parte da conversa que não pode organizar com uma resposta curta.
— Também passei tempo demais presumindo o que suas piadas escondiam. Algumas eram apenas piadas, e tratei todas como saída de emergência. — Muitas eram saídas de emergência — admito, segurando a caneca com as duas mãos. — Eu mantinha o pé apoiado na porta mesmo quando queria ficar na sala. Ela levanta os olhos. Não há acusação, apenas atenção. A honestidade parece menos ameaçadora quando ninguém exige conclusão ao final de cada frase. — Você está com medo de dormir aqui? — pergunta, sem aproximar a mão nem preencher o silêncio com uma garantia que eu não pedi. Penso na resposta fácil, aquela que transforma a cama numa piada sobre contratos, travesseiros e comportamento impróprio acima de uma bilheteria. Deixo passar. — Um pouco. Não de você. Tenho medo de gostar de coisas que parecem rotina antes de saber se posso mantê-las. Elise apoia a caneca na mesa. Sua mão fica entre nós, aberta sobre o lençol, sem pedir contato e sem retirar a possibilidade. — Uma noite não precisa prometer repetição — diz. — Também não precisa ser tratada como erro só porque talvez não se repita da mesma forma. — Você está ficando perigosamente boa em aceitar o presente — observo, passando o polegar sobre os dedos dela e gostando demais da calma daquele contato. — Estou tentando — responde, apertando minha mão com suavidade. — Não estrague o avanço criando um relatório sobre meu progresso emocional. Encosto meus dedos nos dela. Elise fecha a mão com suavidade, e a pele morna contra a minha reduz a inquietação que carreguei desde a hospedaria. Conversamos por mais algum tempo, sem procurar assuntos grandiosos. Ela conta que lê romances policiais antes de dormir porque crimes fictícios costumam ter soluções mais organizadas do que prédios antigos. Confesso que durmo com um aplicativo de ruído de trem quando trabalho em hotéis, hábito adquirido depois de anos vivendo perto de estações e fingindo que partidas são apenas sons de fundo. Elise não pergunta se o ruído me lembra Paris ou aquela viagem. Apenas pega o telefone, encontra uma gravação de chuva leve e deixa o volume baixo sobre a mesa.
— Trens seriam tematicamente excessivos — explica, colocando o telefone sobre a mesa e reduzindo o volume da chuva artificial. — Concordo. Helena provavelmente apareceria pela tubulação para escolher outra programação contra nós e ainda criticaria a qualidade do áudio. Terminamos o chá. Elise me empresta uma escova de dentes ainda embalada, e realizamos a tarefa absurda de dividir uma pia enquanto tentamos não rir da intimidade banal. Ela prende o cabelo, lava o rosto e espalha creme nas mãos. Observo seus dedos, a concentração pequena entre as sobrancelhas e a familiaridade dos gestos que nunca aparecem no cinema. — Você está me olhando — diz pelo espelho, sem interromper o movimento cuidadoso com que espalha o creme sobre os dedos. — Estou pesquisando hábitos domésticos da coproprietária. Pode afetar o valor do imóvel e nossa estratégia de preservação histórica. — E qual foi a conclusão? — pergunta, fechando o tubo e apoiando as mãos na borda da pia enquanto espera minha avaliação. — Você usa creme para as mãos como alguém restaurando pergaminho medieval, e suas meias com luas enfraquecem qualquer tentativa futura de intimidação. Elise toca meu nariz com um dedo ainda perfumado. O gesto me faz rir, e ela sorri antes de apagar a luz do banheiro. Deitamos cada uma de um lado, com espaço suficiente entre nossos corpos para evitar acidente e pouco o bastante para que eu perceba seu calor sob o edredom. A camiseta emprestada sobe alguns centímetros quando me ajeito. Elise desvia os olhos, depois retorna ao meu rosto sem fingir que não viu. — Posso beijar você? — pergunta, permanecendo sobre o próprio travesseiro e oferecendo espaço suficiente para que minha resposta não seja confundida com obrigação. — Pode — respondo, aproximando-me por escolha e apoiando uma mão em sua cintura antes que a distância volte a parecer prudente demais. Ela se aproxima sobre o travesseiro. O beijo é lento, curto e cuidadoso, sem urgência para transformar a cama em etapa seguinte de qualquer relacionamento. Minha mão toca sua cintura por cima do pijama. Elise segura meu pulso, não para interromper, mas para manter o contato exatamente onde está. Quando nos afastamos, sua testa permanece junto à minha. A respiração dela aquece minha boca, e o desejo existe sem exigir que avancemos para provar nada.
— Boa noite — diz, voltando para o próprio travesseiro enquanto mantém os dedos presos ao meu pulso por mais um instante. — Isso foi uma estratégia eficiente para impedir que eu faça mais perguntas sobre a caneta, a gaveta e sua coleção secreta de meias astronômicas. — Funcionou? — pergunta, virando-se de lado para me observar no escuro que a luminária ainda não apagou por completo. — Temporariamente — admito, puxando o edredom até os ombros e aceitando que a investigação pode esperar algumas horas. Apagamos a luminária. A chuva artificial do telefone ocupa o quarto, acompanhada pelos ruídos baixos dos canos e por um estalo distante vindo do cinema. Tento dormir de costas, depois de lado, depois numa posição que exige negociação com o travesseiro. O espaço entre nós parece maior no escuro. — Elise? — chamo, mantendo a voz baixa porque o apartamento inteiro parece ter adormecido antes de nós, inclusive os canos que causaram a noite. — Estou acordada — responde, virando-se na minha direção até o colchão ceder levemente sob o movimento. — Posso segurar sua mão? — pergunto, deixando a minha aberta no espaço entre os travesseiros em vez de procurar seus dedos sem aviso. Ela não responde com palavras. Procura meus dedos sob o edredom e os entrelaça, trazendo nossas mãos para o espaço entre os travesseiros. A palma dela está quente. O polegar passa uma vez sobre minha pele e fica quieto, sem contar tempo, pedir promessa ou marcar uma saída. — Melhor? — pergunta, mantendo a mão quieta para que o gesto não exija nada além da resposta que já ofereci. — Melhor — respondo, apertando seus dedos uma vez e deixando o corpo relaxar contra o colchão sem procurar outro significado imediato. Fecho os olhos. O vazamento continua existindo, minha mala ainda precisa ser examinada e Paris permanece onde sempre esteve. Nenhuma dessas coisas desaparece porque durmo na cama de Elise. Ainda assim, quando o sono finalmente chega, nossas mãos continuam unidas sobre o lençol, e nenhuma de nós precisa fingir que foi a falta de espaço que as colocou ali.