XVIII O Cacaulista · Capítulo 20 de 27
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XVIII

A afilhada do tenente não pôde dormir tranquila; não lhe saía da ideia a atenção que o Moreira prestara durante todo o domingo à Josefa. A rapariga era vaidosa; custava a acostumar-se à ideia de que um moço da cidade lhe preferisse a careca da Josefa, como ela dizia. Depois julgava que, sendo ela a primeira que vira o oficial, morando ele em sua casa muitos dias, era uma vergonha ser vencida. Além disso se o Moreira casasse com a Josefa, quem lhe restaria? O Miguel... um rapazinho de quem ninguém fazia caso, um matuto, que nem sequer tinha uma calça de casimira, um homem que não sabia dançar. É verdade que, antes da chegada do protegido do dr. B..., o filho de João Faria não deixava de ser procurado, mas então a Rita nunca vira um verdadeiro moço da cidade, senão muito criança, ou um ou outro negociante ou doutor... casado. E então a rivalidade das filhas do José Lopes? Não era motivo para mais se empenhar na luta?

É preciso dizer que Rita nunca vira uma cidade, nem sequer Óbidos; ardia por isso, e, como o tenente nunca quisera fazer-lhe essa vontade, achava ela ingenuamente que o meio mais simples era casar com um moço cidadão.

Ora o Moreira preenchia estas condições. O Moreira era um oficial a quem todos procuravam agradar, que impunha respeito ao Miguel, e a quem até o tenente acatava. Era portanto um homem superior a todos os outros. Rita lembrava-se de que o oficial se mostrara muito namorado dela, e lhe dissera palavras, que não se dizem a qualquer pessoa; mas isto não era garantia do seu amor (ela dizia da sua amizade), uma vez que procedia da mesma forma com a Josefa, e quem sabe com quem mais, acrescentava a rapariga pensando na viagem do alferes a Óbidos.

Era preciso portanto obrigar o oficial a declarar-se, obrigar a Josefa a reconhecer-se vencida. Pensando nisto esteve a moça a revolver-se na rede e a embalar-se; não tinha porém desta vez a Benedita que lhe notasse a insônia, e a distraísse dos pensamentos inquietos que a dominavam. A sua companheira de quarto roncava como uma bem-aventurada. Afinal a moça adormeceu.

Quando levantou-se era meio dia. Já o tenente e o Moreira conversavam na varanda, saboreando o café e o cigarro.

A rapariga beijou a mão do padrinho, e cumprimentou sorrindo o hóspede.

— Dormiu bem, d. Rita?

— E bem, respondeu a moça.

— Divertiu-se muito ontem?

— Como sempre.

— Ah! esta é uma doidinha, que não pensa senão em dançar! — observou o tenente.

— Está na idade! — tornou o Moreira.

— Pois, nem por isso; — replicou o dono da casa — já fez dezesseis anos e é tempo de cuidar em outra coisa...

— E o que quer você que eu faça, meu padrinho?

— Ora esta é boa! É preciso pensar em arrumar-se. Deve casar, ter a sua casa, criar os seus filhos.

O oficial ria. Rita abaixára o rosto, envergonhada.

— Estava mesmo a pensar nisso — continuou o tenente sorrindo — mesmo porque ontem, falou-me um sujeito a teu respeito....

— E quem foi?

— O filho da d. Rosa.

— Achi! fez a moça desdenhosamente.

— Aí vamos... e porque diz achi?

— Ora, meu padrinho, um homem gago...

— E o que tem isso?

— Tolo...

— Quem lhe disse?

— Matuto...

O Ribeiro deu uma gargalhada, e respondeu à moça, já envergonhada do que dissera:

— Homem, esta! Matuto! Então a quem é que tu queres, rapariguinha! Provavelmente procuras um principe encantado?

— Não, mas...

Rita estava visivelmente embaraçada com as caçoadas do tenente. Não sabia como sair da meada em que se metera. O Moreira torcia o bigode sorrindo, e o tenente continuava no mesmo tom:

— E que tal? A sra. d. Rita que acha o filho da d. Rosa matuto! Um rapaz que esteve muito tempo em Óbidos, onde ela nunca foi! Ao menos não poderá dizer a mesma coisa do velho Capucho, que já esteve no Pará, e que viu a Junta.

— Ara, meu padrinho, você está brincando.....

— Brincando, e porque? Acha que ainda não é tempo de casar? Responda, menina.

A Rita correu a esconder-se no quarto em que estava a Benedita costurando, e o tenente voltando-se para o Moreira disse:

— Que tal acha esta cunhantan, seu alferes?

— Tenente, como quer que a ache, senão que é uma boa menina, muito viva e esperta?

— Só?

— E bonita, isso ninguém lhe tira.

— E não acha que era uma pena casá-la com o filho da d. Rosa, ou com aquele patife do Miguel?

— ...do Miguel?

— Sim. Pois então não sabe que aquele fedelho teve o atrevimento de querer namorar a Rita?

— Homem, esta!

— Pois, sim senhor. O marôto esquece-se de que a família sempre perseguiu-me, e que ele não tem deixado de fazer-me toda a espécie de desaforos... Deixa-te estar, mijão, que a questão do urucurizal te há de quebrar o orgulho!

— Além disso, se ela não gosta dele...

— Isso é que é... a rapariga não gosta dos matutos, só quer moços da cidade, como se eu pudesse desencaval-os, ou se eles andassem aí aos montões. Eu cá por mim, contanto que ela escolha um moço de bem, inteligente, pouco se me dá que não tenha um vintém de seu... tenho bastante para dois, e todos sabem que a Rita é a minha única herdeira.

Moreira calou-se, e pouco depois saiu da varanda e punha-se a passear por trás da casa, num lugar abrigado do sol, perto da cozinha. Minutos depois chegava-se a ele Rita com grande ramalhete de rosas e jasmins na mão, rindo como uma doida.

— De que se ri tanto, d. Rita?

— Ara, pois não hei de rir... aposto que não sabe para quem são estas flores?

— Não adivinho.

— Pois são para o senhor.

— Para mim? e quem as mandou?

— Aí é que está a história... foi a Josefa.

— O que está dizendo?!

— Isso mesmo.

— Mas porque as mandou ela?

— Ora, porquê... o senhor deve saber melhor do que eu...

— Qual, não sei!

— Sabe; pensa que ninguém viu o que o senhor fez ontem com ela?...

— E o que é que eu fiz? Nada de mais..

— É isso, nada de mais.. tem muita razão a Benedita quando diz que os moços da cidade são muito inconstantes!

— Inconstantes! Ora, ora, ora!

— Não tem ora nem meia hora. Todos sabem que o senhor é namorado da Josefa.

— Qual namorado nem pera namorado! Pois se eu nem gosto dela.

— Boa...

— Sério, é uma careca.

— Por isso conversavam tanto.

— Tem os dentes pontudos...

— E então o que tem isso? Se é para não apodrecer.

— No Parà ninguém usa dentes apontados....

— Pode dizer o que quiser, que não acredito. Quem não gosta de uma pessoa não leva todo o dia e toda a noite só conversando com ela, dando na vista de todos.

— Por isso mesmo. Se era para caçoar...

— Para caçoar....?

— Lhe juro, d. Rita, que nem por sombras gosto da filha do José Lopes.

— Então que história foi aquela do sonho?

— Ah, ah, ah! Você faz-me rir só com a lembrança!

— Agora ri...

— De certo, pois não quer que eu ria das tolices da Josefa!

— Eu... sei... — disse a Rita com ar pensativo que exprimia dúvida. O rapaz esteve a olhar por algum tempo para ela, e depois estendendo a mão para receber o ramo, que a Josefa lhe mandara, exclamou em tom resoluto:

— Vai ver que caso eu faço das flores daquela namoradeira.

— O que é que você quer fazer? — interrogou a moça retraíndo a mão, que segurava o ramalhete e escondendo-a atrás das costas.

— Vou pisá-las.

— Não, isso não. Primeiro quero saber o que vem no meio das flores...

— Como?

— Espere um pouco.

A moça quebrou o cabelo que prendia as flores, e disse:

— Está vendo? Veio amarrado com o cabelo dela!

— Ora, ora, que moça!

— Vamos ver o que tem mais — tornou a Rita, separando uma por uma as flores, e deparando com um pedaço de carvão no meio do ramo, disse quase irritada:

— E então? Ora, já se viu coisa igual?

— O que é?

— O que há de ser? Um pedaço de carvão...

— Aí está... a culpa não é minha.

— Aquela Josefa sempre é muito presumida!

— Isso vê-se logo.

— Não tem vergonhá de andar mandando flores para uma pessoa que quase não conhece! isto é que é ser namoradeira!

— De que serve? Eu não faço caso dela...

— Sim, todos os homens dizem isso quando estão longe.... aposto que se eu não tivesse tomado o presente à mão da Antonia, o senhor havia de gostar de recebê-lo.

— Não diga isso, Rita... creia, eu não gosto da Josefa, mesmo porque gosto doutra.

— E quem é essa outra?

O rapaz não respondeu logo, e pôs-se a sorrir; afinal disse com bastante desembaraço:

— É você.

O seio de Rita agitou-se fremente, mas a rapariga tentou disfarçar a emoção, fingindo não acreditar.

— Eu bem sei que você está caçoando comigo, seu Moreira, mas eu não sou tola...

— Não diga isso de mim, Rita, não pense que eu seria capaz de enganá-la. Desde aquele dia da minha chegada que você me pareceu a moça mais bonita do Paraná-miri... e até de Óbidos!

— Não negue... você tem namorada no Pará....

— Qual, não tenho! Pois se eu até não gosto das moças de lá, porque são muito falsas e namoradeiras...

Vendo que a rapariga dúvidava ainda ou fingia dúvidar, Moreira entendeu dever também fingir ciúmes.

— É certo que o Miguel — disse ele — gosta muito de você?

— Não sei.

— Sim.... não sabe...

— Não sei, sério... Ele parece que gosta, mas agora está zangado, porque diz que eu deixo os amigos velhos pelos novos.

— Você?

— Ora... eu gosto dele, porque foi criado quase comigo, mas... é ainda um menino, muito tolo, acanhado.

Nisto à janela do quarto de Rita assomou a Benedita, que vendo os dois jovens reunidos, não se pôde ter que não dissesse:

— Ora, ora, pois então não estão apanhando mormaço? Que gente esta! Só para estar conversando! Rita, vai para dentro! — continuou amuada — tu não vês que teu padrinho há de querer ser catado?

A rapariga deitou a correr para a casa sem responder. Quando chegou à varanda, o tenente deitado na maqueira, embalado por um moleque de sete anos, dormia à sesta. A moça fez parar a rede, sentou-se em um banquinho, e pôs-se a catar o padrinho, que acordando perguntou:

— Onde estavas tu?

— Eu... não estava fazendo nada.

— Vadia... e o alferes?

— Não sei, não senhor.

O tenente nada mais perguntou, e fechando os olhos adormeceu de novo com a branda fricção que a filha lhe fazia na cabeça.

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