XVI O Cacaulista · Capítulo 18 de 27
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XVI

A dança durou até a hora do jantar. Os pares não tiveram descanso algum, e nem os músicos; por isso estavam grandemente cansados. Ao irem para a mesa, Rita e Josefa acharam ocasião de trocar as seguintes palavras:

— Você conversou hoje muito, Josefa!

— Pois se seu Moreira pergunta tanta coisa!

— E se você gosta de responder.

Depois do jantar, que em nada diferiu do almoço senão na sopa e nos doces da tia Tomásia, que foram elogiados e devorados, iam de novo sentar-se em círculo na varanda, quando Joana saiu-se com esta proposta:

— Vamos dar um passeio até o sítio da Maria Mocoim?

— Era tão bom... observou a filha do Amaral.

— Pois vamos, — disse Josefa ao Moreira — não acha bom?

— Até com muito gosto, d. Josefa.

— A senhora vai, d. Rosa?

— Está bom... pois eu agora hei de me abalar para ir tão longe? Não, não, vocês que são moços...

— Pois não — disse José Lopes — vão vocês que são moços, nós ficamos.

Moreira, Miguel, o tenente, Josefa, Rita, Joana e a filha do Amaral puseram-se a caminho para o cacaual.

Todos iam alegres, cantando, à exceção de Rita e Miguel.

As duas irmãs haviam-se apoderado de Moreira, e entretinham-no falando tanto, que o oficial era obrigado a estar sempre calado, pois quando calava uma, falava a outra. O tenente seguia na frente com a filha do Amaral. Rita quisera a princípio acompanhar o grupo em que ia Moreira, mas, conhecendo com grande mágoa que o moço não lhe podia prestar atenção, e enfadando-se sumamente com as faceirices das filhas de José Lopes, deixou-se ficar atrás por despeito e ficou assim fazendo companhia a Miguel, que não sabia dizer por que viera até ali, pois não estava lá muito contente com o dia, e ainda menos com os donos da casa.

Rita também estivera todo o dia amuada. Não lhe passara despercebido o procedimento de Moreira para com Josefa, e até lhe parecia que o oficial havia esquecido completamente a sua presença ali. Entendia que, nos termos em que o oficial estava nas suas relações com ela, (e tinha lá as suas razões para pensar assim) devia ligar menor importância às outras moças, e não proceder como procedia. Depois... Josefa não era lá muito bonita, apesar de ter os dentes apontados. O que significava, pois, a demasiada amabilidade do moço do Pará? Seria que a sua vaidade tivesse sido lisonjeada pela mudança que as duas irmãs tinham feito em algumas palavras da modinha? A menina atribuía a este fato a rápida mudança de Moreira, e é escusado dizer que isso a indignava. Achava que Josefa era uma aprezunada, e Moreira um inconstante. Começava mesmo a acreditar no que se diz dos moços da cidade.

Mas logo lhe vinha à lembrança que podia ser que não estivesse como nos outros dias. Mirava-se, remirava-se, e não podia deixar de reconhecer dentro em si que, se era por isso, Moreira não tinha razão. E com efeito a rapariga estava encantadora. O vestido de musselina branca, justo no corpinho e amplo nas saias, ficava-lhe a matar. O basto e caracolado cabelo, preso no alto da cabeça por um pente de casco, dava-lhe à fisionomia um ar faceiro e petulante, que dizia perfeitamente com o andar sacudido e o pisar forte. Trazia ao pescoço um medalhão preso num pequeno trancelim de ouro, nos braços nus pulseiras de contas, no dedo anel de diamante. A saia deixava-lhe ver o pé pequeno de raça, calçado em meias de algodão branco, e nuns sapatos de marroquim encarnado.

Convencida por esta análise, à qual ela mentalmente se submetia, da injustiça das inconstâncias de Moreira, a menina ia demorando o andar, com o fim de se deixar alcançar por Miguel, e não tardou em travar com ele o seguinte diálogo:

— Aquela gente vai muito depressa!

— E você por que não vai com eles, Rita?

— Porque o chão está úmido, e não quero molhar os pés — e com uma mão levantava as saias até acima dos tornozelos.

— Elas não sentem.

A moça calou-se; mas depois de alguns momentos:

— Miguel, disse, você está zangado comigo?

— Zangado com você, Rita! E por quê?

— Por quê?... Eu sei lá; mas tenho reparado que você não fala com a gente... não aparece mais lá por casa...

— Pois eu hei de aparecer onde não me querem bem?

— Não lhe querem bem...? quem foi que lhe disse isso?

— Eu é que tenho visto. Não há muito tempo que seu padrinho me disse um desaforo.

— E eu? e a Benedita?

— Não digo a mesma coisa. A Benedita sempre gostou muito de mim, e por isso também lhe pago na mesma moeda.

A rapariga esteve calada alguns instantes, e de repente, parando e pondo a mão no ombro do moço, disse-lhe com um sorriso tentador:

— De mim, o que diz?

Miguel ficou enleado, e apenas pôde balbuciar:

— Ora... de você...

— De mim, e então?

— Não sei... mas você vai ficar zangada comigo.

— Qual! se eu não fico...

— Pois então... acho que já não é a mesma para comigo, Rita.

— Não sou a mesma, e por quê?

— Eu sei lá...

— Mas, diga sempre.

— Acho que você deixa os amigos velhos pelos novos.

A moça corou levemente, e continuou a caminhar, mas silenciosa. Miguel, percebendo que ferira em cheio, observou com voz amargurada:

— E o que dizia eu? Ficou zangada!

— Eu? Não. Respondeu a moça fingindo surpresa.

— Pois olhe, parece.

— Pois não é!

— Você foi quem quis, eu bem não queria dizer.

— Mas se eu não estou zangada!

— Está, sim.

— Qual está! Depois eu não tinha razão para me zangar... o que foi que você disse?

— Que deixava os amigos velhos pelos novos.

— Isso é mentira!

— Olhe, Rita, deixe de querer enganar-me, que eu tenho bons olhos! Quem não vê logo que, depois que chegou aquele moço, nunca mais você fez caso de mim?

— Ah... ah! Miguel! — disse a rapariga em tom de exprobração.

— É a verdade. Vocês daqui pensam que um homem do Pará vale mais do que outro qualquer, e só porque seu Moreira dança bem...

— Mas quem foi que lhe contou que eu gostava dele, hein?

— Quem me contou, quem me contou... foi você mesma.

— Agora.

— Foi, porque conheci que eu já era desprezado, que não faziam mais caso de mim.

— Ora, ora, este Miguel! Mas você está sonhando?

— Estou bem acordado, infelizmente. Na noite daquele baile em sua casa, levou toda a noite a conversar com ele...

— Porque não sou matuta.

— E aquele abraço?

— Que abraço, meu Deus?

— Aquele abraço que você deu no brinquedo da viúva...

— Pois em quem eu havia de dar? Se desse a você, todos desconfiavam.

— E dele não desconfiavam?

— Dele não, porque sabiam que era a primeira vez que eu o via, e portanto...

— Portanto?

— Sabe o que mais? — tornou Rita com uma volubilidade admirável — Pois para mostrar-lhe que não gosto mais dele do que de você, Miguel, aí está um beijo.

E antes que o rapaz surpreendido e encantado pudesse responder uma palavra, recebia um beijo em cheio na face. Miguel estremeceu, corou e sentiu correr-lhe pelo corpo um estremecimento de gozo; estendeu o braço, enlaçou a moça pela cintura, e ia pagar-lhe na mesma moeda, quando apareceu por entre as árvores o terreiro do sítio da Maria Mocoim, e saíram ao encontro dos visitantes dois cães ladrando furiosamente.

Rita ria como uma perdida do abalo que o beijo causara em Miguel, e disse-lhe, deitando a correr para alcançar os outros:

— Está satisfeito?

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