IV O Cacaulista · Capítulo 6 de 27
Obra Menu

IV

Quando Miguel chegou ao sítio do velho Capucho, eram quase cinco horas da tarde. Os cães saíram-lhe ao encontro ladrando, e pouco depois apareceu o dono da casa, com a camisa por fora das calças, e descalço.

Capucho era homem dos seus sessenta e cinco anos; baixo, magro, mas robusto, de cabelos completamente brancos e de tez baça; quando falava tinha ares de mascar alguma coisa, e fumava constantemente num comprido cachimbo de taquari.

O seu sítio era como todos os sítios daqueles lugares; cacaual, pequeno terreiro com a sua laranjeira, a casa de vivenda, coberta de pindoba, e cujas paredes eram de barro negro batido, o tendal, o galinheiro, onde dormiam duas ou três galinhas, e um velho forno, que já nenhum serviço prestava.

A um canto da varanda um alto banco de pau, cheio de buracos redondos nos quais assentavam os baldes de água fresca, e das traves do teto pendiam os tipitis, as cuiambucas, e outros utensílios caseiros.

À chegada de Miguel o velho esforçou-se por conter os cães com a palavra, enquanto com uma das mãos segurava o cachimbo e com a outra arranhava o nariz. O rapaz saudou-o assim:

— Boa tarde, tio Capucho.

— Ora Deus lhe dê as mesmas, meu menino, que bem merece. Então aqui por esta sua casa...

Apertaram-se as mãos. O velho voltou-se para o interior da casa e bradou:

— Traze o banco, Picapau.

Um curumim de oito anos, sujo e guedelhudo trouxe um mocho de madeira com assento de couro.

— Queira sentar-se...

— E então você, tio Capucho?

— Eu já estou arrumado; — respondeu o velho, sentando-se num tronco de cedro derribado junto à porta.

Miguel tomou conta do banco e depois de acomodado tornou:

— Muito cacau por aqui?

— Hum, hum! — disse Capucho com esse acento gutural daquela gente quando quer exprimir uma negativa. — Este Amazonas vai cada vez a pior; não se pode mais contar com coisa alguma; eu sei lá — continuou tirando uma fumaça e com o olhar fito no cimo da laranjeira, onde dois bem-te-vis cantavam — mas olhe que em Cametá não é assim. Não, senhor. Ainda não há muito tempo que lá estive, e tudo ia muito bem.

— Isto há de melhorar.

— Deus é quem sabe. O que é verdade é que antigamente tudo era diferente. No tempo do seu avô, o Amazonas era uma grande coisa; vinha gente até do Ceará e do Maranhão para Óbidos, por sinal que ainda aí estão o João Correia e a mulher, o Joaquim do Lago, o Chico Ceará e outros; mas hoje...

— Hoje tudo está mudado, o mesmo diz minha mãe.

— Sua mãe não viu nada, porque ainda é uma criança. Creio até que ela nasceu no tempo da chegada do coronel Roso na Gentil Americana; eu já era homem feito e estava na capital... foi uma festa grande! A junta parecia estar muito contente com a nomeação do Coronel. Em Cametá...

— A como tem comprado a farinha, tio Capucho? — perguntou bruscamente Miguel, que provavelmente não gostava de ouvir histórias do tempo da Junta.

— Ontem vendeu-me o Martins a quatro mil-réis aqui no porto. Em Cametá nunca passa de dois a três mil-réis.

— É por esse preço que nós temos comprado, e do mocambo.

— Ora vejam só... a minha é do Maranhão, que não presta para nada.

Aqui foi a palestra dos dois interrompida pela chegada do Picapau, que trazia duas grandes tigelas de café com farinha-d'água.

— Veja se quer açúcar, meu menino, — disse o velho tomando uma tigela para si e dando a outra a Miguel — Eu cá não gosto disso, em Cametá muita gente boa toma café amargoso.

— Eu, é coisa que não posso sofrer, — respondeu o filho de d. Ana — prefiro passar sem ele. E entregou o café ao curumim.

— Dize a tua mestra que bote açúcar.

Picapau foi e voltou. Os dois começaram a apreciar a deleitosa bebida.

— Ainda não lhe disse o que me trouxe aqui, tio Capucho.

— Eu estava pensando nisso.

— Você sabe que o Ribeiro quer ser à força senhor do Uricurizal?

— Não admira, aquele ladrão não dispensa coisa alguma. Todos os dias está a roubar cacau e terreno dos vizinhos. Valha-nos Deus! Este Óbidos! Pois olhe que em Cametá há poucos assim...

— Pois sim, senhor, tio Capucho, aquele ladrão como vosmecê muito bem diz, quer que o Uricurizal seja dele, e mandou queimar as plantações que nós fizemos lá, o tio José falou ao dr. Abreu, a minha mãe está decidida a demandar. De sorte que como o tio Capucho é um dos homens mais antigos do lugar...

— Já sei, quer que eu vá jurar? Pois não, ora essa é boa! Com todo o gosto. Depois, eu já tenho jurado em outros processos... ainda há pouco tempo, quando eu fui a Igarapé-Mirim tive de jurar num do Catá.

— O tio Capucho há de conhecer bem o Uricurizal?

— Ora se conheço... como as palmas desta mão. Em 1823 ou 24, eu era ainda moço, tinha chegado da capital de fresco, quando o padre Raimundo, que Deus haja, mandou levantar uma palhoça ali... alguns meses depois começou a criar um gadozinho miri-miri, que nunca aumentou porque o lugar é ruim. Quando ele morreu em 1840 seu avô tomou conta do lugar, depois seu pai continuou a entreter ali um restozinho de gado que desapareceu de uma vez com a cheia de 51. Ficou o terreno abandonado até que o Ribeiro entendeu de si para si que devia também levantar ali uma palhoça, que não durou dois meses por via de ter sido ele recrutado por um desaforo que fez ao defunto coronel José Gama.

— E quando voltou continuou a ocupar o Uricurizal?

— Quás! Que se importa ele com o Uricurizal... aquilo foi só para moer a d. Ana, que só agora é que se lembrou de dizer que o terreno é seu.

— Patife!

— Ah! meu caro, agora ele é um grande! Todos lhe tiram o chapéu! Já se foi o tempo em que ele podia ser recrutado... hoje todos têm-lhe medo. Não estão mais neste mundo o João Faria e o capitão para quebrar-lhe a proa... dá as cartas e joga de mão. Assim quis fazer o Catá no Igarapé-Mirim, mas achou quem o pegasse.

Miguel levantara-se irritado; faziam-lhe mal as palavras do velho. Fora uma punhalada aquela frase de Capucho: “Hoje todos têm-lhe medo.”

Feria-o sobretudo a ideia de que o homem que hoje ditava leis no Paraná-miri, e até em Óbidos, era o mesmo que alguns anos antes fora perseguido pela sua família. Afigurava-se-lhe ver o Ribeiro pobre, humilhado, preso, escarnecido, e logo rico, altivo, respeitado e até mesmo temido. Esta grande mudança na situação do tenente parecia-lhe uma ameaça constante a si e à sua mãe, os descendentes dos perseguidores do vizinho. Cada vez mais crescia a sua aversão ao Ribeiro; sentia uma grande necessidade de dominá-lo, “quebrar-lhe a proa”, como pitorescamente dizia o velho Capucho. Oferecia-se uma ocasião, a demanda sobre o Uricurizal, agarrava-se a ela desesperadamente; daria tudo para vê-la começar logo, queria vencer.

Não era que ligasse grande importância ao terreno disputado; já deve ter percebido o leitor que mãe e filho eram levados pelo desejo de humilhar o audacioso mulato.

Era uma questão de capricho, como sói dizer-se. Depois de ter dado alguns passos agitados pelo terreiro, Miguel voltou a sentar-se junto do velho, que parecia não dar pela sua agitação, e coçava tranquilamente o nariz.

— Então vmc. está pronto, tio Capucho?

— Conte comigo, menino... e olhe que eu não sou desses que se vendem... não sou como o Felipe Arruda que foi depor contra o pobre do Formiga, porque lhe deram cinquenta mil-réis... não, isso não, nem por cem. Eu cá digo o que sei e o que penso. O primeiro que tomou conta do Uricurizal foi o padre Raimundo, lá isso foi, o Ribeiro só veio depois, e por pouco tempo, por via do recrutamento. Olhe que eu apesar de não ser daqui, sei bem como isto vai.

— O Inácio Antunes e o Martinho Mendes se prestarão a depor?

— Isso não sei; o Inácio Antunes, apesar de marinheiro, é homem honrado, mas o Martinho Mendes... é criatura dos valentes, é vasilha muito ruim. Contudo não duvido que se preste, porque não há três meses que andava aperreado por uns roubos que lhe fazia o tenente.

— E eu hei de convencê-lo.

— Caia com o cobre, menino, que esta gente toda morre de fome por aqui.

E sacudindo a cabeça melancolicamente, enquanto enchia de novo o cachimbo e matava as pragas, que chegavam com o declinar do dia, pôs-se o velho Capucho a murmurar:

— Oh! os cametauaras não são assim!

— É já muito tarde para ir falar ao Antunes e ao Mendes, — disse Miguel, levantando-se de novo — demorei-me muito no caminho, e a noite está embaixo... Se vmc. me quisesse fazer esse favor, tio Capucho, vmc. que é vizinho...

— Pois não, meu menino, até com muito gosto.

— Se isto não o incomoda...

— Não, senhor. O Inácio passa todos os dias por aqui para ir à pesca, e o Mendes vem às vezes conversar comigo. Esteja certo de que eu lhes falarei.

— Quanto ao Mendes só quero que lhe diga que me procure, que tem em que ganhar. Prefiro falar-lhe em pessoa.

— Como quiser, meu menino, como quiser...

A conversação dos dois fora longa. O dia ia acabar, e já as portas da casa estavam fechadas por causa dos campanãs; o velho Capucho tirara a camisa e pusera-se a dar grandes palmadas pelo corpo, para ver se assim se via livre daqueles insetos malfazejos.

O sol escondia-se por trás dos aningais que formam o fundo dos cacauais no Paraná-miri, quando Miguel pensou em despedir-se do velho. A saracura, a guariba, e de vez em quando o agoureiro acauã pareciam acompanhar com o canto a retirada do astro-rei; os papagaios faziam uma grande algazarra, e ao longe, na outra margem, as barulhentas ciganas procuravam aninhar-se.

O crepúsculo dura pouco nas regiões equatoriais; a noite invadiu o céu.

— Menino, — disse o velho Capucho — você não pode ir a estas horas pelos cacauais; vou levá-lo eu mesmo na montaria.

E voltando-se para dentro gritou:

— Picapau.

O curumim veio, tomou-lhe a bênção assim como a Miguel e esperou.

— Vai desencalhar a montaria, e leva para o porto o remo grande.

— Traze dois remos, acrescentou Miguel, eu também sei remar.

Picapau entrou na casa, cuja porta abriu-se para dar-lhe passagem, fechando-se logo, e pouco depois saiu trazendo ao ombro dois grandes remos redondos, desses que se usam no Amazonas; encaminhou-se para o porto seguido pelos dois cacaulistas.

Desencalharam a canoa, botaram dentro os remos, e o velho disse ao curumim:

— Dize à tua mestra, que eu vou até o S. Miguel, e já volto.

Mas no momento de embarcar, Miguel lembrou-se da conversa que tivera naquela tarde com a Ritinha, e estacou; veio-lhe à mente aquela frase que dissera à amiga:

— “Eu tenho lá medo de andar de noite pelo cacaual...” E pareceu-lhe que era covardia valer-se do oferecimento de Capucho.

— Se ela soubesse que eu voltei embarcado — murmurou, e logo sentiu desejos de afrontar a escuridão e o mau caminho. Lisonjeava-se de que Rita saberia que ele fora à noite pelo cacaual desde o sítio de Capucho até a sua casa, e que não somente a ela mas ainda a todos os conhecidos, o velho contaria a sua imprudência.

— Desculpe, tio Capucho, mas prefiro ir por terra.

— Como por terra! A estas horas?!

— Sim, prefiro ir pelo cacaual.

— Mas se d. Ana souber?

— Descanse, não saberá.

— Menino, isso é uma tolice. Não vê o que está se armando para aquele lado? — E o velho apontava para uma pequena nuvem negra que aparecia no céu.

— Aquilo não é nada — respondeu Miguel sacudindo os ombros.

O velho insistiu:

— Tome cuidado. Olhe se tem algum mau encontro...

— Qual mau encontro nem pera mau encontro! Pois que quer vmc. que eu encontre?

— Eu sei lá.

Miguel estava decidido, aceitou como único favor do Capucho um archote e partiu. O velho voltou para a casa acompanhado de Picapau, não sem ir murmurando de espaço a espaço:

— Esta gente de Óbidos... Nunca vi disto em Cametá, e outras frases deste gênero.

1/1
Menu

Fazer anotação