III O Cacaulista · Capítulo 5 de 27
Obra Menu

III

Eram duas horas da tarde, quando Miguel, coberto com um chapéu do Chile, ornado de uma larga fita negra, cujas pontas lhe caíam sobre a orelha esquerda, e armado de um enorme terçado americano, encaminhou-se para o cacaual. O calor do sol abrasava; tudo estava silencioso, nem a menor aragem balouçava as folhas das árvores; o gado repousava à sombra das embaúbas, e só ao longe nos aningais se ouvia a voz do unicorne, de espaço a espaço cortando o silêncio.

Em casa começara a sesta. D. Ana dormia na varanda, as mulatas cochilavam, e até os moleques, tão barulhentos de ordinário, deitavam-se calados no regaço das mães, que sentadas no chão da cozinha, conversavam em voz baixa e preguiçosa.

No Amazonas o tempo que medeia entre as doze horas do dia, e as três e meia da tarde é tempo perdido; o calor acabrunha, homens e animais entregam-se ao sono ou ao menos à imobilidade e ao silêncio.

Porém Miguel era moço, vivo, e estava empenhadíssimo na contenda com o tenente; pouco lhe importava a hora. É verdade que o caminho que tinha de seguir até a casa do Capucho era pelos cacauais, onde o sol não penetra e onde mesmo nas horas de maior calma sempre há algum fresco. Assim quando se sai da área, onde está a casa, e onde a claridade é vivíssima e o calor intenso, e se entra no cacaual, sente-se uma mudança grande, mas agradável.

Miguel ia devagar; parava de vez em quando para arrancar os ramos secos dos cacaueiros, e destruir as enormes casas de cupins e periquitos que cobrem estas árvores. Os seus pés enterravam-se no montão de folhas secas e úmidas que lastravam a terra, e por diversas vezes tivera ele de dar voltas para evitar os grandes charcos, originados das primeiras águas de dezembro.

O rapaz não podia deixar de pensar constantemente no fato que o levava àquela hora ao sítio do Capucho; afinal ia ter ele uma questão com o seu vizinho. Oferecia-se uma ocasião de quebrar o gênio ao mulato, e o filho de d. Ana não calculava os riscos da empresa.

A primeira vez que se tinham encontrado os dois cacaulistas, depois que Miguel fugira da casa do tio, fora em Juruti, no dia da festa do Padroeiro, que cai em dois de fevereiro, se não me engano.

Primeiro desapontamento. Miguel fora à paisana, porque não era senão um paisano, e Ribeiro envergara a sua brilhante farda de tenente da guarda nacional da reserva, e tinha na cabeça uma daquelas grandes barretinas empenachadas, de forma alta e cilíndrica, que dantes se usavam. Depois como, por fim de contas, Miguel não passava de uma criança e o tenente era um dos principais lavradores de Óbidos, homem importante na política, que se correspondia com um deputado geral, todas as atenções e cortesias foram para ele. No jantar do dia da festa, puseram-no à cabeceira da mesa, e o Teodoro Mulatinho, juiz do Padroeiro e inspetor do quarteirão, fez-lhe duas saúdes; até o padre José chamou-o honestus vir, e apertou-lhe a mão.

O filho do João Faria esperava tirar a desforra na ocasião do baile; contava como certo que a sua mocidade lhe daria fácil vitória sobre o tenente. Mas aí o esperava a segunda decepção.

Ribeiro foi o primeiro a escolher par, ninguém ousou adiantar-se-lhe. Os homens solicitavam a honra de servir-lhe de vis-à-vis, e as moças brigavam por causa dele. Não deixou de dançar nem quadrilhas nem polcas, e uma matutinha atrevida pregou uma taboca no nosso rapaz para agradar ao tenente.

Era demais.

Miguel, despeitado, retirou-se antes de acabar a dança; nem mais quis demorar-se em Juruti, meteu-se na canoa e mandou remar. Quando se achou deitado sob a tolda, desatou a chorar; contivera-se por muito tempo.

Desde essa ocasião a custo reprimia o moço a sua aversão ao vizinho; fugia de encontrá-lo, e era para ele um suplício o ter de tratar pessoalmente com Ribeiro.

Avalie pois o leitor que empenho não tinha Miguel na demanda do Uricurizal.

Era embebido nestes pensamentos que caminhava pelo cacaual. Seguia a princípio a vereda pela qual comunicam entre si os sítios, mas quando tinha transposto o limite da sua propriedade foi obrigado a desviar-se por causa de um grande charco que não poderia galgar pulando. Internara-se mais pela floresta dos cacaueiros, e continuara o caminho, quando uma gargalhada argentina, vinda do alto, despertou-o bruscamente da sua meditação, ao mesmo tempo que uma chuva de cascas de goiabas lhe caía sobre a cabeça.

Miguel ergueu os olhos e sorriu dizendo:

— “Ah! é você?”

Trepada numa goiabeira estava uma rapariga, que poderia ter dezesseis anos; tinha as saias presas entre as pernas, e os chinelos haviam ficado ao pé da árvore; a moça comia goiabas e desfazia-se em risos.

De um pulo Miguel subira para junto dela. Pelos modos eram conhecidos velhos. O rapaz sentou-se no ramo mais grosso da árvore, e sem cerimônia começou a fazer o que fazia a companheira, a comer frutas. Estiveram assim a olhar-se rindo, e por fim Miguel interrogou:

— Que faz você, Ritinha?

— Não vê? Meu padrinho não está em casa, a Benedita está dormindo... nas horas da sesta gosto mais do cacaual; é mais fresco.

E a travessa rapariga tendo avistado uma penca das suas frutas prediletas no galho mais alto, lá se foi ligeira colhê-la.

Quando voltou disse ao filho de João Faria:

— Então você esquece-se assim da gente? Não sei que milagre foi vê-lo eu hoje... tem aparecido tão poucas vezes depois que voltou da cidade... não é mais como dantes que nos víamos todos os dias.

— E acha que mudei muito?

— Mudou em tudo, até era mais bonito em pequeno.

— Ora, qual!

— É certo; agora pode ser que quando lhe crescer a barba fique outra vez mais lindo. Tenha cuidado em deixar toda a barba; não gosto de caras peladas.

— Então não gosta da minha?

— E não mesmo.

Miguel fingiu-se amuado, e aproveitou-se disto para beliscar o braço da companheira, dizendo:

— Faladora...

A moça soltou um gritozinho, mas não ficou sem vingar-se; dois dos seus pequenos dedos apertaram com força a pele do braço de Miguel, que ficou impassível. Então subiu ela pela árvore acima, e quando chegou à extremidade de um galho fino e flexível, sem mostrar o menor receio de que este quebrasse com o seu peso, debruçou-se para o amigo e atirou-lhe com acento amuado esta palavra:

— Feio!

— Tome cuidado, respondeu ele, olhe que vou pegá-la...

— Duvido!

Quando Miguel, que subira rápido, julgou poder segurar-lhe na orla do vestido, já a moça estava no chão; pulara intrepidamente daquela altura. Ele também não hesitou; atirou-se lá de cima e deitou-se a correr atrás dela. Afinal pararam cansados, e de comum acordo foram sentar-se no tronco de uma árvore caída ali perto.

Miguel esquecera-se completamente do que viera fazer ali, mas Rita chamou-o à realidade, perguntando-lhe:

— Como lembrou-se de vir hoje aqui?

— Ah! eu ia à casa do Capucho.

— Fazer o quê?

— Nada... negócios do tio José. Coisas lá deles de que eu não entendo.

— Do padre José... que queria fazer o Miguel sacristão... E riu-se.

— Queria, queria, mas eu também tenho querer... meti-me numa canoa e disse adeus a Óbidos.

— Fez muito bem... isto de ser padre não serve, porque depois a gente não pode casar-se... não há nada como ser oficial.

Miguel franziu os sobrolhos e calou-se; depois como que recordando-se:

— Você disse que o tenente tinha saído...

— Saiu; foi ao sítio da velha Rosa buscar um moço do Pará que lhe veio recomendado, e que não pôde chegar aqui ontem por via da chuva.

— Um moço, quem?

— Eu sei lá... meu padrinho não me disse nada, quem me contou foi a Benedita. O que eu sei é que lá em casa está-se preparando tudo para a chegada dele... há de haver um baile. Agora me lembro que estou aqui conversando e não sei se a Andresa encanudou o meu vestido... e até ainda não me vesti; o padrinho não pode tardar... vou já embora.

Nisto calou-se, e deitou-se a escutar um rumor que lhe parecia ouvir do lado do rio.

— É uma canoa, há de ser ele.

E levantando-se estendeu a mão ao rapaz:

— Adeus Miguel, apareça, não seja ingrato.

— Então já vai? sou capaz de apostar que não é o tenente.

— É, sim: ainda não estou penteada... você tem de ir à casa do Capucho, e já é tarde. Depois não pode voltar com a noite.

O rapaz espinhou-se com o dito; ergueu a cabeça e replicou:

— A noite? E eu tenho lá medo de andar de noite pelo cacaual?

— Olhem só o valentão...

— Ora, eu quando vim de Óbidos vinha só, remando uma canoa dia e noite... e era mais pequeno.

— Já se sabe, pávulo.

— Não duvide...

— Pois sim, na volta, não deixe de ir ver o baile... olhe lá! E estendendo de novo a mão ao rapaz disse com impaciência:

— Adeus.

— Adeus, Ritinha, adeus, já que está com tanta pressa...

— Estou sim, — respondeu a rapariga, calçando os chinelos — quero ver o moço que está para chegar. E deitou a correr.

Miguel ficara assentado, a vê-la desaparecer por entre as árvores.

Rita poderia ter, como já dissemos, dezesseis anos; era baixa e robusta, mas elegante, dessa elegância paraense que consiste principalmente numa desenvoltura de modos e num certo menear do corpo. Era morena, mas desse moreno pálido, que é próprio aos filhos do Amazonas; os cabelos negros e caracolados estavam presos no alto da cabeça pequena e bem feita por um pente de borracha; os olhos não eram grandes, mas vivíssimos e úmidos.

Tinha a moça dentes de deslumbrante alvura que apareciam sem a menor falha, quando dois lábios grossos, frescos e vermelhos se separavam num sorriso, o que acontecia frequentes vezes. O nariz pequeno e grosso, a boca regular. Os pés e as mãos de uma pequenez admirável, as acentuadas formas do corpo de uma rigidez que se percebia quando a rapariga andava: pois não tinha ela esse pisar macio das beldades cidadãs, mas o andar firme, duro, da moça do campo.

Tremiam-lhe os seios com o movimento do corpo, e as cadeiras embalançavam-se brandamente.

Rita era viva e esperta; tratada pelo tenente Ribeiro como filha, e assim considerada por todos, acostumara-se cedo a nadar, remar e trepar nas árvores, como qualquer curumim dos arredores. Em casa nada fazia, senão nos dias em que o pai estava de mau humor; as mulatas não descansavam nunca dos seus beliscões; e nem os moleques das palmadas. Tinha dezesseis anos e parecia ter treze, tal era a sua leviandade. Também ninguém se ocupara de modificar-lhe o caráter, ou de dar-lhe juízo; só a Benedita falava, e isso debalde.

1/1
Menu

Fazer anotação