Pantaleão – O fio é que eu continuo a
despedir desta casa e de mestre da minha filha ao tal senhor Adriano Jenipapo!
Adriano – Senhor
Pantaleão! O senhor tem um coração abjeto... o senhor é indigno do nome de
homem que usurpa!
Pantaleão –
Parece-me que o senhor me quer insultar!
Adriano – Sair
desta casa! Sairemos dela ambos, miserável taberneiro! Porquanto acabo de
vendê-la ao senhor Felisberto...
Pantaleão
– Eu vou levá-lo já ao chefe de polícia!
Adriano – Oh!
Pois não! Irei mesmo com prazer; tenho que referir ao chefe de polícia uma
certa história de monopólio de toucinho e carne fresca... Ah! já se cala?...
acabemos com isto: senhor Pantaleão, eu lhe pago a casa que lhe comprei, e o
mais que lhe devo e por minha vez, senhor, ouvi todos, ouvi: senhor Pantaleão,
rejeito a mão de sua filha que ainda há pouco me ofereceu!
Pantaleão – Ah!
ah! ah! e pensava, que eu ainda tinha as mesmas disposições?...
Adriano – Celestina, esta gente não tem
vergonha, não?... (Outro tom) – Eu não sei se me devo rir deles!... miseráveis!
Vós que me desprezais, lembrai-vos, que abaixastes a cabeça diante de mim!
Estúpidos! (Outro tom) Estúpidos?... estúpido sou eu... eles pensam e praticam,
como quase todos, isto é a moda... é a época... é o mundo... atualmente o que
melhor se sabe do padre-nosso, é o venha a nós!
Celestina –
Senhores, vós o vedes, vosso gracejo teve boas conseqüências...
Ernesto – Tanto
melhor para ele nô-lo perdoar.
Adriano – De
todo o coração, que até vô-lo agradeço.
Felisberto – Mas
então o único, que aqui fica com cara de pau, sou eu?... juro, que ainda não
compreendi nada desta moxinifada.
Celestina – Pois
é muito simples... o primo da Califórnia...
Felisberto – Não
está morto?...
Adriano – Nem
nascido, mestre Felisberto!
Felisberto (À
parte) – Ai que cabeçada!... e a
conte que ele me devia!
Adriano – Mas
graças a esta invenção, graças à só presunção, de que me achava rico, fui
cercado de respeitos, de obséquios, e de amigos; ofereceram-me casa, mulher e
dinheiro!...
Celestina –
Obrigaram-se a imprimir suas músicas, contrataram-no para uma orquestra, e
compraram-lhe uma ópera!
Adriano –
Puseram-me a salvo das privações da pobreza...
Beatriz – Ora, o
que tem isso?... lembremo-nos do adágio antigo: a água corre para o mar.
Adriano – O dinheiro é um feitiçoQue a todo mundo enlouquece; Aos ricos todos festejam, O pobre nada merece. Celestina – As senhoras melhor sabemDo dinheiro o valimento;Moça rica que tem dote,Nunca perde casamento. Pantaleão –O rico nunca tem frio,Traz sempre a barriga cheia; E até por coisas que eu sei Jamais visita a cadeia. Felisberto –Homem pobre é sempre feioBicho mau e desprezado;Quem tem dinheiro é bonito, É sábio, sempre engraçado. Coro Geral–Dinheiro! Venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;Dá prazeres, glória, amores, Faz a paz e move a guerra. FIM DO SEGUNDO E ÚLTIMO ATO FIM