VII
Eram seis horas da manhã, a chuva tinha passado, quando os convidados, depois de terem tomado café e terem feito a sua trouxa, despediram-se dos donos da casa. O tenente Ribeiro e Rita acompanharam os amigos até a porta; todos à exceção de Moreira, embarcaram nas diferentes canoas de todas as formas e tamanhos que ali estavam, e prepararam-se para dizer adeus ao hospitaleiro sítio do abastado proprietário. Reinava grande confusão: as senhoras recomendavam às criadas que nada esquecessem, estas tomavam este pretexto para andar de casa para o porto e do porto para a casa; as brancas beijavam-se e abraçavam-se no porto, e na cozinha as criadas faziam a mesma coisa; as moças iam carregadas de flores, as velhas de frutas, e as crianças de bolos; minutos depois se tinham as canoas feito ao largo.
Miguel tomava lugar na igarité de um dos seus vizinhos, que se tinha oferecido para tocar na fazenda. Era este vizinho um tal José Lopes, sujeito de cinquenta anos, que tinha duas filhas solteiras. As raparigas não cessaram de falar durante a viagem do baile do tenente Ribeiro, e sobretudo do Moreira, com quem simpatizavam extraordinariamente.
Notavam-lhe o andar, o penteado, a barba, o trajar, admiravam-lhe a dança, repetiam as chalaças que lhe tinham ouvido, e terminavam por uma indireta a Miguel, que como matuto, que era, estava longe de ter todas as perfeições do cidadão.
A este tagarelar das filhas respondia invariavelmente o José Lopes:
— É um moço honrado.
Faça o leitor ideia dos sofrimentos de Miguel; outro que não ele teria sido ferido ao vivo com os exagerados elogios que as raparigas faziam ao moço de fora, depreciando os rapazes da terra; despeitado como estava pelo que ouvira a Moreira, e ainda mais pelo que fizera a Rita, as palavras das duas irmãs eram para Miguel um verdadeiro suplício. Assim não se pôde ter que não dissesse, interrompendo a ladainha:
— Acham-no tão boa coisa? Casem com ele.
As moças entreolharam-se sorrindo, e a mais velha respondeu:
— Pode-se achar um moço bonito e bem educado, sem querer logo casar com ele; bem se vê que o Miguel não gosta do sr. Moreira — acrescentou voltando-se para o pai, que redarguiu olhando para o rapaz:
— Pois olhe que é um moço honrado.
— Não duvido — disse o filho de D. Ana — mas isso não é uma razão para elevá-lo às nuvens, só porque dança bem. Afinal de contas vão ver que há de ser um maricas.
— Maricas, — acudiu uma das moças — pode ser, mas é um homem, e não uma criança adoidada como muita gente que eu conheço.
Era demais; a intenção de ofender aparecia claramente. Os olhos de Miguel brilharam com um fogo vivo.
— Ele que tome cuidado com a criança — disse em tom de ameaça.
A rapariga que falara sorriu com desprezo.
— O seu Moreira é oficial, — disse a outra.
— Que lhe faça muito bom proveito; — respondeu Miguel, e estirando-se em cima de um dos bancos pôs-se a assobiar, para dissimular a cólera.
Alguns momentos estiveram calados; afinal a mais moça das filhas do José Lopes interrogou:
— Que tal achou você, Miguel, o baile do tenente?
— Não sei, pergunte ao seu namorado.
A rapariga enfiou, mas a irmã veio em seu auxílio:
— Em todo o caso — disse — antes ele do que outro.
— Não há dúvida, o que eu não sei é como vocês duas se hão de arranjar sem briga.
Aqui o velho interveio;
— Eh, eh! havia de ser engraçado!
E deu uma gostosa gargalhada.
Nisto encostou a igarité no porto da fazenda S. Miguel; Miguel saltou e despediu-se friamente da família do vizinho: o José Lopes queria que fossem todos à terra dizer adeus a D. Ana, mas as filhas opuseram-se pretextando cansaço. Miguel levou mesmo a grosseria ao ponto de dizer com um riso forçado:
— Sim... não é bom... depois o que iriam elas buscar lá em casa... não temos aqui oficiais.
Decididamente o rapaz estava fora de si.
— Dê lembranças à comadre — disse o velho, e empurrou a canoa.
Quando Miguel chegou à varanda já os moleques, que estão sempre a vagar pelo porto, tinham ido dar à mãe-sinhara a notícia da sua volta.
A viúva fumava sentada na maqueira do costume.
— Ora este Miguel! — disse dando-lhe a mão a beijar — A que horas volta este rapazinho!
— Foi a chuva que não me deixou vir mais cedo; — desculpou-se o moço.
— Ele veio na igarité do seu Zé Lopes! — gritou um moleque de oito anos.
— É verdade, minha mãe, o seu compadre me ofereceu a canoa e eu aceitei.
— Mas onde então estavas tu?
— Em casa do Ribeiro, houve ontem lá um baile.
— Ah! então é por isso que logo depois da tua saída ontem passou por aqui a gente dele. Foi para convidar o compadre.
— Havia de ser.
— Mas agora reparo, — tornou a viúva estranhando o fato do filho — que roupa é essa?
— É aí uma roupa que pedi emprestada, porque a minha estava muito molhada... Mas então hoje não me dão café?
— Gertrudes, traz o café para o teu senhor-moço, rapariga — bradou D. Ana com a sua doce voz.
Veio o café; quando acabou de tomá-lo, Miguel entrou para o seu quarto com o fim de mudar de roupa: na volta a mãe interrogou:
— E o que disse o Capucho?
— O Capucho está pronto para tudo; prometeu-me falar ao Penha e ao Martinho Mendes. Quanto a este último diz que é um tratante, ficou de mandá-lo cá; diz que é preciso dar-lhe alguma coisa.
— Ainda mais dinheiro... Miguel, onde vamos parar com isto?
A viúva hesitava de novo, mas o filho estava mais do que nunca disposto a lutar com o tenente, por isso respondeu bruscamente:
— Ora! vossa mercê já me tinha dado permissão para tomar conta deste negócio. Não sei porque quer mudar agora... aí está porque o mulato anda dizendo por toda a parte que nós temos medo, que nunca nos atrevemos a incomodá-lo.
E a voz do rapaz ficara-lhe presa na garganta; esteve quase a chorar; com efeito as aventuras da noite passada não eram próprias para fazê-lo desistir de uma questão que devia dar-lhe uma certa importância no distrito, e fazê-lo respeitado.
Mas a hesitação que a avareza de D. Ana fizera sobrevir naquela ocasião, durou pouco; renasceu o antigo ressentimento com as palavras do filho, e a fazendeira disse sorrindo:
— Não te zangues, menino, podes fazer o que bem te parecer.
— Ainda bem: creia que vossa mercê não se há de arrepender de ter tentado esta demanda; temos por nós o dr. Abreu, que é um homem entendido, e que é amigo íntimo do juiz municipal; os homens mais antigos do lugar asseguram que o Uricurizal nos pertence, e estão prontos a jurar; o que mais falta? Já por um bocado de dinheiro não é que havemos de ficar parados.
D. Ana calara-se: a viúva percebia com o seu bom senso ordinário que aquela demanda não tinha razão de ser, e exprobrava-se a si mesma o deixar-se levar por um motivo pessoal que poderia trazer ao filho sérios embaraços.
— É para fazer a vontade do Miguel — dizia dentro em si para tranquilizar a consciência. E continuava a aspirar o fumo do cachimbo e a dar ordens para o governo da casa com a voz inalterável e a fronte limpa de rugas.
Quando o caboclo Ambrósio apresentou-se a receber as ordens para a cidade, Miguel entregou-lhe uma carta para o padre. O portador recebeu-a da mesma forma porque tinha entregado a outra, despediu-se e partiu.
Pouco depois o filho de D. Ana saíu para a pesca no rio; voltou à tarde trazendo um enorme pirarucu, que foi a ceia daquele dia.
As negras, as mulatas e os moleques, que eram todos em grande número, fizeram círculo em torno do peixe, e pasmaram do tamanho e da qualidade dele; Miguel que orgulhava-se sempre de ser o mais destro pescador do lugar, e ouvia com sumo prazer elogiar os seus feitos, ficou desta vez impassível aos louvores dos escravos; pensava em coisa diversa; durante todo o tempo que estivera imóvel à proa da montaria esperando o pirarucu, tinha o rapaz o pensamento fixo nos acontecimentos da noite anterior, e parecia-lhe ver ainda a Ritinha sorrir para o moço do Pará; nem ele mesmo sabia explicar como pudera arpoar aquela presa; decididamente a fortuna quisera indenizá-lo do que sofrera.
Apesar de não ter dormido durante toda a noite Miguel não sentia sono algum, as horas da sesta, apesar das recomendações da mãe, passara-as no rio, e sem se importar nem um momento com o calor do sol. O rapaz era forte, e não era qualquer coisa que o abatia.
Pelas seis horas da tarde vieram dizer-lhe que o Martinho o procurava; estava então ceando, e mandando chamar o vizinho fê-lo sentar à mesa e participar da refeição.
Mendes era um homem velho, conhecia-se, mas seria impossível determinar-lhe uma idade; tinha os cabelos negros de ébano, e poucas rugas sulcavam-lhe a fronte; supunham alguns que teria setenta anos, outros porém chegavam até a dizê-lo mais velho que um século. Era baixo e robusto, os cabelos ásperos e corredios, a tez cor de cobre e as feições grosseiras indicavam bem a sua origem; os olhos pequenos e vivos giravam-lhe constantemente nas órbitas; a desconfiança estava-lhe estereotipada na fisionomia, e as palavras raras e malsoantes contribuíam para formar-lhe um exterior pouco atraente. Vestia nessa ocasião calça e camisa de riscado azul, cobria-o um grande chapéu de palha, e a camisa entreaberta no colarinho deixava ver pendente do pescoço uma multidão de bentinhos. Martinho Mendes era cacaulista e tinha fama de velhaco: morava em um pequeno sítio pouco acima do de Capucho, e vivia em companhia de uma negra, que fora antigamente escrava do capitão Fernandes, e da qual tivera um filho único, que fora recrutado alguns dez anos antes, e nunca mais voltara para a companhia do pai, que dele não sabia. Quando se precisava de uma testemunha falsa, procurava-se o Mendes do Paraná miri, como o chamavam em Óbidos; ele nunca se recusava, mas contassem que teriam de pagar caro; nas eleições estava o tapuio sempre disposto a pegar no pau pró ou contra qualquer partido, e como o seu braço era vigoroso, nunca deixava de ser procurado.
Mendes estivera por diversas vezes preso, e para isso bastava que desagradasse a alguma das pessoas influentes do lugar, porque motivos para sel-o é que não lhe faltavam; o tapuio saía sempre da cadeia perfeitamente calmo, impassível, como se nada lhe tivesse acontecido, e metia-se no seu sítio sem proferir uma palavra de desagravo contra o autor do seu encarceramento.
Poucos meses depois de lhe ter sido recrutado o filho, Mendes fizera uma viagem e desaparecera por algum tempo, sem que ninguém tivesse podido dizer com certeza qual o lugar para onde se dirigira.
A curiosidade adormeceu sobre o fato, e Martinho continuou a colher o seu cacau e a jurar falso, sem que pessoa alguma o incomodasse mais por isso.
Era tal o homem que acabava de sentar-se à mesa com o fazendeiro de S. Miguel.
— Eanêcaruca, cariua puranga... disse afetando falar a língua geral, expediente de que se servia quando se tratava de algum negócio delicado.
— Indaué, tio Martinho, como vai isso?
— Assim, namásque.
— O Capucho falou-lhe?
— Intimaan, tornou o tapuio com essa palavra cheia de dúvidas e incertezas, de que usa a gente baixa do Amazonas quando quer responder negativamente a uma pergunta ou pedido.
— Como? Pois o Capucho não lhe disse nada?
— Disse, mas não disse tudo. Mandou-me vir aqui; eu vim; não sei para que.
Miguel compreendeu que o Martinho mentia; o velhaco fingia nada saber para ter tempo de estudar a proposta do rapaz.
— Conhece o Uricurizal?
O tapuio esteve calado por algum tempo e depois respondeu:
— Conheço.
— A quem pertence?
— Ao seu tenente Ribeiro.
— Que está você dizendo? Pois não sabe que um tio de minha mãe, o padre Raimundo foi o primeiro que lá construiu uma palhoça, há já muitos anos?
— Intimaan.
— Não sabe que depois da morte do padre, meu avô e depois meu pai criaram gado naquele terreno?
— Intimaan.
— ... e que o tenente Ribeiro só veio muito tarde e por pouco tempo?
— Intimaan — respondia obstinadamente o tapuio a todas as perguntas do rapaz. Mas Miguel estava prevenido; sabia que o Martinho fazia aquilo para fazer acreditar que o juramento que exigiam dele era um juramento falso, e que portanto deviam pagar-lhe muito bem. Por isso o moço tornou-lhe amuado:
— Ora vamos, tio Martinho, deixe de negar a verdade...
— Cariua...
— Descanse que não mo engana; posso lá acreditar que um homem velho, que, como você, foi nascido e criado em Óbidos, não saiba de coisas que todos sabem?
O velho não respondeu; Miguel tornou:
— Eu preciso que você vá jurar que o Uricurizal me pertence, e para isso pago bem; é uma coisa que não há de lhe custar muito, porque é a verdade. Quanto quer?
— O branco é que sabe...
— Dou-lhe vinte mil réis, serve-lhe?
O tapuio pôs-se a olhar desconfiado para Miguel, que interpretando mal aqueles modos:
— Dou-lhe quarenta — disse — serve?
Martinho Mendes sorriu.
— Ora vamos, está feito o negócio, dou-lhe os quarenta mil réis, e você prepare-se para quando eu o avisar.
E gritando para dentro:
— Moleque! Traze um porre para o tio Martinho.
O tapuio bebeu silenciosamente a cachaça que lhe trouxe o moleque, e retirando-se para um canto da varanda pôs-se a rezar fervorosamente esperando que o branco o mandasse embora.
Nisto vieram dizer a Miguel que o pescador do tenente Ribeiro voltava agora mesmo do lago e que levava duas grandes tartarugas.
— Aí está! — exclamou o filho do João Faria, levantando-se arrebatadamente da mesa — tem o arrojo de mandar pescar num lago que pertence somente à fazenda de S. Miguel, e querem que eu o deixe roubar-me livremente!
E passados alguns momentos:
— Ele me toma por uma criança, incapaz de energia...
Fez um cigarro e acendeu-o; enquanto tirava as primeiras fumaças, murmurava:
— Meu pai, que Deus haja, era decidido, e por isso ninguém se atrevia com ele...
E cruzando a varanda a passos largos:
— Se eu tivesse mandado quebrar a canoa em que o tapuio daquele patife pesca, já há muito que estaria livre disso.
Esta ideia agradava-lhe.
— Sou um tolo, pensava, em ter tido até agora considerações para com quem não as têm para comigo...
Esteve ainda assim algum tempo, assaltado por estes pensamentos, e mordendo os beiços com ar carrancudo; afinal parece que o gênio pronto e decidido do pai despertou-lhe na alma, porque parando subitamente bradou:
— Moleque! Chama o Tomás!
E continuou passeando:
— Sim, era isto que eu devia ter feito desde que ele começou a incomodar-me. É preciso mostrar-lhes de quanto sou capaz.
A quem se referiria o plural que grifamos?
O negro Tomás chegou-se a ele e saudou-o:
— Seja louvado Nosso Senhor Jesus-Cristo.
— Para todo o sempre. Vae ver três machados bons, e traz-os.
— Sim, senhor, meu senhor.
Miguel voltou-se para o tapuio e disse-lhe:
— Tio Martinho, você vai ajudar-me aqui num negócio. É coisa muito simples e fácil. Moleque! traze outro porre para o tio Martinho.
Alguns momentos depois Miguel, seguido do Mendes e do negro Tomás, armados todos três de machados, e precedido de um moleque que levava um archote, encaminhava-se para a beira do lago.
Quando chegaram ao lugar da ponte de lavar roupa, o senhor perguntou ao escravo:
— Sabes onde é que o Pedro do tenente amarra a canoa?
— Sei, sim, senhor, é naquele pé de ingazeiro.
E o negro apontava para uma árvore já quase derribada pela água que lhe arrancara a terra que cobria as raízes; com efeito amarrada junto dela estava uma pequena canoa de pesca de dois bancos. Chegaram-se os três à canoa, puxaram-na para a terra, e começaram a quebrá-la com os machados.
Os golpes ecoavam na floresta da outra margem do lago, e os pássaros aninhados na velha árvore fugiam, acordados pelo barulho e pela luz.
De longe aquele grupo produziria um efeito estranho.
Quando terminou-se a destruição da inocente montaria, voltaram silenciosos pelo caminho da casa: a raiva de Miguel estava satisfeita, e aos outros pouco se lhes dava o que acabavam de fazer.
— Tomás, disse o fazendeiro ao chegar à varanda, — guarda os machados e dize à Joaquina que venha armar uma rede para o tio Martinho; amanhã bem cedo vai com o José ao cacaual da outra banda apanhar o cacau que lá houver, e de passagem pergunta em casa do Mestre Amândio em que estado está a galeota que encomendei.
O escravo retirou-se dizendo «Já, sim, senhor,» e pouco depois preparava-se na varanda uma rede para o Martinho Mendes, que não queria voltar a aquela hora para a casa.
D. Ana e as suas mulatas prediletas já estavam deitadas e de luzes apagadas. Só a Joaquina, escrava sobre quem pesava quase todo o serviço, andava pela casa a cuidar em tudo.
Em breve Miguel recolheu-se, apagou a luz e adormeceu contente do que fizera.
Tudo ficou deserto e mudo. Só na varanda, aberta para todos os lados, o tapuio velho rezava sentado na rede.