CAPÍTULO 6 — A FOTOGRAFIA
POV: Elise Na manhã seguinte à sessão de Casablanca, acordo com cento e quarenta e três notificações no telefone e a certeza de que alguma parte do prédio está pegando fogo. O cinema continua de pé. A caldeira também, embora produza um ruído irregular no corredor. O incêndio existe nas redes sociais, onde Sofia transformou um desastre técnico numa atração. Um vídeo mostra sua tradução em neerlandês enquanto a legenda pergunta se “inspetor de salsichas” deveria entrar na programação oficial. Outro registra minha mão corrigindo uma palavra. Leio os comentários no sofá do apartamento, usando a caneca azul de Helena porque ainda não consegui guardá-la. Metade das pessoas pergunta quando haverá outra sessão comentada. A outra metade discute se Sofia e eu parecemos ex-namoradas. Não sei o que considero mais ofensivo: a conclusão ou a confiança com que desconhecidos defendem versões da minha vida. Fecho o aplicativo, mas volto a abri-lo para confirmar que não interpretei errado. Uma usuária afirma que “a tensão entre as proprietárias é melhor do que o filme”. Outra pergunta se fazemos parte de uma campanha romântica encenada. Não respondo, embora conheça alguém perfeitamente capaz de calcular quantos ingressos uma interpretação absurda pode vender. Desço ao saguão antes das sete. A luz atravessa as portas de vidro e revela embalagens esquecidas, programas dobrados e uma fita adesiva presa ao rodapé. Há onze pessoas na fotografia do encerramento. O número continua insuficiente, mas todas ficaram até os créditos, e três publicaram vídeos espontâneos. No quadro de regras, acrescento uma nova linha: “Nenhuma decisão baseada em comentários de desconhecidos antes do café.” Sofia entra vinte minutos depois, carregando o notebook, uma caixa de doces e um sorriso que confirma minhas suspeitas. Usa casaco vermelho e os cabelos soltos. — Temos cento e vinte e oito seguidores novos, vinte e seis mensagens privadas e um pedido de entrevista de uma rádio local — anuncia, depositando tudo no balcão. — Também existem pessoas querendo saber se estamos solteiras — respondo, entregando o telefone para que veja a discussão que cresceu durante a madrugada.
— Não esqueci. Classifiquei como pesquisa de público — diz, percorrendo os comentários com o polegar e uma concentração que deveria ser reservada a informações úteis. — Não vamos alimentar essa interpretação. O cinema precisa de público, não de especulação sobre nossa vida pessoal — aviso, retomando o aparelho antes que ela encontre inspiração. — Concordo. Pelo menos até entendermos se a especulação compra ingressos — responde, protegendo-se atrás da caixa de doces quando percebe minha expressão. Sofia abre o notebook e mostra as métricas. O vídeo mais visto ultrapassou oito mil visualizações, e a página recebeu mensagens de interessados na próxima quarta-feira. Há pedidos para outra sessão de Casablanca com tradução ao vivo. Sofia explica que não devemos repetir imediatamente, porque a improvisação funcionou justamente por ter sido inesperada. — Precisamos converter a atenção numa identidade. As pessoas gostam da história de duas herdeiras tentando salvar um cinema antigo — explica, girando a tela para mim. — Não somos uma história — respondo, embora Helena tenha usado argumentos semelhantes antes de cada campanha e provavelmente aprovasse o gráfico colorido diante de mim. — Todo negócio vira uma história quando tenta convencer alguém a atravessar a cidade e gastar dinheiro — diz Sofia, abrindo um calendário de publicações. A próxima sessão será dedicada a memórias de infância. Ela pretende gravar pequenos vídeos sobre reparos, arquivos e objetos encontrados sob as poltronas. Nada sobre o compartimento do A-12 aparece no plano. A ausência chama minha atenção porque Sofia costuma transformar qualquer mistério numa oportunidade publicitária. — Você não incluiu as chaves — observo, apontando para o calendário onde ela listou até a limpeza da marquise. — Algumas coisas não pertencem ao público — responde sem tirar os olhos da tela, repetindo a promessa feita quando recusou publicar minha fotografia no A-12. A lembrança aquece uma parte inconveniente do meu peito. Sofia não espera agradecimento, apenas passa ao próximo item como se respeitar meu limite fosse uma decisão comum. — Certo. Podemos mostrar o reparo do palco, desde que ninguém pise na área cedida — digo, aproximando minha cadeira para revisar o cronograma. — Jules sugeriu uma fotografia da equipe diante da tela. A rádio também quer uma imagem para divulgar a entrevista — informa Sofia, destacando o horário marcado.
— Ainda não aceitamos entrevista nenhuma — respondo, encontrando a confirmação enviada às sete e oito naquela manhã. — Eu aceitei. É gratuita, não altera contratos e está dentro das minhas responsabilidades. Verifiquei nossas regras três vezes antes de responder — diz, apontando para o quadro. A divisão de tarefas realmente inclui imprensa e parcerias, escrita em minha própria letra. Sofia sorri quando percebe que não tenho como transformar a irritação em argumento válido. — Você esperava usar essa cláusula contra mim — concluo, fechando a pasta que já não possui qualquer utilidade naquela disputa. — Desde que você retirou meus três pontos de exclamação — responde, distribuindo as tarefas da manhã com uma satisfação difícil de esconder. Jules virá depois da escola para fotografar a equipe. Luca verificará o sistema de som, Noor trará doces e eu concluirei o reparo provisório do palco. — Não suba ao palco sem mim. A parte esquerda continua instável — aviso, reunindo ferramentas e fitas de sinalização. — Você fala como se eu tivesse histórico de ignorar placas de segurança — responde Sofia, erguendo as mãos numa promessa que não considero juridicamente confiável. Passamos a manhã em espaços diferentes. A distância ajuda a organizar o trabalho e reduz as vezes em que percebo Sofia antes de ouvir sua voz. Mesmo assim, ela atravessa o saguão durante uma chamada, alternando entre português, francês e inglês enquanto negocia uma parceria com uma escola de idiomas. Quando encerra, anuncia que os alunos receberão desconto se participarem da próxima sessão e escreverem uma lembrança para o mural que ainda construiremos. — Você conseguiu isso em vinte minutos? — pergunto, descendo do palco para buscar outra ferramenta. — Dezoito. Os dois restantes foram gastos explicando que não somos uma iniciativa municipal — responde, guardando o telefone no bolso do casaco. O resultado deveria apenas confirmar que nossa divisão de responsabilidades funciona. Em vez disso, sinto orgulho e escondo o sentimento atrás da inspeção de um martelo. Perto do meio-dia, Noor chega com waffles pequenos e uma cópia impressa de um comentário. Deposita ambos no balcão com a solenidade de uma testemunha. — Minha cliente favorita acredita que vocês foram amantes na juventude e agora precisam salvar o cinema para resolver sentimentos antigos — anuncia. — Ela reservou quatro ingressos.
— Isso não significa que devamos incentivar a teoria — respondo, tomando o papel antes que Sofia decida emoldurá-lo. — Também não significa que devemos desencorajar alguém que comprou quatro ingressos sem reclamar do preço — rebate Noor, oferecendo um waffle a Sofia. — A teoria está errada. Não fomos amantes — diz Sofia, dobrando o comentário e guardando-o numa pasta de divulgação. A frase é correta, mas seu tom deixa espaço suficiente para Noor levantar uma sobrancelha. Concentro-me no waffle para não participar da investigação. — Vocês quase foram alguma coisa. Ghent é antiga, não cega — declara Noor, recolhendo migalhas do balcão com a ponta do guardanapo. — Estou reconsiderando a utilidade de paredes finas entre sua confeitaria e o cinema — respondo, retirando a bandeja do alcance de Sofia antes que desapareça inteira. Às três e meia, Jules chega usando uma mochila coberta de bottons e uma câmera no pescoço. Entrega-me uma lista de sugestões para as fotografias. Há imagens da fachada, da bilheteria, das poltronas e da equipe diante da tela. A última proposta diz: “As duas proprietárias no palco, espontâneas e acessíveis.” — Espontaneidade não deveria constar num roteiro — observo, devolvendo a lista para Jules corrigir pelo menos a pontuação. — É uma direção estética. Vocês precisam parecer pessoas que gostam de trabalhar juntas — explica ela, ajustando a lente da câmera. — Nós gostamos — responde Sofia antes que eu avalie a precisão da frase, apoiando o cotovelo no balcão ao meu lado. Jules aponta a câmera para nós. A primeira imagem parece uma reunião empresarial. Na segunda, Sofia comenta minha expressão de diretora de funerária. Jules fotografa quando tento não rir e aprova o resultado. Em seguida, conduz todas até a sala principal e aponta para o palco. Digo que a área ainda não está pronta. Jules promete permanecer na marca segura, e Sofia garante que obedecerá a qualquer instrução que não inclua “pareça natural”. Subimos pela lateral direita. A tábua danificada foi retirada, deixando uma abertura coberta por uma placa grossa que ainda precisa ser fixada. Posiciono Sofia longe dali e marco o limite com fita. Jules fica na primeira fileira, orientando nossos ombros como uma fotógrafa experiente e impaciente. — Mais perto. Existe espaço suficiente entre vocês para incluir o senhor Peeters e todas as reclamações dele — pede, levantando a câmera.
Sofia dá um passo. Seu braço roça o meu, e o perfume cítrico se mistura ao cheiro de madeira recém-cortada. — Assim? — pergunta, mantendo o rosto voltado para Jules enquanto seu ombro continua pressionado ao meu. — Um pouco mais — orienta Jules, sem demonstrar qualquer preocupação com os danos emocionais produzidos por sua composição. Sofia se aproxima até nossos braços ficarem alinhados. O calor de seu corpo atravessa meu colete, e a consciência do contato modifica minha postura. Jules tira várias fotografias. Numa delas, Sofia olha para mim em vez de encarar a lente. Percebo tarde demais e encontro seus olhos. O clique registra o instante. Jules examina a tela com satisfação profissional, enquanto eu tento recuperar uma expressão compatível com uma campanha cultural. — Essa ficou excelente — decide. — Apague — pedimos ao mesmo tempo, arrancando uma risada dela e outra, mais baixa, de Sofia. Jules muda o ângulo e pede que caminhemos pelo palco como se estivéssemos conversando. A instrução produz uma cena tão artificial que minha irritação se torna real. — Ninguém caminha diante de uma tela vazia fingindo que não percebe uma câmera — digo, acompanhando Sofia pela parte segura. — Pessoas em campanhas fazem isso constantemente. Também olham por janelas com café e fingem que nunca ouviram falar em fotografia — responde ela. Sofia recua para seguir a direção de Jules. O salto de sua bota encontra a borda da placa provisória, que se desloca com um ruído seco. Vejo o peso mudar antes que ela perceba. Seguro seu braço, mas o impulso a puxa para trás, e minha sola desliza na poeira de madeira. Sofia gira o corpo e prende um braço ao redor da minha cintura. Sua outra mão segura meu antebraço enquanto agarro seus ombros. Ela nos puxa para a parte firme do palco. Paramos junto à cortina lateral, com meu corpo pressionado ao dela e sua mão aberta sobre minhas costas. O susto acelera minha respiração. A proximidade faz o restante. Sinto os dedos de Sofia apertarem o tecido do colete como se ainda esperassem outra queda. — Você está bem? — pergunta, examinando meu rosto. A voz perdeu o humor, e seu braço continua firme ao redor da minha cintura.
— Estou. Você pisou exatamente onde pedi que não pisasse — respondo, mantendo a mão em sua nuca para não admitir que já recuperamos o equilíbrio. — Tecnicamente, pisei ao lado. O palco decidiu reinterpretar a instrução — diz, mas sua atenção não deixa meu rosto. A resposta deveria me irritar. Em vez disso, percebo as pequenas manchas douradas nos olhos dela e a proximidade de sua boca. Sofia olha para meus lábios. O movimento dura pouco, porém não o bastante para ser confundido com acaso. Meu coração bate com força contra o peito. — Elise — diz, respirando com dificuldade, enquanto o polegar permanece imóvel perto da costura do meu colete. O clique da câmera nos separa. Jules baixa o aparelho lentamente, alternando entre culpa e fascínio profissional. — Foi reflexo. A câmera estava no modo contínuo — explica, apertando a alça contra o peito como se isso pudesse protegê-la. Sofia solta minha cintura. O ar frio ocupa o espaço deixado por seu braço, e retiro a mão da nuca dela antes que o gesto deixe de ter justificativa. — Ninguém se machucou. Vamos encerrar as fotografias no palco — determino, examinando a placa enquanto minha voz tenta fingir que nada mudou. Jules mostra a sequência. A primeira imagem registra a placa cedendo. Na segunda, Sofia me segura pela cintura. Na terceira, nossos rostos aparecem próximos junto à cortina. Não há beijo. Ainda assim, a fotografia parece íntima, como se a câmera tivesse encontrado uma conversa que ambas recusamos manter. — Essa não vai para a rádio nem para as redes — digo, devolvendo o aparelho e esperando a confirmação de Jules. — Certo. Posso usar as anteriores, diante da tela? — pergunta, bloqueando a câmera diante de mim. Concordo. O assunto parece encerrado até Sofia se aproximar da abertura para avaliar o dano e revelar um arranhão avermelhado no pulso. Ela afirma que não é nada. Pego a caixa de primeiros socorros, limpo a marca e colo um curativo estreito sobre a pele. Sofia observa minhas mãos durante todo o processo. Nenhuma de nós comenta a posição em que estávamos segundos antes. — Obrigada — diz quando termino, passando o dedo ao lado do curativo sem tocar na