XIX
O Moreira demorou-se três dias no sítio do Ribeiro, e por duas ou três vezes neste tempo encontrou-se com a Rita no cacaual ou no porto. O que os dois conversavam ninguém sabia. Só a Benedita parecia andar preocupada, e espiava constantemente a afilhada do tenente. Rita mudara muito; já não trepava nas árvores, e as mulatas podiam coser descansadas, que os antigos beliscões não as atormentavam mais. A moça levava horas inteiras sentada ao pé da Benedita, ouvindo-a falar dos vizinhos, e contar as histórias que mais lhe agradavam. Tinha maior cuidado no vestuário, e nunca mais tivera o pai ocasião de dizer-lhe:
— O que quer dizer esta maneira aberta? E ainda não fechá?
Quando ia ao banho, longe de ir desgadelhada e descalça, como antes costumava, saía já penteada e pronta do quarto. Nadava sempre, e atravessava o rio, mas silenciosa, e sem fazer chorar os moleques de cinco anos, que tinha por hábito ensinar a nadar à força. Se no meio do banho passava algum cedro levado pela corrente, limitava-se a segurar-se a ele e trásel-o puxando-o para beira, mas não trepava em cima, fazendo dele canoa, segundo os seus costumes anteriores; e até quando alguma das rapariguinhas que se banhavam em sua companhia, punha-se de pé sobre o madeiro, passeando em toda a sua extensão com ares de comandante que dá ordens em um naviu, não deixava Rita de dizer-lhe:
— E ainda não desces? Podem te ver lá de casa!
Até as galinhas andavam descansadas. A Rita parecia renunciar a quase todos os seus antigos prazeres.
Moreira por sua parte procurava todas as ocasiões de achar-se só com ela; o rapaz parecia decidido a fazer-se genro do tenente. Qual fosse o verdadeiro motivo por que ele, um moço do Pará, por cujas estrelas tanto se enthusiasmam os oficiais da nossa armada, se mostrava apaixonado por uma roceira sem educação, isso não poderíamos dizê-lo; o que é certo é que, ou o amor o surpreendesse, ou os trinta mil pés de cacaueiros, as seis léguas de terra e os escravos do tenente lhe dançassem na cabeça, os três dias passados no sítio depois da festa do José Lopes foram suficientes para determinar o triunfo completo da Rita.
Na manhã do quarto dia, às seis horas, o oficial embarcava-se de volta para Óbidos, e o tenente dizia-lhe, ao despedir-se:
— Olhe o urucurizal... você sabe que importância eu ligo à questão...
— Não tenha susto, respondeu o moço, não tenha susto, que o Abreo desta vez vai receber uma lição!
— É isso mesmo que eu espero... e conte com o meu reconhecimento. Depois a coisa é fácil, se você fizer o que eu lhe disse. Conte com o meu reconhecimento.
— Só quero a sua amizade.
Os adeuses de Rita tinham sido diferentes; não lhe recomendara a rapariga a questão do terreno disputado, mas sim que não tocasse no porto do José Lopes.
— Olhe que eu sei tudo, — dissera — se se esquecer de mim lá em Óbidos, tenho quem me diga.
— Pois acredita que eu posso esquecel-a?
— Sim, o dizer é bom... mas acabe logo com o que tem de fazer em Óbidos. Não vá valer-se da questão para demorar-se muito tempo, senão...
— Em menos de quinze dias estou de volta.
— Ih... ih! — fez a rapariga — é tempo de sobra.
— Creia que não é... o tenente que o diga.
Separaram-se com a chegada da Benedita, que não podia ocultar a alegria que sentia pela partida do alferes. O moço disse-lhe rindo:
— Adeus, Benedita; então ainda tem muita raiva de mim?
— Credo, nhô aquele, quem foi que lhe disse isso?
— Ora quem me disse... eu é que vejo...
— E porque haveria de ter raiva de você? Nunca me fez mal...
— Eu sei lá... às vezes a gente faz mal sem querer!
Quando a canoa largou do porto, o tenente em pé no cedro, que servia de ponte de embarque, acompanhava com a vista o seu rápido deslizar; a Rita fora às carreiras postar-se em um lugar alto, donde se via o rio até grande distância, e de lá contemplava o Moreira, que sentado na proa da canoa fumava um cigarro. A Benedita andava pela casa dando ordens, arrumando tudo, e de vez em quando murmurava:
— Qual! Digam lá o que quiserem... o Miguel sempre é mais bonito. Agora aquela tonta que só quer moço da cidade!
Na noite desse mesmo dia o tenente deitado na rede conversava com a mulata, sentada em um banquinho e fumando, à pequena distância. A Benedita dizia:
— Pois é assim mesmo, sr. tenente, não sou capaz de adivinhar o que tem a Rita. Tem mudado que é um Deus nos acuda!
— Ora qual, mulher, que estás tu dizendo?
— Sócco, sr. tenente! Pois olhe que é verdade.
— Mas então o que há?
— Não pula mais como antes, não dá nos moleques, não sobe nas árvores, não anda de pé no chão...
— Isso até é melhor, tem ares de menina, e não de tapuia...
— Havera! A mim é que não me engana.
— O que é então, mulher de Deus?
— Quem não vê logo que aquilo é por causa do seu Moreira?
— Qual! A Rita ainda é criança...
— Vuncê é que diz...
— Então achas que o alferes agradou à menina, e que ela quererá casar com ele?
— Quem não havia de querer... só se fosse eu; pois se ela está doida por isso...
— Quem sabe? Estas meninas...
— Pois se está... Olhe, sr. tenente, você fez muito mal em ter trásido aqui para o sítio o moço do Pará, que é um namorador de mão cheia. Era melhor que ele nunca tivesse aparecido aqui!
— E então porque? Que mal ha em que ele case com a Rita?
— Que mal? Gostava mais que fosse um homem mesmo d’aqui do Paraná-miri, e depois parece que ele não há de querer casar com uma rapariguinha, como a Rita...
— E porque? Ora deixa-te de asneiras. Hás de ver que é ele mesmo quem me pede a rapariga. Quando casarem vão lá para onde quiserem, e passem muito bem.
— E o Miguel!
— O Miguel! E o que tem ele neste negócio, que me importa o Miguel? Faço lá caso dele? Pois não vês que não vou dar a minha filha a um sujeito teimoso, e que me faz toda a espécie de desaforos! Ah! — continuou o tenente levantando-se, e pondo-se a passear no quarto — Aqui mesmo é que eu queria pilhá-lo, seu troca-tintas! Pensava que eu não sabia da história toda? Pensava que eu não sabia dos seus passeios no meu cacaual? Mas, está enganado! Você é muito fino para casar com uma mulata. Procure a Josefa ou a Joana, que são da sua igualha. Bem dizia o patife do João Faria, que Deus haja, que quem teimasse comigo havia de no cabo ser vencido... pois há de ser o filho mesmo que há de provar!
O tenente estava agitado, a boa Benedita procurava acalmal-o.
— Agora também você, sr. tenente! Pois não vê que o Miguel é uma criança?
— Criança, criança malcriada, potro bravo! — bradou o tenente, e abaixando-se para falar de mais perto à caseira:
— Tu pensas, Benedita, que aquilo é só do Miguel? Pois estás enganada, ali anda também a d. Ana...
— Ara, o que! Uma mulher tão descansada!
— Pois fica sabendo que não gosta de mim, e que mesmo só gosta da sua pessoa! Ainda não me esqueci do não que me deu quando eu era tão pateta para querer casar com ela. Também quando pensou que eu havia de voltar... nicles... já não era tolo. Por isso é que ela incita o filho a guerrear-me... oh! eu bem os conheço... desde o capitão até o maroto do Miguel!
O tenente deitou-se de novo, e embalou-se fortemente com o pé. A Benedita não se atreveu a responder-lhe coisa alguma, e Ribeiro continuou, como falando consigo mesmo:
— Eles pensavam que haviam de ser os senhores do Paraná-miri para sempre... mas aí estava o mulato Ribeiro; que os havia de ensinar. Por isso não deixaram de perseguir-me, meteram-me na cadeia, recrutaram-me, fizeram o diabo comigo, e querem que eu esqueça... vão esperando. O bonito é aquele padre maluco acreditar que eu queria a amizade do sobrinho, porque fingia ter amizade ao João Faria... depois o João Faria era outro homem! Foram-me ferindo, foram-me ferindo, agora aguentem, que mulato também tem orgulho.
O tenente continuou assim zangado e murmurando ameaças à família de João Faria, durante grande parte da noite. A Benedita que, apesar de toda a sua franqueza e importância, não deixava de temer o tenente, quando via que a raiva era grande, continuava a aspirar o fumo do cachimbo, mas calada.