VI
Em casa dançava-se uma quadrilha. Os pares estavam possuídos de uma alegria ruidosa, e o dono da casa cruzava-a em todos os sentidos dando ordens, trocando uma chalaça com um convidado, repreendendo um moleque e exortando o único músico que compunha a orquestra. As xícaras de café, as cuias de mingau, os copos de cerveja encontravam-se em todos os cantos, e na cozinha uma cabocla escorria no tipiti uma porção de cacau, do qual saía um vinho grosso e espumante.
Miguel lembrou-se do que lhe dissera a Rita; via agora perfeitamente as pessoas que estavam na sala da festa; julgou reconhecê-las todas e supôs logo que um moço alto e barbado, que dançava naquela ocasião com a moça fosse o recomendado do tenente.
Rita mostrava estar muito contente; tinha as faces rubras, o seio ansiando de cansaço e o penteado levemente desarranjado; desfazia-se em risos e cumprimentos para o cavalheiro.
Miguel sentiu que o ciúme lhe mordia o coração.
— O tal recomendado! — murmurou — Pois não é lá muito bonito apesar da barba.
O rapaz ficara de pé junto de um dos primeiros cacaueiros do sítio, e assim à vista das pessoas da casa, que se lembrassem de olhar para aquele lado; pensava no meio de atravessar o terreiro sem despertar a atenção dos cães, que o denunciariam infalivelmente ao tenente, e não lhe vinha à mente que podia ser descoberto no lugar em que estava.
A chuva continuava a cair mas o filho de d. Ana já não a sentia: estava tão molhado, que já nada tinha que molhar.
Rita e o seu cavalheiro continuavam dançando, mas quando acabou a quadrilha a rapariga falou-lhe ao ouvido e depois dirigiu-se para outra sala. Querendo segui-la com a vista, Miguel adiantou-se, mas tropeçando numas cascas de cacau podres, caiu, e na queda foi descoberto por um dos cães, que se atirou ladrando contra ele. Levantou-se o moço e quis esconder-se por trás das árvores, mas já todas as janelas e portas da casa estavam cheias de gente. Minutos depois o tenente acompanhado de alguns dos convidados, armados de chapéus de sol, chegavam-se ao nosso rapaz, e reconheciam-no.
— Como! Pois é você, seu Miguel! — exclamou o dono da casa — Então o que faz aqui por estas horas e por um tempo destes?
— Eu venho da casa do Capucho. — Respondeu Miguel sem poder dissimular a satisfação que sentia ao ver o espanto dos outros.
— Com efeito! — disse o tenente — isto é que é coragem! — Mas como é que aquele velho tonto consentiu nisso?
— Eu quis...
— Ora vamos para casa, é preciso mudar essa roupa, você está num estado desgraçado, seu Miguel.
E com efeito o rapaz estava sujo e horrivelmente molhado.
— Vamos para a casa — insistiu Ribeiro.
Miguel hesitou.
— Então o que é isso? Que quer você ficar fazendo aqui? Não consinto que passe pela minha casa sem entrar, e principalmente no estado em que está. Venha tomar um cálice de genebra.
E voltando-se para os convidados que o haviam acompanhado:
— Ora já viram coisa semelhante?
O filho de João Faria conheceu bem que não lhe era possível resistir por mais tempo, mas a cordialidade com que lhe falava o seu vizinho, sobretudo naquele momento que não era possível que Ribeiro ignorasse o motivo da sua ida ao sítio do Capucho, não lhe agradava muito. Preferia ser maltratado para poder vingar-se francamente; via-se ainda uma vez vencido pelo mulato, e sabe Deus quanto isto lhe custava.
Mas o que fazer? Não tinha motivo algum plausível para recusar, e fazê-lo era dar uma prova de selvageria. É preciso que se saiba que Miguel não queria parecer selvagem, principalmente para o recomendado de Ribeiro que se achava presente e que o via pela primeira vez.
Não lhe era além disso desagradável ver o efeito que havia de produzir sobre Rita a notícia da sua excursão noturna pela floresta, e ouvir os comentários que a ela faria a Benedita, caseira do tenente, a quem Miguel tinha alguma afeição.
Por estas razões deixou-se conduzir para a casa, entrando pela cozinha para um quarto próximo onde Ribeiro fê-lo mudar de roupa, e beber um bom copo de excelente genebra.
O tenente murmurava amiúde:
— Ora que rapaz! que imprudência!
A Miguel aquelas exclamações lisonjeavam imensamente; foi um triunfo para ele a chegada à sala e Rita, Benedita e as demais pessoas cercaram-no, e puseram-se a lançar-lhe em rosto aquela loucura e a descompor o velho Capucho.
— Aquele preguiçoso — disse a Benedita — só para não ter o trabalho de remar um bocadinho.
E ninguém se lembrava de perguntar-lhe o que fora fazer ao sítio do velho.
O baile continuava. Dizemos baile, porque no Amazonas qualquer reunião em que se dança denomina-se vaidosamente baile.
Miguel dançou uma quadrilha com a Rita. O rapaz estava radiante; julgava ter produzido um grande efeito no espírito de todos. Esperava-o uma decepção.
Numa ocasião em que não se dançava o moço do Pará, nome por que era conhecido o recomendado do tenente, conversava com a Rita e duas moças mais.
Falou-se de Miguel, que sem que fosse visto, escutava sentado a um canto.
— Quem é aquele moço que ainda agora entrou? perguntou o cavalheiro.
— É Miguel, respondeu a Rita.
— Mas quem é esse Miguel, insistiu ele.
— É um vizinho nosso; como acha, seu Moreira?
— Parece-me uma criança adoidada.
Neste momento apresentava a Miguel uma grande cuia de magnífico vinho de cacau; o rapaz recebeu-a com as mãos trêmulas, e apenas provou.
Amargara-lhe.
A noite ia já muito adiantada; as lamparinas de casca de laranja da terra (laranja amarga) estavam secas, e o rabequista cochilava; a fadiga parecia apoderar-se dos convidados, e o próprio dono da casa parecia ter vontade de dormir. Só a Rita estava esperta e disposta a dançar a semana inteira, se possível fosse.
Era contudo forçoso que o baile durasse até o romper d'alva; ninguém se sujeitaria a ir para a casa àquelas horas, e a habitação do tenente não podia acomodar a todos.
A gente que enchia agora a casa de Ribeiro era composta na sua quase totalidade de cacaulistas vizinhos, que (não perdendo uma ocasião de dançar à custa alheia) tinham vindo com suas mulheres, filhos, mulatas e moleques mais queridos, e traziam trouxas de roupa necessária para mudar durante a noite, o cachimbo da senhora velha, e uma ou duas redes conforme o número de crianças que tinham.
Além dos vizinhos lá estavam dois sujeitos de Óbidos, que tinham vindo acompanhar o Moreira; um deles, o Chico Oliveira, era um enorme rapaz de ares abrutalhados e de cara redonda e imberbe; o outro, Manoel Amâncio, era um velhinho magro e descarnado, sempre a rir. Estes dois figurões exerciam o comércio de regatão, e eram afamadíssimos pelo seu gênio folgazão; sem eles não havia festa que prestasse, também eles não perdiam ocasião de divertir-se.
Lá pelas quatro da madrugada propôs o Manoel Amâncio que se brincasse a viúva, jogo em que entra um número ímpar de pessoas; todos aceitaram com alegria e formou-se a roda. Rita ofereceu-se para ir em primeiro lugar para o centro. Em um momento dado a pessoa que está dentro da roda formada pelos jogadores, corre a abraçar uma das pessoas do sexo diferente que a cercam, e os outros tratam de agarrar-se cada um ao seu escolhido formando pares, de sorte que forçosamente há de ficar um viúvo. Começou a brincadeira, e quando chegou a ocasião, a travessa Rita atirou-se ao pescoço do Moreira; Miguel, que tinha lá as suas razões de contar com o abraço, descuidara-se de procurar uma dama, e por isso ficou viúvo.
O rapaz cavaqueou com a história; não sabia explicar o procedimento da moça, e sofreu despeitado as gargalhadas, que celebravam a sua derrota.
Não lhe escapou o ar com que fora dado e recebido o abraço.
Quando chegou a sua vez de escolher a dama, atirou-se a uma velha gorda, que lhe pareceu a mais feia da roda; depois pretextou um incômodo qualquer e deixou o jogo, indo sentar-se a um canto de cara franzida, e taciturno. Os outros continuavam o jogo sem embargo disso, porque mandavam a velha fazer companhia ao cavalheiro.
O rapaz não perdoou à Rita o tê-lo deixado sair do brinquedo sem instar muito para que ficasse; decididamente era aquela uma noite mal-aventurada.