Notas
ÓBIDOS é uma pequena cidade da Província do Pará, situada a 180 ou 200 léguas da Capital na margem esquerda do Amazonas, a uma légua pouco mais ou menos da foz do Trombetas. Julga-se que ocupa o lugar da antiga aldeia dos índios Pauxis. Exporta principalmente cacau e peixe seco, e poderá ter até mil e duzentas almas; com um forte e um fortim; está edificada numa pequena colina, na parte mais estreita do Amazonas, que forma aí uma angostura, e logo depois abre-se, parecendo assim cercar a cidade. Óbidos foi elevada a cidade em 1854, e a comarca só foi criada em 1867, de forma que na época em que se passa a nossa história, ainda era um termo da comarca de Santarém. O seu clima é seco e sadio, e é a última povoação da Província do Pará, confinando com a Província do Alto Amazonas. Faz parte da Vigararia Geral do Baixo Amazonas, cuja sede é Santarém; é também pertencente ao Comando Superior de Santarém.
O Paraná-meri (Pará, mar — nhanhe(?) correr — miri, pequeno — rio pequeno) não é um rio à parte, mas o mesmo Amazonas. Chamam no lugar Paraná-miri a um furo ou antes a porção das águas que se acha apertada entre duas ilhas ou a terra firme e uma ilha. No distrito de Óbidos há dois Paraná-miris principais: o de baixo e o de cima (que é o do nosso romance). Nas suas margens há sítios ou plantações de cacau.
TENDAL é uma espécie de jirau quase sempre coberto, onde se põe a secar o cacau. A cobertura é em forma de teto de casa.
EMBAÚBA embá —, ubá — pau; por corrupção embaúba. É portanto errado dizer embaubeira, o que significaria árvore de árvore de embá). É uma grande árvore que abunda nas margens do Amazonas. É a Cecropia peltata de Lineu.
ANINGAIS. A aninga é uma árvore de 2 a 3 metros de comprimento, de cor verde tirando para cinzento, que abunda nas margens dos rios e lagos do Amazonas. Aningais chamam-se os lugares pantanosos, porque aí crescem em grande número as aningas, que pelo inverno ficam com as raízes na água.
MAQUEIRA ou maquiúra. É uma rede feita de tucum, que é a fibra extraída da palmeira Astrocarium vulgare.
XERIMBABOS. Animais domésticos.
ACAUÃ ou o acauã é uma ave grande, que a gente do Amazonas diz ser agoureira. É inimiga das cobras.
VARANDA. É uma casa grande e aberta, onde está a mesa de jantar. Fica na frente das habitações.
MONTARIA significa uma canoa feita de uma peça só. O que no Maranhão se chama — casco.
PAXIÚBAS. Palmeira de que se fazem arcos.
CROMOCORY e Sapucuá são dois lagos na terra firme, em cujas margens habitam pescadores e fabricantes de farinha. Deve ser antes Curumúcury.
TAPUIO. Segundo o sr. Alencar esta palavra deriva-se de taba e puir (o que foge da casa). No Amazonas dá-se este nome a todo e qualquer homem de cor vermelha.
URICURIZAL ou melhor Urucurizal (de urucu, vermelho). O urucuri é uma palmeira, com cujo caroço, de cor vermelha, se defuma o leite da borracha para o fazer coalhar.
PONTE. Nos sítios do Paraná-miri de cima não há o que se chama propriamente ponte; um cedro amarrado a uma árvore da beirada, serve disso.
MURIXI ou muruxi é uma árvore de cuja casca se faz uma tinta avermelhada, com a qual tingem algumas pessoas as roupas, para as tornar mais duradouras, e consistentes.
TUCUMÃ. É uma palmeira do Pará. Da palha se fazem chapéus, e dos cocos anéis.
UNICORNE. É um grande pássaro (talvez o maior do Amazonas). É de cor cinzenta. Tira o nome de uma espécie de corno que tem na testa.
TAQUARI. Diz o sr. Gomes de Amorim que se deveria escrever taquara-hy, porque a palavra é composta e significa cana-d’água. Não cremos porém que assim seja não só porque na língua tupi sempre o complemento vem antes do nome que rege, exemplo: Tupanoca, casa de Deus, Mucaitámi, farinha de espingarda (pólvora) etc., e assim taquara-hy significaria água de taquara, como também porque não nos consta que o taquari seja d’água. É um arbusto de que se fazem tubos para os cachimbos. Taquara é flecha ou cana, taquari talvez cana fina ou pequena.
PINDOBA ou pindova é uma palmeira de cujas folhas se cobrem as habitações.
TIPITIS são tubos de talas tecidas com uma alça de cada lado, que depois de cheios de mandioca ralada ou de caroços (com polpa) de cacau, se penduram por um lado e puxando pelo outro para baixo, se extrai o líquido da massa que está dentro dele.
CUIAMBUÇAS. São baldes de cuia, onde se guardam algumas provisões ou se enche água.
CORONEL ROSO. José de Araújo Roso, primeiro Presidente da Província do Pará, nomeado por carta imperial de 25 de novembro de 1823; chegou a Belém na charrua Gentil-Americana no dia 30 de abril de 1824.
MOCAMBO. Aldeamento de escravos fugidos. Há muitos anos que existe um no rio Trombetas, e os negros vêm vender o tabaco e a farinha que fabricam em Óbidos.
FARINHA-D’ÁGUA. É farinha de mandioca amarela, a mais comumente usada no Pará e Amazonas.
IGARAPÉ-MIRIM (de igara, canoa — apé, caminho ou como querem alguns água e mirim ou miri — pequeno. Caminho ou água necessária para uma canoa; riacho-pequeno.) É uma vila da Província do Pará.
ANINGAS. Ver Nota 4.
SARACURA. Eis o que diz Baena: «Anda pelas margens dos rios, come peixinhos, bichinhos e arroz; fabrica o ninho sobre os arvoredos; é verduenga no corpo, nas pernas verde e os olhos pretos e mui cintilantes de maneira que parece ter cores diferentes. A carne é saborosa. Os indianos chamam a esta ave galinha do mato, porque o macho canta às mesmas horas que o galo; e dizem que as saracuras prognosticam chuva quando cantam, e que também cantam na reponta da maré.»
GUARIBA. É uma espécie de macaco.
CIGANAS. São pássaros excessivamente barulhentos que enchem as árvores ribeirinhas do Amazonas.
EDUARDO. Eduardo Angelim, célebre rebelde de 1835, vivo ainda.