CAPÍTULO 9 — CHUVA SOBRE O A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 11 de 30
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CAPÍTULO 9 — CHUVA SOBRE O

CANAL POV: Sofia Na segunda quarta-feira da temporada, Ghent oferece um céu claro até as quatro da tarde, apenas para garantir que nossa confiança tenha tempo suficiente de se tornar cara. A sessão externa será montada num pequeno cais junto ao Leie, a oito minutos do Aurora. A prefeitura liberou o espaço, a escola de idiomas comprou vinte ingressos e Jules criou uma campanha chamada “Cinema sob as estrelas”, ignorando que as estrelas permanecem escondidas atrás das nuvens durante metade do ano. Vendemos setenta e oito ingressos até o almoço. Depois dos onze espectadores de Casablanca, o número parece indecente, como se alguém tivesse acrescentado um zero por compaixão e esquecido de avisar a contabilidade. Chego ao cais carregando uma caixa de mantas e encontro Elise agachada ao lado da estrutura da tela, verificando cada presilha com a atenção de quem desconfia pessoalmente do vento. Ela usa jeans escuros, botas e um casaco verde fechado até o pescoço. Os cabelos estão presos numa trança que cai sobre um ombro, detalhe que meu cérebro arquiva numa pasta sem qualquer relação com segurança ou cinema. — A previsão continua sem chuva — informo, pousando a caixa perto das cadeiras dobráveis. — Consultei três aplicativos, um site agrícola e um homem na esquina que sente umidade no joelho. Elise testa a tensão de outra corda antes de olhar para o céu. A claridade ainda atravessa as nuvens, mas o ar traz um cheiro frio de água e pedra molhada que nenhum aplicativo parece ter considerado. — O homem do joelho tem seguro contra danos em equipamento? — pergunta, levantando-se e limpando as mãos na lateral da calça. — Não perguntei. Nossa relação profissional ainda está no estágio em que certos assuntos financeiros seriam invasivos, especialmente quando envolvem joelhos meteorológicos e responsabilidade civil. Ela quase sorri. O acordo de imagem pública está em vigor há seis dias, tempo suficiente para aprendermos que fingir intimidade exige mais reuniões do que sentir qualquer coisa sem planejamento. A entrevista de rádio trouxe reservas, mensagens e duas propostas de parceria. No cais, Luca prende cabos sob passadeiras de borracha enquanto discute com um gerador alugado. Noor organiza uma mesa de doces protegida por um toldo vermelho, e Mina

distribui almofadas como se estivesse preparando convidados para uma cerimônia de coroação. A sessão exibe A Princesa e o Plebeu, escolha de Elise para homenagear a coleção de Audrey Hepburn que Helena mantinha no escritório. Não discuti, embora o final dependa de duas pessoas separarem desejo e dever, assunto que nossa programação parece escolher com crueldade crescente. Jules surge diante de nós com a câmera. Antes de qualquer fotografia conjunta, observo Elise e toco duas vezes seu pulso. O gesto ainda parece secreto, mesmo sabendo que foi criado numa folha impressa e arquivada atrás de um quadro. Ela oferece a mão. Entrelaço nossos dedos e a puxo para perto o bastante para que nossos ombros se encostem diante da tela ainda vazia. O contato deveria ser simples, parte do trabalho e autorizado pelas cláusulas. Meu corpo responde com calor nas palmas, atenção excessiva à linha de seu braço e uma vontade inconveniente de aproximá-la mais. — Olhem uma para a outra — pede Jules, ajustando a lente. — Sem expressão de auditoria. A fundação precisa acreditar que vocês conseguem ocupar o mesmo enquadramento sem revisar notas fiscais. Elise vira o rosto. Seus olhos encontram os meus, claros sob a luz refletida pelo canal. Por alguns segundos, esqueço a câmera e a fila de cadeiras atrás de nós. — Sofia — diz ela, num tom baixo, apontando com o olhar para nossas mãos enquanto Jules continua fotografando. — Você está apertando mais do que o combinado. Solto um pouco os dedos, mas não desfaço o contato. Jules fotografa exatamente quando minha expressão tenta se transformar numa desculpa. — Pronto. Essa tem humanidade suficiente — anuncia, conferindo a tela e afastando-se antes que Elise alcance a câmera. — Também tem tensão, mas aprendi que mencionar isso gera documentos. Elise retira a mão quando terminamos. Não usa o sinal de parada, apenas volta para a estrutura da tela, e a pele entre meus dedos permanece consciente do espaço vazio. Às seis e meia, os primeiros espectadores chegam. Famílias ocupam as cadeiras da frente, estudantes da escola de idiomas se agrupam à direita e o senhor Peeters escolhe um lugar junto ao corredor para facilitar reclamações estratégicas. Noor vende chá, waffles e caramelos. Mina convence desconhecidos a usar as mantas que trouxe, afirmando que ninguém deve sofrer por elegância em nome da cultura. Elise e eu recebemos o público lado a lado. Quando alguém pede uma fotografia, repetimos o código, sorrimos e nos aproximamos apenas o necessário.

A terceira pessoa pergunta quando começamos a namorar. Respondo com a frase oficial sobre privacidade e futuro do Aurora. Ela suspira, compra dois pacotes de caramelos e diz que paciência também faz parte do romance. — Isso está funcionando melhor do que deveria — murmuro quando ficamos sozinhas por alguns segundos, observando a fila crescer diante da mesa de Noor. — O público sempre preferiu histórias simples — responde Elise, conferindo a lista de reservas. — Duas mulheres, um cinema ameaçado e uma fotografia parecem exigir menos esforço do que contas, licenças e infiltrações. — Nossa versão também possui infiltrações, dívidas e uma caldeira vingativa. Só não aparecem bem nas fotografias nem recebem comentários com corações. Ela fecha a prancheta e olha para mim. A trança se move com o vento, roçando o tecido do casaco. Minha vontade de tocar a ponta surge sem utilidade pública e permanece sem atendimento. — Você está confortável com tudo isso? — pergunta, mantendo a voz baixa enquanto uma família passa por nós em direção às cadeiras e cumprimenta as duas com entusiasmo. A cláusula sobre não mentir entre nós transforma a pergunta em algo maior do que deveria. Examino o acordo, as mãos dadas, as fotografias e a forma como meu corpo demora a entender quando um toque termina. — Com a campanha, sim. Com as pessoas inventando detalhes, nem sempre. Com você, ainda estou descobrindo — respondo, oferecendo a versão menos protegida que consigo sem desmontar no cais. Elise sustenta meu olhar enquanto um músculo se move junto ao maxilar. Ela não desvia, não oferece resposta pronta e tampouco usa a chegada de novos espectadores para escapar. — Eu também — admite, antes de voltar à lista porque existem setenta e oito testemunhas e nenhuma cláusula capaz de organizar aquela frase. A projeção começa às sete e dez. O céu escurece sobre os telhados, os reflexos das fachadas tremem no canal e a tela ganha luz diante das fileiras quase completas. O som funciona. As legendas aparecem no tempo certo. Luca cruza os braços junto ao equipamento com a expressão satisfeita de um homem que derrotou uma máquina sem precisar recorrer à religião. Sentamos no fundo durante os primeiros minutos. Elise mantém a prancheta no colo, contando entradas tardias, enquanto eu acompanho as legendas e tento não corrigir mentalmente escolhas feitas por outra profissional. Nossos joelhos se encostam por causa das cadeiras estreitas. Nenhuma afasta a perna. O contato persiste sob as mantas distribuídas por Mina, escondido do público e inútil para a campanha.

A primeira gota cai sobre meu nariz aos vinte e três minutos. Olho para cima, esperando encontrar um pássaro culpado, mas outra mancha escura aparece no papel preso à prancheta de Elise. — Não diga nada — peço, cobrindo a prancheta com a manta. — Talvez a chuva respeite narrativas frágeis se não receber atenção nem documentação oficial. Uma sequência de gotas atinge a lona do equipamento. Elise se levanta antes que eu termine a frase, sinalizando para Luca proteger o projetor e para Jules orientar o público. O céu decide abandonar qualquer sutileza. A água chega inclinada pelo vento, atingindo cadeiras, mantas e a tela, enquanto o canal perde os reflexos sob uma superfície quebrada pela chuva. Luca desliga o sistema. A imagem desaparece no meio de uma cena, arrancando protestos e risadas. Noor cobre os doces com plástico, Mina recolhe almofadas e Jules anuncia que todos devem seguir para o Aurora. O plano de emergência prevê conduzir o público até o cinema, onde a sessão poderá continuar. O plano não prevê uma rajada levantar a cobertura lateral e lançar água sobre os cabos. Elise corre para segurar a lona. Vou atrás, prendendo uma extremidade enquanto Luca e dois voluntários empurram o gerador para a van. — Leve o público para o Aurora — grita ela por cima da chuva, apontando para a passagem entre os prédios. — Eu fico com o equipamento até Luca voltar. — Nosso acordo proíbe abandono dramático em cenários cinematográficos — respondo, puxando a lona para cobrir as caixas. — Está numa cláusula implícita entre consentimento e boletos. — Essa cláusula não existe no documento que assinamos, e você sabe muito bem que não pode acrescentar regras durante uma emergência — responde, prendendo outra ponta da lona. — Então aproveite a oportunidade de vê-la aplicada sem burocracia, assinatura ou margem para uma revisão sua em fonte menor — retruco, puxando o tecido contra o vento. A água escorre pelo meu rosto e entra pela gola do casaco. O vento dobra a lona, obrigando-nos a baixar junto às caixas para impedir que se solte. Luca corre até a van com o projetor principal. Elise aponta para duas caixas de som e uma unidade de controle que não podem ser movidas antes de desligarmos todos os cabos. Ajoelho na madeira molhada e seguro a lanterna do telefone. Ela trabalha depressa, os dedos firmes apesar da chuva, enquanto a trança se desfaz e fios escuros grudam em sua bochecha.

Meu corpo escolhe aquele momento para notar a água correndo pelo pescoço dela. A falta de caráter do desejo não chega a ser novidade, mas o senso de ocasião continua surpreendente. Uma rajada mais forte arranca a lona das minhas mãos. Elise me agarra pela cintura e me puxa sob a parte ainda presa à estrutura. Caio de joelhos ao lado dela, protegida por um triângulo de tecido que mal cobre duas pessoas e três caixas. A lona vibra sobre nossas cabeças, tão baixa que preciso curvar o corpo. O braço de Elise continua ao redor da minha cintura. Minha mão repousa em sua coxa para manter o equilíbrio, e o calor atravessa o jeans molhado com uma clareza capaz de apagar qualquer pensamento útil. — Você está bem? — pergunta, aproximando o rosto porque o barulho da água torna a voz quase inútil e nenhuma de nós consegue se afastar sem atingir as caixas. — Estou reconsiderando minhas fontes meteorológicas e minha capacidade de escolher posições dignas — respondo, sem retirar a mão com a rapidez que a dignidade recomendaria. Elise olha para meus dedos sobre sua coxa. O espaço sob a lona encolhe mais um pouco, embora nenhuma estrutura tenha se movido. Retiro a mão e apoio o punho na madeira. Ela solta minha cintura, mas nossos quadris continuam pressionados pela falta de espaço. — Não há câmera aqui — diz, passando o antebraço pelo rosto para afastar a água enquanto continua presa ao meu lado. — Não precisamos manter aparência alguma para ninguém. — Eu sei. Meu joelho não recebeu instruções da campanha antes de encostar no seu, e meu restante parece igualmente incapaz de obedecer ao documento. Ela ri. O som fica abafado pela chuva, mais próximo do que qualquer risada deveria estar. Uma mecha molhada cola em seus lábios, e estendo a mão antes de decidir se o gesto possui autorização. Paro a poucos centímetros de seu rosto, consciente demais da água nos cílios dela. Elise observa meus dedos suspensos e, sem desviar os olhos, toca duas vezes meu pulso. Afasto a mecha com cuidado. A ponta dos dedos desliza pela pele fria de sua bochecha, e meu polegar termina perto demais da boca dela. Elise não recua. Seus olhos descem até os meus lábios, repetindo o movimento que vi no palco e tentei transformar em invenção causada por desconhecidos.

A chuva, a lona e as caixas desaparecem da parte do meu pensamento responsável por decisões sensatas. Consigo sentir sua respiração na minha boca e a mão dela fechando devagar sobre meu pulso. — A cláusula cinco continua válida — digo, num tom baixo demais para parecer uma defesa eficiente do contrato ou uma tentativa sincera de aumentar a distância. — Eu sei — responde, mantendo os dedos em volta do meu pulso sem usar o aperto que significaria parar e sem afastar o rosto do alcance do meu. Nenhuma de nós se move. O desejo antigo retorna sem nostalgia, inteiro e atual, preso ao modo como Elise me olha quando não existe público para convencer. Luca chama nosso nome do outro lado da lona. A distância entre nossos rostos aumenta antes que ele consiga erguer o tecido e perguntar se estamos vivas. — Tecnicamente — respondo, recuando para permitir que ele alcance as caixas. — Mas o cinema está desenvolvendo métodos cada vez mais caros de testar isso. Elise volta aos cabos. Seu rosto recupera concentração, embora a mão trema uma vez ao soltar o último conector. Finjo não perceber porque a minha também não está confiável. Transportamos o restante do equipamento até a van e seguimos correndo para o Aurora. O público ocupa o saguão, molhado e animado, tratando o temporal como parte da programação. Noor distribui toalhas de cozinha, Mina organiza mantas sobre as poltronas e o senhor Peeters informa que a sessão externa provou por que tetos foram inventados. Jules conta setenta e duas pessoas dentro da sala. Seis foram embora por causa da chuva, mas ninguém pediu reembolso. Duas famílias compram novos doces enquanto esperam a retomada. Elise e eu subimos à cabine para ajudar Luca. Estamos encharcadas, deixando pequenas poças no piso. Ela me entrega uma toalha encontrada no armário e usa outra para secar o painel. — Precisamos trocar de roupa — digo, esfregando o cabelo e observando a blusa escura de Elise colada aos braços sob o casaco aberto. — Depois que o sistema estiver funcionando. As caixas principais não molharam, mas o controle precisa ser testado antes de colocarmos setenta pessoas diante de outra falha. — Seu compromisso com eletrônicos é admirável, porém continua sendo uma forma elaborada de pneumonia com planilha, prazos e responsabilidade cultural. Ela pega a toalha da minha mão e a coloca sobre meus ombros. Os dedos prendem as pontas junto ao meu pescoço, aproximando nossos corpos no espaço estreito da cabine.

— Você está tremendo — diz, tocando meu pulso como se precisasse confirmar a temperatura da pele e não confiasse na resposta que estou prestes a oferecer. — Estou com frio. Qualquer outra interpretação deverá ser encaminhada à administração por escrito, em duas vias e depois que eu recuperar a sensibilidade dos dedos. Elise mantém a mão ali durante alguns segundos, sem código, câmera ou testemunha. Depois se afasta quando Luca anuncia que o sistema está pronto. A sessão recomeça vinte e oito minutos depois. Entramos na sala para explicar o atraso, e o público nos recebe com aplausos, cabelos molhados e copos de chá fumegantes. Sofia de dezenove anos teria chamado aquilo de desastre. A mulher no palco reconhece outra coisa: setenta e duas pessoas decidiram atravessar a chuva conosco em vez de voltar para casa. Elise segura minha mão diante da plateia. Não sinto os dois toques no pulso, mas não reclamo. O gesto parece menos uma estratégia do que uma resposta ao susto que ainda permanece em nossos corpos. — Prometemos cinema sob as estrelas — digo ao microfone. — Entregamos cinema sob água suficiente para exigir licença marítima, mas a parte do filme continua incluída no ingresso. A sala ri. Elise explica que a sessão seguirá de onde parou e agradece à equipe, aos voluntários e ao público. Quando termina, aperta minha mão uma vez. Solto imediatamente, obedecendo ao acordo. O olhar que ela me lança indica que o sinal talvez tenha significado outra coisa, mas já estamos diante de uma sala cheia demais para perguntar. Assistimos ao restante do filme na última fileira, usando roupas emprestadas por Noor e Mina. Minha calça continua úmida, o moletom de Noor traz o nome da confeitaria nas costas e Elise veste uma blusa larga que pertenceu a Helena. Nossos joelhos voltam a se encostar. Desta vez, Elise puxa a manta sobre as duas e segura meu pulso por baixo do tecido, onde ninguém pode ver. Não há dois toques pedindo autorização. Também não há aperto para parar. Apenas seus dedos frios envolvendo os meus enquanto o filme avança para uma despedida conhecida. Depois dos créditos, contamos setenta e duas presenças válidas, três novas reservas para a semana seguinte e uma caixa de doações com cento e nove euros destinados ao reparo do palco.

A média ainda está abaixo do necessário, mas deixou de parecer uma sentença. Jules publica uma fotografia do público molhado no saguão, aprovada por todos, e a Fundação De Zwaan reage à imagem antes da meia-noite. Quando fechamos o cinema, a chuva diminuiu. Mina e Noor já foram embora, Luca levou os equipamentos para secar e Jules recebeu ordem de dormir antes de transformar o temporal numa série documental. Elise insiste em me acompanhar até a hospedaria porque meu casaco continua encharcado. Caminhamos junto ao canal em silêncio, compartilhando um guarda-chuva que não cobre direito nenhuma das duas. A água pinga das calhas, as bicicletas deixam riscos brilhantes nas pedras e as fachadas se refletem novamente no Leie, deformadas pela corrente. Perto da ponte, Elise para. Penso que vai comentar a sessão, o relatório ou a quase perda do equipamento. Em vez disso, ela toca duas vezes meu pulso. Ofereço a mão por reflexo. Ela entrelaça os dedos nos meus e os esconde no bolso amplo do próprio casaco, protegendo nossas mãos do frio. Olho ao redor. A rua está vazia, sem câmeras, clientes ou representantes de fundação. Quando volto a encará-la, Elise mantém os olhos no caminho e não tenta explicar o gesto. Continuamos andando assim, apertadas sob o guarda-chuva, enquanto o acordo permanece guardado no Aurora e nossas mãos unidas não servem a campanha alguma.

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