parte do roteiro. Aceito sem hesitar.
Ela me conduz para o centro. Desta vez, não conto marcas nem procuro a lente. A mão em minha cintura parece mais firme, e meu corpo reconhece o ritmo antes que meus pés possam estragá-lo. Giramos diante da parede de recados. Os cartões se movem com a corrente de ar produzida pela porta lateral, misturando fotografias, críticas e promessas de retorno. Elise me puxa de volta. Minha mão desliza de seu ombro até a nuca, evitando o coque. A mudança não foi ensaiada, mas ela não usa o sinal de parada.
O passo seguinte nos aproxima. Sinto o calor de sua respiração, a pressão de seus dedos e a contagem baixa que ela abandona no meio. Não existe espaço suficiente para humor. Também não existe necessidade de fingir para a câmera, porque esqueci onde Jules está. Elise gira meu corpo uma última vez e me recebe com a mão aberta nas costas. Paramos junto à fita vermelha, muito além do gesto planejado. Meu rosto fica perto do dela. Não perto o bastante para quebrar a cláusula cinco, mas suficiente para que eu perceba a mudança em sua respiração. A música continua. Elise não solta minha cintura. Eu não retiro a mão de sua nuca. — Corta — diz Jules, num tom mais baixo do que costuma usar. — Essa serve. O comando nos alcança com atraso. Afasto-me um passo, levando comigo o calor do contato e a certeza de que a dança deixou de obedecer ao roteiro antes do último giro. Jules revisa o vídeo na câmera. Noor e Mina retornam a tempo de se aproximar da tela, seguidas por Luca, que traz três cabos e nenhuma explicação. A tomada mostra a bilheteria, a escada, o encontro no centro e a parede de memórias. Também mostra o instante em que Elise abandona a contagem e aperta minha cintura. — Os últimos seis segundos não entram — diz ela, antes que alguém faça qualquer comentário. Jules abre a boca para protestar, mas eu confirmo. Aquela parte aconteceu depois de esquecermos a câmera, e o acordo proíbe usar o que não foi aprovado. — Cortamos antes da parada final — proponho. — A fundação recebe o hall, a parede e nossa coordenação surpreendentemente aceitável. Noor olha para mim como se tivesse compreendido mais do que gostaria de declarar diante de Mina. Pela raridade do silêncio, considero o gesto quase afetuoso. Jules faz o corte. O vídeo final tem cinquenta e quatro segundos e termina no momento em que giro diante dos cartões, antes de Elise me puxar de volta. A fundação recebe movimento, comunidade e luz dourada. Os seis segundos seguintes ficam guardados apenas na câmera até Jules apagá-los diante de nós. Depois que todos vão embora, retiro as fitas do chão. Elise recolhe copos, fecha as cortinas e guarda o disco de Mina dentro da capa. O hall volta a ficar silencioso. Sem marcas coloridas, a coreografia parece menos possível, como se tivesse pertencido a uma versão temporária do prédio. — Você aprendeu rápido — diz Elise, enrolando o fio do toca-discos.
— Tive uma professora controladora e motivação baseada no medo de fraturar seu pé. — Você ainda olha para os pés quando fica nervosa. — E você aperta a cintura das pessoas quando esquece que existe uma câmera. Ela para com o fio entre as mãos. Nenhuma das duas transforma a frase em piada, embora o caminho esteja disponível. A música recomeça quando ligo o toca-discos. Elise olha para o aparelho, depois para mim, esperando uma explicação que decido oferecer com o código. Aproximo-me e toco duas vezes seu pulso. — Não há câmera — lembra, mantendo a mão junto ao corpo sem recusar. — Eu sei. Por isso estou perguntando. Elise oferece a mão. O gesto acontece devagar, sem roteiro, testemunhas ou fita amarela indicando onde a confiança deveria começar. Coloco uma mão em seu ombro. Ela envolve minha cintura e espera até que eu ajuste a distância. Desta vez, nossos corpos ficam mais próximos do que Jules permitiu na gravação. Dançamos no centro do hall vazio. Não existe parede a revelar, marca a alcançar ou comissão para convencer. A música serve apenas para preencher o espaço onde costumávamos esconder perguntas. Elise volta a contar sob a respiração. Um, dois, três. O ritmo passa por sua mão, pelo meu braço e pelo ponto em que nossos quadris quase se tocam. — Você ainda está confiando no chão? — pergunto, acompanhando seus ombros em vez de olhar para os sapatos. — Estou tentando não pisar em você. — Essa resposta protege sua reputação, mas não explica por que continuou dançando depois que Jules mandou cortar. A contagem para. Elise mantém os passos, guiando-me num giro menor, perto do balcão onde o acordo está guardado. — Porque você não se afastou — responde. A honestidade simples retira qualquer resposta rápida. Quando volto para seus braços, minha mão termina outra vez em sua nuca, e o rosto dela fica junto ao meu. Não beijo Elise. Ela não tenta me beijar. Continuamos dançando enquanto a cláusula permanece intacta e todo o restante se torna mais difícil de nomear.
Quando a faixa termina, a agulha percorre o trecho vazio do disco com um ruído baixo. Elise ainda conta quatro tempos junto ao meu ouvido. Um, dois, três, quatro. Só depois afrouxa a mão na minha cintura. Eu também não me afasto até o último número, embora já não exista música alguma para justificar nossa permanência.