XIV
O padre voltara para Óbidos. O sítio recaíra na sua habitual monotonia, e d. Ana embalava-se de mansinho na maqueira da varanda.
Miguel parecia esquecido da Rita e do Moreira; continuava a antiga vida, caçando papagaios, arpoando pirarucus e tartarugas, e fazendo arcos e flechas nas horas vagas. Falava até menos vezes na questão do Urucurizal. Contudo o rapaz, nutria cada vez maior aversão ao vizinho; numa ocasião que o Capucho quisera não sei a que propósito obrigá-lo a ouvir palavras de paz, o moço respondera com um tom que não admitia réplica:
— Tio Capucho, não me fale nessa tranca!
Por cartas do padre José soubera Miguel que a ação se adiantava, e nas suas respostas o filho de d. Ana, exortava o tio a velar cuidadosamente sobre o dr. Abreu, de quem o rapaz não tinha lá muitas razões para estar seguro.
Sem falar pois, tanto como dantes, das suas rixas com o tenente, Miguel não deixava por isso de pôr tudo em prática para vingar-se conforme pudesse dos insultos de Ribeiro. Queria que o vizinho conhecesse que tratava com um homem enérgico.
Uma tarde estava ele sentado na tranqueira do curral, quando viu atravessar o teso, que separa o lago do rio, o velho Estevão, carregando nos ombros uma enorme tartaruga, que pescara.
Era o velho Estevão possuidor de uma braça de terra, encravada no campo da fazenda S. Miguel, e que dava a única passagem para o lago (sem ser pelas terras da família de João Faria). Não quisera o pescador por dinheiro algum desfazer-se da sua passagem, como ele chamava, porque lhe era precioso o direito de pescar naquele lago; porém os moradores da vizinhança aproveitavam-se da braça do Estevão, e invadiam o lago de S. Miguel, apesar de incorrerem na cólera do proprietário da fazenda. O tenente Ribeiro era um que não perdia ocasião de pescar ali.
Depois que Miguel tomara o expediente de quebrar as canoas haviam todos desistido, com exceção do Estevão por consciência do direito que lhe assistia, e ainda mais porque do lago tirava o necessário para a sua subsistência.
A Miguel repugnava usar de violência contra o velho, legítimo possuidor da braça de terra; mas era-lhe impossível consentir que o tenente continuasse a pescar no lago. Por isso quando o velho atravessava com a tartaruga que pescara naquele dia, Miguel mandou que um moleque corresse a chamar o pescador.
Este não se fez esperar, e levando a mão ao chapéu:
— Indaué (boa tarde), começou.
— Boa tarde, tio Estevão; então teve hoje boa pesca?
— Assim, namásque.
— Ainda não está resolvido a vender a sua braça?
— Não posso, branco!
— Está bom, eu não quero obrigar... mas venha cá. Para que consente que o pescador do tenente passe por ela?
— Ilué, branco! e o que é que eu hei de fazer?
— E você não perde com isso? Pois fique sabendo que não quero mais que ele passe por aqui. Tenho o meu gado, e não quero que, dizendo que vai pescar, me furte alguma vaca ou algum carneiro. Não estou disposto a isso. Entendeu?
— E se ele quiser passar?
— Eu não deixarei. Se for se queixar a você, diga que se entenda comigo.
— Mas...
— Isto é se quiser assim, pois se não quiser, mando quebrar todas as canoas que você trouxer para cá e quem sofre? Não sou eu. Se quiser ir por bem, é isto. Você pode passar quantas vezes quiser, mas ninguém mais. Adeus.
O velho retirou-se sem dizer palavra, e desde esse dia Miguel pôs em prática as suas determinações. Quantas canoas punha o tenente no lago, tantas ele quebrava.
Na sexta-feira pela manhã estava Miguel almoçando quando chegou uma caboclinha de doze anos da casa do José Lopes. A rapariguinha dirigiu-se a d. Ana, e estendendo a mão direita disse:
— Sua bênção?
— Deus te abençoe, Antonica, respondeu a matrona com a sua voz melíflua.
— Nhá Zefa mandou saber como vuncê passou.
— Estou boa, muito obrigada; o compadre está bom?
— Está, sim senhora.
— E as meninas?
— Também.
— Dá lembranças.
Antônia foi ter com Miguel e com a mesma pantomima:
— Sua bênção, disse.
— Deus te abençoe.
— Nhá Zefa mandou saber como vuncê passou.
— Passei bem, obrigado; todos estão bons?
— Estão, sim senhor. Ela disque vuncê fosse lá domingo, disque para vuncê não faltar...
— Domingo? e o que há lá?
— Não sei. Nhá Zefa faz anos, disque.
— Ah! está bom. E quem mais vai?
— Parêsque é seu Amaral, d. Rosa...
— O tenente vai?
— Parêsque vai, e vai aquele moço também.
Aquele moço era o Moreira.
Miguel esteve para recusar; ainda se lembrava do que lhe haviam dito as filhas do José Lopes na volta do baile do Ribeiro; mas pensou que haviam de julgar que ele tivera medo de se achar em concorrência com o oficial. Além disto não lhe agradava a ideia de saber que o tenente se acharia numa festa, dançaria, faria figura, enquanto que ele ficava no cacaual, como uma pessoa de quem não se fazia caso algum. A ideia que iria contrariar com a sua presença o Ribeiro, o Moreira e talvez a Rita agradava-lhe, e por isso decidiu-se a ir. Sabia que ia lutar, e isto era bastante para dispô-lo a comparecer na festa da filha do José Lopes. Dirigiu-se à rapariga, que esperava a resposta, e disse-lhe:
— Dize-lhe que vou.
— Já, sim senhor. Eu já vou... sua bênção?
— Vai, Deus te abençoe.
A Antônia encaminhou-se para o lado oposto àquele por que viera.
— Vai ao sítio do Ribeiro... pensou Miguel.