XX O Cacaulista · Capítulo 22 de 27
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XX

Miguel voltara da festa do José Lopes encantado com o procedimento da Rita, ainda que não deixasse de estranhar a atenção que a moça prestava aos movimentos do alferes, durante o resto do baile. Pensava ele que afinal conseguira vencer o moço do Pará, obrigando-a a explicar-se a este respeito, e obtendo tão excelente resultado. Acreditava que o ganho da causa do Uricurizal viria acabar a derrota do tenente, e que ele chegaria a este esplêndido resultado: abater o orgulho do mulato, e assegurar-se do amor de Rita. Não deixava de ser contraditório o rapaz, mas vão lá explicar estas naturezas.

Foi até sem ciúmes que o filho de João Faria viu o Moreira embarcar na mesma canoa que a Rita; até gostava de saber que o oficial tinha sobre ele a vantagem de morar no sítio do tenente, e de ter a amizade deste. Chegou até a dizer rindo à Josefa e à Joana:

— Chuparam no dedo! Lá se vai a Rita com ele!

D. Ana notou que o filho tinha alguma coisa de novo; o rapaz não parava num lugar; andava pela cozinha, pelos quartos, trepava nas árvores, corria atrás dos bois; saía para a pesca, anunciando que se demoraria o dia inteiro, e meia hora depois voltava; preparava a espingarda e partia para a caça. As mulatas e os moleques viam-se aperreados e por diversas vezes a respeitável senhora fora obrigada a dizer semisséria:

— Sossega, rapazinho! Mas o que então tem parêsque este Miguel!

Até o Capucho sofrera da mudança que se operara repentinamente no jovem amigo. Uma vez estava o velho a contar histórias de Camutá, e a repisar o que tantas vezes dissera, quando Miguel saiu-se com esta:

— Você, tio Capucho, não se farta de contar histórias da Junta e do Catá... era melhor que falasse menos.

E desatou a rir. O velho enfiou, e queixou-se a d. Ana, que se limitou a dizer com a voz do costume:

— Ora este menino... pois já se viu?

Por diversas vezes tentara o rapaz ir à casa do tenente, a ver se falava com a Rita, mas o Ribeiro parecia que adivinhava o seu intento, porque não arredava pé da varanda. Miguel punha a espingarda ao ombro e metia-se pelo cacaual com o fim, dizia, de matar alguns papagaios que estragavam o cacau; mas só o que queria era ver se lhe era possível encontrar a menina trepada nalguma árvore, como antes lhe acontecia. Porém as suas excursões eram vãs, o moço voltava sem ter dado um tiro, e triste por não ter visto a amiga.

Não sabia ele que Rita já não gostava de trepar nas árvores, e que, pelo contrário, estava muito acomodada.

Uma tarde o filho de d. Ana resolveu aproximar-se do terreiro do sítio do tenente, do qual ficava sempre a grande distância, temendo ser visto; levava-o a esperança de verificar o que se passava na casa, e foi a furto, e procurando diminuir o ruído que seus passos faziam quebrando as folhas secas de que estava lastrada a terra, que chegou às últimas árvores do cacaual, e avistou o terreiro.

A Benedita fumava como sempre sentada à soleira da porta, e a Rita, com a cabeça deitada no colo da mulata, conversava baixinho com ela, a rapariga estava séria e não tinha mais aquela viveza de outrora.

Miguel, depois de ter espreitado por algum tempo, afastou com as mãos alguns ramos de árvores, e ia falar para anunciar-se baixinho às duas mulheres, quando deparou com o tenente, em pé, a vinte passos de distância dele, encostado a um cacaueiro, com um terçado na mão, e fitando-o com aqueles olhos, cheios de um brilho vivo, que mais de uma vez lhe fizera abaixar os seus. O rapaz ficou a princípio sem saber o que devia fazer, mas logo, reassumindo a sua presença de espírito, que o orgulho trazia em seu auxílio, pôs-se a caminhar direito ao dono do sítio. Este, vendo que o rapaz se dirigia para o seu lado, começou a assobiar de um certo modo e logo os cães de guarda se lançaram furiosamente sobre o moço, que mal teve tempo de abrigar-se do primeiro choque, subindo a uma árvore.

O tenente continuava a fitá-lo e a assobiar, os cães ladravam em torno da árvore; o rapaz engatilhou a espingarda de caça, que trazia, e com um tiro matou um daqueles animais; os outros fugiram, e puseram-se a ladrar de longe. Decididamente a guerra estava aberta entre os dois vizinhos.

Quando Miguel pôde descer da árvore com a debandada dos seus agressores, o Ribeiro adiantou-se até onde ele estava e disse sorrindo, sem tirar os olhos do cão morto a pequena distância:

— Desculpe, seu Miguel, mas o que quer? Os cachorros não o conhecem mais, e bem compreende você que eles, vendo-o aqui de repente, se espantassem... tenha a certeza de que não mordem nunca... são mansos como cordeiros.

O senhor da fazenda S. Miguel não respondeu; as faces estavam vermelhas de cólera e de vergonha de ter fugido diante do tenente; os olhos injetados de sangue giravam desmedidamente nas órbitas, e a boca contraída demonstrava que o rapaz fazia grandes esforços para não chorar.

Chorar! Miguel tinha ainda muito de criança... quando a raiva era grande, chorava.

Agora porém os olhos não derramaram lágrimas, e o filho de João Faria pôs-se de volta para a casa, sem dar uma palavra ao vizinho, que o via retirar-se sorrindo com aquele sorriso com que dias antes se despedira dele na noite em que voltara do sítio da velha Rosa, e o encontrara no terreiro da sua casa.

D. Ana bem conheceu que tinha acontecido alguma coisa ao filho; indagou com muita instância do tiro, que ouvira, e teve esta resposta, dada por Miguel com a voz sufocada:

— O que havia de ser? Aquele filh.... do Ribeiro que açulou os cachorros contra mim... mas lá deixei um estirado... e há de pagar-me aquele negro!

D. Ana quase deixou cair o cachimbo, tão grande foi o espanto que se apoderou dela; a honrada viúva não compreendia o atrevimento do vizinho e foi com a voz alterada que disse:

— Mas, como então?!

— Aí está — tornou o filho — e você não quer que eu ensine aquele cachorro!

— Pois aquela não sei que diga, meu Deus, perdoai-me, está assim? — tornou a viúva, e logo voltando-se para dentro gritou:

— Gertrudes, traz água para o teu senhor-moço! Depressa, rapariguinha!

Mas o filho repeliu indignado a cuia que lhe apresentava a mulatinha, e foi se deitar na rede do seu quarto...

Neste momento o acauã voava por cima da casa, e cantava agoureiramente: Acauã! Acauã! D. Ana estremeceu, e unindo as mãos rezou.

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