CAPÍTULO 15 — O QUARTO ACIMA DA A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 19 de 30
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CAPÍTULO 15 — O QUARTO ACIMA DA

BILHETERIA POV: Sofia À uma e treze da manhã, uma gota fria cai no centro da minha testa e me convence de que as garças do papel de parede finalmente encontraram um método físico de desaprovação. Abro os olhos. Outra gota atinge o travesseiro, escurecendo o tecido a poucos centímetros do meu rosto. Acima da cama, o teto apresenta uma mancha irregular que cresce enquanto observo. — Isso parece caro — digo para o quarto vazio, porque narrar pequenos desastres ajuda a impedir que eles assumam autoridade moral sobre mim. Levanto depressa, arrasto a mala para longe da cama e alcanço o balde de lixo sob a escrivaninha. A terceira gota cai no piso antes de eu conseguir posicioná-lo. Em menos de dois minutos, a infiltração deixa de ser um problema pontual e passa a molhar a cabeceira, a cortina e uma das garças, cujo pescoço começa a descolar da parede. Bato na porta da proprietária da hospedaria usando o casaco sobre o pijama e um tênis diferente em cada pé. Ela aparece com uma touca de cetim roxa e uma lanterna enorme. — O cano do andar de cima rompeu — explica depois de examinar o teto. — Fechei o registro, mas seu quarto não pode ser usado esta noite. — Existe outro? — pergunto, olhando para a água escorrer sobre a cama onde eu pretendia desenvolver uma relação estável com o sono. Ela faz uma careta. Um festival de design ocupou quase todos os quartos disponíveis na região. O único cômodo livre contém caixas, uma bicicleta desmontada e um casal de periquitos pertencente à irmã dela. — Eles costumam cantar às cinco — acrescenta, como se o horário fosse o principal problema e não o fato de eu dividir espaço com animais alados durante uma crise hidráulica. Digo que vou resolver. Recolho roupas, notebook, documentos e o pedaço rasgado da cláusula cinco, ainda dobrado dentro do bolso lateral da bolsa. A proprietária me oferece um guarda-chuva e promete pagar outra hospedagem assim que encontrar vaga. Na calçada, a chuva cai fina e constante. As ruas estão quase vazias, e minhas opções se resumem a hotéis lotados, periquitos madrugadores ou a única pessoa para quem quero ligar.

Fico alguns segundos olhando o nome de Elise na tela. Nosso aditamento proíbe esconder mudanças importantes, mas não especifica como solicitar abrigo depois da meia-noite sem transformar intimidade recente em emergência imobiliária. Ela atende no segundo toque, antes que eu consiga preparar uma versão menos absurda da situação. — Sofia? — A voz está rouca de sono, e a intimidade involuntária daquele som provoca um calor inadequado para alguém com água dentro da mala e dois sapatos diferentes. — Antes que você se preocupe, estou inteira. Minha dignidade sofreu danos moderados, e uma garça de papel talvez não sobreviva, mas eu continuo funcional. Ouço tecido se mover e uma porta abrir do outro lado da linha. Elise não pergunta por que ligo. Apenas espera a parte útil da informação com uma paciência que sempre me força a abandonar metade das piadas. — O cano acima do meu quarto rompeu — explico. — A cama está molhada, a hospedaria lotou e a alternativa imediata envolve periquitos com hábitos matinais agressivos. — Onde você está? — pergunta, e o som de passos rápidos indica que já começou a se mover antes mesmo de receber a resposta. — Na rua, perto da ponte. Tenho um guarda-chuva, uma mala e dois tênis que pertencem ao mesmo par apenas em espírito. — Venha para o Aurora. Vou abrir a porta e deixar uma toalha pronta antes que você transforme hipotermia em comentário espirituoso. Não existe hesitação, negociação ou pergunta sobre duração. A facilidade da resposta faz minha garganta apertar, então agradeço com um comentário sobre resgate cultural e encerro antes de parecer comovida diante de uma vitrine fechada. O Aurora surge no fim da rua com a marquise apagada e as janelas escuras. Elise já está diante da porta quando chego, usando calça de pijama azul, camiseta cinza e meias grossas. Nunca a vi assim. Conheço seus vestidos, botas, roupas de trabalho e casacos alinhados. A camiseta macia, o cabelo solto e a marca do travesseiro na bochecha produzem uma proximidade que nenhum beijo preparou. — Você está usando sapatos diferentes — observa, segurando a porta enquanto eu arrasto a mala pela soleira e espalho gotas no piso recém-limpo. — Foi uma escolha artística sob pressão. O esquerdo representa esperança; o direito representa falha de iluminação e desorientação.

Elise fecha a porta, pega minha mala antes que eu proteste e examina o tecido úmido. A mão toca meu antebraço, sobe até meu ombro e verifica o casaco como se procurasse água escondida. — Está molhada? — pergunta, apertando de leve o tecido do meu casaco entre os dedos e examinando a água que escorre da manga. — Só o casaco e parte da barra. O teto concentrou a ofensiva na cama, o que considero pessoal. Ela me conduz pela escada lateral. O saguão fica abaixo, silencioso e escuro, enquanto subimos até o apartamento onde Helena viveu durante anos antes de Elise ocupar o espaço. Já entrei ali para revisar contas e procurar documentos. Àquela hora, sem pastas abertas nem visitas programadas, o apartamento parece diferente. Uma luminária acesa junto ao sofá espalha luz amarela sobre livros, plantas e fotografias. Há uma caneca na mesa de centro, um romance aberto com a lombada voltada para cima e uma manta caída no braço do sofá. Objetos pequenos revelam a mulher que Elise costuma esconder atrás de pranchetas. — Pode ficar o tempo que precisar — diz, deixando minha mala perto da parede. — Amanhã vemos se existe outro quarto ou se o reparo será rápido. — Uma noite basta. Não pretendo transformar um vazamento em ocupação territorial acima da bilheteria nem iniciar uma crise de propriedade por causa de um cano. — Você não precisa decidir isso agora — responde, abrindo o armário do corredor. — Precisa tirar o casaco, aquecer as mãos e parar de tremer. Só percebo o frio quando ela menciona. Meus dedos estão rígidos, e a água na barra da calça deixou a pele das pernas gelada. Elise abre um armário e retira uma toalha grande. Ela se aproxima para colocar a toalha sobre meus ombros. O gesto lembra a cabine depois da tempestade, mas agora sua camiseta roça meu pijama e não existe público esperando o filme recomeçar. — Posso? — pergunta, segurando as pontas da toalha perto do meu pescoço e esperando que eu escolha antes de aproximar as mãos. — Pode — respondo, erguendo o queixo para facilitar o gesto e tentando não transformar cuidado simples em outro acontecimento impossível de ignorar. Elise esfrega meus braços por cima do tecido, devagar, devolvendo calor à pele. Fico consciente demais da distância entre nossos corpos e da tranquilidade com que ela cuida de mim.

— Você precisa trocar essa calça — diz, ajoelhando-se para tocar a barra molhada antes de perceber a posição e retirar a mão com rapidez. — Tenho roupas na mala, desde que a infiltração não tenha transformado todas em instalação aquática contemporânea. Ela aponta o banheiro e oferece uma camiseta limpa, embora eu tenha minhas próprias roupas. Aceito porque a peça cheira a sabão e a ela, decisão que não merece análise depois de uma da manhã. No banheiro, troco o pijama molhado por uma calça seca e a camiseta de Elise. O tecido fica largo nos ombros e alcança metade das minhas coxas, embora eu seja alguns centímetros mais baixa. Quando volto, ela preparou chá e abriu o sofá. A tentativa revela uma estrutura curta, estreita e inclinada para o centro, com uma mola metálica visível sob a almofada. — Você dorme aí? — pergunto, observando o móvel como se ele tivesse confessado uma infração grave diante de testemunhas. — Quando alguém fica no apartamento, sim — responde, testando a almofada inclinada e fingindo não perceber a mola descoberta. — Esse sofá foi projetado para punir visitas ou extrair confissões. Você não vai dormir nele enquanto eu ocupo uma cama perfeitamente utilizável. — Você é a visita — lembra, fechando a mão sobre a manta como se o argumento encerrasse a distribuição de superfícies. — Também tenho coluna e senso de culpa. Podemos dividir a cama sem distribuir lesões ou criar uma competição de sacrifício doméstico. Elise cruza os braços. O gesto perde parte da autoridade porque ainda usa meias com pequenas luas bordadas, informação que pretendo preservar para futuras negociações. — A cama é grande — diz depois de alguns segundos. — Podemos dividir, se você estiver confortável. Não precisa significar nada além de dormir. Meu corpo escolhe reagir ao verbo dividir antes que minha mente termine de avaliar o restante. Lembro dos beijos, da mão em minha cintura e da forma como Elise perguntou se eu queria continuar. — Estou confortável — respondo. — Desde que você também esteja e não passe a noite na borda por algum impulso de martírio doméstico. — Não tenho impulsos de martírio — afirma, embora o travesseiro colocado no lado mais curto do sofá transforme a declaração numa peça de ficção pouco convincente. Olho para o móvel aberto, a manta dobrada e a mola exposta. Elise acompanha meu silêncio, fecha o sofá e abandona a defesa da própria reputação.

Levamos as canecas para o quarto. A cama ocupa grande parte do espaço, cercada por duas mesas estreitas e uma estante baixa cheia de livros de restauração, romances policiais e catálogos antigos. No lado de Elise, há um despertador, creme para as mãos e uma fotografia de Helena rindo diante do cinema. No outro, apenas uma luminária e um copo vazio. Minha mala fica aos pés da cama. A imagem cria uma intimidade estranha, como se meus objetos tivessem entrado numa cena doméstica antes de eu decidir se possuía permissão para imaginá-la. — Qual lado você prefere? — pergunta Elise, ajeitando o lençol com movimentos cuidadosos e deixando claro que a pergunta possui resposta prática, não simbólica. — Não sabia que lados da cama exigiam identidade permanente. Em Paris, durmo diagonalmente como protesto contra apartamentos pequenos e decisões arquitetônicas hostis. — Aqui você não pode ocupar a diagonal inteira — avisa, escolhendo o lado próximo à janela e dobrando o edredom com competência irritante. — O relacionamento mal começou e você já limita minha expressão espacial. Registrarei isso no próximo aditamento, junto com uma defesa do direito ao travesseiro central. Ela sorri ao acomodar o travesseiro junto à janela. Deixo a bolsa sobre a cadeira e encontro o pedaço da cláusula cinco no bolso, amassado entre recibos. Coloco o papel na mesa vazia. Elise observa, depois retira da gaveta a caneta com a pequena estrela que desenhei e a pousa ao lado da frase rasgada. — Você guardou a caneta — digo, reconhecendo a marca perto da tampa e sentindo uma satisfação que tento esconder atrás do exame do papel rasgado. — Ainda funciona — responde, embora o modo como alinha a caneta ao lado da cláusula revele cuidado demais para uma explicação tão prática. — Essa justificativa é ofensivamente fraca para alguém que exige honestidade contratual e revisa palavras como se cada uma pudesse causar dano estrutural. Ela se senta na borda da cama, com a caneca entre as mãos. A luz deixa seus cabelos mais claros nas pontas e revela o cansaço sob os olhos. — Guardei porque você desenhou a estrela — admite, passando o polegar sobre a tampa. — Não pensei que precisasse explicar naquela noite, mas gosto de encontrá-la na gaveta. A resposta elimina minha vontade de provocá-la. Sento ao seu lado, deixando alguns centímetros entre nossos quadris, e seguro a caneca para aquecer os dedos.

— Eu gosto de saber — digo. — Não porque precise transformar tudo em prova, mas porque passei tempo demais adivinhando o que você escondia atrás de frases corretas. Elise olha para o chá. Seu polegar percorre a alça duas vezes antes de ela aceitar a

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