CAPÍTULO 2 — A MULHER NA CABINE A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 3 de 30
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CAPÍTULO 2 — A MULHER NA CABINE

POV: Elise Sofia permanece na sala de Helena depois que saio, e eu reconheço o silêncio deixado atrás de mim. É o mesmo de uma porta fechada devagar, para ninguém perceber que houve uma fuga. Levo as xícaras para a copa, embora nenhuma precise ser lavada com urgência. A água quente ocupa minhas mãos, o sabão cobre a porcelana e a tarefa simples oferece uma ordem que a tarde inteira se recusou a ter. Uma metade do Cinema Aurora agora pertence à mulher que partiu há dez anos sem dizer quando voltaria. A outra pertence a mim, que fiquei tempo suficiente para assistir às lâmpadas queimarem uma a uma. Não gosto da comparação. Helena teria chamado de dramática, depois a usaria numa campanha de inverno e fingiria que a frase sempre fora dela. A morte não melhorou sua tendência de organizar a vida alheia. Seco as xícaras, alinho as alças na mesma direção e começo uma lista mental. Trocar a lâmpada do corredor. Conferir a caldeira. Telefonar para o distribuidor. Impedir que Sofia venda o cinema antes de quarta-feira. O último item não deveria estar ali, porque não depende apenas de mim. Ainda assim, meu cérebro o coloca no topo, como se uma lista bem organizada pudesse criar autoridade jurídica. Quando volto à sala, ela está vazia. A fotografia deixada por Helena desapareceu da mesa, e a porta que liga o escritório ao saguão continua aberta. Sofia sempre ocupou lugares dessa maneira. Entrava, deslocava o ar, encontrava o ponto mais iluminado e fazia parecer que todos os objetos tinham sido posicionados para recebê-la. Dez anos deveriam ter corrigido essa impressão. Em vez disso, encontro seu cachecol amarelo esquecido sobre uma cadeira e sinto que o cinema recuperou uma cor que eu havia aprendido a não procurar. Dobro o tecido antes que a vontade de levá-lo ao rosto consiga se transformar numa decisão. O cachecol cheira a chuva, perfume cítrico e estação de trem. Coloco-o sobre o balcão da bilheteria, bem visível, como faria com qualquer objeto perdido. Depois ajusto as pontas para que não toquem o chão, um cuidado profissional e, portanto, inofensivo. A porta da rua se abre quando estou apagando as luzes do saguão. Sofia aparece no vão, molhada outra vez, segurando a chave de bronze entre dois dedos.

— Esta coisa não abre a hospedaria, meu quarto nem a caixa de correio — anuncia, entrando sem esperar convite. — Começo a suspeitar que sua função seja apenas criar expectativas e decepção. O sino toca acima da cabeça dela. O som me leva a uma tarde antiga, quando Sofia entrava correndo depois da escola e deixava a mochila no caminho de todos. — Você esqueceu o cachecol — respondo, porque comentar a chave seria admitir que também tentei usá-la em seis fechaduras nos últimos vinte minutos, com resultados igualmente inúteis. Sofia recolhe o tecido e o enrola no pescoço. Os cabelos úmidos ficam presos sob a lã, e uma gota escorre da têmpora até a linha do maxilar. — Sabia que ele voltaria para mim — diz, ajeitando as pontas. — Temos uma relação baseada em abandono temporário e reencontros pouco saudáveis, mas pelo menos o cachecol não guarda rancor. — Parece familiar — respondo, e a frase deixa minha boca antes que eu consiga reconhecer a crueldade discreta escondida nela ou decidir se ainda quero machucá-la. Sofia fica imóvel por um instante. O sorriso perde a segurança nas bordas, mas ela não recua nem oferece uma daquelas piadas que costumavam salvar qualquer conversa difícil. — Eu mereci essa — admite, aproximando-se do balcão. — Provavelmente mereço outras, então talvez seja melhor organizar um calendário para não atrapalhar as sessões de quarta-feira. Desvio a atenção para a chave em sua mão. Meu controle não está em risco, mas não vejo motivo para testá-lo numa quinta-feira de funeral, cercada por lembranças que ainda têm dentes. — Helena não deixava objetos sem função — digo. — Se entregou duas chaves iguais, existe alguma fechadura correspondente, embora possa ter escolhido escondê-la apenas para nos manter ocupadas. — Excelente. Um mistério imobiliário com prazo, dívida e trauma não resolvido — comenta Sofia. — É quase reconfortante descobrir que a herança mantém o estilo de direção da antiga proprietária. Pergunto se ela voltou apenas por causa da chave. Sofia apoia os cotovelos no balcão, ignorando a placa que pede aos clientes que não façam exatamente aquilo. — Preciso saber o tamanho do desastre antes de decidir quanto vou odiá-lo — explica. — Além disso, o papel de parede da hospedaria tem garças observando a cama como parentes decepcionados. Informo que Noor escolheu a estampa. Sofia aceita a resposta com uma expressão grave, como se a informação confirmasse uma investigação criminal, e guarda o celular no bolso do casaco.

Pego o molho de chaves do cinema e sigo até a porta lateral. Ela vem atrás sem perguntar para onde vamos, o que também continua igual. Sofia confiava em mim para escolher caminhos. Eu confiava nela para transformar qualquer trajeto em algo menos previsível. O acordo funcionou até o momento em que decidiu partir sozinha. Começamos pelo depósito atrás da tela. A chave de bronze não entra no cadeado dos produtos de limpeza, na porta do arquivo nem no armário onde guardo ferramentas. Sofia registra as tentativas no celular, criando uma lista chamada “Portas que Helena se recusa a explicar mesmo morta”. Vejo o título quando ela ergue a tela para iluminar uma fechadura. — Isso é desrespeitoso — digo, embora consiga imaginar Helena corrigindo a pontuação, criticando o título e só depois reclamando do conteúdo da lista. — Ela teria preferido “A vingança póstuma de uma exibidora independente” — Sofia responde, séria demais para convencer. — Talvez com letras douradas e uma crítica favorável inventada na capa. A risada que escapa de mim é curta, mas relaxa meus ombros antes que eu perceba o quanto estavam tensos. Sofia sorri como se tivesse conseguido alguma coisa. Seguimos pelo corredor dos camarins, onde o papel de parede cor de vinho se solta próximo ao rodapé. Ela passa os dedos pela borda levantada e examina a mancha acima da moldura. — Helena me enviou fotografias no verão passado — comenta. — Disse que vocês tinham resolvido a infiltração do teto e que você ameaçou processar a chuva. Explico que resolvemos apenas uma parte, porque a fachada consumiu o restante do orçamento. Sofia deixa a brincadeira de lado e percorre o teto com atenção. — Quanto devemos? — pergunta, sem rodeios, enquanto a chave gira inutilmente entre seus dedos e sua atenção abandona qualquer tentativa de brincadeira. Digo que o senhor De Clercq enviará os números completos pela manhã. Ela percebe que conheço uma estimativa, mas me recuso a oferecer valores incompletos antes de conferir contratos e juros. — Você ainda faz listas para tudo — observa, cruzando os braços. — Aposto que existe uma categoria reservada às informações que pretende esconder de mim. — Essa categoria é organizada por prioridade e risco — respondo, e o comentário demora um segundo para alcançá-la antes de modificar sua expressão. Sofia inclina a cabeça, divertida, depois afirma que fiquei engraçada. Digo que sempre fui, mas ela nega com uma certeza íntima demais para alguém ausente durante uma década.

— Dez anos alteram algumas coisas — lembro, voltando a caminhar antes que a frase se transforme numa pergunta sobre tudo o que ela não viu. Testamos o porão, a antiga sala de figurinos e o armário onde Helena guardava vinhos inadequados para clientes. A chave continua sem função aparente. Quando chegamos à escada da cabine de projeção, Sofia para no primeiro degrau. Não preciso encará-la para saber que se lembra da última noite, porque meu corpo ainda conhece a distância que existia entre nossas bocas. Subo antes que a lembrança encontre espaço para crescer. Os degraus estreitos rangem sob nossos passos, e Sofia me acompanha devagar, sem oferecer comentários sobre a poeira ou sobre minha pressa. A cabine está escura, iluminada apenas pelo vidro voltado para a sala de exibição. Acendo a luminária da bancada, revelando latas de filmes, ferramentas e o projetor principal. Sofia passa ao meu lado e toca a lateral da máquina com cuidado. A familiaridade do gesto me atinge de modo mais íntimo do que deveria. Ela conhece o arranhão perto da manivela, o compartimento que emperra no inverno e o ponto exato onde Helena batia quando o mecanismo recusava cooperação. Sofia se move pela cabine como se tivesse saído para comprar café e demorado alguns minutos. Não como alguém que abandonou o lugar durante dez anos inteiros. — Você ainda bate aqui quando ele trava? — pergunta, indicando a tampa lateral do projetor com a ponta do dedo, como fazia quando ajudava Helena. — Apenas quando merece — respondo. — Helena dizia que máquinas funcionavam melhor sob ameaças específicas, mas você costumava fornecer opções mais criativas. Ela abre uma gaveta, encontra bobinas vazias e fecha novamente. Não pede permissão. Uma parte de mim quer lembrá-la de que a transferência da propriedade ainda depende das sessões. Outra parte observa seus dedos sobre a madeira e sente uma satisfação vergonhosa por vê-la naquele espaço, ocupando-o com uma naturalidade que eu deveria detestar. Indico a mesa de montagem. Sofia se ajoelha diante do armário inferior e tenta inserir a chave. O casaco sobe nas costas, e eu me viro para ajustar uma bobina que não precisa de ajuste. — Também não serve — informa, levantando-se. — Talvez Helena tenha mandado fabricar duas chaves inúteis para garantir que passássemos algumas horas juntas sem poder culpá-la diretamente. — Ela preferia métodos mais baratos de tortura — respondo. — Normalmente bastava escolher um filme francês de quatro horas e trancar a saída lateral.

Sofia fica perto demais quando se endireita. A cabine sempre foi estreita, mas não me lembrava de o espaço exigir tanta atenção para respirar. Ela cheira a chuva e laranja. O perfume mudou de marca ou amadureceu com ela, porém ainda carrega alguma coisa capaz de levar meu pensamento a lugares pouco práticos. Noto o tremor leve em seus dedos e digo que está com frio. Sofia afirma que está apenas “belga”, condição que, segundo ela, envolve umidade nos ossos e superioridade cultural. Tiro o paletó antes de avaliar a decisão e o estendo. Ela olha para a peça, depois para minha camisa, como se o gesto exigisse uma negociação diplomática. — Você também está com frio — protesta, mantendo as mãos junto ao corpo. — Não faz sentido resolver minha falta de planejamento com a sua hipotermia. — Moro no andar de cima, e você precisa atravessar três ruas — explico. — Considere uma medida temporária de prevenção, não um sacrifício digno de agradecimento. Sofia aceita. Seus dedos tocam os meus ao pegar o tecido, um contato breve e quente apesar do frio que afirma sentir. A lembrança corporal é tão nítida que fecho a mão quando ela se afasta. Sofia percebe, porque sempre percebeu detalhes que eu preferia esconder. — Obrigada — diz, agora sem ironia, vestindo o paletó sobre o casaco numa combinação absurda que faz as mangas ultrapassarem seus punhos. Preciso voltar à lista. Conferir a caldeira. Telefonar ao distribuidor. Manter Sofia longe o bastante para atravessarmos doze quartas-feiras sem abrir feridas que nunca fecharam direito. Digo que amanhã revisaremos documentos, calendário e metas de público. Sofia informa que tem uma chamada às oito com uma produtora de Marselha e estará livre depois. — Estou legendando um documentário sobre fabricação artesanal de sinos — explica. — Há vinte e três minutos dedicados ao resfriamento do bronze, e nenhum deveria sobreviver à edição final. Sorrio antes de evitar. Sofia acompanha meu rosto com atenção, e a consciência de estar sendo observada apaga o gesto depressa demais. Ela se vira para a sala de exibição. As poltronas vermelhas aparecem além do vidro, alinhadas sob a luz fraca das placas de saída. — Você ficou aqui com Helena até o fim? — pergunta, e não há necessidade de explicar o que significa aquele fim.

Conto que Noor estava no apartamento e Mina chegou cedo. Helena dormiu depois de reclamar que Casablanca era uma escolha óbvia demais para sua própria despedida. Minha voz se mantém firme até a última palavra. Em seguida, preciso olhar para o projetor e contar os parafusos da tampa para não perder o controle. Sofia se aproxima um passo. Não me toca, e sou grata, embora uma parte menos sensata tenha desejado o contrário. — Eu devia ter atendido — admite, sem procurar desculpas no trabalho, na distância, no fuso horário ou em qualquer outra proteção conveniente. — Devia — respondo, porque oferecer conforto imediato seria desonesto com Helena, comigo e com tudo o que aquela ausência deixou para trás. Sofia recebe a resposta sem recuar. O rosto se contrai, mas ela sustenta meu olhar até dizer que sabe exatamente o que perdeu ao ignorar aquela chamada. — Helena também sabia que você a amava — acrescento. — Isso não apaga a falta, mas impede que a última conversa seja transformada na relação inteira. — Ainda assim, a chamada continua perdida — diz Sofia, passando o polegar pela pequena estrela gravada na chave enquanto contempla as poltronas vazias. Ficamos lado a lado diante do vidro. A sala parece menor sem público e grande demais sem Helena caminhando entre as fileiras para fiscalizar embalagens barulhentas. Sofia comenta que a escolha de Casablanca foi feita para nos irritar ou para obrigar uma nova discussão sobre o final. Concordo com as duas possibilidades. — Você ainda acha que Ilsa deveria ter ficado? — pergunta, trazendo de volta a conversa da noite em que quase nos beijamos. — Acho que ela tomou a decisão possível — respondo, embora aos vinte e quatro anos eu tivesse defendido o contrário durante quase uma hora. Sofia lembra minha opinião antiga. Digo que dez anos alteram algumas coisas, e ela me olha com uma atenção que torna o espaço ainda menor. — Nem todas — afirma, sem sorrir, e meu coração acelera com uma força irritante que não combina com a prudência que passei anos construindo. Antes que eu responda, o projetor faz um estalo seco apesar de estar desligado. Sofia se assusta, bate o quadril na bancada e perde o equilíbrio. Seguro seu braço por instinto. Ela apoia a mão em meu ombro, e ficamos próximas o bastante para que eu veja pequenas gotas presas aos cílios. Minha mão permanece sobre a manga do meu próprio paletó. O calor do corpo dela atravessa as camadas, familiar e inconveniente.

Agora conheço o custo de interpretar proximidade como promessa. Solto Sofia assim que recupera o equilíbrio e explico que o projetor estala quando esfria. — Seu equipamento acabou de tentar me matar — acusa, ajustando o paletó e evitando meus olhos. — Talvez ele tenha opiniões fortes sobre coproprietárias ausentes. — Ele não gosta de atrasos — respondo, abrindo a porta antes que a cabine consiga nos encurralar noutra lembrança ou numa decisão ainda menos sensata. No saguão, encontramos Noor diante da bilheteria com uma cesta coberta por um pano e a expressão de quem já investigou metade da situação. — Trouxe sopa — anuncia. — Mina disse que Elise esqueceria de comer, e presumi que Sofia sobreviveria de café, croissants e decisões questionáveis. Noor observa meu paletó sobre os ombros de Sofia. Depois examina minha camisa, o cabelo molhado dela e a escada da cabine, reunindo conclusões indecentes com eficiência admirável. — Não vou perguntar — declara, deixando claro que pretende fazer isso assim que Sofia estiver longe o bastante para não ouvir. — Fizemos uma inspeção técnica — explico. — A chave não abriu nenhuma fechadura, e o projetor quase derrubou Sofia sobre a mesa de montagem. — Naturalmente — responde Noor, pousando a cesta sobre o balcão e nos examinando. — É assim que todos os melhores relatórios de manutenção começam. Sofia ri e retira meu paletó. Ao devolvê-lo, seus dedos evitam os meus com cuidado visível, o que deveria ser um alívio. Noor nos obriga a sentar numa mesa do pequeno café. Em poucos minutos, Sofia espalha o cachecol, o celular, os documentos e duas canetas sobre a superfície. Ela ocupa o lugar como sempre fez. Abre espaço para si e, sem pedir, faz com que o restante de nós reorganize tudo ao redor. Enquanto come, pergunta sobre capacidade, licenças, funcionários e sessões anteriores. Anota respostas, calcula horários e cria uma tabela no celular. A desordem que eu esperava não aparece. Sofia escuta, interrompe apenas quando precisa esclarecer e percebe um erro no cálculo de público mencionado por Noor. — Se a meta considerar ocupação média, não precisamos lotar todas as quartas — explica. — Podemos compensar uma sessão fraca com duas acima de setenta por cento, desde que a regra permita equilíbrio entre datas. Lembro que ainda não temos os números oficiais. Sofia aponta a cláusula descrita no testamento e diz que está apenas impedindo que o pânico faça contas ruins.

— Você sempre preferiu fazer contas ruins com confiança — comenta Noor, recolhendo os recipientes vazios e empilhando-os devagar dentro da cesta. — Amadureci — responde Sofia, girando uma caneta entre os dedos com falsa solenidade. — Agora faço planilhas coloridas antes de tomar decisões irresponsáveis. Observo-a inclinada sobre a mesa, concentrada, mordendo a tampa da caneta encontrada no balcão. Helena reclamava desse hábito e depois deixava canetas novas perto dela. A cena é familiar demais. Por alguns segundos, espero ouvir passos vindos do escritório e uma ordem para desligarmos as luzes antes da meia-noite. A ausência de Helena ocupa o mesmo espaço que Sofia recuperou e transforma meu peito numa sala sem mobília, ampla demais para fingir que nada falta. Marco nossa reunião para as nove da manhã. Sofia pergunta se deve considerar horário belga ou humano, e respondo que oito e cinquenta reduzirá o risco de consequências. Ela sorri, mas o gesto desaparece quando desbloqueia o celular. A passagem de volta surge na tela por um instante antes que abra o aplicativo da companhia ferroviária. Vejo a data de domingo. Também vejo seus dedos hesitarem sobre a opção de alteração, embora não consiga identificar o novo dia escolhido. Não pergunto nem observo por mais tempo. Aprendi a não construir esperanças sobre movimentos incompletos, especialmente quando pertencem a Sofia Moreira. Noor recolhe a cesta, e Sofia guarda os documentos. Antes de sair, confere duas vezes se não está levando meu paletó junto com o cachecol. — Amanhã, oito e cinquenta — diz, parando sob o sino da entrada. — Prefiro chegar antes das consequências e fingir que isso sempre fez parte da minha personalidade. — A reunião começa às nove — corrijo, mantendo a mão sobre o balcão. — O que você fará com os dez minutos anteriores é problema seu. Sofia me encara como se houvesse outra conversa escondida naquela resposta. Em seguida, ergue a chave de bronze numa despedida silenciosa e sai para a chuva. Noor espera até o ponto amarelo do cachecol desaparecer na esquina antes de se virar para mim, com os óculos vermelhos baixos sobre o nariz. — Ela estava usando seu paletó e vocês subiram juntas para a cabine — resume. — Preciso desenhar o restante ou você pretende continuar chamando isso de manutenção? Explico que procurávamos a fechadura da chave e que não encontramos nada. Noor apoia as mãos na cintura, pouco impressionada com minha defesa.

— Helena deixou duas chaves misteriosas, metade do cinema para cada uma e uma programação de doze semanas — diz. — Mesmo morta, aquela mulher continua dirigindo a vida alheia. — Ela não pode obrigar Sofia a ficar — respondo, acompanhando pela janela o lugar onde o cachecol desapareceu entre os guarda-chuvas da rua. — Não pode — concorda Noor, pegando a cesta. — Mas conseguiu fazê-la voltar, e isso já é mais do que qualquer uma de nós conseguiu em dez anos. A distinção deveria ser simples. Em vez disso, volto à cabine depois que Noor parte, usando a necessidade de apagar a luminária como justificativa. Sobre a bancada, perto da mesa de montagem, encontro um pequeno papel dobrado. Sofia deve tê-lo derrubado quando guardou os documentos. Abro apenas para identificar a proprietária, e o papel revela um comprovante emitido pelo aplicativo da companhia ferroviária poucos minutos antes. O retorno para Paris não está mais marcado para domingo. Sofia transferiu a viagem para quinta-feira, na manhã seguinte à primeira sessão. Ela ainda pretende partir, mas decidiu permanecer até quarta-feira, e meu corpo recebe essa concessão mínima como se fosse alguma coisa muito maior.

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