II
Por uma manhã de janeiro estava d. Ana, sentada na maqueira da varanda, embalando-se levemente, e sorvendo a pequenos tragos o café costumeiro. As mulatas todas metidas na cozinha, cuidavam de diversos misteres. A viúva estava só com o filho; Miguel, sentado em um banco de pau, tinha junto a si um grande feixe de paxiúbas, e acabava de dar a última demão num grande arco que destinava à pesca da tartaruga.
O filho de João Faria teria então de dezessete a dezoito anos, era alto, magro, de tez morena e cabelos castanhos; tinha os pés e as mãos grandes, e um balançar de braços, quando andava, que fazia as delícias de todas as raparigas do Curumú cury e Sapucuá. Lia-se-lhe nos olhos grandes e vivos a franqueza e a energia de que era dotado e a voz aspera e forte casava bem com aquele todo. Vestia naquela ocasião calças e camisa de riscado azul, e calçava pequenos chinelos de couro cru que mal lhe chegavam a meio pé. A camisa desabotoada no colarinho deixava-lhe descoberto o pescoço grosso e robusto. Os cabelos bastos, compridos e corredios caíam-lhe desmazeladamente sobre a fronte.
— Veremos o que dirá o mano padre — resmungava d. Ana sem olhar para o filho — aquilo sempre é alguma patifaria do Ribeiro!
— Olá, se é! — acudia Miguel, sem interromper o trabalho — aquela cara nunca me enganou; meu pai, que Deus haja, é que fez mal em não tê-lo ensinado. Pois já se viu tamanho atrevimento? — acrescentou o rapaz com os olhos brilhantes. — Mas é porque ele julga que encontra cá uma criança...
— Só queria que ele me dissesse qual foi o mal que eu lhe fiz. Até fui sempre muito boa vizinha, não é para me gabar; quando o seu gado passava para o meu cacaual, nunca o mandei matar, como faz agora ao meu por qualquer coisa. Esta gente, meu Deus me perdoe, não quer ser bem tratada!
E d. Ana, dando um suspiro, abaixou-se, descansou a xícara no chão, tomou do cachimbo e começou a enchê-lo de excelente tabaco do Tapajós, gritando ao mesmo tempo, quanto lhe era possível gritar:
— Gertrudes, traze fogo.
Uma mulatinha de doze anos apareceu trazendo um enorme tição, e chegando-se à senhora pôs-se em posição de acender-lhe o cachimbo. A viúva depois desta importante operação tirou duas fumaças, e continuou:
— Uma noite, (e quem me contou isto foi o compadre Capucho, que não mente) o seu tenente vai com dois negros ao lugar do marco, arranca-o, e vem enterral-o três braças pelas nossas terras a dentro; ora isto ninguém sofre, e eu sofri para não brigar...
— Nisto é que vossa mercê não andou bem. Olhe, aí está a razão porque ele se atreveu a mais.
D. Ana não replicou ao filho; continuou a embalar-se e aspirar o cheiroso fumo. Miguel continuou:
— Manda o tapuio pescar aqui no lago, não se lhe faz nada, e ainda em cima ameaça duramente uma escrava nossa, só porque lhe furtou duas libras de cacau... Olhe eu, por mim, hei de remediar este negócio como puder. Havemos de ver quem tem direito ao terreno do Urucurizal; estou só à espera da resposta do tio José...
— Mas o que então tu queres fazer, rapazinho?
— E há de ele continuar a incomodar-nos, sem que se lhe possa dizer nada, só porque é o sr. tenente Ribeiro? Ora esta é boa! Afinal de contas ele não é nem rei nem príncipe, e até está bem longe disso.
— Este Miguel tem um gênio...
— Não é gênio, minha mãe, não é; o que eu não quero é que o mulato pense que a gente tem medo dele.
Nisto foi o rapaz interrompido pela chegada de um moleque, que lhe veio anunciar que se avistara uma canoa.
— Uma canoa? E vem de baixo ou de cima?
— Vem de baixo — respondeu o moleque.
Miguel saiu para o terreiro, subiu a uma pequena elevação, e amparando a vista com as mãos, deitou-se a olhar para o rio; minutos depois estava de novo na varanda, onde a mãe o interrogou:
— Então?
— É gente do padre José — respondeu — conheci o Ambrósio; a canoa é do José Pequeno, e traz dois remeiros.
— Ora graças! — acudiu d. Ana. E voltando-se para o lado da cozinha disse:
— Gertrudes, traze fogo.
Pouco depois a canoa anunciada encostou na ponte do sítio; saltou dela um caboclo baixo e gordo, vestindo calças e camisa de algodão tinto de murixi, e coberto com um grande chapéu de palha de tucumã. Endireitou pelo caminho acima sem dizer palavra, e só veio parar junto à maqueira de d. Ana.
— Eanecuêma, nhá branca — disse então tirando o chapéu.
— Eanecuêma (bom dia) — respondeu a viúva de João Faria.
O caboclo apresentou-lhe uma carta fechada, que tirara do bolso:
— Aqui está que o patrão mandou para você.
D. Ana tomou a carta da mão do portador, mirou-a e remirou-a, e acabou por entregá-la ao filho, que se aproximara.
— Toma — disse-lhe — vê o que diz teu tio.
Miguel abriu o papel e levou algum tempo a lê-lo mentalmente; depois como a mãe o interrogasse, o rapaz pôs-se a dizer sem tirar os olhos da carta:
— Disque o dr. Abreu encarrega-se da questão, que tem certeza de ganhá-la, mas que é preciso gastar muito dinheiro. Disque também, eu devo falar ao velho Capucho, ao Inácio Antunes e ao Martinho Mendes para servirem de testemunhas como os moradores mais antigos do lugar. Manda lembranças a todos de casa.
— É preciso gastar muito dinheiro — observou a respeitável viúva.
— É sim, redarguiu o filho, — mas ao menos o patife há de conhecer que nós não somos a velha Eufrásia, a quem roubou escandalosamente o ano passado.
— Este Miguel! Mas olha, meu filho, que o Ribeiro é homem de manhas... aquilo só sendo protegido pelo inimigo.
— Pois agora há de conhecer. Ora que já não se pode fazer nada neste Paraná-miri sem licença do tenente! Um preguiçoso que leva todo o santo dia no fundo da rede, e que anda de meias pelo cacaual... Minha mãe, vossa mercê deixe-me dirigir este negócio, não se meta nele que há de ver o bonito.
E o resoluto rapaz pôs-se a passear pela varanda.
— Meu Deus, meu Deus — suspirou a mãe — quem viu Óbidos e quem o vê! Ah! se o sr. João fosse vivo!
— Não é, — acudiu Miguel, mas cá está o filho que é tão bom como ele.
A viúva esteve calada algum tempo com o olhar fixo numa galinha que ciscava ali perto, e com o lábio inferior destendido com ares de quem medita. Miguel sentara-se e continuara a tarefa interrompida pela chegada da canoa. O caboclo velho, encostado num esteio, esperava mudo que lhe dessem alguma coisa. Minutos depois, d. Ana voltou-se para o filho e disse como que a medo:
— Pois sim, Miguel, faze lá o que quiseres, mas consulta teu tio.
D. Ana era mulher que estimava a sua tranquilidade de espírito acima de outra qualquer coisa. Já dissemos que até a ir ver o filho no tempo em que este estivera em casa do padre, a viúva de João Faria não se resolvera nunca, apesar do amor que lhe votava; preferia chorar só no fundo da maqueira e sofrer saudades a correr o incômodo de uma viagem de algumas horas pelo Amazonas abaixo. Costumava ela por isso suportar as ofensas mais ou menos graves que lhe faziam os vizinhos, respondendo invariavelmente aos amigos que a incitavam a alguma questão: “eu não quero brigar.”
À vista disto era para admirar que a mãe de Miguel se resolvesse afinal a propor uma demanda ao tenente Ribeiro, proprietário vizinho; mas é, que outros motivos que não o interesse de conservar o terreno que lhe disputava Ribeiro, a levavam a isso.
O tenente fora um dos rapazes que haviam pretendido a mão de d. Ana, quando ela ainda era solteira; recusado pelo pai em razão dos seus poucos haveres e da sua origem, e pela filha em razão talvez da cor. Ribeiro não se mostrara muito sentido por isso, ainda que o seu orgulho tivesse sido profundamente ferido pela recusa. Esta indiferença afetada não tinha agradado à filha do capitão Fernandes, que não podia avistar o rosto sempre alegre de Ribeiro e ouvir a sua voz zombeteira sem sentir um íntimo despeito.
Desde o casamento de João Faria que o pretendente desprezado não cuidara senão em enriquecer; todos os meios lícitos lhe serviam. Sagaz e inteligente, ainda que mal educado e cheio de vícios conseguira assumir na comarca uma posição importante. Era temido e respeitado. Por ocasião da sua viuvez d. Ana julgara que o tenente lhe viria de novo bater à porta, lisonjeara-se antecipadamente com a ideia de recusar ainda uma vez a mão do orgulhoso mulato, mas o despeito subiu de ponto quando viu que Ribeiro parecia mais indiferente do que nunca aos seus atrativos, e que até se mostrava verdadeiramente aflito pela morte do português.
Aí está porque d. Ana, a boa senhora, tão pacífica e sossegada de costume, prezando sobretudo o seu repouso, consentia agora na demanda contra o vizinho; desejava que ao menos uma vez este lhe reconhecesse a superioridade. O amor próprio ofendido falava mais alto que todas as suas afeições.
Miguel, natureza virgem, caráter indomável, dificilmente veria com tranquilidade as insolências do mulato; por isso quando a mãe disse-lhe consentir na demanda, atirou os arcos para um lado, e deitou a correr pelo terreiro como uma criança; precisava significar a alegria de que estava possuído por algum acto exterior; pegou numa pedra, e arremessou-a contra uma piassoca (jaçanã), que voava perto do curral. O pobre pássaro ferido na cabeça caíu imediatamente.
— Vou já falar ao Capucho — disse o rapaz voltando para junto da mãe — é preciso aviar.
— É cedo — observou d. Ana — espera pelo almoço.
— Pois sim, tenho ainda tempo. Você, mestre Ambrósio, quando volta para a cidade? interrogou dirigindo-se ao tapuio.
— O patrão disse que voltasse amanhã ao mais tardar.
— Pois então pode descansar que só irá amanhã. Vá para a cozinha e diga à Teresa que lhe dê de almoçar, deve estar com fome. Quando saiu da cidade?
— Saímos ontem de tarde.
— Pois olhe que andaram bem. Neste tempo o rio já corre bastante. Vá descansar, ande.
Ambrósio retirou-se. Miguel espichou-se em cima de um banco, e gritou:
— Moleque!
Apareceu o moleque que anunciara a chegada da gente do padre.
— Dize a tua mãe que tire o almoço. Anda, canalha!
O apostrofado desapareceu. Meia hora depois almoçavam a mãe e o filho. D. Ana não saíra da maqueira; comia com o prato sobre os joelhos, e não usava do talher nem de guardanapos. As suas mulatas prediletas almoçavam também, sentadas na esteira que estava debaixo da maqueira. Miguel comia sobre a mesa grande da varanda servido por dois moleques, cujas orelhas puxava alternativamente por qualquer ninharia.