CAPÍTULO 12 — O FILME SEM FINAL A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 15 de 30
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CAPÍTULO 12 — O FILME SEM FINAL

POV: Elise O vídeo da dança chega à Fundação De Zwaan numa segunda-feira, junto com quarenta e duas páginas de orçamento, fotografias da parede de recados e uma planilha que Sofia chama de “prova documental de que o caos pode aprender matemática”. Na quarta à tarde, cento e seis ingressos estão reservados para a terceira sessão. A comissão visitará o Aurora na manhã seguinte, o que transforma cada lâmpada fraca numa ameaça institucional. A programação daquela noite inclui A Janela de Bruges, um romance belga de 1962 que Helena exibia sempre que queria discutir finais infelizes com pessoas que não haviam pedido sua opinião. O filme acompanha duas mulheres separadas por uma decisão familiar e termina numa estação ferroviária. Sofia considera a escolha uma agressão temática. Eu afirmo que apenas seguimos a programação deixada por Helena. — Sua tia está morta e ainda organiza metáforas contra nós — diz Sofia, conferindo as legendas no computador da cabine. — Isso exige um nível de planejamento que respeito e pretendo condenar. — Ela escolheu o filme antes de morrer. Não sabia sobre o acordo, a fotografia ou a dança. — Conhecia nossas limitações emocionais. O restante era previsão estatística. Sofia usa um macacão azul-escuro, tênis brancos e a credencial presa de forma correta sem minha ajuda. O detalhe deveria ser irrelevante. Ainda assim, sinto falta do pequeno ritual de endireitá-la. Depois da dança, passamos dois dias tratando qualquer contato como se tivesse valor contratual. Nenhuma usou o código longe das câmeras, e nossas mensagens ficaram restritas a fornecedores, horários e uma discussão sobre fonte tipográfica. A prudência deveria me tranquilizar. Em vez disso, sinto o afastamento como uma porta encostada no meio de um corredor que antes estava livre. Luca verifica o projetor principal e declara que a peça substituída após a tempestade está estável. Também instala um sistema digital reserva, porque aprendeu a desconfiar de noites importantes. — Se os dois falharem, acendemos as luzes e Sofia interpreta o filme inteiro — diz ele, fechando o painel lateral. — O público já acredita que isso faz parte do serviço. — Meu repertório de emergência não inclui representar duas mulheres belgas de 1962 — responde Sofia. — Posso traduzir culpa em três idiomas, mas figurino exige orçamento.

Luca ri e desce para ajudar Jules com os microfones. Fico na cabine enquanto Sofia testa o arquivo das legendas e reduz o brilho do monitor. O vidro diante de nós mostra a sala sendo ocupada aos poucos. Noor distribui cartões para a parede de memórias. Mina conduz duas senhoras até seus lugares. O senhor Peeters reclama porque alguém reservou o A-12 antes dele. O compartimento sob a poltrona continua fechado. Luca aplicou um produto contra oxidação, mas pediu que esperássemos antes de testar as chaves de novo. “Quando as duas estiverem prontas.” Helena deixou uma instrução que depende de uma condição impossível de medir e depois nos privou da oportunidade de discutir a redação. — Cento e três confirmados — anuncia Sofia, olhando o painel de vendas. — Três reservas não apareceram, mas ainda podem chegar antes dos trailers. — Mesmo com cento e seis, continuaremos abaixo da média exigida. — Obrigada por proteger a equipe contra entusiasmo excessivo. Quase senti esperança sem autorização escrita. Ela sorri, mas mantém os olhos no computador. O humor está intacto; a facilidade entre nós não. A lembrança de sua mão na minha nuca durante a dança ocupa o espaço que nenhuma decide mencionar. Desço para receber o público. Sofia assume a bilheteria enquanto fotografo o painel de memórias atualizado para o relatório da fundação. Durante vinte minutos, desempenhamos a proximidade esperada. Ficamos lado a lado, tocamos os pulsos quando alguém pede uma fotografia e repetimos a frase oficial sobre privacidade. A encenação funciona porque contém gestos que já conhecemos. O problema começa quando cada gesto termina e preciso decidir quanto dele desejo manter. Annika, da rádio, chega com uma amiga e pergunta se estamos nervosas com a visita da comissão. Sofia responde que o cinema possui dívidas suficientes para substituir o nervosismo por uma forma mais produtiva de pânico. — Elise preparou os documentos — acrescenta, pousando a mão em minhas costas depois de dois toques no pulso. — Isso significa que a comissão receberá tudo em ordem, mesmo que o prédio tente produzir outra crise. — Sofia preparou a apresentação — respondo. — Isso significa que qualquer crise terá título, fotografia e uma frase que fingirá ter sido planejada. Annika sorri como se tivesse recebido material suficiente para outra reportagem. A mão de Sofia permanece em minhas costas até a apresentadora seguir para a sala.

Quando nos afastamos, ela não usa o sinal de parada. Apenas retira a mão com cuidado, deixando a palma deslizar pelo tecido antes de baixar o braço. — O macacão tem uma costura estranha — explica, sem que eu tenha perguntado. — Minha mão ficou presa por um segundo. — Naturalmente — responde, com uma seriedade que não resiste nem ao próprio rosto. — Não use esse tom. Tecidos causam mais incidentes do que recebem crédito. As luzes diminuem às sete e doze. Cento e quatro espectadores ocupam a sala, o maior público desde que começamos as sessões. Subimos à cabine enquanto Jules apresenta o projeto da parede de recados. Sofia confere as legendas uma última vez. Luca aciona o projetor e a abertura surge na tela. Nos primeiros quarenta minutos, tudo funciona. A imagem permanece estável, as falas acompanham as legendas e ninguém solicita tradução sobre vendedores de queijo. A cabine fica quente. Sofia prende o cabelo com o lápis amarelo que costuma carregar, revelando a nuca. Volto minha atenção para o painel antes que ela perceba. Durante uma cena na estação, a película treme. Luca ajusta a velocidade e o movimento se corrige. O público não reage. — Isso foi normal? — pergunta Sofia, mantendo a voz baixa. — Nada nesta máquina é normal. Algumas anormalidades apenas aparecem no manual. Luca verifica a alimentação e informa que o motor está aquecendo além do previsto. O sistema digital reserva pode assumir, mas a troca exigirá uma pausa curta. Antes que decidamos, Noor aparece na porta e avisa que um cano da copa começou a vazar. Luca desce com a caixa de ferramentas, deixando instruções para desligarmos o projetor caso o ruído mude. — Ele confia em nós — comenta Sofia, observando-o desaparecer pela escada. — Ou desistiu de viver com prudência. — Eu sei operar a máquina. — Eu sei desligar eletricidade sem gritar. Juntas, somos quase uma equipe adulta. O filme avança. Na tela, as protagonistas chegam ao ponto em que uma delas precisa decidir se deixa a cidade com a outra. Conheço o final, mas observo Sofia em vez da imagem. Ela acompanha as legendas com a boca entreaberta, corrigindo mentalmente escolhas antigas. Uma mecha escapa do lápis e repousa sobre sua bochecha.

O projetor produz um ruído grave. Desligo a alimentação antes que a película pare, mas a tela apaga no meio da decisão e a sala inteira solta um protesto. Acendo a luz da cabine. Sofia já abre o sistema reserva, porém o computador não reconhece o arquivo completo. A cópia disponível termina doze minutos antes do final. — Você está me dizendo que temos um filme sem final diante de cento e quatro pessoas? — pergunto, mantendo a mão no interruptor principal. — Temos um filme com noventa e um minutos de conteúdo e uma oportunidade de desenvolvimento pessoal coletivo. — Sofia — aviso, e ela ergue as mãos antes que eu transforme o nome dela numa acusação completa. — Sim. Temos um problema — admite, voltando ao teclado sem procurar outra defesa. Ela tenta localizar outra cópia no servidor. A conexão falha, provavelmente porque a chuva da semana passada ainda deixou umidade no armário de rede. Bato no vidro para chamar Jules e faço sinal de pausa. Lá embaixo, ela acende as luzes laterais enquanto Noor explica ao público que haverá um intervalo técnico. As pessoas se levantam, mas poucas saem da sala. O senhor Peeters exige saber se o final será cobrado à parte. Mina responde que ele já conhece o filme e pode contar para todos, ameaça suficiente para fazê-lo sentar. Sofia tenta o arquivo novamente. A tela do computador congela, e ela fecha os olhos com uma irritação que reconheço da sessão de Casablanca. — Eu conferi o arquivo. Estava completo ontem — diz, mantendo os dedos imóveis sobre o teclado. — O sistema pode ter corrompido durante a transferência. — Isso continua acontecendo na minha área de responsabilidade. — Então resolvemos juntas, como está escrito em quase todos os documentos que enviamos esta semana. Ela me olha. A rigidez em seus ombros diminui apenas um pouco, mas basta para que volte ao teclado sem atacar o computador. Encontramos a última parte do filme num disco externo guardado por Helena, sem legendas e com a imagem restaurada em outra proporção. Sofia consegue sincronizar o áudio, porém precisará preparar legendas improvisadas para as cenas finais. — Posso traduzir ao vivo novamente — oferece. — Desta vez sem salsichas, divórcios ou autoridades transformadas em laticínios. — Você não precisa transformar todo defeito numa apresentação.

— Preciso impedir que cento e quatro pessoas saiam antes do final. A diferença é pequena, mas existe. Luca manda uma mensagem informando que o vazamento atingiu a caixa de registro e ele precisa fechar a água. Permaneceremos sozinhas na cabine por mais alguns minutos. Sofia abre o roteiro e começa a ajustar as falas finais. Aproximo a luminária, entrego água e marco as entradas de cena no papel, repetindo a sintonia da primeira sessão. Desta vez, não há urgência suficiente para esconder o que acontece quando nossos braços se encostam. Cada contato dura um pouco mais porque nenhuma precisa correr. — A protagonista vai partir? — pergunta Sofia, embora conheça a resposta e consiga ler o roteiro aberto diante dela. — Vai ficar na plataforma — respondo, marcando a entrada da cena seguinte no roteiro. — E a outra entra no trem — conclui Sofia, embora os olhos continuem presos à página. — Sim. Helena nunca teve interesse em finais que facilitassem a conversa depois da sessão. — Helena realmente escolheu doze semanas de perseguição temática. Seu tom permanece leve, mas a mão para sobre o teclado. O documento da fundação está pronto, as reservas crescem e Sofia continua falando de Paris como uma vida apenas suspensa. Após a última sessão, ela pode vender sua parte, retomar os contratos presenciais e voltar ao apartamento onde nada exige permanência. O acordo termina na mesma noite. — Você ainda pretende voltar? — pergunto antes de encontrar uma forma mais prudente de formular. Sofia tira os olhos do roteiro. A luz da luminária deixa metade de seu rosto dourada e a outra em sombra. — A Paris? — pergunta, embora a palavra já esteja contida no modo como me olha. — Depois das doze sessões — esclareço, mantendo a caneta parada sobre o roteiro. Ela demora. A cláusula sobre não mentir entre nós torna a pausa mais clara do que uma resposta pronta. — Minha vida está lá — diz. — O apartamento, os clientes, os contatos. Não posso fingir que deixaram de existir porque o Aurora começou a funcionar. — Não pedi que fingisse.

— Eu sei. Também não estou dizendo que quero partir no dia seguinte. Só não consigo prometer uma decisão que ainda não tomei. A resposta é honesta. Exatamente por isso dói sem me permitir acusá-la de nada. Viro-me para o projetor aberto. A peça superaquecida ainda emite calor, e o metal guarda o cheiro áspero de óleo e película. — Elise — chama Sofia, aproximando-se o suficiente para que eu veja a cautela substituir a irritação. — Precisamos terminar a sessão — respondo, mas continuo diante do projetor sem tocar em nenhum comando. Ela se aproxima. O espaço entre a mesa e a máquina obriga nossos corpos a ficarem perto, mas desta vez nenhum móvel escolhe a distância por nós. — Você perguntou porque o plano do cinema depende disso? — questiona, apoiando a mão na borda da bancada. — O plano precisa de duas proprietárias durante as doze semanas. Depois, teremos de decidir. — Não foi isso que perguntei. A frase elimina o último abrigo profissional. Encaro Sofia e encontro uma cautela que raramente permanece visível sob o humor. — Perguntei porque não quero confundir estas semanas com uma escolha que você ainda não fez — admito, mantendo a voz baixa para que a sala não receba nossa conversa através da parede. Sofia dá um passo. Seu rosto fica próximo do meu, e a cabine se reduz ao calor, à luz amarela e ao ruído do público esperando abaixo. Ela toca duas vezes meu pulso. Não ofereço a mão. Em vez disso, seguro seus dedos e os levo até minha cintura. O gesto não consta no acordo, mas Sofia espera minha escolha antes de fechar a palma sobre o tecido. Minha mão alcança sua nuca. O lápis se solta do cabelo e cai sobre a bancada, espalhando fios escuros pelos ombros. Sofia respira junto à minha boca. Não há câmera, campanha ou lona. A cláusula cinco continua presa atrás do quadro, distante demais para diminuir a vontade. — Eu não sei o que vou escolher — diz, tão perto que as palavras tocam minha pele. — Mas sei que não estou fingindo isto.

Seu polegar pressiona minha cintura. Inclino o rosto, e a ponta de seu nariz encosta na minha. Bastaria um movimento curto para terminar o que ficou suspenso durante dez anos. Penso no cartão guardado no escritório, na mão dentro do bolso do meu casaco e nos quatro tempos depois que a música acabou. Também penso na estação, no apartamento em Paris e na facilidade com que esperança pode usar proximidade como prova. Afasto o rosto antes que nossas bocas se encontrem. Sofia não me prende. Sua mão permanece na minha cintura por um segundo, depois afrouxa com cuidado. — Foi o acordo? — pergunta, sem retirar a mão da minha cintura. — Não — respondo, e a palavra parece mais cruel por não oferecer uma regra para ela culpar. A resposta parece feri-la mais do que se eu tivesse citado a cláusula. Retiro a mão de sua nuca, mas não encontro coragem para criar distância completa. — Então foi o quê? — Você ainda pode partir quando isto terminar. Eu não consigo tratar um beijo como

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