I O Cacaulista · Capítulo 3 de 27
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I

Algumas milhas acima da cidade de Óbidos, à margem do Paraná-miri, existia ainda em 1866 a fazenda chamada de S. Miguel, bonito sítio em que se plantava o cacau, e se criavam algumas cabeças de gado, limitada indústria de um proprietário pouco laborioso. A grande casa de vivenda, bastante afastada do porto, por causa das enchentes, o terreiro, o tendal, as laranjeiras e mangueiras onde cantavam constantemente os alegres japiins (chechéos), tudo isto tinha um aspecto agradável, ainda que melancólico. À esquerda da casa, e a cem passos dela ficava o curral, onde todas as tardes se recolhia o gado, e para o norte se estendia a perder de vista o campo, onde apenas uma ou outra embaúba se erguia aqui e ali. O sombrio cacaual comunicava o sítio com as outras propriedades vizinhas, e por trás da casa uma lagoa de água negra, criada por um braço do Amazonas, e cercada de aningais cerrados, formava o fundo do quadro.

Por toda parte o capim crescia quase tão alto como um homem e à exceção do pequeno espaço em frente da casa, que se chama terreiro, nenhum lugar havia que estivesse limpo de mato bravo e inculto.

O Paraná-miri é neste lugar mais estreito do que em outro qualquer, e uma pessoa, colocada em uma das margens, pode ser ouvida da outra elevando um pouco a voz.

Este sítio era em 1866 propriedade de d. Ana, respeitável viúva do português João Faria.

Fora este um homem, que soubera à força de trabalho inteligente assegurar uma vida tranquila à sua família.

Tendo vindo, como tantos outros filhos de Portugal, engajado para a malfadada colônia militar de Óbidos, que devia morrer em breve pela negligência do governo e má gerência dos diretores, cedo conheceu que não lhe convinha continuar ali; e por isso logo que pôde obter o dinheiro para o seu resgate e algumas mercadorias, a crédito dos seus patrícios já estabelecidos no Amazonas, começou a fazer o comércio de regatão, comércio que antigamente dava alguns lucros, mas que hoje está completamente caído. Foi nas suas frequentes viagens ao Paraná-miri de cima, que Faria travou relações de amizade com o capitão Miguel Fernandes, possuidor de um cacaual de três mil pés e de dois ou três escravos, pequena propriedade que o capitão qualificava orgulhosamente de Fazenda de São Miguel.

Em breve pôde Fernandes apreciar o caráter e inteligência de João Faria, e não tardou em propor-lhe sociedade no sítio, que o proprietário, por andar sempre ocupado com a política não podia administrar devidamente; um ano depois o português obtinha a mão da filha do seu sócio, e quando sobreveio a morte de Miguel Fernandes o modesto cacaual se tornara uma propriedade de dez mil pés, com cento e poucas cabeças de gado.

Quando João Faria se viu senhor da herança da mulher, pôde dar largas ao seu gênio empreendedor, e em doze anos de casado, que viveu, era dos mais abastados proprietários do Paraná-miri, e dos mais importantes da comarca. Infelizmente porém, quando a grande cheia de 1859 reduziu a maior parte dos lavradores do Baixo Amazonas à penúria, o ativo português sofreu grandes perdas, e tentava de novo lutar contra a fortuna quando a morte, resultado das doenças que adquirira no tempo de regatão, e do trabalho constante a que se entregava, veio impedi-lo de continuar a obra que tão bem encetara.

Se João Faria não deixou, por ocasião do seu falecimento em 1861, a fortuna que possuía antes de 1859, ao menos pôde morrer com a certeza de que a mulher e o filho, único que tivera, estavam ao abrigo da necessidade, e abençoariam a sua memória.

Por muito ativo e laborioso que era, o marido de d. Ana não consentia que pessoa alguma, nem mesmo a mulher, se intrometesse em dirigir-lhe os negócios. Reduziu em breve a companheira à passividade completa, e deixou-a totalmente entregue às suas orações e às suas mulatas. A princípio a filha do capitão tomara a liberdade de dar alguns conselhos ao marido, e fazer-lhe algumas observações; mas a isto respondia Faria sempre com alguma grosseria, dizendo que o papel da mulher neste mundo é rezar e remendar meias; por isso d. Ana resignou-se à completa inatividade, tanto mais quanto este modo de proceder do marido quadrava perfeitamente à sua índole.

João Faria depois da morte do sogro, não quis mais um associado e nem sequer caixeiro; era homem que fazia tudo por si, e que bastava conceber um projeto qualquer para pô-lo em prática. De baixa extração, grosseiro, mal sabendo assinar o nome, era este homem dotado de tal energia de caráter, firmeza de vontade e honradez que se tornara respeitado de todo o distrito, e era costume dizer-se naquele tempo de alguma coisa que não podia deixar de acontecer: “É como se o João Faria o dissesse.”

D. Ana tinha um irmão, o padre José Fernandes, que foi por algum tempo vigário de Óbidos; era ele que depois da morte de Faria, administrava os bens da viúva e do órfão, a quem prometera proteger quanto pudesse.

A irmã tinha nele uma cega confiança, de que o padre, ainda que pouco regrado na vida, usava com toda a moderação de que era suscetível.

A dona da fazenda S. Miguel poderia ter na época em que começa a nossa história 44 a 45 anos, e era de estatura regular e fornida de carnes; as mulheres do lugar invejavam-lhe a alva tez e as delicadas mãos que nunca trabalho algum tinha estragado. Lia-se-lhe no semblante uma serenidade admirável, serenidade de matrona, cônscia da sua importância, e a voz doce, meiga, com que falava a todos dava-lhe um atrativo poderoso sobre os que a ouviam.

Jamais uma mulher, ainda mesmo no Amazonas, terra de madraços, levou vida mais despida de fadigas do que a respeitável viúva de João Faria; a regularidade dos seus hábitos, a placidez, a monotonia com que decorriam os dias no sítio de d. Ana, só eram quebradas de ano em ano pela chegada do mano padre que vinha dizer a missa do Natal, ou festejar o dia de Reis na fazenda, e votar à morte as galinhas e capados da mana.

Quando o digno sacerdote voltava para Óbidos, recaía tudo no seu antigo estado; as mulatas retomavam a agulha e o tear, sentadas na esteira ao pé da senhora, que fumava estoicamente o cachimbo, embalando-se de mansinho, e com um pé só na maqueira da varanda.

Um moleque de onze a doze anos, completamente nu, enxotava com um galho de árvore os xerimbabos que invadiam a sala; ouvia-se apenas o cochichar das mulatas entre si, e ao longe, no cacaual, a algazarra que faziam os papagaios e a voz monótona da guariba. Às vezes por cima do teto ouvia-se o lúgubre canto do acauã agoureiro, que passava; as mulatas entreolhavam-se com terror e calavam-se por um momento; d. Ana fechava os olhos, como se receasse ver o pássaro, mensageiro da desgraça; mas este susto inspirado pelo acauã era passageiro, e a serenidade restabelecia-se no rosto da respeitável senhora.

Era ali, naquela varanda aberta para o nascente que a viúva de João Faria passava a maior parte dos seus dias depois da morte do marido; ali a encontrava sempre o filho quando voltava da caça, da pesca, ou de algum passeio nos arredores.

Enquanto seu pai viveu foi Miguel criado à lei da natureza; nunca conseguira o padre licença de João Faria para ensinar sequer uma palavra latina ao sobrinho; o português, como homem ignorante que era, votava profundo desprezo às letras, e costumava dizer que o cacau para crescer, e o gado para produzir não precisavam de padres nem de doutores. Por isso o pequeno Miguel passava o dia inteiro a flechar lagartixas e a pescar de caniço na beira do rio, a montar nos bezerros, que frequentemente faziam-no cair no meio do capinzal. Quando o pai era testemunha de algum destes infortúnios do filho, não deixava de gritar-lhe entre zangado e alegre:

Anda, mariola, quem te mandou montar a cavalo nos bezerros?

Mas depois da morte do fazendeiro, o padre soube convencer a irmã da utilidade de levar o sobrinho para Óbidos, e ainda que isto custasse muito à viúva, e o filho berrasse como um endemoninhado, lá se foi o padre todo ufano com a sua presa, caminho da cidade.

A princípio Miguel achava a vida da casa do seu tio insuportável; privado da liberdade de correr todo o dia, e obrigado a meter na cachola umas regras de gramática abstrusas, o rapaz emagrecia a olhos vistos; mas foi-se habituando àquele novo regime, e o prazer inexcedível de vestir uma opa encarnada e de repicar gostosamente os sinos da matriz, fizeram-no esquecer pouco a pouco os quadros da infância.

D. Ana ardia por ver o filho; mas como para obter isso do padre José era preciso uma altercação, ou uma viagem a Óbidos, a pobre mãe sofria calada, temendo comprometer o seu sossego de espírito. Contudo algumas vezes as lágrimas corriam-lhe a fio pela face ao lembrar-se do pequeno; mandava buscar o arco e as flechas do filho e deitava-se horas e horas a contemplar aqueles mudos companheiros dos prazeres do seu querido.

Mais de três anos esteve Miguel na companhia do tio; o padre esforçava-se na sua educação, fazia-o ajudar as suas missas, e não esquecia a palmatória para moderar o gênio indócil do sobrinho. José Fernandes prezava-se de saber quebrar gênios.

Mas o fogo da liberdade selvagem não estava extinto no coração do pupilo do padre; não há prazeres duradouros nesta vida, e mesmo a opa mais bonita e os sinos mais sonoros aborrecem por fim.

Foi o que experimentou Miguel.

O pequeno recaiu na tristeza do princípio, sem que nem enterros, nem batizados pudessem distraí-lo dela. Um dia Miguel, tendo acompanhado sem saber como nem porque uma passeata, organizada por alguns rapazes da terra, que sabiam o seu bocado de música, achou-se à noitinha longe de casa e só. Tratou de voltar depressa antes que o tio desse pela sua falta, mas ao aproximar-se do largo da igreja parou, dominado pelo medo. Com a cabeça baixa, e os olhos fitos no chão, o filho de d. Ana, via em mente as palmatoradas que ia levar ao chegar em casa, o enorme sermão do tio, a privação de todo o alimento durante o resto da noite, e talvez durante o dia seguinte; e enfim sentiu-se dominado pelas saudades do sítio; uma grossa lágrima rolou-lhe pela face morena. Neste momento revelavam-se nele as suas primeiras inclinações, com toda a força do natural. Figurava-se longe dali: parecia-lhe ouvir o mugido do gado no curral, o cantar do japiim e o latido alegre do seu cão de caça. Como que sentia a montaria deslizar rápida no rio, impelida pelo seu remo redondo; via perfeitamente boiarem a pequena distância enormes tartarugas e monstruosos peixes-bois. Nisto a voz do padre José veio despertá-lo e lembrar-lhe a realidade; ergueu os olhos e viu o terrível tio que lhe acenava furiosamente com o lenço da porta da igreja. Miguel hesitou, quis adiantar-se para o padre, mas tomado de súbita resolução, deitou a correr para o lado oposto e enfiando pela rua que segue à frente do templo, em breve desapareceu nas matas que medeiam entre o cemitério e a cidade.

José Fernandes ficou embasbacado.

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