XXI
Cinco ou seis dias depois da festa no sítio do José Lopes, o tapuio Ambrósio chegava à fazenda S. Miguel, e entregava a d. Ana uma missiva do padre, da qual Miguel tomou logo conhecimento.
O padre ocupava-se principalmente da questão do Uricurizal, e dizia ao sobrinho que, já tendo sido aberta a dilação para as provas, tratasse de mandar quanto antes as três testemunhas para Óbidos. José Fernandes lembrava mais ao sobrinho que se assegurasse bem do Martinho Mendes, visto como corria na cidade que o tenente Ribeiro tentava corrompê-lo. Depois de ler a carta o filho de João Faria voltou-se para o portador e disse-lhe:
— Mestre Ambrósio, você é capaz de fazer-me um favor?
O tapuio não respondeu.
— É muito simples — continuou Miguel — trata-se de ir por água ao sítio do Capucho, e de dizer-lhe que amanhã bem cedo esteja aqui com o Inácio Antunes e o Martinho Mendes.
E como o mestre Ambrósio nada dissesse, o rapaz acrescentou, batendo-lhe no ombro:
— Vá, ande, que na volta terá um bom porre.
O tapuio velho encaminhou-se para o porto, desamarrou a canoa, empurrou-a para o largo, e tomando a direção do sítio do Capucho, pôs-se a remar vigorosamente no jacumã. Os remadores que tinham vindo com ele, agora acocorados na cozinha, saboreavam uma grande lasca de pirarucu assado e um bom pirão de farinha com água fria.
No dia seguinte pela manhã o velho Capucho chegou à varanda da fazenda, acompanhado pelas outras duas testemunhas, e Miguel mandou dar-lhes café com bolachas, cachaça e tabaco. O camutauara foi o primeiro a falar.
— Menino — disse — aqui estamos todos três prontos para jurarmos que o terreno do Uricurizal pertenceu sempre à sua família... pode contar que há de ganhar a causa, ainda que o tenente faça artes do demônio. Em Camutá quando as testemunhas juram uma coisa, todos creem. É impossível que o juiz municipal não conheça que a justiça está do seu lado... afinal de contas, não é por ser o sr. tenente que há de ter razão! No Igarapé muitas vezes o Catá perdeu processos apesar de ser comendador. Fique portanto descansado, que haverá da sua vida estar segura como está esta questão.
— Eu agradeço — respondeu o filho da d. Ana — eu agradeço, tio Capucho, o serviço que agora me fazem e fiquem certos de que não hei de esquecer.
— Não faça caso, em Camutá faz-se disto todos os dias.
— Bem sei o que lhes fico devendo. Também contem que têm um amigo na vida e na morte.
— Patrão — disse o Inácio Antunes — quando precisarmos de você, você há de servir-nos.
— Com toda a certeza — respondeu o moço — e até com muito gosto. Você, seu Antunes, já está informado de tudo pelo tio Capucho?
— Nem precisava, cadete, nem precisava, que eu sei tanto como ele. Também sou morador velho do Paraná-miri, e ninguém me conta como foi a história do Uricurizal. Eu ainda era curumim, mas já me entendia, quando o padre Raimundo, que Deus tenha na sua santa glória, fez a palhoça, para os vaqueiros.
— Está bom, confio em você. — E o rapaz gritando para dentro disse:
— Moleque! Diz à tua mãe que faça o balaio do tio Ambrósio.
Depois chamou de parte o Capucho, e disse-lhe:
— Tio Capucho, cuidado com esta gente. Logo que desembarcarem vá direito à casa do tio José. Não deixe os homens falarem com pessoa alguma.
— Esteja descansado que pelo Antunes respondo eu; agora o Martinho...
— Vou falar-lhe já.
E chamou o velho cacaulista:
— Oh! tio Martinho, venha provar de um tabaco que recebi ontem de Irituia?
Quando se achou só com o Mendes, Miguel disse entregando-lhe algumas cédulas:
— Então você está disposto a jurar?
— Estou, branco.
— Olhe lá... não vá mudar na ocasião!
— Agora, branco!
— Não tenha medo do tenente, que ele não pode fazer-lhe mal algum. Depois lembre-se que ele roubou-o....
— É mesmo — interrompeu o Mendes.
— Aí estão vinte mil-réis, dou-lhe o resto quando você acabar de jurar.
— Podia dar antes.
— Antes não, dou depois. Quando desembarcar vá procurar o tio José, que é quem há de dizer o que você deve fazer. Não seja tolo, não se fie no Ribeiro, e quando o Moreira, aquele moço do Pará quiser falar-lhe, encha os ouvidos de algodão. Você comigo tem tudo a ganhar, e com ele tudo a perder.
O Mendes não respondeu. Uma hora depois embarcavam as três testemunhas na canoa do Ambrósio, e tomavam o caminho da cidade.
Alguns dias depois saíra Miguel para a pesca no rio, e tendo encalhado a canoa numa moita de canarana, esperava de pé, com o arpão alçado, e silencioso, que aparecesse algum peixe, quando viu ao longe o Martinho Mendes em uma pequena montaria. O tapuio vinha só, e remava vigorosamente para vencer a corrente.
Ao rapaz pareceu estranho que a sua testemunha voltasse assim só da cidade, enquanto que ele ainda não havia recebido notícia alguma do que se passara em Óbidos depois da partida dos três velhos. Por isso apenas o tapuio pôde ouvir-lhe a voz, Miguel gritou:
— Eh! tio Martinho!
— Adê...ê...us, branco!
— Então o que é isso? Volta só?
Mendes fazendo um esforço aproximou-se de Miguel, e respondeu:
— Já acabou!
— O que, homem de Deus!?
— Já jurei.
— E os outros?
— Estão lá na cidade.
— Fazendo o quê?
— Estão bebendo cachaça.
— E o que foi que houve?
— Nada, branco. Nós juramos que o Uricurizal era seu, e depois, como eu estava com pressa, pedi esta montaria emprestada ao seu Figueiredo, e vim.
— E por que o Capucho não veio logo?
— Haverá de vir! Estava lá com o moço do Pará!
— Com o Moreira?!
— Pois sim, senhor, branco. O moço está diz que arrumando a casa para o casamento, e o Capucho foi ajudar.
— Casamento, e que casamento?
— Então o branco não sabe? Diz que vai casar com a nhá Rita.
— Isso é mentira! Ela não quer!
— Haverá! Diz que foi ela que quis!
Continuaram assim conversando. Miguel impressionado com a notícia que o caboclo lhe dava, desencalhou a canoa, e pôs-se a remar, subindo o rio; em pouco tempo chegou ao seu porto, despediu-se do tapuio, que apenas quis esperar para receber o dinheiro ajustado, partindo logo. Miguel amarrou a canoa no mará, e subiu pensativo o caminho da casa.
O rapaz passou agitado todo o dia. Pela tarde tendo visto o tenente descer o rio, provavelmente em demanda do sítio da velha d. Rosa, onde ia sempre conversar com o Raimundo, não se pôde ter que não se dirigisse para a casa do vizinho, apesar do que lhe havia acontecido alguns dias antes.
Quando lá chegou, a Rita passeava no terreiro de meias e sapatos, e colhia umas flores num pequeno canteiro, que havia perto da casa; apenas a moça avistou Miguel gritou para dentro:
— Benedita, Benedita, olha uma coisa!
A mulata apareceu, e abriu os braços ao rapaz.
— Ainda bem, ainda bem, Miguel, que você se lembrou hoje da gente!
A Rita estava alegre. Ria e olhava para Miguel e para a Benedita. Via-se que não se animava. Afinal não se pôde conter:
— Sabe, Miguel, que seu Moreira me pediu?
— Não, Rita, não sabia; então é certo?
— É bem.
— E você o que disse? — tornou o rapaz fitando os olhos ansiosos na moça.
— Ora, o que eu havia de dizer? — respondeu ela com afetada indiferença — meu padrinho queria, e dizia que ficava zangado se eu recusasse... eu sou uma pobre moça sem família... ele parece ser bom moço... ninguém mais faz caso de mim... E vai aceitei.
Miguel muito dificilmente se conteve. Estava pálido, um suor frio banhava-lhe a fronte, e as pernas tremiam-lhe; mal pôde balbuciar:
— E fez bem, Rita.
— Pois não é? — tornou a moça sem reparar na palidez do amigo — ao menos assim a Josefa não há de dizer que seu Moreira gosta dela. Sabe? Não deixe de ir ao meu casamento? Seu Moreira já está preparando a casa na cidade... desta vez vou para a cidade. Ele disse que não queria morar no mato.
A moça falava com uma volubilidade espantosa; a Benedita, essa estava séria, e parecia reprovar pelo seu silêncio a união que se ia efetuar. Miguel, atordoado, com a vista turva e a voz trêmula, nem parecia ouvir mais as palavras de Rita, que continuou, colhendo umas açucenas:
— Eu já disse ao seu Moreira que queria que ele fosse para a igreja fardado, e não de sobrecasaca, como andam os outros. Meu padrinho também há de ir de farda, que é mais bonito. Há de se dar um baile e dançar até de manhã... mas não quero convidar as filhas do José Lopes... ou não... é melhor convidar para ver a cara delas. Ah, ah, ah! só quero ver a cara de certas sujeitinhas! As Printes é que estão preparando o meu vestido; foi ontem o molde para lá... Lá na cidade hei de andar todo o dia de sapato e meias, se me faz favor, e até de vestido de cassa ou musselina nos domingos, que não quero que pensem que eu sou matuta, que não sei me vestir. Como você acha esta chita? Pois foi seu Moreira que escolheu.
Miguel nem se despediu. Deitou a correr pelo cacaual como um doido, sem querer ouvir a Rita, que lhe gritava:
— Meu padrinho diz que há de se comprar uma vaca da sua fazenda!
O rapaz ia desesperado, porque amava a filha do tenente. E depois do que se passara na festa do José Lopes, não era de esperar tão grande e tão repentina mudança.
Dizia a Rita que tinha sido um pouco obrigada... mas qual! pois se ela até estava tão contente, que todos viam!
Não havia que duvidar, o rapaz tinha má sina!
Quando conseguia acalmar-se um pouco lhe aparecia esta terrível ideia:
— Vencido, desprezado por um maricas da cidade! Mas isto era horrível!
É impossível dizer o que se passava no ânimo do moço. O ciúme, o despeito, a cólera dominavam-no. Via as filhas do José Lopes a rirem-se dele... via o tenente satisfeito de lhe ter dado uma lição. Mas o rapaz sofria realmente com a deslealdade da Rita... apesar de tudo ele amava-a, e não era só o orgulho ofendido que o martirizava, era principalmente o ciúme.
Foi entregue a estes pensamentos, dominado por estes sentimentos que à boca da noite chegou à fazenda; encontrou lá o Capucho e o Antunes que o esperavam.
O Capucho falou-lhe assim que o viu:
— O que dizia eu? Aquele patife do Martinho Mendes logrou-nos. O maroto foi jurar o contrário do que tinha prometido, e disse com a cara mais deslavada deste mundo que o Uricurizal pertencia ao tenente!
— Pois se eu digo — acrescentou o Antunes — que aquele Ribeiro é o diabo em pessoa! ofereceu dinheiro ao tapuio, ameaçou-o, quem sabe? O gaiato é que ninguém viu quando o Moreira falou ao Martinho.
— Em Camutá — tornou o Capucho — não há tanto quem jure falso como aqui... o padre José é que está furioso! Mas que Martinho Mendes! Vão lá contar com uma coisa destas...
— E pôs-se logo ao fresco o patife...
— Aquilo foi que teve medo que nós contássemos aqui ao menino...
A notícia da traição do Mendes pareceu não abalar o Miguel. A verdade é que o moço não ouvia o que lhe contavam os dois velhos.