XI
O tenente fechou a porta, acendeu um novo cigarro, apagou a luz, por causa das pragas e deitou-se; mas os seus familiares ouviram durante toda a noite o ranger das cordas da rede na madeira, sem que pudessem explicar a insônia do dono da casa.
Mal aparecia o dia e o Ribeiro já estava de pé. Cobriu a cabeça com um lenço, precavendo-se assim do orvalho que àquelas horas cai abundantemente, e pôs-se a passear no terreiro. Depois de ter andado um bom quarto de hora, encaminhou-se para o porto, subiu no cedro que servia de ponte, tirou a roupa, e meteu-se n'água até o pescoço, permanecendo ali uma grande porção de tempo.
Afinal à chegada dos moleques e molecotas, que vinham em baldes de cuia encher água para o gasto diário da casa, e que arregaçando as camisas e saias metiam-se no rio até a cintura, foi saindo para a terra, dando com uma mão a bênção aos escravinhos, que a pediam ruidosamente. Quando chegou de novo ao terreiro a Rita e a Benedita, desgrenhadas, esperavam sentadas na soleira a sua volta, para irem por seu turno tomar o banho cotidiano.
E levantou-se.
Às sete horas trouxeram-lhe, segundo o costume, uma boa cuia de mingau de banana verde, ao mesmo tempo que a Rita e a Benedita distribuíam a ração do mesmo alimento a uma multidão de meninos de todas as cores e de ambos os sexos, que faziam uma algazarra formidável, de pé, em torno da mesa da varanda.
O tenente não estava naquele dia de bom humor. Em vez de pôr-se a ler o Arquivo Pitoresco, segundo o seu hábito, cruzava a casa em todos os sentidos, e levava a pontapés e bofetadas os moleques que encontrava no caminho. Por isso se, quando as crianças estavam a brincar trepadas nas madeiras do depósito, rolando por sobre o cacau do paiol, sentadas em roda da panela que fervia no fogão, a disputarem sobre quem a lamberia, aparecia o irascível senhor, lá se iam poeirando, e voavam pelas árvores do terreiro acima, prevendo os pouco desejados pontapés.
A Rita, essa tremia sempre que via o pai naquele estado. Nem mais se lembrava de beliscar as mulatas, que, ressentindo também a influência do mau humor do senhor, cosiam caladas, sentadas no topé. Só Benedita conservava toda a liberdade de língua e de gestos.
— Aquilo foi por força zanga com o Miguel; — dizia ela à Rita; — ora para que haviam de dar estes homens! Brigam por causa de um terreno que eu não queria de graça! E ele então a quem nós queremos tanto bem... ainda se fosse o Mendes! Eu aposto que o sr. tenente fez tudo para não brigar... mas aquele Miguel é um menino muito teimoso. A esta hora já deve ter começado a questão lá na cidade... o que terá feito o seu Moreira?
— Quem sabe?
— Ora só quero ver o que ele há de fazer... lá por ser moço de cidade, não é que há de prestar para tudo.
— Aposto que ele vai dar capote em toda aquela gente... meu padrinho gosta muito dele. Que diferença da dança dele para a do Miguel!
— Aí vamos...! deixa lá, Rita, eu gosto mais do Miguel. Sempre é um menino que a gente já conhece.
— Mas é matuto.
— Olhem quem fala! Então tu não és matuta, teu padrinho não é?
A moça não respondeu porque o tenente chegava-se ao grupo. Ribeiro pôs-se a examinar a filha por algum tempo, como quem desejava encontrar alguma coisa, e disse depois do exame em tom de zanga:
— O que quer dizer esta maneira aberta, menina? E ainda não fecha?
A rapariga obedeceu prontamente.
O tenente esteve assim todo o dia. À noite porém acalmou-se, e foi já sem ralhar muito com os negros, que deu-lhes as ordens para o dia seguinte.
Na manhã do seguinte dia estava Ribeiro passeando no cacaual, do lado por onde se comunica o seu sítio com o de d. Ana, quando encontrou-se cara a cara com o padre José, que, pelos modos, viera visitar a propriedade do pupilo.
— Oh! por aqui, padre mestre?
— Deus seja louvado! Parece que tivemos ambos a ideia de vir ver a estas horas como ia a safra.
— Parece... Como tem passado a d. Ana? e o seu menino?
— Vão todos indo com a graça de Deus, graças à Mãe Santíssima...
— Fazia-o em Óbidos.
— Já devia estar lá, há muito tempo, mas demorei-me nem eu sei mesmo por quê... A mana quando me pega, custa a deixar-me. Depois o sítio é tão agradável...
— Não há de gostar disso o sobrinho... queria tê-lo antes na cidade para zelar-lhe a causa...
— Ora... o Miguel que se fomente! Por mais que fizesse não consegui arredá-lo da questão. Depois o maroto soube convencer a mãe, que é quem representa neste negócio. Prometi ao pai, que Deus haja, deixá-lo fazer tudo o que lhe aprouvesse quando completasse dezoito anos, e embora a lei me dê certos poderes sobre ele, não quero faltar à minha palavra... Conselhos é que não lhe faltam:
— O pequeno é muito orgulhoso... e atrevido! Acredita que ontem foi à minha casa, só para insultar-me?
— O que está dizendo, tenente?
— A verdade. Você sabe que eu quero ser amigo do filho, como fui do pai... mas compreende que não hei de estar aturando desaforos.
— Homem... olhe que está me contando novidades!
— Pois, padre mestre, aqui me vê muito sentido, porque realmente eu não esperava tal de um moço que foi sempre muito bem recebido em minha casa, sempre tratado como se fosse da família.
— Com efeito!
— Já, outro dia, mandou quebrar, ou foi ele mesmo quebrar uma canoa de pesca que eu tinha no lago, com o pretexto de que o lago lhe pertence, quando desde o avô, que eu pesco ali...
— Isso é verdade.
— Você bem vê, padre mestre, qual é a minha posição neste negócio. É impossível que isto continue...
— É, eu reconheço que é!
— Se é!
O padre esteve algum tempo a coçar o queixo e afinal estendendo a mão ao tenente:
— Descanse, hei de fazer o que estiver ao meu alcance para pôr o Miguel no caminho direito, recta via. Conte comigo.
Separaram-se. De volta para o S. Miguel, ia o José Fernandes murmurando:
— E que tal? Sai-se-me o rapaz pior que o pai! E o Ribeiro que julga que eu me interesso muito pela sua pessoa... que eu hei de estabelecer a concórdia entre os dois... Mas, qual! Aquilo é mina. Tão bom é um como o outro, e o tenente é mais esperto. Finge-se ofendido para poder dar de cima. Eles provocam-se mutuamente, porque o Paraná-miri é pequeno para as suas ambições.
Mas o que terá feito o estonteado do meu sobrinho ao mulato? Aposto que lhe foi falar no casamento da filha com o Moreira... pois se ele está apaixonado por aquela cabrocha! Mas como conciliar as duas coisas? Isto é de fazer quebrar a cabeça! Ora lá se avenham!
Quando chegou ao sítio encontrou o padre José o sobrinho a limpar uma espingarda. Miguel levantou-se, saudou-o, porque ainda não o vira naquele dia, e continuou o serviço.
— Belas coisas acabo de saber, começou o padre.
— O quê?
— Queixou-se-me o Ribeiro de que o foste descompor em sua casa...
— Ah! queixou-se?
— Queixou-se, sim. Disse que estranhava muito isso da tua parte, porque sempre te recebeu bem, e outras mil coisas mais... que sei?
— E o que quer ele!
— Ora, o que quer? Pediu-me que te repreendesse, que te aconselhasse...
— É isso, como a uma criança malcriada, que me amansasse como se amansa um potro! E Vmc. disse que sim?
— Ó rapaz, pois eu havia de prometer isso? Não vês logo que eu não me importo com o que diz Ribeiro? Mas enfim, acabou o padre com voz adocicada.
— Olhe, meu tio, disse o rapaz levantando-se — não me fale mais nisto. Eu sei o que hei de fazer com aquele mulato.
— Deixa-te de imprudências... olha que Ribeiro...
— Já olhei, e olhei demais. Tenho dito cem vezes que não me mete medo.
— Não é isso, mas é que...
O padre interrompeu-se como quem não sabia mais o que dizer. Mas de repente veio-lhe à lembrança observar:
— E a Rita?
— A Rita... Que case lá com o seu oficial, que isso não me importa.
— Rapaz, essa agora...
— Pois é verdade. Já gostei muito dela, quando era tolo... mas hoje! Que seja muito feliz com as barbas do marido, é só o que lhe desejo.
— Tu estás despeitado...
— Não estou, meu tio, não estou. Pensei bastante, e vi que era tolice estar a gente a sofrer por causa de uma moça, que não é mais do que muito faceira.
— Bravo! Afinal criaste juízo! Conheceste que a rapariga não é senão a filha bastarda do Ribeiro, que todos sabem ser filho da velha Mônica, mãe preta do José Lopes. Olha, estou tão contente com isto que até sou capaz de gostar que faças guerra ao tenente...
E no seu entusiasmo o padre atirou-se na rede, e gritou para dentro:
— Joaquina, manda um porre!