CAPÍTULO 5 — LEGENDAS PARA UM
DESASTRE POV: Sofia Às seis e vinte da tarde, existem mais funcionários do que espectadores dentro do Cinema Aurora, situação que considero ofensiva em várias camadas administrativas. Jules está atrás da bilheteria, atualizando a página da sessão a cada trinta segundos. Noor organiza caramelos numa bandeja. Luca conversa em italiano com o projetor. Elise circula pelo saguão com uma prancheta, verificando extintores, saídas, ingressos e qualquer outro detalhe capaz de evitar uma morte ou uma multa. Eu deveria estar ajudando. Em vez disso, observo a rua pela porta de vidro e tento transformar cada pessoa com guarda-chuva num possível cliente. A maioria passa sem diminuir o passo. Uma senhora para diante da marquise, lê o cartaz de Casablanca e segue até a confeitaria de Noor. — Talvez ela volte depois de comprar alguma coisa — digo, embora ninguém tenha perguntado. — Ela mora no número vinte e oito e odeia filmes com aeroportos — responde Noor, ajustando os pacotes na bandeja. — Conheço meus clientes e minhas decepções. A divulgação alcançou mais de quatro mil pessoas. Jules publicou fotografias, relatos de moradores e um vídeo no qual apareço limpando uma poltrona enquanto Elise critica meu método. O vídeo recebeu mil e oitocentas visualizações, setenta comentários e uma discussão inesperadamente agressiva sobre a forma correta de remover poeira de veludo. Nenhum desses números está sentado na sala. — Ainda faltam trinta e cinco minutos — diz Elise, aproximando-se com a prancheta junto ao peito. — Não conte lugares vazios antes de abrirmos as portas. Ela usa um vestido azul-escuro simples, botas baixas e os cabelos presos num rabo de cavalo. Parece competente o bastante para administrar um cinema, uma cidade ou minha capacidade de raciocínio. — Não estou contando — respondo, afastando os olhos de sua boca quando ela umedece os lábios. — Estou avaliando o potencial dramático do fracasso. — Guarde parte do potencial para depois das nove. Talvez precisemos dele no relatório.
Elise entrega minha credencial. “Sofia Moreira — Coproprietária” aparece impresso sob o nome do Aurora, e a palavra pesa mais do que o cartão plastificado. Prendo a credencial na lapela do blazer. Ela fica torta. Elise estende a mão para ajustá-la, mas interrompe o movimento antes de tocar no tecido. — Está inclinada — diz. — Combina com a administração. — Fique parada. Ela prende o clipe corretamente. Os dedos roçam o blazer perto da minha clavícula, um contato breve que faz minha respiração perder o ritmo enquanto seu perfume de chá preto e madeira ocupa o espaço entre nós. Elise recua depressa, consulta a prancheta e pergunta se conferi as legendas digitais. A mudança de assunto é tão limpa que quase admiro a execução. — Conferi três vezes. Neerlandês e francês sincronizados, fonte aprovada, contraste correto. Até as vírgulas estão emocionalmente preparadas. — As vírgulas não possuem emoções. — É por isso que trabalham melhor do que pessoas. Luca aparece na porta da sala de exibição com uma chave de fenda presa atrás da orelha. É alto, magro e usa um lenço vermelho no pescoço, apesar do calor interno. — A máquina está pronta — anuncia em inglês, apontando o polegar para a cabine. — Ela está velha, temperamental e ofendida com a existência de arquivos digitais. — Está falando do projetor ou de Elise? — pergunto. Elise me encara sem alterar a expressão. Luca decide que não compreendeu a pergunta, demonstração de sabedoria adquirida em poucos minutos de convivência. Às seis e quarenta, Jules vende o primeiro ingresso. O comprador é o senhor Peeters, que reclama do preço promocional, da chuva, da escolha do filme e da ausência de um cinzeiro no saguão. — O senhor não fuma há doze anos — lembra Noor, entregando a ele um pacote de caramelos. — Isso não torna a ausência menos ofensiva. Outras pessoas chegam aos poucos. Mina aparece usando um casaco com grandes flores amarelas e abraça Elise antes de declarar que trouxe três amigas. Duas são realmente amigas. A terceira parece ter entrado no grupo por engano e pergunta se o cinema ainda exibe filmes coloridos.
Às sete menos cinco, temos onze ingressos vendidos. Onze. A meta média é noventa. Nossa estreia oficial consegue pouco mais de doze por cento disso, caso os números decidam colaborar com a humilhação. Elise não comenta. Apenas abre as portas da sala, recebe cada pessoa pelo nome e indica os assentos liberados como se estivéssemos diante de uma noite lotada. Faço o mesmo. Não quero que os onze espectadores se sintam onze. Quero que pensem ter descoberto uma sessão íntima, exclusiva e absolutamente planejada. Jules fotografa o saguão de um ângulo que esconde as áreas vazias. Aprovo a estratégia. Publicidade e ilusionismo compartilham mais técnicas do que profissionais admitem. A sessão começa com cinco minutos de atraso porque o senhor Peeters insiste em trocar de lugar três vezes. Ele termina no A-12, apesar de Elise tentar conduzi-lo para outra poltrona. — Aqui tem melhor apoio lombar — declara, instalando-se sobre o compartimento que continua fechado. Elise olha para mim. Leio em sua expressão uma frase inteira sobre Helena, mistérios e idosos inconvenientes. Preciso morder a parte interna da bochecha para não rir. Subimos à cabine quando as luzes diminuem. Luca inicia o sistema, e a tela ganha o preto granulado dos créditos iniciais. O projetor lança um feixe quente pela abertura. O ar cheira a metal, poeira aquecida e café esquecido. Sofia de dezenove anos conhecia aquele ambiente melhor do que conhecia a própria casa. Fico perto do computador responsável pelas legendas. Elise permanece junto ao projetor, observando a imagem com os braços cruzados. O vestido acompanha a curva de sua cintura quando ela se inclina para verificar o mecanismo. Concentro-me no monitor antes que uma tarefa técnica seja derrotada por anatomia. Os primeiros minutos funcionam. As legendas em neerlandês aparecem no tempo certo, a imagem permanece estável e ninguém sai da sala. Noor envia uma mensagem dizendo que o senhor Peeters já reclamou do volume, o que significa que está prestando atenção. Considero isso uma vitória modesta. Aos dezessete minutos, a legenda francesa congela.
Uma frase permanece na tela enquanto os personagens continuam falando. O resultado faz parecer que todos discutem repetidamente o mesmo assunto, recurso artístico que talvez agrade a certos diretores europeus. Clico no programa. Nada acontece. Reinicio o arquivo secundário, mas o cursor gira sem oferecer resposta. — Elise — chamo, mantendo a voz baixa. — Temos um pequeno problema linguístico. Ela se aproxima, ficando atrás do meu ombro. Seu rosto surge perto do meu quando examina o monitor, e o calor de sua respiração toca minha têmpora. — Quanto tempo para corrigir? — Entre trinta segundos e o fim da civilização, dependendo do programa. Luca olha por cima da máquina e informa que interromper a projeção pode desestabilizar o sistema principal. Elise pergunta se consigo recuperar apenas as legendas. Antes que eu responda, a imagem treme. O som falha por dois segundos, volta distorcido e arranca uma reclamação do senhor Peeters lá embaixo. Luca começa uma discussão acalorada com o projetor. Não compreendo as palavras, mas o tom sugere uma longa história de desrespeito mútuo. O arquivo em neerlandês também trava. Agora temos Casablanca sem legendas diante de um público no qual apenas quatro pessoas entendem inglês suficiente para acompanhar o diálogo. — Podemos pausar — sugere Elise. Olho para a sala através do vidro. Onze rostos estão voltados para a tela. Alguns já se movimentam, confusos, e Mina procura Elise na cabine. Pausar significa acender as luzes, explicar o problema e oferecer tempo para que todos decidam ir embora. Com onze pessoas, não podemos perder nem a senhora que pergunta sobre filmes coloridos. — Não pause — digo, pegando o microfone usado para apresentações. — Posso legendar ao vivo. Elise me encara como se eu tivesse proposto substituir o projetor por sombras feitas com as mãos. — Você consegue traduzir o filme inteiro sem o roteiro aberto? — Conheço as falas principais, e ainda tenho o arquivo original no notebook. Não será elegante, mas será compreensível. — Você precisa alternar entre neerlandês e francês.
— Meu neerlandês piora sob pressão, porém a plateia já comprou ingresso. Moralmente, está presa conosco. Luca solta uma palavra que reconheço como uma forma italiana de pedir ajuda divina. Elise avalia a sala, o relógio e meu rosto. — Faça — decide. — Eu controlo o ritmo. Se precisar, sinalize. Conecto o microfone ao sistema auxiliar e abro o roteiro inglês. A cena já avançou quase quarenta segundos, então respiro, aperto o botão e entro no filme no meio de uma conversa. — Para quem não entende inglês, Rick acaba de deixar claro que não pretende ajudar ninguém, comportamento que o roteiro considera misterioso e nós consideraríamos péssimo atendimento. Uma risada surge na sala. É Noor, provavelmente, mas outras duas pessoas acompanham. O movimento dos corpos diminui. Traduzo a fala seguinte em francês, depois em neerlandês. Minha pronúncia arranca um ruído de Elise atrás de mim, algo entre tosse e riso contido. — Não critique — digo longe do microfone. — Estou salvando sua sessão em quatro idiomas e um deles é desespero. — Você chamou o chefe de polícia de “inspetor de salsichas”. — As palavras são parecidas quando alguém fala depressa. Elise pega uma folha e começa a anotar termos corretos em letras grandes. Coloca cada correção ao lado do notebook sem interromper meu ritmo. Seguimos assim. Eu traduzo, resumo frases longas e ofereço explicações curtas quando a imagem exige velocidade. Elise antecipa palavras, aponta cenas e controla o volume. Aos poucos, deixo de pensar no erro. A voz encontra cadência, o público reage e a cabine se transforma numa espécie de palco escondido. Quando Rick diz que não se arrisca por ninguém, traduzo de forma fiel. Ainda assim, sinto Elise me observar, e a fala ganha um peso que não pertence apenas ao personagem. Evito olhar para ela. O filme possui diálogos suficientes sem acrescentarmos os nossos. Na cena do café, o projetor estala e a imagem perde brilho. Luca ajusta uma peça com tanta delicadeza que parece realizar uma negociação diplomática. Elise passa por trás de mim para alcançar o painel. Sua mão toca minha cintura por um instante, guiando-me para o lado sem interromper a tradução.
O contato aquece uma linha sob minha roupa. Troco uma palavra francesa e transformo “documentos de trânsito” em “documentos de divórcio”. A plateia ri mais alto. — Isso não estava no filme — diz Elise perto do meu ouvido. — Agora está. Considere uma edição restaurada. Ela permanece perto durante alguns segundos, acompanhando o roteiro por cima do meu ombro. Minha atenção se divide entre as falas e a consciência de seu corpo. Quando se afasta, o alívio vem acompanhado de uma falta absurda. Continuo traduzindo para não examinar nenhuma das duas sensações. No meio da sessão, o senhor Peeters levanta a mão como se estivéssemos numa sala de aula. Noor aparece na porta da cabine e informa que ele exige legendas maiores. — Diga que a tradutora está ocupada impedindo um incidente internacional — respondo, cobrindo o microfone. — Ele também disse que suas observações são melhores do que o filme. — Finalmente uma crítica que posso usar na campanha. Noor desce com o recado, balançando a cabeça. Elise escreve “não usar Peeters em material promocional” numa folha e a coloca diante de mim. Risco a palavra “não” sem interromper a tradução. Ela recupera a folha e acrescenta duas linhas sob a proibição. A dinâmica se torna estranhamente fácil. Sei quando Elise vai entregar uma correção antes de sua mão surgir. Ela percebe quando preciso de água e aproxima o copo. Durante uma fala rápida, perco o ponto do roteiro. Elise encontra a linha, indica o trecho com o dedo e mantém a mão ao lado da minha no teclado. Nossos dedos quase se encostam. Minha voz falha numa palavra, mas a cena muda antes que alguém perceba. Alguém na sala chora durante a despedida no aeroporto. Talvez Mina, talvez a desconhecida do casaco verde. Eu também preciso respirar antes de traduzir certas frases. O filme trata partir como um gesto nobre. Aos dezenove anos, aceitei essa lógica com entusiasmo suspeito e uma passagem comprada antes de qualquer conversa honesta. Elise está ao meu lado quando traduzo a decisão de Ilsa. Não olho para ela, mas sinto sua quietude modificar o espaço.
Na tela, duas pessoas escolhem caminhos separados porque acreditam estar fazendo o necessário. Na cabine, nenhuma de nós comenta que já discutiu aquele final antes de cometer uma versão menos elegante dele. Os créditos começam, e a sala permanece em silêncio por alguns segundos. Depois surgem palmas. Não são muitas, porque existem apenas onze pares de mãos. Ainda assim, o som sobe até a cabine e me alcança com uma força que os números da bilheteria não previram. Elise me observa. Não há ironia em seu rosto, nem a cautela habitual. Apenas uma admiração aberta que me deixa mais exposta do que qualquer fracasso técnico. — Você conseguiu — diz. Retiro o fone de um ouvido, embora tenha escutado perfeitamente. — Consegui deformar dois idiomas, inventar um divórcio e irritar um homem de setenta e três anos. É praticamente meu currículo. — Você manteve todos na sala. A forma simples como diz isso me impede de transformar o momento em brincadeira. Minha mão continua sobre o teclado, próxima da dela. — Nós mantivemos — corrijo. — Você impediu que eu chamasse um documento de viagem de linguiça diplomática. — Ainda estou tentando entender de onde surgiu “inspetor de salsichas”. — O cérebro humano faz escolhas criativas quando ameaçado. Luca desliga o projetor, e a cabine fica menos quente. Elise não afasta a mão de imediato. Quando finalmente recua, passa o polegar pela borda da folha de correções. Descemos para receber o público. O senhor Peeters é o primeiro a se aproximar e declara que a sessão estava desorganizada, barulhenta e muito melhor do que esperava. — Na próxima semana, use letras maiores — acrescenta, entregando o pacote vazio de caramelos para Noor como se prestasse um serviço público. Mina abraça Elise e depois me segura pelo rosto com as duas mãos. Diz que Helena teria rido até perder o fôlego e exigido uma sessão inteiramente narrada por mim. A frase me atinge com doçura e culpa. Agradeço, porque qualquer resposta maior quebraria alguma coisa que preciso manter inteira até chegar à hospedaria. Jules mostra as redes sociais. Três espectadores publicaram vídeos curtos da tradução improvisada. Um deles já recebeu centenas de visualizações.
— As pessoas estão perguntando quando será a próxima sessão comentada — diz, deslizando o dedo pela tela com velocidade. — Temos vinte e sete novos seguidores desde o início do filme. — A próxima sessão não será comentada — afirma Elise. — A próxima sessão não deveria ter falhas técnicas — acrescento. — Mas estamos aprendendo a negociar com o destino. Quando o último espectador sai, contamos a bilheteria. Onze ingressos, sete pacotes de caramelos e uma doação de vinte euros deixada pela mulher que queria saber se o cinema exibia filmes coloridos. Os números continuam péssimos. Minha euforia da cabine perde volume diante da planilha aberta sobre o balcão. — Precisamos de setenta e nove pessoas a mais na média — digo, anotando o total. — Esta noite foi uma derrota com boa recepção crítica. — Foi a primeira sessão — responde Elise, recolhendo os ingressos destacados. — Agora sabemos o que funcionou. — O desastre funcionou. — Você funcionou. Levanto os olhos. Elise segura os canhotos numa mão e mantém a outra apoiada no balcão, perto da minha. Seu cabelo se soltou durante a projeção. Uma mecha cai junto à bochecha, e minha vontade de afastá-la surge tão clara que preciso segurar a caneta com mais força. — Cuidado — digo. — Isso quase parece um elogio. — Foi um elogio. Não transforme em acidente apenas porque não sabe onde guardá-lo. A resposta desarma a frase seguinte. Elise recolhe a folha de correções, dobra ao meio e coloca no bolso do vestido. — Vai guardar meus crimes linguísticos? — pergunto. — Vou guardar o que salvou a sessão. Ela se afasta para apagar as luzes da sala, deixando-me sozinha com a bilheteria insuficiente, a credencial torta e um elogio que realmente não sei onde guardar. Jules chama da porta antes de sair. Um dos vídeos passou de duas mil visualizações, e a legenda escrita por ela anuncia: “O Aurora perdeu as legendas. Sofia decidiu virar as legendas.” A frase é ruim. Também é eficiente.
Noor comenta que a cidade adora um pequeno desastre quando não precisa pagar pelo conserto. Luca promete descobrir a falha antes da próxima quarta-feira e beija dois dedos antes de tocar no projetor. Fechamos o cinema pouco depois das onze. Elise confere as portas enquanto eu apago o saguão, seguindo uma rotina que ainda não deveria parecer nossa. Antes de subir ao apartamento, ela para junto à bilheteria e retira do bolso a folha dobrada. — Você errou dezenove palavras em neerlandês — informa, abrindo a lista. — Três mudaram o sentido da frase e uma transformou um oficial alemão num vendedor de queijo. — Dezoito erros. O vendedor de queijo foi escolha artística. Elise sorri, cansada e bonita sob a última luz do saguão. Depois dobra a folha novamente, mas não a devolve. — Boa noite, Sofia. — Boa noite, Elise. Espero até ouvir seus passos na escada. A rua está úmida quando saio, e a marquise ilumina o cartaz de Casablanca sobre minha cabeça. Vendemos onze ingressos. Ainda precisamos convencer uma cidade inteira a voltar. O projetor pode falhar novamente, e o testamento continua disposto a medir nossa capacidade de permanecer. Mesmo assim, caminho até a hospedaria pensando menos nas oitenta e nove cadeiras vazias do que na forma como Elise me olhou quando a sala aplaudiu.