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Miguel custara a familiarizar-se com a ideia da preferência que dava a Rita ao Moreira; o rapaz ora acreditava nela, ora lhe parecia impossível que a afilhada do tenente renegasse assim as afeições da sua infância. Para ele o jovem oficial era um intruso, um estrangeiro, que aparecia quando menos se esperava para perturbar a felicidade de um filho da terra; a sua qualidade de estranho a Óbidos, os elogios imoderados que lhe faziam as filhas do José Lopes, e sobretudo o amor que diziam dedicar-lhe a Rita, eram títulos valiosos que tinha o protegido do dr. B... à aversão do filho de João Faria.
— Pois não é lá muito bonito, — repetia constantemente este — creio mesmo que se lhe tirassem a barba ficaria de todo feio.
E Miguel não deixava de pensar nisto quer caçasse, pescasse, ou lavrasse arcos, sentado no banco de pau da varanda.
Afinal aquela dúvida contínua tornou-se insuportável. O rapaz afagava a ideia de que se falasse a Rita, esta não poderia deixar de explicar-lhe tudo, e de dar-lhe as maiores seguranças para o futuro. Contudo a questão do Urucurizal embaraçava-o.
Como obter o consentimento do tenente naquelas conjunturas, e sobretudo, como pedi-lo?
Miguel queria gostar da Rita, e que esta gostasse dele, mas não podia admitir que o tenente continuasse a humilhá-lo por qualquer forma que fosse.
E para ele conceder-lhe Ribeiro a filha era humilhá-lo.
Pois não era o cacaulista mulato? Não era Rita sua filha natural?
Mas em nada disto havia ele pensado, antes da chegada do Moreira; achava que podia ser grande inimigo do pai, e continuar a encontrar-se com a filha no cacaual.
Talvez nem ele mesmo soubesse antes da noite do baile que amava a rapariga. Estava acostumado a gostar dela, dizia consigo. Aquelas atenções para com o oficial, aquele ciúme sentido durante a noite toda, vieram transformar a afeição calma que votava à filha do tenente naquele sentimento desconhecido que o trazia tão agitado.
Foi só depois disto que lhe veio à ideia o casamento. As palavras do padre lançaram-lhe a dúvida no coração, dúvida misturada de despeito. Ora só o ser vencido pelo estrangeiro!
Um dia, à tardinha, achou-se no terreiro do sítio de Ribeiro. Benedita sentada na soleira da porta fumava o seu cachimbo, com os anelados cabelos soltos sobre os ombros nus. Era uma bonita mulher a caseira do tenente: alta e fornida de carnes, de tentadores olhos negros, aos quais os seus trinta e cinco anos não tinham ainda feito perder o brilho. Os braços tinha-os soberbos, o tom de voz arrastado e carinhoso.
Miguel porém não parecia reparar nas perfeições da mulata, e disse-lhe com o tom de familiar indiferença:
— Boa tarde, Benedita.
— Vou mandar dizer uma missa à Senhora Sant'Ana... com efeito! Então é assim que se quer bem à gente? Depois daquela noite, nunca mais apareceu!
— Tenho andado sempre ocupado.
— Assim será! Ora vejam só... morando tão pertinho... ingrato!
— Não sou ingrato, Benedita, não sou, mas o que queres tu? Já estou um homem, preciso cuidar nos negócios da fazenda, bem sabes que não sobra tempo.
— Sim, eu sei, todos vocês são assim mesmo, quanto mais a gente os quer bem, mais fogem. Mas onde está a Ritinha? Rita, Rita! Quaes! Anda aí trepada nas árvores, ou então está tomando banho. É uma travessa...!
— Deixa a Rita, Benedita, deixa-a correr que nem sempre há de ter tempo para isso.
— Quaes! pois isto tem lá jeito? Eu não sei mesmo como é este senhor tenente... parece que nem se importa com a afilhada.
— Não é isso que lhe há de fazer mal... mas como está ele?
— Assim, miri miri. Foi antes de ontem para Óbidos com o sr. Moreira... para um negócio... nem eu sei o quê... um barulho com você, Miguel, parés-que. Também não sei por que vocês brigam tanto.
— Não sou eu, é ele quem quer. Não sabe que o Urucurizal é da nossa família.
— Mas então por via disso era preciso brigar? Um terreno que não presta para nada... Eu digo sempre ao senhor tenente: Não quero brigas com o meu filho Miguel.
E tomando com ambas as mãos a cabeça do rapaz, que se sentara junto dela, a mulata obrigou-o a deitá-la no regaço, e revolvendo-lhe os cabelos, continuou:
— Não quero, não quero! O senhor tenente gosta tanto de você, Miguel...
— Não gosta...
— Gosta! E depois como é que um homem sério há de abusar da sua força contra uma criança, que não sabe nada deste mundo?
Miguel forcejou por tirar a cabeça do regaço de Benedita, e conseguindo pôs-se de pé, e replicou ao dito da caseira:
— Pois não tenho medo do senhor tenente... havemos de ver quem pode mais.
— Adivinha, quem é? — disse uma voz fresca e alegre por detrás dele, ao mesmo tempo que duas mãos gordas e macias tapavam-lhe os olhos.
— É a Rita — respondeu o rapaz mudando repentinamente de tom, e tateando os cabelos, o rosto e os ombros da moça sob o pretexto de verificar quem era.
— Ela mesma.
E a travessa rapariga, pôs-se a correr pelo terreiro com um pé só, segurando o outro com uma das mãos.
— Onde estavas tu, Ritinha? — interrogou a Benedita.
— Em parte nenhuma... estava tomando banho.
— Pois a esta hora... Olhem que esta menina não tem medo de defluxo. Leva o dia inteiro metida n'água.
— Pois o que eu hei de estar fazendo?
Um moleque trouxe uma grande tigela de vinho de tucumã com farinha e ofereceu a Miguel.
— Beba, Miguel, dizia entretanto Benedita, porque o rapaz parecia querer recusar, — beba senão fico zangada.
Rita avançou para o moleque, tirou-lhe a tigela da mão, e depois de ter bebido uma boa porção entregou-a a Miguel dizendo:
— Não quer saber dos meus segredos?
O rapaz esgotou a tigela.
Dez ou doze minutos depois o rumor cadenciado dos remos anunciava uma canoa.
— É meu padrinho!
— É o senhor tenente!
Miguel quis retirar-se, mas tentou em vão. As duas mulheres impediam-no, ora pedindo ora exigindo.
Era com efeito o Ribeiro que chegava da cidade, deixara provavelmente o Moreira em Óbidos para tratar da questão. Subindo o caminho estreito e escorregadio que vai do porto ao terreiro, o tenente dava algumas ordens aos escravos, e ralhava com alguns moleques. Benedita levantara-se e a Rita correra a pedir-lhe a bênção. Miguel ficara de pé sem saber o que devia fazer, mas Ribeiro veio ter com ele.
— Boa tarde seu Miguel; ainda bem que o encontro por aqui. Estimo muito. Como está a d. Ana?
— Boa, obrigado.
— E o padre José?
— Está bom, obrigado.
— Estimo, estimo muito.
E o tenente entrou em casa fazendo com o gesto sinal a Miguel que o acompanhasse. Servida a ceia, que se compunha de pirarucu assado e de tambaqui moqueado, as duas mulheres retiraram-se, e os cacaulistas ficaram sós.
— Não tardará muito, — começou o mulato — que saberemos a quem pertence o Urucurizal...
— Eu sei desde já.
— É o que lhe parece.
E o tenente acendeu um cigarro com toda a pachorra.
— Sabe que vai gastar muito dinheiro nesta demanda?
— Sei.
— Pois eu também.
— Está bom, disse o moço.
Decididamente Miguel não era tão fraco como o vizinho julgava.
— Você sabe tudo.
O Ribeiro mostrava um sangue-frio e uma indiferença que desagradava sumamente ao filho de d. Ana. O rapaz preferia vê-lo zangado.
— Então...? com quê? não desiste? — indagou o padrinho de Rita, assim com uns ares de quem queria chacotear.
— Ora, pois eu hei de consentir que me tomem o que é meu! — respondeu Miguel em tom muito diferente.
— Eh, eh! o que é seu... tornou Ribeiro.
— O que é meu — afirmou o outro.
Calaram-se. O tenente teimava em acender o cigarro já aceso, e Miguel de braços cruzados sobre a mesa parecia não estar muito disposto em que quer que fosse a favor do vizinho.
Começou de novo.
— Eu bem sei o que é a mocidade... também eu fui moço. A gente agarra-se a uma ideia, não pensa, e lá vai de cabeça baixa dar em cheio na parede. Quando vem o arrependimento já é tarde, e o choro não serve de nada. Quem me avisa meu amigo é...
O tenente parecia falar consigo mesmo, pois tinha os olhos pregados ora no inflamável cigarro, ora na luz mortiça da candeia de barro. Miguel calou-se e Ribeiro continuou:
— Eu bem sei o que isto tudo quer dizer, porque não sou nenhum tolo... o terreno aqui não é nada. Mas infelizmente eu não nasci para desmamar crianças ou amansar potros.
— Seu tenente! — exclamou o moço ferido ao vivo — tome cuidado!
Luziram os olhos do mulato, mas logo fechou-os, e rindo forçadamente:
— Ora aí está o seu Miguel zangado!
— Ora qual! — tornou o filho de d. Ana, imitando o tom de voz de Ribeiro — eu só me zango com gente da minha iguala.
O tenente acompanhou-o até à porta alumiando-o, e pronunciou:
— Tem razão. Você até fez mal em lidar com gente que não é fina. É bom deixar isso para os moços da cidade, que são menos escrupulosos. Adeus seu Miguel.