V O Cacaulista · Capítulo 7 de 27
Obra Menu

V

Nada há mais triste do que a noite nos sítios; a casa fecha-se e em breve as últimas luzes se apagam; o terreiro fica deserto, os pássaros calam-se, e o cão uiva melancolicamente; as rãs da beira do rio, e os sapos dos capinzais começam o seu concerto alternado, e o grilo canta desenxabidamente no teto da casa.

Era uma noite escura; Miguel internara-se pelo cacaual e caminhava silencioso; a luz vacilante do archote apenas clareava alguns passos adiante dele; as aves adormecidas nos galhos das árvores fugiam espavoridas à sua aproximação; por vezes o agudo sibilar das cobras e o uivo longínquo da onça faziam-no apressar o passo: apesar da sua coragem Miguel não tinha a indiferença do tapuio.

O rapaz passara por diversas casas, que todas estavam silenciosas, escuras e desertas, e onde só os cães, espantados daquela visita inesperada, o recebiam com furiosos latidos. Por duas vezes mesmo Miguel tivera de defender-se da raiva daqueles guardas fiéis.

Os ramos entrelaçados dos cacaueiros, a espécie de abóbada que eles formam, aumentavam a escuridão da noite, e só de espaço a espaço nalguma clareira é que aparecia o céu negro e carregado. Nesses lugares o vento soprava mais forte, e o moço vira por vezes a sua luz protetora quase a apagar-se.

Os carapanãs, atraídos pela claridade, atormentavam-no com a constância que lhes é própria, e a cabeça do nosso caminhante estava cercada de uma nuvem deles. Apesar disto ia Miguel com toda a presença de espírito, que podia ter numa tal ocasião; empenhado naquela caminhada noturna por vontade própria e para satisfação da sua vaidade, não via os dissabores da viagem, mas somente pensava no que diriam dele. Para ele os carapanãs e as cobras eram coisas de todos os dias, e não seria isso que havia de fazê-lo recuar.

Mas em breve uma chuva fina e penetrante, de que a princípio foi preservado pelas folhas dos cacaueiros, tornou-se grossa e forte, e veio mudar a face das coisas; os galhos úmidos e os cipós agitados pelo vento bateram-lhe amiúde no rosto, os pés escorregaram no terreno alagado, ou tropeçaram nos tocos de pau, que encontravam aqui e ali; a luz apagou-se com uma rajada de vento e Miguel ficou numa escuridão completa.

Depois de ter caminhado por algum tempo ao acaso, batendo com a cabeça de encontro a uma árvore, atolando-se até aos tornozelos nos charcos do cacaual, ou parando para orientar-se ao clarão rápido de um relâmpago, resolveu pedir agasalho em um dos sítios do caminho; mas em encontrá-los é que estava a dificuldade. O rapaz não sabia mais onde estava.

Com efeito, a vereda por onde comunicam os sítios entre si, vereda que fica à pequena distância dos mangues da margem do rio, é sempre um caminho estreito e mal aberto, que a incúria dos lavradores deixa entregue à natureza. Assim não é raro que um grosso tronco de árvore, derribado pela tempestade, impeça a passagem, e obrigue o viandante a fazer enormes rodeios; muitas vezes mesmo a vegetação vigorosa e rápida das terras alagadiças do Amazonas obstrui completamente o caminho pouco frequentado, e que a ninguém importa.

Desviado pelos muitos charcos, de que já falamos, Miguel internara-se pelo cacaual; distraído pelos embaraços da viagem, não se lembrava mais o rapaz em que terras estava, pois esquecera-se de contar os sítios que havia deixado atrás. De dia, e por pouco que se esteja habituado àqueles lugares, é fácil ao caminhante orientar-se, mas de noite, com a chuva e a escuridão, e uma vez desviado da batida, como fazê-lo?

Miguel arregaçara as calças, tirara os chinelos ensopados d'água, e caminhava sempre; sucedia-lhe porém que ora adiantava-se até à beira dos aningais, ora se achava no centro dos cacaueiros, sem poder divisar uma casa, um porto que lhe mostrasse onde estava.

Tinham-se calado as vozes da floresta, e só se ouvia o ruído monótono que fazia a chuva batendo nas folhas; os relâmpagos cruzavam-se amiúde, e o trovão estrugia ao longe com a medonha força natural àqueles climas.

O rapaz estava seriamente embaraçado; tinha diante de si a perspectiva de passar a noite ali, sem poder ao menos abrigar-se da chuva. Parecia-lhe que o céu quisera castigá-lo da sua vaidade, mandando aquela tempestade, quando menos a esperava. Não refletia que aquela mudança repentina é coisa muito comum nas regiões equatoriais.

É verdade que esta consideração, quando por ventura a fizesse, não o livrava da chuva, da fadiga e de outros desgostos desta ordem, mas ter-lhe-ia servido para dar-lhe a presença de espírito necessária para procurar o caminho.

Havia já duas ou três horas que ele ia e vinha quando pareceu-lhe ouvir um som confuso; parou e escutou; reconheceu que os ouvidos não o haviam enganado. Pôs-se a correr, quanto lhe era possível fazê-lo nas condições em que estava, para o lado donde lhe vinha aquela esperança, mas depois de algum tempo parou angustiado; o som calara-se. Esforçava-se por percebê-lo de novo no meio do ruído da tempestade, quando o ouviu mais distinto. Correu de novo e depois de alguns minutos os acordes de uma rabeca causaram-lhe a mais agradável impressão; repentinamente achou-se em um grande terreiro alumiado pela claridade que saía das janelas abertas da casa.

Parou. Reconhecera o sítio do tenente Ribeiro.

1/1
Menu

Fazer anotação