XIII O Cacaulista · Capítulo 15 de 27
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XIII

Às dez horas do dia estava o tenente de volta do sítio da velha Rosa, e mais calmo do que nos dias precedentes, e até alegre, dava gostosas gargalhadas, quando encontrava motivo para isso no seu querido Arquivo Pitoresco... e o tenente não era difícil de contentar.

Os moleques corriam da casa para o porto e do porto para casa, fazendo uma algazarra formidável e desforrando-se assim das vexações dos dias anteriores; Rita desaparecera no cacaual, e as mulatas iam e vinham pela varanda, como se nada tivessem que fazer!

Quando mais estava Ribeiro interessado na leitura, ouviam-se os sons compassados de uma zabumba, ao mesmo tempo que uma chusma de moleques vinha correndo do porto e gritando alegremente:

— Os foliões, os foliões! O Divino!

Uma canoa cheia de homens, mulheres e crianças subia o Paraná-miri em direção ao sítio do tenente. Um caboclo alto e magro, sentado no fogão, agitava uma grande bandeira branca, em que estava pintada uma pomba, fazendo-a por vezes beijar a superfície d’água. Outro batia pausadamente numa caixa.

Encostaram na ponte, e saltaram. As mulheres e crianças, pela maior parte caboclos, tinham a cabeça coberta com um lenço branco, e traziam em uma das mãos um pires coberto com um pano, o qual lhes servia de saco de pedir esmolas. Uma carafusa gorda e alta segurava em uma salva a coroa de prata do Divino Espírito Santo, e uma velha apresentava aos olhos dos fiéis uma grande estampa, representando o Batismo de Cristo, e o céu entreaberto.

Quando chegaram à casa, puseram-se em ordem na varanda, ficando na primeira linha o homem da zabumba, o da bandeira e mais três cantores. O caboclo alto fazia correr o pavilhão sagrado por sobre a cabeça dos circunstantes, como que para abençoá-los, e os cantores entoaram em voz horrivelmente fanhosa a saudação:

Deus te salve, casa santa

Onde Deus fez sua morada

A que respondia o prolongado Ah!... dos companheiros, e que acompanhava a caixa.

Os moleques em grupos extasiavam-se diante daquele espetáculo, Rita distribuía esmolas pelos pires das devotas, e as mulatas e negras beijavam uma de cada vez a coroa do Divino, colocando-a por alguns momentos na cabeça, como que para invocar-lhe a proteção.

Depois da cantarola o tenente mandou servir cachaça aos foliões, e os visitantes espalharam-se pelos diversos cantos da casa. Um caboclo ficou de guarda à zabumba e à bandeira, na qual teimavam os moleques em bolir, e outros puseram-se a visitar o sítio, internando-se alguns pelo cacaual.

A Margarida, depois de ter guardado a coroa no oratório do quarto de Rita, pôs-se a conversar com a Benedita, que era sua amiga velha:

— Ora esta comadre... cada vez está mais gorda e mais bonita.

— Quais! Vuncê, comadre Margarida, é que faz inveja!

— Esta comadre! E como está o sr. tenente?

— Miri-miri, namásque, graças a Deus Nosso Senhor. Então foi alguma promessa que fez de tirar esmolas para o Divino?

— Em-em, comadre, foi. Eu estava com uma caroára muito forte. Dei um dez réis para Santo Antônio... e nada. Foi então que fiz esta promessa ao Divino, e fiquei boa.

— Ora vejam só...

— Pois sim, senhora, comadre!

— Por onde começaram a tirar esmola?

— Pelo sítio do nhô aquele, do nhô José Lopes.

— Ah!, e como estão eles?

— Estão bons. Domingo a nhá Josefa faz anos, e querem dar uma festa. Você há de ir, comadre.

— Quem sabe é o sr. tenente.

— Pois há de que a nhá Josefa me disse que ia pedir muito ao sr. tenente.

— Quem mais vai?

— D. Rosa, a família do Amaral, e aquele moço que esteve aqui.

— O Moço do Pará.

— Em-em.

— Mas se ele está na cidade...

— Manda-se buscar. Nh’Aquela disse que a festa não tem graça, se ele não for, disque.

— Olhem lá... e quem toca?

— Já mandaram falar a Dionisio para tocar flauta e ao Joaquim Bexiga para a rebeca. O José Lopes comprou ontem uma vaca da fazenda S. Miguel para matar no domingo.

— Então é dia grande...

— Parésque.

— E vuncê não tocou lá?

— Lá adonde, gente?

— No S. Miguel, comadre?

— Toquei, sim. Foi até a D. Ana que deu aqueles ovos.

— E o filho?

— O Miguel estava na outra banda caçando.

— E foram convidados para a festa do José Lopes?

— Parésque foram.

— Mas se eles estavam zangados...

— Quais zangados nem pera zangado! Aquilo era história de crianças. Nhá Josefa me disse que convidava mesmo para mostrar que não se importa com a zanga dele, disque.

— Então ele não vai.

— Ora quais que não vai! Pois agora o menino há de perder uma ocasião de brincar?

— Mas olhe, comadre aquela, que ele se zanga por tudo!

— Criancice!

E, levantando-se, disse a carafusa:

— Aré, aré, comadre, deixe-me já ir indo, que ainda temos de correr muitos sítios.

— Mas ainda é cedo!

— Quais cedo, nem pera cedo! Vuncê sabe que eu fiz uma promessa ao Divino, e não quero faltar.

— Espere para comer com a gente...

— Não é por má vontade... perdoe, comadre, não posso.

E saiu.

Dez minutos depois os foliões tomavam o caminho do porto, acompanhados por toda a gente de casa. Meteram-se na canoa e ao som da zabumba continuaram a subir o rio. A gente de casa acenava com as mãos, em sinal de despedida, e o tenente, fazendo das mãos porta-voz, gritou para o sujeito da bandeira:

— Ah! seu Felippe, na volta não deixe de procurar-me!

Era assim que o tenente Ribeiro sabia agradar a todos que o procuravam. Tratava-os como melhor lhe era possível, e ainda instava para que o procurassem de novo. Também, apesar de não perdoar aos que o contrariavam, e ter sempre os olhos abertos sobre o que os vizinhos possuíam, procurando um meio de havê-lo, era considerado no Paraná-miri, e dispunha de uma influência que poucos ou nenhum outro possuía.

Mas a razão é que tinha dinheiro, como dissera o padre, e pagando-lhe um jurozinho de seis por cento, tinha qualquer lavrador ou negociante estabelecido a certeza de obter dele algum dinheiro emprestado.

E está entendido que o empréstimo não era assim tratado de igual para igual, como outra qualquer transação; pelo contrário, era um favor que o Ribeiro fazia, e era implorado como tal.

A falta de dinheiro no Amazonas é grande. Um fazendeiro de três mil cabeças de gado e de vinte escravos anda muitas vezes a pedir vinte mil-réis emprestados. À vista disto imagine o leitor qual é a importância de um homem que podia dispor de alguns contos de réis, em moeda.

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