XXIII
Eram seis horas da tarde, e o padre José passeava no copiar da sua casa do largo da igreja, e parecia impaciente. De vez em quando ia até à porta da rua, e olhava para um e outro lado, a ver se avistava alguém; mas a rua continuava deserta, e o padre continuava cruzando a sala em todos os sentidos, e murmurando:
— Eu já previa tudo isto... creio mesmo que não foi de todo mau, porque tira da cabeça do rapaz certas caraminholas. Mas onde demônio estará ele?
Afinal às sete para as oito horas, quando já o padre estava disposto a fechar a porta e dormir, alguém bateu, e logo depois entrou. Era Miguel.
O rapaz vinha pálido, mas altivo, e mostrando que estava possuído de uma resolução firme. Não tinha mais aquela contração da boca de quem está prestes a chorar, contração que lhe era habitual, quando alguma coisa o contrariava. Tudo nele revelava grande mudança; era já agora um homem.
Trazia vestido um largo paletó pardo, que lhe ia pessimamente; cobria-o um grande chapéu de Manilha, e à mão segurava uma bengala. Em vez dos chinelos do costume tinha grandes sapatos de couro branco, e meias de algodão. Assim vestido era feio porque não tinha aquela liberdade e desenvoltura que o caracterizavam.
O padre começou por estranhar o vestuário do sobrinho.
— De onde vens tu com tudo isso?
— Não venho de parte nenhuma, meu tio, só estive em casa do comandante do Ligeiro.
— Que diabo andas tu fazendo há tempos para cá com esse comandante? Que negócios têm vocês?
— Pura amizade.
— Pura amizade... resmungou o padre, e encarando firme:
— Já sabes que perdemos a questão?
— Já.
— Pois é verdade! Aquele endiabrado Ribeiro sai-se bem em tudo o que tenta. O Martinho Mendes traiu-nos, e o juiz esteve ontem no baile do casamento. Creio também que o Abreu não deixava de estar peitado... é uma caipora! Pois há alguém que ignore em todo o Amazonas que o Urucurizal pertence à família Fernandes desde o padre Raimundo, que Deus haja? Pois há alguém que ignore que o mulato nunca pretendeu aquele terreno senão há pouco tempo, e por despeique? Não há mais em que fiar, neste danado Óbidos, e desgraçado é aquele que é obrigado a viver aqui!
E o padre continuou depois de pequena pausa:
— E eu que estava tão seguro de que ganhávamos a questão! Pois se parecia tão evidente! Também o que esperar quando de um lado estavam um padre, uma mulher e uma criança, e do outro o tenente Ribeiro? O que admira é ter ele minado tudo tão surdamente que nem um mais esperto do que nós era capaz de descobrir... bem fez o Mendes que já recebeu o que lhe havia roubado o tenente!
E voltando-se para Miguel que ouvia de pé:
— Então o que fazes? Vai já despir-te, e trata de dormir, que é melhor.
— Não, senhor, meu tio, ainda tenho de sair...
— Sair, e para quê?
— Prometi ir falar com um rapaz, mas volto já nesta meia hora.
— Pois anda. Amanhã bem cedo acho bom que voltes para o Paraná-miri... e vai viver descansado.
E o padre passando a mão pela cabeça do rapaz, disse-lhe carinhosamente:
— E deixa-te de intrigas, rapaz, vive descansado e contente na paz do Senhor; põe o coração à larga, que é isso que faz bem à gente.
— Dê-me a sua bênção, meu tio, porque é provável que quando eu voltar vossa mercê já esteja deitado.
— Deus te abençoe, Miguel.
Miguel saiu.
A rua estava deserta, e as últimas lojas fechavam-se. O rapaz pôs-se a andar vagarosamente, cosido às paredes até o lugar em que está hoje edificada a Capelinha do Bom Jesus, que é o lugar mais elevado da cidade. Alguns bois soltos naquela campina vagavam por ali, ou ruminavam deitados na relva. O luar estava magnífico; do lugar em que parara Miguel, goza-se de um panorama soberbo. A seus pés tinha ele a cidade, em que só se ouvia o latir de um ou outro cão ou o som melancólico da flauta do alfaiate Rebello; diante de si o Amazonas, como um lençol grande, corria mansamente com as águas prateadas pela lua, e abria-se em certo ponto, parecendo rodear toda a cidade; perto a montanha que domina Óbidos, e por trás, por entre as árvores apareciam as águas do pequeno lago, formado pelo rio, em cujas margens estão algumas casinhas de pescadores, com o seu teto de pindoba, e suas paredes de barro escuro.
Miguel depois de ter parado um instante, como que para orientar-se, pôs-se a descer pelo lado oposto do pelo qual viera, até que chegou junto de uma casa agora toda fechada.
Era a casa do alferes Moreira, em que se dera o baile que acabara na manhã desse dia.
O rapaz depois de verificar que ninguém o via, chegou-se à parede lateral, tirou o chapéu e unindo o ouvido à caliça, pôs-se a escutar; esteve por alguns minutos assim, até que nada ouvindo, continuou andando até o quintal, arrancou duas estacas, entrou devagar, chegou-se à porta do copiar, agora fechada, e pôs-se de novo à escuta, estando imóvel bastante tempo. Afinal afastou-se dali e reganhou o lugar do cercado por onde entrara, saiu e pôs as estacas no seu lugar. Ao voltar-se a lua dava-lhe em cheio no rosto angustiado; provavelmente ouvira alguma coisa que lhe despertara uma ideia má porque passava constantemente a mão pela fronte, como para afastar um pensamento.
Quando ia continuar o seu caminho deparou o moço com um moleque de doze anos que olhava para ele admirado ao mesmo tempo que dizia:
— Ué, seu Miguel, o que vosmincê está fazendo?
Miguel ficou horrivelmente contrariado por ter sido descoberto, mas conhecendo que o melhor meio de remediar o mal era fazer calar o moleque, tirou dez tostões do bolso, e dando-os ao importuno, disse:
— Toma, cala a boca.
O pretinho recebeu o dinheiro e disse, metendo-o no bolso:
— Pois se eu até nem vi, parece que!
Depois foi-se correndo e cantando:
A mulher do Eduardo
Não come senão galinha;
Ainda nunca foi princesa
Já quer ser senhora rainha.
Miguel desceu para o porto por um caminho pouco praticado e com dobrada precaução. Chegando ao lugar chamado — Porto de cima, — soltou uma pequena montaria que lá estava, meteu-se dentro, remou de manso, e em breve encostou no vapor Ligeiro, que de caldeira acesa e fumegando, estava prestes a sair.
Quando saltou na escada veio-lhe ao encontro o comandante:
— Muito bem, meu amigo — disse-lhe o velho marinheiro — mostrou agora que é um homem, e cedo hão de eles conhecer que você vale mais do que todos os Moreiras do mundo. Estimo muito que seja de palavra, e conte que nada nos demoraremos; está tudo pronto, não há ninguém de terra a bordo, e só esperávamos por você. Tenha coragem, não desanime, que espero vê-lo em breve de volta a Óbidos. Então será a sua vez.
Miguel não respondeu, e seguiu o comandante à câmara onde lhe mostraram o seu camarote.
Meia hora depois o vapor Ligeiro descia o Amazonas.