CAPÍTULO 8 — CLÁUSULAS PARA A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 10 de 30
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CAPÍTULO 8 — CLÁUSULAS PARA

NÃO SE APAIXONAR POV: Elise Às oito e dez da manhã, já revisei o acordo quatro vezes e continuo presa à mesma frase: “Não haverá beijos em nenhuma circunstância relacionada à campanha.” A cláusula ocupa uma linha no documento e espaço demais na minha cabeça. Retiro “em nenhuma circunstância”, escrevo “durante aparições públicas” e volto à versão anterior dois minutos depois. Desço ao saguão com duas cópias impressas e o sono acumulado atrás dos olhos. O cinema está frio, silencioso e iluminado pela claridade cinzenta que atravessa as portas de vidro. No quadro de regras, a frase de Sofia continua visível: “Não acreditar em fotografias sem contexto. Mesmo quando parecem convincentes.” Evito decidir qual parte me incomoda mais. Ela chega às oito e vinte e oito, carregando cafés, uma pasta cor-de-rosa e um saco de papel marcado pela gordura de croissants. Usa calça bege e uma blusa escura de mangas dobradas. Os cabelos estão presos numa trança baixa, deixando o pescoço descoberto. Meu corpo percebe o detalhe antes que eu possa direcionar a atenção para os documentos em suas mãos. — Trouxe café, comida e minha própria versão do acordo — anuncia, colocando tudo sobre o balcão. — Não confio plenamente numa negociação em que apenas uma parte controla a formatação. — Usei fonte legível, margens adequadas e numeração contínua — respondo, entregando uma das cópias. — Você trouxe uma pasta cor-de-rosa com adesivos de estrelas. — Identidade visual não anula validade jurídica. Além disso, as estrelas combinam com as chaves que continuam se recusando a cumprir sua única função conhecida. Sofia retira o casaco, pendura-o atrás da bilheteria e abre minha cópia. A concentração muda seu rosto, reduzindo o humor até restar a mulher que negocia contratos em três idiomas. Eu deveria preferir essa distância profissional. Em vez disso, observo a pequena linha entre suas sobrancelhas e lembro como ela ficou na cabine enquanto traduzia o filme, ocupando o desastre sem hesitar.

— “Acordo temporário de imagem pública” — lê, apoiando o quadril no balcão. — Isso soa como um documento para duas empresas que fingem ter sentimentos durante uma fusão. — É exatamente o que precisamos: uma definição sem margem para interpretações emocionais. — Estamos dentro de um cinema, Elise. Interpretações emocionais são parte da infraestrutura. Abro minha cópia e indico a primeira cláusula. O acordo começa naquela manhã e termina após a décima segunda sessão, independentemente do resultado da avaliação da Fundação De Zwaan. Sofia levanta os olhos. Ontem propôs duas semanas, mas a história pública não poderia desaparecer logo depois da visita da comissão sem tornar toda a estratégia mais suspeita. — Até a última sessão? — pergunta, passando o polegar pela margem do papel. — Isso significa quase três meses, não duas semanas. — A fundação avaliará continuidade. Se interrompermos a aparência no dia seguinte à visita, parecerá que criamos a história apenas para conseguir a verba. — Foi exatamente o que propus — lembra Sofia, apoiando a caneta na margem como se tivesse encontrado uma falha no meu próprio argumento. — Por isso estou tentando impedir que pareça exatamente o que você propôs — respondo, aproximando o café antes que a falta dele transforme lógica em irritação. Ela considera a cláusula, depois faz uma anotação na margem. Quando me inclino para ler, nossos ombros se tocam e o perfume cítrico invade o ar frio da bilheteria. Sofia não se afasta. Eu recuo o suficiente para enxergar a frase: “Encerramento antecipado permitido mediante decisão de qualquer uma, sem necessidade de justificativa pública detalhada.” — Já consta na cláusula oito — informo, apontando para a página seguinte, onde a mesma garantia aparece em linguagem menos dramática e com numeração adequada. — Gosto de garantias repetidas quando envolvem minha reputação, meu corpo ou a possibilidade de uma cidade inteira criar álbuns de fotografias sobre mim. Concordo com a alteração. Passamos à segunda cláusula: nenhuma de nós confirmará verbalmente um relacionamento, mas responderemos perguntas com uma frase comum sobre privacidade. Sofia abre a pasta cor-de-rosa e retira uma folha com opções. Todas parecem ter sido testadas por alguém que conhece jornalistas e teme adjetivos.

Escolhemos: “Preferimos manter nossa vida pessoal fora da campanha e falar sobre o futuro do Cinema Aurora.” É verdadeira, curta e frustrante o bastante para estimular novas perguntas. — Precisamos combinar respostas básicas — diz Sofia. — Se perguntarem onde nos conhecemos, podemos contar a verdade. Se perguntarem há quanto tempo, também. — Dezesseis anos — respondo antes de calcular, e o número provoca um silêncio estranho entre nós. Sofia tinha dezoito quando entrou no Aurora procurando um trabalho de verão e derrubou uma caixa inteira de programas no saguão. Eu tinha vinte e três e passei uma semana fingindo irritação. — Parece mais tempo quando você diz assim — comenta, fechando a tampa do café. — Somos antigas o bastante para inspirar uma minissérie de produção barata. — Não fomos próximas durante dez desses anos — lembro, porque permitir que a frase pareça romântica demais seria outra forma de falsificar a história. — Essa parte não precisa entrar na entrevista, a menos que queiram financiar uma temporada de reconciliação administrativa. A terceira cláusula proíbe histórias inventadas sobre encontros, aniversários, viagens ou sentimentos. Sofia acrescenta que qualquer lembrança compartilhada precisa ser aprovada pelas duas antes de ser usada publicamente. Na quarta, chegamos aos contatos físicos. Minha redação permite mãos dadas, braços entrelaçados e toques breves no ombro, na cintura ou nas costas, desde que exista consentimento no momento. — “Consentimento no momento” exige um método que não pareça uma negociação diante das câmeras — observa Sofia, segurando a caneta sobre a linha. — Podemos perguntar antes de cada aparição — sugiro, embora a solução já pareça artificial antes mesmo de Sofia erguer uma sobrancelha. — Durante uma entrevista ao vivo? “Com licença, autorizo um toque de três segundos na região dorsal?” Muito natural. A cidade ficará emocionada com nossa química burocrática. Ela propõe um código. Dois toques leves no pulso significam permissão para aproximação; um aperto na mão ou no braço significa parar imediatamente. A ideia é prática, discreta e perigosamente íntima. Concordo porque recusar apenas por causa da reação do meu corpo seria admitir um problema que o acordo pretende evitar. — Precisamos testar — diz Sofia, estendendo a mão sobre o balcão com a palma voltada para cima. — Apenas para confirmar que não confundiremos dois toques com um pedido de socorro.

Olho para a mão oferecida. Os dedos são finos, com uma pequena mancha de tinta azul perto do polegar e o curativo ainda cobrindo o arranhão do palco. Toco duas vezes seu pulso. Sofia fecha a mão ao redor da minha, devagar, deixando tempo suficiente para que eu recue. Não recuo. O calor de sua palma atravessa meus dedos. Ela mantém a pressão leve, sem acariciar ou transformar o gesto em algo além do combinado, mas minha respiração se torna mais curta. — E para parar? — pergunto, mantendo o olhar em nossas mãos porque encará-la exigiria uma honestidade ausente do documento. Sofia aperta uma vez. Solto imediatamente, e o ar frio ocupa o espaço deixado por sua pele com uma nitidez que considero desnecessária. — Funciona — conclui, reorganizando as folhas depressa demais. — Parabéns. Criamos um sistema de segurança para mãos dadas. — Incluirei no anexo técnico — respondo, fingindo que o documento precisa de mais páginas e não de menos motivos para nos tocarmos. A quinta cláusula estabelece que não haverá beijos. Sofia lê a frase inteira, depois olha para mim com um interesse que parece mais divertido do que deveria. — Você realmente escreveu “em nenhuma circunstância relacionada à campanha” — comenta, seguindo a linha com a ponta da caneta. — Estava preocupada com alguma circunstância específica? — Estava preocupada com você transformando uma exceção em estratégia no meio de uma entrevista. — Minha boca não possui autonomia comercial — responde, mas seus olhos descem por um instante até os meus lábios antes de retornarem ao papel. Meu rosto aquece. Bebo café, embora já esteja frio, e acrescento que qualquer aproximação sugerida por fotógrafo, jornalista ou patrocinador será recusada sem discussão. Sofia concorda. Não faz piada quando assina as iniciais ao lado da cláusula, e a seriedade do gesto produz um alívio acompanhado por uma decepção que me irrita. A cláusula seguinte proíbe mentiras entre nós. Desconforto, mudança de limites, compromissos de trabalho e qualquer consequência da campanha devem ser informados imediatamente. — Também precisamos declarar se existe alguém que possa ser prejudicado — diz Sofia, fechando a pasta. — Relacionamentos atuais, pessoas com expectativas ou situações mal encerradas.

A pergunta é necessária. Ainda assim, sinto algo apertar sob minhas costelas enquanto espero a resposta dela. — Não existe ninguém — informa, sustentando meu olhar. — Tive relacionamentos em Paris, mas nenhum continuou. Estou solteira e ninguém acredita estar comigo. Assinto, cuidando para que o alívio não se torne visível. Sofia espera, e compreendo que a cláusula também exige minha resposta. — Eu também estou solteira. Meu último relacionamento terminou há três anos, sem conflito, e não existe qualquer expectativa pendente. Não menciono Sabine além disso. Ela vive em Antuérpia, casou-se no ano passado e envia cartões de Natal com fotografias de dois gatos muito gordos. Sofia gira a caneta entre os dedos. Não pergunta detalhes, mas a tensão em seus ombros diminui quando escrevo “nenhum impedimento” no campo correspondente. Continuamos. Mina, Noor, Jules e os funcionários não participarão de encenações nem serão obrigados a mentir. Nenhuma imagem será publicada sem aprovação de ambas. A última cláusula declara que o acordo terminará após a sessão final ou antes, caso qualquer uma diga “acabou”, sem discussão naquele momento. — Falta uma regra — diz Sofia, relendo as páginas enquanto o sol fraco alcança o piso do saguão. — Qual? — pergunto, segurando a caneta sobre a última linha e desconfiando da satisfação com que ela encontrou uma lacuna. — Não usar o acordo para punir a outra pelo passado. Sem criar ciúme, provocar reações ou transformar uma aparição pública numa discussão que deveria acontecer em particular. A proposta me atinge porque consigo imaginar exatamente como seria fácil. Um toque recusado poderia virar vingança. Uma fotografia aprovada poderia ser usada para medir sentimentos que nenhuma admite. Acrescento a cláusula à mão. Sofia observa minha letra até eu terminar, depois coloca sua inicial ao lado da minha. — Também não haverá uma cláusula proibindo sentimentos — acrescenta, fechando a caneta. — Antes que você tente escrever “não se apaixonar” numa nota de rodapé. — Sentimentos não são matéria contratual — respondo, satisfeita por minha voz permanecer firme apesar da frase escolhida. — Finalmente concordamos com alguma coisa sem correções — comenta Sofia, fechando a pasta com uma satisfação que considero prematura.

A campainha da porta toca antes que possamos assinar. Annika De Bruyn, apresentadora da rádio local, entra acompanhada por um técnico com duas bolsas de equipamento. A entrevista estava marcada para as dez. São nove e vinte, e Sofia me olha com a culpa específica de alguém que confirmou um horário sem verificar o fuso moral das manhãs. — Annika pediu para chegar cedo e testar o som — explica, aproximando-se o bastante para falar sem ser ouvida. — Eu esqueci de atualizar o calendário. — Cláusula seis. Informações de trabalho devem ser comunicadas imediatamente — lembro, fechando a pasta antes de receber outra surpresa profissional naquela manhã. — O acordo ainda não está assinado. Tecnicamente, este é meu último delito livre — responde, oferecendo um sorriso que não melhora sua defesa. Annika cumprimenta as duas com entusiasmo e pede que usemos a pequena mesa do café, onde o ruído do saguão dará ambiente à gravação. Enquanto o técnico monta os microfones, Sofia assina as duas cópias e empurra uma para mim. Assino abaixo de seu nome, às nove e vinte e sete. O acordo entra em vigor três minutos antes de nossa primeira aparição conjunta. Nenhum advogado recomendaria esse método, o que provavelmente explica por que Sofia parece tão confortável. Sentamos lado a lado. Annika observa a proximidade entre as cadeiras e pede que nos aproximemos um pouco para dividir o mesmo enquadramento da transmissão em vídeo. Meu joelho toca o de Sofia sob a mesa. Ela não move a perna. O contato permanece, quente e estável, enquanto as luzes do equipamento se acendem. A entrevista começa com Helena, a herança e as doze sessões. Sofia fala sobre acessibilidade linguística e participação comunitária; eu explico a restauração e as necessidades estruturais. Annika pergunta como conseguimos trabalhar juntas depois de tantos anos em cidades diferentes. Sofia não tenta esconder a distância, mas escolhe palavras que não a transformam em espetáculo. — Nós já conhecíamos os defeitos uma da outra antes de assinar qualquer documento — responde. — Isso economiza tempo, embora aumente o número de cláusulas. Annika ri e pergunta qual de nós é responsável pelas decisões arriscadas. Sofia aponta para si mesma. Eu confirmo antes que a apresentadora termine a frase. — E Elise impede que o prédio caia — acrescenta Sofia, voltando-se para mim. — Às vezes também impede que eu caia, embora a fotografia tenha mostrado a ordem contrária.

A menção à imagem abre a pergunta inevitável. Annika quer saber se o interesse em torno de nossa relação incomoda ou ajuda o projeto. Repito a frase combinada sobre privacidade. Minha voz sai controlada, mas a apresentadora mantém o olhar curioso e pergunta se existe uma história de amor dentro da história do Aurora. Sofia fica imóvel ao meu lado. Sob a mesa, sinto dois toques leves em meu pulso. Autorizo quando viro a mão. Ela entrelaça os dedos nos meus fora do alcance da câmera, um gesto discreto que não serve à imagem pública e, ainda assim, me acalma. — Existe uma história sobre cuidado — respondo, mantendo a mão presa à dela. — Duas pessoas podem cuidar do mesmo lugar de formas diferentes e precisar aprender que nenhuma delas consegue fazer tudo sozinha. Sofia aperta meus dedos, sem usar o sinal de encerramento. Annika aceita a resposta e passa às sessões, mas o contato continua sob a mesa. Na pergunta seguinte, Sofia descreve o trabalho que fiz com Helena durante anos. Não exagera, não reduz minha permanência a uma frase romântica e não transforma sacrifício em virtude. — O Aurora ainda está aberto porque Elise ficou quando seria mais fácil desistir — diz. — Minha parte agora é garantir que ficar deixe de significar carregar tudo sozinha. A sinceridade altera minha respiração. Procuro uma resposta prática, porém Annika se volta para mim e pergunta o que Sofia trouxe de volta ao cinema. Olho para a mulher ao meu lado. Ela tenta parecer tranquila, mas o polegar permanece imóvel sobre minha mão, como se esperasse uma avaliação que não deveria importar tanto. — Movimento — respondo. — Ela trouxe pessoas, ideias e a capacidade irritante de transformar uma falha técnica numa noite que todos lembraram com carinho. Sofia sorri. A câmera registra apenas nossos rostos, mas a parte mais convincente da entrevista permanece escondida sob a mesa, onde nenhuma campanha pediu que nos tocássemos. Quando a luz vermelha apaga, Annika agradece e anuncia que a gravação irá ao ar ao meio-dia. O técnico começa a desmontar os microfones. Sofia não solta minha mão. Eu também não. Percebemos juntas quando Annika observa nossos braços e sorri antes de se virar para guardar as anotações. Aperto uma vez. Sofia abre os dedos imediatamente, obedecendo ao sinal. O respeito rápido deveria encerrar o desconforto, mas deixa minha pele vazia de modo difícil de ignorar.

— Funcionou — diz ela, recolhendo as cópias do acordo. — A entrevista, o código e nossa capacidade de não confirmar nada durante vinte minutos. — Você segurou minha mão onde a câmera não alcançava — observo, mantendo a voz baixa enquanto Annika ainda recolhe os cabos perto da mesa. — Você autorizou. Pensei que estivesse nervosa — explica Sofia, dobrando sua cópia do acordo sem conseguir esconder a cautela no gesto. — Eu não estava nervosa — respondo, embora a lembrança do pulso acelerado torne a afirmação menos convincente para mim. — Então está confirmado que sou péssima interpretando sinais fora de documentos numerados. Antes que eu responda, o sistema de reservas emite três alertas consecutivos. A entrevista ainda nem foi transmitida, mas Annika publicou uma fotografia da mesa. A imagem mostra nossos joelhos encostados, os rostos voltados uma para a outra e as mãos escondidas. A legenda anuncia uma conversa sobre cinema, memória e parceria. Não existe declaração romântica. Mesmo assim, os comentários começam a surgir com a eficiência habitual da cidade. Sofia coloca o acordo num envelope e escreve “Válido até a última sessão” na frente. Em seguida, prende o envelope atrás do quadro de regras. — Agora é oficial — diz, segurando uma das cópias junto ao peito. — Temos um namoro que não podemos confirmar, beijos proibidos e um código de emergência para contato físico. — Não temos um namoro. Temos um acordo de imagem pública — corrijo, porque repetir a definição jurídica parece mais seguro do que aceitar o nome escolhido por ela. — Claro. E a pasta cor-de-rosa é apenas um recurso de arquivamento sem valor emocional. Ela começa a guardar os cafés vazios, mas para diante da cláusula sobre sentimentos. O humor deixa seu rosto antes que faça a última pergunta. — O que acontece se uma de nós esquecer que está fingindo? — pergunta, mantendo os olhos na cláusula que proíbe mentiras entre nós. Olho para a assinatura de Sofia abaixo da minha, para o envelope preso ao quadro e para a mão que ainda guarda a sensação dos dedos dela. — Dizemos a verdade — respondo, porque a cláusula mais perigosa não é a que proíbe beijos. É a que nos impede de mentir uma para a outra.

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