XV
No domingo pela manhã estava o sítio do José Lopes em rebuliço.
Desde as seis horas que as duas irmãs lavavam-se em águas cheirosas, e tresandavam a trevo e a priprioca. O velho assistia com prazer, rodeado dos seus curumins, à morte da rês comprada na fazenda S. Miguel, as negras lavavam as panelas e areavam os talheres, os negros faziam lenha e enchiam água. Um caboclo velho dava de hora em hora um tiro de pólvora seca, e a Antônia, condenada naquele dia a estar sentada, consertava às pressas o vestido com que tinha de servir à mesa.
Na cozinha as panelas em grande número chiavam no fogo, e a cozinheira pelava um porco; a tia Tomásia, tapuia afamada em doces nos arredores, preparava fatias douradas e sequilhos, provando de vez em quando o chocolate.
A casa estava varrida, e limpa dos maribondos; dois grandes bancos de pau ornavam a varanda, além dos que ladeavam a mesa, e uma rede nova, com varandas de renda, substituía a maqueira velha e desfiada do dono da casa. Haviam espalhado areia pelo caminho do porto, com o fim de encobrir a lama feita pelas chuvas, e alguns moleques tinham arrancado com as mãos a grama que crescia no terreiro.
Tudo tinha um aspecto risonho. A natureza parecia tomar parte na festa: o dia estava soberbo, e os japiins cantavam na mangueira.
As escravas traziam o colar de ouro ou de pedras, e vestiam os vestidos mais novos; os moleques enfiavam-se em camisões de chita pirarucu, e os negros apresentavam suas calças e camisas brancas, cingindo a cintura com uma espécie de banda encarnada.
As duas moças, penteadas com todo o esmero, vestiam roupas de cassa branca, e calçavam sapatos de marroquim verde. Traziam no dedo memória de tucumã, e ao pescoço uma pequena cruz de coral falso. Andavam por toda a parte com a cara franzida a dar as últimas ordens, contradizendo-se sempre, e não se sentavam nunca para não amarrotar os vestidos.
As filhas do José Lopes eram duas raparigas baixas e morenas, que se assemelhavam extraordinariamente; distinguia-se contudo a Josefa da Joana pela calvície nascente, e esta daquela pelo incrível arrebitamento do nariz. Tinham ambas os dentes talhados em ponta, segundo a moda do Paraná-miri, de forma que quando riam a dentadura cerrada, deixando aparecer pelos intervalos a língua, parecia querer ameaçar a gente.
Eram duas boas raparigas a Josefa e a Joana! Tratavam a todos com muita amabilidade, quando não se lembrava alguém de desagradar-lhes, e não perdiam uma ocasião de dançar, o que faziam com um gosto e desembaraço, que admirava até mesmo às pessoas que vinham do Pará ou da Barra. Por isso também eram estimadas e os convidados corriam pressurosos a festejar os anos da mais velha.
Às sete horas chegou a primeira canoa: trazia a família do vizinho Amaral, composta de pai, mãe e filha. Às sete e meia veio a velha d. Rosa com o filho e uma chusma inumerável de mulatas, carafusas, pardas, negras, caboclas, mamelucas, moleques e curumins, que invadiram o sítio e estabeleceram a alegria e o ruído por toda a parte.
— Aré, minha gente, dizia a velha cacaulista, ao abraçar as duas irmãs, — me deem já a minha rede, que estou muito cansada.
Logo depois de d. Rosa chegou a canoa do tenente: vinham nela Ribeiro, Moreira, a Rita e a Benedita. Estava quase completo o número dos convidados: só faltava Miguel, que não tardou em aparecer pelo cacaual. Ao velho Capucho ninguém se lembrara de convidar, e ainda menos se sabia como ele viera: o fato é que ele aí estava contando histórias da Junta a d. Rosa, que as conhecia tão bem como ele.
Depois dos cumprimentos, beijos e abraços dados e recebidos, depois das perguntas sobre a saúde dos ausentes, e depois da primeira conversação sobre o tempo, a safra, a cheia (isto os velhos), a festa de Juruti, que se aproximava, sobre Óbidos, a vida pública e privada do Paraná-miri de cima (isto os moços), foi servido o almoço, que constou de vaca, porco e papagaios, e de chocolate com bolos, para rebater os assados.
Enquanto faziam a digestão sentaram-se em círculo na varanda; os velhos fumavam, e as moças conversavam baixinho entre si, dando de vez em quando gostosas gargalhadas, que faziam sorrir os homens, curiosos do motivo de tal alegria.
A Josefa era uma moça prendada, tanto quanto se pode sê-lo no Paraná-miri; depois de ter preludiado no violão, que uma criada lhe apresentara, com todo o desembaraço pediu ao Moreira que cantasse uma modinha. A Joana, que temeu ficar na sombra, insistiu:
— Ora, cante, sim?
— Mas, d. Joana, que modinha quer a senhora que eu cante?
— Qualquer uma...
— Cante a Nas horas mortas da noite, disse a Josefa.
— Sim, Nas horas mortas da noite.
O oficial não se fez rogar por mais tempo; abriu a boca e, acompanhado pela filha mais velha do José Lopes, cantou a modinha pedida. Foi aplaudido com entusiasmo, embora Miguel murmurasse:
— O tio José canta muito melhor.
Quando Moreira acabou de cantar, entendeu dever retribuir a fineza da Josefa com outra igual e disse-lhe tomando-lhe o violão:
— Agora você, d. Josefa?
— Ora qual! Eu não sei cantar...
— Ela canta, disse a Rita.
— Canta muito bem, acrescentou Miguel.
— Cante, menina, interveio o pai.
Mas a moça abaixara o rosto, e embalava-se na rede, em que estava sentada, murmurando sempre:
— Vão rir de mim.
— Oh! d. Josefa, o que está dizendo? Pois nós havíamos de rir?! Ouço dizer que a senhora até canta muito bem... todos a elogiam.
Estas palavras eram do Moreira.
Afinal a moça resolveu-se. Afinou a garganta e perguntou à irmã:
— Qual há de ser, Joaninha?
A Joana correu a sentar-se na mesma rede em que estava a irmã, mas do outro lado, dando as costas aos circunstantes, e disse afinando também a garganta, e lambendo os beiços:
— A flor dos meus sonhos.
E as duas moças puseram-se a cantar, sempre embalando-se na rede, com tom lastimoso, a modinha que diz assim:
Eu tenho uns amores — quem é que os não tinha
Nos tempos antigos? — Amar não faz mal.
As armas (as almas) que sentem paixões como a minha
Que o digam, que falem em regra geral.
A flor dos meus sonhos é moço bonito
Qual flor entre-aberto do dia ao raiar;
Mas onde ele mora, que casa ele habita,
Não quero, não posso, não devo contar.
Aquele moço bonito, que as duas irmãs substituíam ao moça e bonita da poesia — Segredos — de Casimiro de Abreu, referia-se indubitavelmente ao moço oficial, mesmo porque um olhar e um meio sorriso acompanhavam a mudança de sexo. As moças continuaram:
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças cortadas, qual linda bacante,
O pé de criança, cintura de anel (!)
E depois:
Oh! ontem no baile com ele valsando,
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeiro, qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu.
E assim por diante.
O velho José Lopes, que percebera tudo, ria-se coçando a barba; as velhas cochichavam, Miguel mordia os beiços e voltava o rosto para não rir, e a Rita admirava sinceramente o meio de que haviam lançado mão as suas amigas para fazerem uma declaração ao Moreira, que continuava acompanhando no violão, sem mostrar ter entendido.
Depois da cantoria formaram a quadrilha, porque já tinha chegado a música; tiraram-se as redes da varanda, e formaram quatro pares: — Moreira dançava com a Josefa, e tinha por vis-à-vis o Ribeiro com a Joana; Miguel dançava com a filha do Amaral, e o filho da velha Rosa com a Rita. Moreira conversava a miúdo com a sua dama; a rapariga por sua parte falava pelos cotovelos e criticava a dança dos outros; a Joana não tirava os olhos do par fronteiro, e nada respondia às amabilidades do tenente, que se consolava disso fumando cigarros sobre cigarros.
Miguel fazia todo o possível para dançar bem; mas tendo prestado atenção demasiada à conversa da Josefa com o Moreira, julgou ver uns olhares malignos do oficial, e uns risinhos zombeteiros; desorientou-se, e por diversas vezes a filha do Amaral advertiu-o de que dançasse melhor. O filho de d. Ana estava rubro de despeito, suava em bicas, lançando olhares furibundos sobre o par caçoador.