XXII
Na cidade havia coisa nova; as janelas enchiam-se de gente, os moleques atulhavam as portas da rua, os rapazes, as mulatas, caboclas e negras dirigiam-se em grupos para a igreja de Sant’Ana. O largo da Matriz de ordinário deserto e silencioso continha agora trinta ou quarenta curiosos, e na porta aberta de par em par aparecia de vez em quando a figura do sacristão, que se oferecia com impostura para mitigar a sede dos espectadores. Óbidos tinha o ar estranho das pequenas povoações em dia de festa; as lojas, onde de ordinário se reúne a gente para a palestra estavam desertas, e abandonados estavam todos os cantos da cidade com exceção dos da praça da igreja.
Um grupo de homens, formado de quatro ou cinco das pessoas mais importantes do lugar, tais como o escrivão Ferreira, o boticário Anselmo, o capitão Mathias e outros, conversava sobre o acontecimento do dia, na esquina da rua que conduz ao cemitério; o acontecimento era o casamento de Rita, afilhada do tenente Ribeiro, com o alferes Pedro Moreira Bentes, que entre os seus títulos contava o de ser protegido do dr. B..., chefe do partido liberal do Pará.
— Diz que ele é pobre, — dizia o capitão Mathias — por isso é até uma felicidade.
— E o que tem isso? — perguntava com o ar descontente o boticário Anselmo — e o que tem isso, se ela não é de boa família?
— Estes homens de fora são assim, observou o escrivão Ferreira.
— Quais! replicou o primeiro — me parece que quem ganha não é o Ribeiro. O que é verdade é que a rapariguinha há de ter um dia mais de trinta mil pés de cacaueiro, seis léguas de terra, casa, escravos, e por este tempo em que ninguém sabe como há de viver, não é para se dizer: fum!
— Mas um homem deve saber prezar-se! — tornava o intransigente boticário — Não é só de dinheiro que se vive!
— Diga lá o que quiser, compadre, mas a isca não é para desprezar...
— É sina, disse o escrivão — é sina! Pois quando havia de pensar o Ribeiro que lhe cairia do céu um genro quando menos esperava? E um genro branco!
— O que dirão os parentes?
— É boa, respondeu o capitão impacientado — É boa! Hão de dizer o que bem lhes parecer que não há perigo que por isso o moço desfaça o casamento. Eu sei muito bem em que dão todas estas soberbias.
— Não é soberba, isso agora não é! Mas um moço branco deve saber prezar-se, e não comportar-se como qualquer negro!
Estas palavras do boticário fizeram com que o capitão encolhesse os ombros.
A pequena distância outro grupo estava formado, mas de mulatas e negras.
— Quem vai não gostar — dizia uma chibante mulata de dezoito anos — é nhá Mariquinha do seu Ferreira. O moço já tinha diz que prometido casar com ela.
— Mas eles eram namorados? — perguntou uma crioula.
— Parece que, nhá comadre. Eu sei lá, eles lá se entendem:
— Você vai ver o baile, nhá comadre?
— E bem, nhá comadre.
— Diz que se dança até de manhã?
— Assim será, parece que?
— Hum, hum.
— Mas olhe que é mesmo feliz, aquela nhá Rita!
Como veem os leitores o casamento de Rita encontrava as opiniões divididas. A chegada dos noivos e dos padrinhos fez diversão à palestra dos curiosos, e na multidão correu a frase.
— Aí vêm, aí vêm já!
Eram cinco horas da tarde quando o cortejo entrou na igreja. Rita, vestida de branco, e com a coroa de flores de laranja estava admirável. O tenente e o Moreira, satisfazendo o desejo da moça, traziam as suas brilhantes fardas da Guarda Nacional, e arrastavam as espadas pelas lajes do templo.
O correspondente do Ribeiro e o escrivão Valle traziam a comprida sobrecasaca de pano, fechada na frente por um trespasse, a gravata larga de seda preta, e o alto chapéu de pelo; só nas calças diferiam porque as do negociante eram pretas, e as do escrivão de ganga amarela.
Duas ou três senhoras acompanhavam a noiva, e uma multidão de moleques e negras seguiam-nas.
Quem celebrou o sacramento foi o padre José; o sacerdote havia vestido a sua capa magna, e sorria-se para os noivos com ar de bondade paterna. O sim sacramental foi dito de parte a parte com firmeza; duas dúzias de foguetes subiram ao ar, e os recém-casados, acompanhados por todos os curiosos tomaram o caminho da casa, que lhes fora preparada e na qual reinava já a velha Rufina, a doceira mais acreditada de Óbidos, ajudada pela Margarida Preguiça, célebre pelo excelente chocolate, que preparava.
A festa esteve esplêndida. A orquestra compunha-se de seis músicos, e dançou-se desde que anoiteceu; os moços conversavam rindo, os velhos teciam elogios ao novo casal, e o tenente Ribeiro, tendo despido a farda, porque fazia muito calor, andava em mangas de camisa de um para outro lado, dizendo chalaças, ralhando com um moleque curioso e intrometido, servindo chocolate às damas.
Rita caíra em poder das amigas velhas, que lhe faziam mil observações e cumprimentos; o Moreira era constantemente presa do escrivão Ferreira, que fora convidado para o baile, e que lhe explicava como era poderosa a sorte, e como eram os dois noivos nascidos um para o outro.
As filhas do José Lopes não tinham vindo, apesar das instâncias de Ribeiro, movido pela filha, e a moça sentia realmente a falta das duas irmãs; queria que presenciassem o seu triunfo. Todos pareciam contentes. Numa ocasião em que o sogro encontrou-se com o genro numa sala afastada, disse-lhe:
— Heim? O Miguel chupou no dedo!
— Ora o quê... pois acredita que ele tivesse a esperança?
— Tenho a certeza, aquele pirralho é assim... pensava que a rapariga gostava dele, e embora fosse meu inimigo, não deixava de namorar-me a filha.
— É uma criança atoleimada... Ninguém sabe o que ele quer. Afinal de contas quem sofre com aquele orgulho desmedido é ele próprio. Verá quando souber do resultado da questão do Urucurizal.
— Desta vez dei-lhe um golpe-mestre... Hão de reconhecer que o tenente Ribeiro é gente. Ah, ah, ah! Pensa que sou algum basbaque? que não sei como se fazem as coisas? que não é nada mais do que dizer: eu tenho razão... e ah, ah, ah!
E o tenente ria gostosamente.
Comeu-se, bebeu-se e dançou-se até as seis horas da manhã. O chocolate, a cerveja, o vinho branco, o café corriam em rios, e os sequilhos, os bons-bocados, as fatias douradas abarrotavam.
Moços, velhos e meninos enchiam os lenços de bolos, conforme o costume da terra, e os rapazes passavam-nos das bandejas para a mão das mulatas e negras que enchiam o corredor e atulhavam as janelas, formando o que em Pernambuco se chama o sereno, mas que no Amazonas não tem nome próprio.
Lá pela meia-noite, e a rogos reiterados dos convidados a mulher do escrivão Ferreira dançou um lundu com o tenente; uma moça alta e magra cantou uma modinha conhecida: «Era uma nuvem de ouro», que ela pronunciava, segundo a prosódia paraense: «Era uma novem d’ouro», acompanhada no violão pelo alferes Moreira.
Achava-se naquela sala reunida a sociedade mais ilustre do lugar: o Juiz Municipal, o Comandante da Guarda Nacional, e o do Forte, o Coletor, o Agente da Companhia do Amazonas, o subdelegado, o Presidente e diversos Vereadores da Câmara Municipal, o Comandante e o Imediato de um dos vapores particulares que sobem e descem constantemente o Amazonas, e que estava fundeado no porto de Óbidos, e os mais importantes negociantes tinham vindo honrar com a sua presença as bodas da filha do tenente, e do protegido do dr. B..., chefe do partido liberal da província.
Quando rompeu o dia dançava-se a última quadrilha; os músicos cochilando tiravam dos instrumentos desafinadíssimas notas, as luzes vacilavam, e o escrivão Ferreira seguia a sua sina dormindo estirado num sofá, e roncando como um porco.
Despediram-se todos, e ficaram sós o tenente, Moreira, Rita e algumas escravas que haviam trazido do Paraná-miri.
O capitão Mathias ia murmurando:
— Que diacho de tenente este! Tem ouro em pó!