XVII
Maria Mocoim era uma velha magra e quebrada pelos anos, de cabelos grisalhos, olhos pequenos, maçãs salientes, e boca, que quando ria deixava ver um dente comprido e negro; vestia saia de chita e camisa de americano, pisava descalça, e do pescoço pendia-lhe, presa num cordão escuro, uma multidão de bentinhos e figas de todas as cores e tamanhos. Os dedos longos e magros estavam cobertos de memórias, e a rara cabeleira, áspera e corrediça, presa no alto da cabeça, em forma de periquito, por um enorme pente de tartaruga, como esses que ainda se encontravam até pouco tempo no Maranhão, e que são comuns no interior das duas províncias ribeirinhas do Amazonas.
Quando os cães lhe anunciaram a chegada dos convidados de José Lopes, a velha, sentada na soleira da porta da casa, parecia em contemplação diante do espetáculo que lhe oferecia o sol escondendo-se por trás dos aningaes. Com a cabeça erguida, e as mãos enlaçadas em torno dos joelhos, Maria Mocoim parecia não sentir os ataques dos carapanãs importunos. Só ela estava em casa, e isto porque só ela morava ali naquela cabana, cercada e coberta de pindoba seca e gasta, cujas portas eram de japá, que se prendia à soleira por embiras. Junto da casa, e sob um teto também de palha, três pedras, tostadas pelo fogo, reunidas em uma espécie de triângulo, anunciavam um fogão, agora extinto e coberto de cinzas. Pendiam da cumeeira folhas de tabaco, dois ou três baldes de cuia, um tipiti; uma panela e uma chocolateira de barro, atiradas a um canto, completavam a mobília da cozinha, na qual dormia uma capivara doméstica. Perto da casa o mato crescia espesso e bravo, e parecia acabar ali a comunicação entre os cacauais.
A qualquer hora, e em qualquer dia que se visite um destes miseráveis sítios, sempre se encontra o fogão apagado, a casa silenciosa, o mato crescido, e o dono da casa fumando, sentado na batente ou embalando-se na rede de americano. Se tiver o visitante necessidade de qualquer coisa, embora prometa pagar bem, nada pode obter, e trava-se invariavelmente o seguinte diálogo:
— Ô... ô... ô... ô, de casa! diz o recém-chegado do porto.
— Adê... ê... ê... us! responde o dono da casa.
As casas são todas situadas longe do porto por causa da cheia, como já dissemos, e para se ouvirem melhor de grande distância, usam as pessoas daquelas regiões de um tom de voz prolongado e ecoico impossível de transcrever:
O diálogo continua:
— Tem pacova verde?
— Agora há... não há!
— E galinha?
— Não há milho.
— Me venda um bocado de pirarucu.
— Eh, branco, o tempo está caro!... Não há.
— Nem uma tartaruguinha, ou um bocado de piracuí ou piraém?
— Não há.
— Então venda-me ao menos um alqueire de farinha.
— A saúva matou toda a maniva... agora só quando tornar a plantar.
— Mas você há de ter ao menos para o seu gasto, venda-me uma cuia de farinha.
— Havéra, branco, não há.
— Qual não há... você é que não quer vender...
O dono ou dona da casa olha sorrindo maliciosamente para a família, se a tem, com ares de quem diz: — O branco está caçoando, e afinal resolve-se a falar ao suplicante:
— Sôcco! branco! não há mesmo.
Se o viajante chega ao terreiro, e, por um acaso raro, aí encontra seis ou oito bicos, desejando comprar, tem quase sempre esta resposta:
— Aquela franga é da’nhá neta.
— E onde está sua neta?
— Está no Cromocory.
— Venda-me então aquela galinha...
— Aquela numica é da’nhá mana.
— Onde está ela?
— No Sapucuá.
— Ora... venda-me ao menos aquele pinto.
— É do meu filho.
— E onde está ele?
— Está na cidade.
E afinal sai a gente sem poder obter coisa alguma. Isto a maior parte das vezes.
Não tendo rendas, não trabalhando em coisa alguma, sem a menor indústria, parece que deveria esta gente morrer de fome. Ela anda com efeito magra, pálida, abatida, mas isso de morrer, não; vive até muitos anos. Uma prova é Maria Mocoim.
A tia Maria não criava galinhas, nem patos, não roçava, não fiava... possuía apenas a capivara, os cães de guarda (?), e uns trezentos pés de cacaueiros, que podiam dar-lhe mal para o tabaco e a farinha do chibé. Como se arranjava no mais, isso não sabemos; somente podemos afirmar que era muito procurada nos arredores, porque ninguém melhor do que ela tirava quebranto, ninguém preparava melhor beberagens para fazer uma pessoa gostar da outra, ninguém matava melhor um cobreiro.
Objeto de curiosidade não despida de certo terror, ao menos na gente moça, acreditavam seriamente no Paraná-miri que era feiticeira, e alguns chegavam mesmo a afirmar que a velha se transformava em lobisomem, revestindo a figura de uma pata choca, porque tivera em outro tempo relações com o padre vigário; estes boatos ou não lhe tinham chegado aos ouvidos, ou ela lhes ligava pouca importância, tanto mais quanto a gente sensata limitava-se a ver em Maria Mocoim uma curandeira como outra qualquer.
Só o Capucho teimava em assegurar que por uma noite de inverno a vira transformada em pata, coisa tanto mais extraordinária quanto a velha não criara nunca bípedes daquela espécie.
— Não me engana — dizia o Camutauara, mastigando — não me engana porque bem a conheço... No Igarapé também há lobisomem... não há muito que o Catá foi visto com um por trás da igreja... coisas lá deles. No tempo da Junta, quando se dizia que uma pessoa era, tratava-se logo de averiguar, e não se ficava olhando, como agora. Que eu vi, vi, isto ninguém me tira... Também diziam que o Judeu não era, e quando se viu foi ele arrebentar bem no meio do baile do Pechincha em Vila Bela... Com estas coisas não brinco, que são coisas da religião...
E benzia-se.
Apesar do que dizia o Capucho ou talvez por causa disso mesmo, os alegres convidados de José Lopes se tinham lembrado de ir ao sítio de Maria Mocoim, e gritavam todos sem o menor sinal de medo, sem contudo afastarem-se uns dos outros:
— Boa tarde, tia Maria...
— Ara, Deus Nosso Senhor lhes dê as mesmas, Nossa Senhora Santíssima os abençoe. Santa Ana os tome debaixo da sua santa guarda, respondeu a tapuia.
— Como tem passado, tia Maria?
— Miri-miri, nhô tenente, como uma pobre velha que S. Bom Jesus dos Passos ainda deixa andar por este mundo...
— Mas você ainda está forte, tia velha, observou Moreira.
A velha pôs-se a olhar para ele, e reparando que Josefa estava ao lado do oficial, sorriu beatamente, e abençoando-os com a mão, disse:
— Mas, meu menino Deus, como estão bons um para o outro, que é mesmo um gosto! Nosso Senhor os fez, e Nossa Senhora os ajuntou. Tomara que sejam felizes!
O rapaz sorriu e Josefa corou, mas sorriu também; Joana correu a colocar-se mais perto de Moreira, esperando que a sorte caísse sobre ela. Rita não disse palavra, mas pôs-se a brincar com um dos cães da velha. Miguel e o tenente conservaram-se estranhos à palestra: Miguel, encostado em um dos esteios que sustentavam o teto da cozinha, devorava Rita com os olhos; o tenente examinava o cacaual.
Maria Mocoim continuou:
— Pois sim, senhor, não vai este mundo lá muito bem. A caroára não me deixa, e eu não sei mais o que hei de fazer...
— Quando você não souber, quem há de saber?
— Ora, ora, pois eu tenho trabalhado...
— Também que idade tem você? perguntou indiscretamente a filha mais moça de José Lopes.
A velha esteve calada por algum tempo com a cabeça baixa, como se procurasse lembrar-se de alguma coisa, depois disse, fazendo um gesto de indiferença:
— Nem eu mesma sei... mas quando o Cacaual Imperial passou para o reis, eu já era moça, e tinha um filho que depois morreu de ar de vento. Nós morávamos no cacaual mesmo... minha mãe era a moça do capataz... nem eu sei mesmo mais.
E a velha riu-se, deixando ver o único dente.
— Com efeito! — disse Moreira para não ficar calado, mostrando que ficara na mesma a respeito da idade da velha — com efeito!
Conversaram assim por algum tempo. A velha não se fartava de olhar para o oficial, e para os vestidos de Josefa, e dizer:
— Nasceram um para o outro...
— Vamos já — interrompeu Rita, aborrecida de brincar com o cachorro — não tarda a noite.
Depois de algumas hesitações puseram-se todos a caminho, despedindo-se da velha, que murmurava:
— Até... curi! (logo). São Bom Jesus os proteja, Nossa Senhora os abençoe. Senhora Santa Ana os tenha debaixo da sua santa guarda!
Na volta bem quisera Miguel caminhar junto a Rita, mas o tenente, ou porque desconfiasse de alguma coisa, ou por outra qualquer razão, tomou a mão da filha e da Joana, a qual, porque dispensaria de bom coração essa honra, não deixava de voltar continuamente os olhos para ver a irmã e Moreira, que vinham atrás, seguidos de Miguel e da filha do Amaral. Josefa requebrava-se toda e falava de Maria Mocoim.
— Ora, que velha! Pois já viram o que ela disse? E dizer que algumas vezes sai certo... Já sei que hoje não durmo.
— Hoje mesmo creio que não... porque há de se dançar provavelmente até de manhã.
— Não... quero dizer, amanhã não durmo.
— E por quê, d. Josefa?
— Eu sei lá... a tia Maria há de me aparecer em sonho.
— Ah! sonha muito?...
— Quase todas as noites.
— E com que sonha?
— Sempre com a mesma coisa...
— Pode-se saber o que é?
— Não...
— Para que há de ser má... ora, conte...
— Só se o senhor jurar que não caçoa...
— Juro, pelas almas!
— Pois bem... mas eu tenho vergonha...
— Ora diga, diga...
— Me aparece sempre um moço alto, cheio de corpo, barbado e vestido de oficial; depois eu e meu pai vamos com ele para a cidade, e...
— E... o resto?
— E nós nos casamos.
O nosso par, que havia esquecido que a pequena distância seguiam-no Miguel e a filha do Amaral, foi neste ponto interrompido por duas estrepitosas gargalhadas; o tenente, Rita e Joana pararam, e esta última indagou, voltando atrás:
— O que foi, o que foi?
Josefa estava rubra de cólera, e lançava olhares furibundos aos dois caçoadores. Moreira coçava a barba um pouco atrapalhado, e Joana indagava sempre:
— Mas o que foi?
— Ora, o que havia de ser? — respondeu a filha do Amaral — Josefa que sonhou com um oficial alto e barbado, muito parecido com seu Moreira.
— Esta Josefa... — disse Joana — agora isso não admira porque eu também sonhei...
— Com o seu Moreira?
— E bem.
Decididamente o oficial triunfava.
— É um moço feliz — observou Miguel.
— Oh! se é..., confirmou a filha do Amaral.
— Mas mesmo muito...
— Todas as moças sonham com ele!
E continuaram neste andar até o sítio de José Lopes, onde chegaram à noitinha.
Pouco depois recomeçou a dança, e então, animados pela alegria dos moços, os velhos, em ar de caçoada, foram tomando parte nas quadrilhas, e principalmente no chorado ou lundu, que era a especialidade da mulher do Amaral; Josefa e Joana distinguiram-se muito nesta dança, e Rita não deixou de substituí-las dignamente, quando cansaram.
O tenente fazia frente a todas. De cigarro na boca e em mangas de camisa, depois que toda a cerimônia havia desaparecido, Ribeiro provocava aplausos gerais com as rodas e piruetas. A velha d. Rosa dizia amiúde:
— Ora este sr. tenente! Meu Deus, que homem!
Miguel conseguira dançar uma vez com Rita, apesar de o pai fazer todo o possível para que isto não sucedesse. A rapariga mostrava-se amável, faceira mesmo, mas Miguel notava que ela tirava por muito tempo os olhos de Josefa e de Moreira.
Às cinco horas da manhã acabou-se a festa por falta de quem dançasse e de quem tocasse. Os músicos haviam adormecido na rede, em que se haviam sentado para maior comodidade, e os pares dançantes a custo resistiam ao sono, provocado pelo cansaço e pelo frescor da madrugada. Pouco depois despediam-se todos os convidados, e Josefa dizia a Moreira, no porto:
— Adeus, seu Moreira, lembre-se da gente!
Ao que a irmã acrescentou:
— ... que lhe quer bem.
Rita sentiu um grande alívio ao ver o moço oficial embarcar na mesma canoa que devia levá-la. Afinal Josefa tinha de deixá-lo, e conhecia bem a afilhada do tenente que, feitas as contas, Moreira tinha de lidar muito mais tempo a sós com ela, do que lidara à vista de todos com a filha de José Lopes. Por isso disse ao pai que partisse quanto antes, alegando o frio e o sono de que estava possuída.