XII
Na noite do dia do encontro do tenente com o padre no cacaual, depois de ter arranjado tudo em casa, depois de estarem recolhidas as mulatas e adormecidas as crianças, a Benedita dirigiu-se para o quarto da Rita, onde a encontrou já deitada, mas ainda acordada, embalando-se com um pé e assoviando o — Negro já tem carinho.
Ribeiro não estava em casa. Fora à tardinha para o sítio da velha Rosa, e declarara que não voltaria senão no dia seguinte pela manhã, porque tinha muito que conversar com o filho da velha cacaulista.
Rita dormia com uma mulata no quarto. As moças do Amazonas, ao menos as mauias, não temem cobra, nem bicho algum, mas em compensação tremem só ao ouvir o nome de alma de outro mundo ou de ladrão, e por isso têm o costume de meterem-se quatro e cinco num quarto, para poderem dormir tranquilas. Rita tinha uma criada consigo. Era, portanto, mais animosa do que o geral das suas companheiras.
Em nada diferia dos outros o quarto da afilhada do tenente. Paredes de barro negro, mal unido, deixando fendas por onde entrava a claridade das estrelas. Chão de terra batida, que o tempo tinha cavado em diversos lugares, e grandes escápulas de madeira, pregadas nas paredes. Tinha por móveis únicos um grande baú de madeira e um oratório. Uma corda de corauá armada em um canto sustentava a roupa de muda da menina, e um espelho quebrado, suspenso na parede, completava os ornamentos desta câmara rústica. Também a Rita só entrava no quarto para dormir ou mudar de roupa durante o dia.
A boa Benedita viera dormir naquela noite no quarto da Rita, substituindo a companheira ordinária da menina. Preparavam-se as duas para conversar enquanto não lhes desse o sono, e era a mulata quem devia entreter a conversação.
A caseira do tenente atara a sua rede ao pé da de Ritinha e, depois de se ter despido, de ter acendido o cachimbo, sentou-se na beira da rede da menina e começou:
— Estás com sono?
— Não. Mas hás de me contar hoje muitas histórias.
— Está bom... não sei mais que histórias hei de contar. Já contei todas.
— Não faz mal, conta de novo, senão durmo já.
— Ora, que teimosa! Então não é melhor conversar em outra coisa?
— Não quero.
— E que história queres?
— Qualquer uma.
— Qualquer uma... o Pássaro azul?
— Não, essa não.
— A do Imperador d’Áustria?
— Também não.
— Então, qual? Imperatriz Porcinu, a Fera encantada, Dão Barão?
— Sim, essa sim, conta a história do Dão Barão.
— Era uma vez um rei, — começou a mulata — que tinha três filhas fêmeas, e nenhum filho macho... Ora os carapanãs, — disse interrompendo-se — é que não são da história. Espera aí.
E, levantando-se, foi para junto da candeia, moeu às pressas uma porção de tabaco, que embrulhou num papel, tomou uma caixa de fósforos, apagou a luz com um sopro e foi deitar-se dizendo:
— Agora eles não vêm... não me enxergam no escuro. Daqui da minha rede conto melhor.
— Mas não durmas.
— Não durmo.
A mulata tirou uma fumaça e começou de novo a história do Dão Barão, contando com admirável facilidade, e como se fosse coisa que ela tivesse presenciado.
Depois do Dão Barão veio o Dão Carlos de Montalvão, depois os Figos da Figueira, sem que a Benedita conseguisse adormecer a Rita. Vencida afinal pelo sono e pela fadiga, a mulata dormiu, esquecendo-se do estipulado. Lá pela madrugada acordou e sentiu que a menina se agitava na rede.
— Ritinha! chamou.
— O que é?
— Ainda estás acordada?
— Estou, sim. Tu é que dormiste, apesar do que tinhas prometido.
— Mas, menina, olha que isto já é de madrugada.
— Mas se eu não tenho sono...
— Agora!...
— Sério, não tenho.
E passados alguns minutos:
— Oh! Benedita, a quem achas mais bonito, ao seu Moreira ou ao Miguel?
— Ora, que lembrança!
— Dize sempre.
— Ao Miguel, e tu?
Não respondeu.
— É ao seu Moreira? perguntou de novo a mulata.
— É bem, disse a Rita.
— Ao seu Moreira?!
— É bem.
— Ora sai-te daí.
Calaram-se; de novo começou a rapariga:
— A Josefa e a Joana gostam muito do seu Moreira...
— Essas gostam de todo o mundo. E ele gosta de alguma delas?
Novo silêncio da menina. Afinal respondeu:
— Duvido!
— Ele deve ter deixado namorada no Pará.
Rita agitou-se na rede.
— Estes moços da cidade, — tornou a Benedita — desde que têm dez anos já namoram, e mudam de namorada. Uma não agrada muito tempo.
— Mas há alguns que são sérios.
— Quais! todos são a mesma coisa.
— Seu Moreira é?
— Seu Moreira parece um moço sério, mas há de ser santinho de pau oco... os sonsos são os piores.
— Josefa disque reza todos os dias um padre-nosso a Santo Antônio para que não a case com matuto.
— E qual é o moço da cidade que há de querer casar com ela?
— Joana disque antes quer ser solteira toda a vida do que ser mulher de roceiro!
— E então o que tem ser mulher de roceiro? É algum pecado?
— É Joana quem diz, não sou eu.
— Tomara ela pilhar um roceiro.
— Outro dia seu Moreira contou uma porção de histórias de roceiros, que iam pela primeira vez à cidade. Eu já não podia de me rir.
— Ora aí está... não vejo nada de admirar.
Minutos depois a Rita recomeçava a conversa que o último dito da mulata finalizara.
— O seu Moreira disque tem cinco calças de casimira.
— Cinco?!
— Cinco, sim. Miguel não tem nenhuma.
E depois de uma pequena pausa:
— Eu se fosse homem, queria ser oficial. Acho tão bonito...
— Bonito é, mas é arriscado quando se vai para a guerra.
— Seu Moreira disque não vai para a guerra, porque está doente, e porque o médico disse que ele morria se saísse do Pará.
— Então fez bem em não ir... primeiro que tudo a saúde.
— Mas ele já está bom, disque.
— Então não há de tardar em voltar para a terra dele.
A rede da filha do tenente agitou-se desta vez mais violentamente do que das outras vezes, tanto que chamou a atenção da Benedita.
— Mas o que é que tu tens, rapariguinha?
— Nada.
— E para que estás assim sacudindo a rede?
— É... cãibra. Estou com o pé dormente.
— Pois se ficas todo o tempo com a perna de fora...
— É para poder embalar-me.
Já o dia começava a clarear. As galinhas, acordadas pelos primeiros raios do sol, desciam dos poleiros, e ciscavam cacarejando no terreiro. Ouvia-se já abrir uma ou outra porta da casa pelos escravos madrugadores, e ao longe, no cacaual, a araponga saudava a aurora.
— Levaste a noite toda acordada, Ritinha, pois isto tem jeito?
— Ora, o que tem? Se eu não tenho sono. Estou até com vontade de ir tomar banho...
— Deus me livre... era capaz de morrer de frio!
— Então vai acordar a Martinha para fazer café.
— Espera um pouco, é muito cedo.