IX
A canoa em que iam o tenente e Moreira descia rapidamente o Paraná-miri, remada por dois negros vigorosos; um tapuio segurava o jacuman, e Ribeiro e o hóspede, abrigados por uma tolda falsa de japá, conversavam preguiçosamente. O oficial penteava as barbas; e arrancava de quando em quando uma palha da tolda para limpar as unhas ou tirar a cera do ouvido.
O tenente Ribeiro era um homem alto e magro, mas de largas espáduas e braços musculosos; os olhos grandes, o nariz chato e a boca regular e ornada de magníficos dentes; usava cavaignac e bigode, e trásia constantemente os cabelos cortados à escovinha.
O padrinho de Rita poderia ter então cinquenta anos; apenas um ou outro fio branco aparecia-lhe na cabeça, e uma ou outra ruga sulcava-lhe a fronte escura; os sobr'olhos tinha-os carregados, e os lábios roxos e grossos; a voz clara e vibrante, rápido e incisivo o falar, zombeteiro e sarcástico sempre. Longe de ser franco, como o supunham alguns, parecia estar sempre prevenido, e nunca lhe saía uma palavra ou um gesto que não fosse maduramente pesado; pelos ares agradava aos descuidados, mas não havia muito que fiar nele. Era uma entidade; temido e respeitado, como um potentado, e talvez por isso mesmo pouco estimado, embora lhe fizessem todos as maiores cortesias e zumbaias.
Chamavam-no os seus desafetos — preguiçoso — mas o facto de andar de meias pelo cacaual não nos parece suficiente para provar a justiça desta imputação, tanto mais quanto o tenente soubera criar posição e fortuna, coisas, que, principalmente a última, não se adquirem facilmente no Amazonas, onde a vida de um homem é pouca para levantar uma influência; assim as que lá existem são, geralmente, transmitidas de pais a filhos, e apontado é o homem que a deve ao seu esforço pessoal. Mas o geral daquela boa gente desconhece o trabalho das combinações, a atividade da inteligência, e, para ela, o homem que não tem lidas físicas é um ocioso, o que não se expõe à chuva e ao sol um — preguiçoso.
E isto dizem eles apesar de serem sofrivelmente amigos do fundo da rede e da imobilidade.
Aí está porque Miguel julgava que para desmoralizar o vizinho era bastante lembrar o facto de andar ele de meias pelo cacaual, sinal, segundo o rapaz, infalível, da sua nenhuma atividade.
E de feito a vida que levava o tenente era própria para despertar a indignação dos vizinhos.
Entendamo-nos: isto porque a fortuna crescia-lhe rapidamente, porque se fosse pobre, nada havia que dizer; estava na regra.
Passava Ribeiro grande parte do dia na rede, e o dia inteiro em casa; só em algumas tardes, quando o céu não ameaçava chuva, dava ele o seu passeio, a visitar os cacauais ou a inspecionar o milho. De mez em mez, salvas as ocasiões extraordinárias ia a Óbidos liquidar os seus negócios com o correspondente, e receber notícias mais circunstanciadas, do que aquelas que lhe davam os regatões, da Capital ou de Manaus. Mas como não lhe agradava a estada em Óbidos, voltava mais cedo que podia, e metia-se de novo na rede a conceber meios de despojar astuciosamente os vizinhos.
Tal era a sua principal ocupação, e tal a origem da sua rápida fortuna.
Mas o amazonense, fatalista como é, ainda que conhecesse todas as tramoias de que usava o tenente contra os incautos, não podia e não queria atribuir somente a isso a sua riqueza, e portanto dizia que — era sorte.
— O que! — exclamava o escrivão Ferreira, uma das melhores pessoas de Óbidos. — O que! Pois o Manso, que trabalha como um mouro desde a idade de doze anos, e que anda pelos setenta, tem alguma coisa, mas deve muito, e apesar disso ainda rema na popa da montaria; e o Ribeiro, que é homem de ontem e que nunca fez coisa alguma, passa como um fidalgo ou como um doutor! Quem não vê logo que aqui anda a sorte?
E assim os mais.
O tenente continuava a usar meias, e a lograr os que lhe caíam nas unhas, sem lhe importar o que corria a seu respeito; os seus haveres cresciam sempre, e já o tenente-coronel lhe havia falado numa próxima patente de capitão.
Havia contudo um homem, a quem Ribeiro nunca conseguira enganar: era o Martinho Mendes.
O astucioso tapuio respondia intimaan a todas as palavras do abastado cacaualista, que mordia os beiços despeitado, e retorcia o bigode, conhecendo bem que com aquele freguês perdiam-se todas as suas lábias costumadas.
Um dia impacientou-se, e recorreu à violência; longe de queixar-se Mendes, que sabia que o tenente com uma palavra podia metê-lo na cadeia, fingira-se resignado e respondera invariavelmente aos que o incitavam a protestar:
— Ora, ora, e para que?
Sempre que se encontrava com Ribeiro, Martinho Mendes tirava-lhe o chapéu, desde que o via, e cortejando-o:
— Seu capitão... dizia.
Ribeiro não acreditava na humildade do tapuio, mas fingira esquecer o que se passara. Mendes é que era incapaz de esquecer.
Um dia recebeu o tenente uma carta do Pará, em que lhe anunciavam a viagem do alferes Pedro Moreira Rentes, que ia visitar o Amazonas na esperança de melhorar de alguns incômodos de saúde; o correspondente não se esquecera de dizer que o seu recomendado era moço de excelentes qualidades e muito boa família; seu pai falecera pobre, mas ele era, acrescentava o oficioso amigo, «grandemente protegido pelo dr. B..., chefe do partido liberal do Pará.»
Se viera bem recomendado, mais bem acolhido foi o moço em casa de Ribeiro; já vimos como até fora o tenente ao seu encontro em casa da velha Rosa, e festejara a sua chegada ao sítio, dando um baile.
Em breve sentiu o cacaualista toda a importância que lhe viria do facto de casar a filha natural, a afilhada, com um moço da classe de Moreira, protegido do chefe do partido político a que pertencia, e pesadas bem todas as consequências de um tal facto, começou a obrar conforme aos seus planos. Entendido como era, em vez de declarar-se a este respeito, deixou que os dois jovens fizessem tudo por si, contando com a impressão que Moreira faria infalívelmente sobre o coração de Rita, e com a importância dos seus haveres, que não duvidava que influíssem no ânimo de um moço pobre.
Levado por estas razões, soubera o mulato estreitar as relações que o uniam ao moço, e vindo a saber um dia que este fora em algum tempo escrevente do dr. B..., advogado, resolveu confiar-lhe a questão do Uricurizal, pretextando ignorância dos negócios do foro, e impossibilidade de se demorar na cidade todo o tempo preciso para a demanda.
Era pois com o fim de constituir Moreira seu procurador, como adivinhara o padre, que o tenente seguia agora para Óbidos, e que ao dobrar a ponta que fica fronteira ao sítio do Cipó, dizia ao oficial:
— É um sabido o dr. Abreu, é um sabido! Mas se você precisar de conselhos vá sem receio ao Valle, que é velho no ofício.
— Espero que me hei de aproveitar deles... o menor número de vezes que puder.
— Isso também eu o espero; sei que você é moço inteligente, que já foi quase doutor.
— Não tanto... mas enfim... sempre sei como se fazem umas razões... depois, não acredito muito nestes letrados da roça. Por mais que um homem seja inteligente, metendo-se por estes matos, acabou-se.
— Tem muita razão, olá se tem!
— Pois não é? Aqui não tem uma pessoa muitas ocasiões de exercitar o que aprendeu.
— E até desaprende!
— Sim, senhor, e até desaprende. Dizia o dr. B... que antes queria morrer do que habitar longe dos centros populosos, onde não encontrasse gente pensadora.
— Ora... mas o que hão de fazer os desgraçados condenados a este deserto? disse o tenente Ribeiro com voz lamentosa — Vivem desconhecidos, caluniados... e se valem um pouco mais do que o geral, não encontram quem os entenda.
Nisto chegavam defronte da embocadura do Trombetas. Eram quatro horas da tarde. Ao longe aparecia a colina em que está sita Óbidos, e o Amazonas, correndo manso, oferecia uma travessia excelente.
— Antes de duas horas tocaremos no porto de cima, — observou o tenente — temos feito uma viagem magnífica; também tivemos um excelente dia, e os nossos remadores merecem bem um porre.
E continuou com o gesto e com a voz, animando-os:
— Vamos, rapazes! Descansam quando chegarmos.
A montaria correu de novo sobre a água, porém desta vez com mais vagar, porque atravessava o rio.
Em breve Óbidos ofereceu um lindo panorama: à cima corre o Trombetas, perto de cuja foz ficava a malfadada Colônia Militar, e abaixo da cidade uma montanha eleva-se dominando as casinhas que a cercam.
É ali o Amazonas mais estreito do que em outra qualquer parte: oitocentas e poucas braças medeiam entre uma margem e outra, e a corrente rápida é, no inverno e nos dias em que há tempestade, um perigo iminente para as fracas embarcações que tentam forçá-la. Os nossos viajantes porém tiveram uma soberba tarde, e não tardaram em encostar no porto chamado de cima.
Saltaram, e depois de ter o tenente dado algumas ordens ao caboclo do jacuman, encaminharam-se para a cidade, e subiram a ribanceira que fica pouco abaixo do que hoje se chama depósito de lenha.
Em alguns minutos chegavam à porta de uma casa do princípio da rua que a Câmara Municipal denomina de São Francisco, mas que o povo teima em chamar do Bacuri. A porta aberta de par em par deixava ver grande parte do interior da casa: no copiar um homem fazia umas contas, sentado à mesa de jantar... era o correspondente de Ribeiro.
— Ô de casa, dá licença?
— Quem é? É você, tenente? Então precisa essa cerimônia...
E o negociante, gordo sujeito de trinta e cinco anos, quase calvo e de olhos pequenos, pôs-se a abraçar os visitantes, como se os não visse há anos.
— Já sei que vem para esta danada questão do Uricurizal... pois olhe que ainda agora mesmo saiu-me daqui o Abreu.
— E o que disse?
— Disse que conta tirar muito dinheiro deste negócio... e veio pedir-me por enquanto vinte mil réis.
— Ah!
Entraram os três para a sala, onde lhes foi servido café com tapioca e manteiga; uma linda mulata de vinte anos, de vestido decotado e mangas curtas, segundo a intransigente moda das mulatas paraenses, calçando uns pequeninos chinelos de marroquim encarnado, e recendendo a trevo e a manjerona, segurava a bandeja sobre que estava o açucareiro. Rêdes novas foram armadas, um moleque trouxe uma grande porção de tabaco moído, e quatro ou seis cachimbos de taquari com cabeças de barro. De noite saíram o tenente e Moreira, recolhendo-se pela volta das nove horas.
Depois de uma larga conversa com o negociante Ribeiro disse ao moço oficial:
— Está tudo falado; amanhã iremos ao Valle.