CAPÍTULO 4 — O ASSENTO A-12 A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 5 de 30
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CAPÍTULO 4 — O ASSENTO A-12

POV: Elise Às oito e quinze da manhã, Sofia aparece diante do Cinema Aurora usando uma camiseta branca larga, calça preta de tecido macio e um par de tênis que claramente já perdeu qualquer esperança de parecer novo. Ela carrega uma sacola de pães, duas garrafas de água e a expressão satisfeita de quem conseguiu vencer uma disputa que ninguém mais sabia existir. — Antes que você consulte o relógio, quero registrar que cheguei quarenta e cinco minutos antes da reunião de ontem — anuncia, entrando quando destranco a porta. — Isso cria um crédito temporal que pretendo usar quando me atrasar no futuro. — Pontualidade não funciona como programa de fidelidade — respondo, afastando-me para deixá-la passar. — E hoje você chegou no horário que eu realmente marquei, portanto não existe saldo. Ela coloca a sacola no balcão e retira o casaco, revelando que a camiseta tem o cartaz de um filme de terror italiano estampado nas costas. O cabelo está preso num coque frouxo, atravessado por um lápis amarelo que ameaça cair toda vez que ela vira a cabeça. Deveria ser fácil ignorar a aparência de Sofia numa manhã dedicada a poeira, parafusos e estofamento velho. Em vez disso, noto a pele descoberta dos braços, uma pequena pinta perto do cotovelo esquerdo e o modo como a roupa se ajusta à cintura quando ela alcança o pacote de café. Decido que carregar baldes é uma atividade urgente. No palco, deixei duas caixas de ferramentas, panos, escovas e etiquetas para separar as poltronas que podem ser reparadas das que exigem substituição. Sofia examina o material como se eu tivesse preparado um cenário para uma investigação policial. — Você etiquetou as escovas por tamanho — observa, pegando a menor delas e lendo a fita colada no cabo. — “Detalhes e cantos”. Existe uma escova destinada a crises existenciais? — Está no armário, ao lado dos produtos inflamáveis. Achei mais seguro não entregar a você logo no primeiro dia. O sorriso dela surge devagar, ainda capaz de alterar a temperatura de um ambiente de modo irritante. Viro-me para as fileiras antes que meu rosto ofereça uma resposta que não pretendo explicar. A sala principal cheira a tecido antigo e ao leve amargor do produto usado no piso. Partículas de poeira atravessam os fachos das luminárias laterais, e o veludo vermelho das poltronas parece mais escuro sob a luz da manhã.

Começaremos pelas fileiras A e B, próximas ao palco. Se conseguirmos liberar seis assentos, a capacidade útil aumenta sem exigir compra imediata de peças. Não resolve a meta de público, mas melhora a aparência de um problema que já possui aparência ruim suficiente. Sofia prende uma máscara sobre o rosto e me entrega outra. A proteção esconde metade de sua expressão, mas os olhos continuam carregando comentários que ela ainda não decidiu transformar em fala. — A-12 primeiro? — pergunta, indicando a estrela marcada no mapa que levei para a sala. — Ou fingimos maturidade e seguimos a ordem numérica? — Seguimos a ordem. Se Helena marcou o assento por algum motivo, provavelmente espera que sejamos impacientes. Não pretendo oferecer essa satisfação tão cedo. — Você está competindo com uma morta. — E você trouxe croissants para subornar uma mulher que não come enquanto trabalha. Nenhuma de nós começou bem. Sofia aceita a acusação com um movimento de cabeça e se ajoelha diante do A-1. Trabalhamos em silêncio durante alguns minutos, retirando embalagens esquecidas, moedas, dois brincos sem par e um botão azul preso entre o encosto e o assento. Ela coloca cada objeto numa bandeja separada, criando categorias chamadas “possível valor”, “lixo confirmado” e “provas de que o público não merece cultura”. Apesar do título, não descarta nada sem me mostrar. No A-4, um parafuso cede antes do esperado e a chave escapa da mão de Sofia. Ela perde o equilíbrio, apoia a palma no meu joelho e fica imóvel, como se tivesse encostado numa superfície que não constava no manual. O calor atravessa o tecido da calça. Minha respiração falha por um intervalo curto, ridículo, mas Sofia retira a mão tão depressa que a ferramenta cai pela segunda vez. — Desculpe — diz, escondendo a boca atrás da máscara enquanto procura a chave no chão. — Seu joelho surgiu numa área de risco sem sinalização adequada. — Vou preencher um relatório e aplicar fita amarela ao redor do meu corpo. — Isso pode atrapalhar a mobilidade, embora tenha potencial estético. Ela encontra a ferramenta e volta ao trabalho. Eu me levanto para buscar etiquetas que já estão ao meu lado, porque ficar sentada exigiria administrar a lembrança exata da pressão de seus dedos. A-5 e A-6 precisam apenas de limpeza. A-7 tem uma mola quebrada. A-8 contém um lenço de papel endurecido pelo tempo, descoberta que leva Sofia a declarar aquele o verdadeiro horror exibido no cinema.

Quando chegamos ao fim da primeira metade da fileira, ela retira a máscara e prende o cabelo novamente. O lápis cai, rola sob o A-12 e desaparece entre os pés de metal. — Evidentemente — comenta, deitando-se de lado para alcançar o objeto. — A cadeira marcada acaba de exigir uma oferenda de papelaria. — Não force o braço. Vou mover o assento para a frente. Ajoelho-me perto dela e seguro a base enquanto Sofia estende a mão sob a estrutura. Sua camiseta sobe alguns centímetros nas costas, revelando uma faixa de pele e a curva suave da cintura. Desvio o olhar para os parafusos, embora nenhum precise ser inspecionado. O corpo não respeita decisões apenas porque foram tomadas com clareza. — Achei o lápis — informa, mas não se levanta. — E existe alguma coisa presa aqui embaixo. Ela toca a parte inferior do assento. Passo os dedos pela madeira e encontro uma pequena placa de bronze fixada sob a armação, escondida atrás de uma camada fina de poeira. No centro da placa há uma estrela gravada. Sob ela, dois pequenos orifícios ficam posicionados lado a lado, estreitos demais para parafusos e familiares demais para serem coincidência. Sofia se senta no chão. Seu ombro encosta no meu, e permanecemos próximas enquanto estudamos a descoberta. O contato deveria ser irrelevante através das camisetas, mas a pele do meu braço se torna consciente de cada centímetro. — Duas fechaduras — diz ela, retirando sua chave do bolso. — Helena realmente decidiu transformar manutenção de poltrona em atividade para casais de detetives. — Somos coproprietárias procurando uma fechadura. Não há motivo para acrescentar outra categoria. — Eu disse detetives, Elise. A parte do casal foi você quem ouviu. Ela sorri sem crueldade, mas meu rosto aquece. Pego minha chave no bolso traseiro e me abaixo antes que perceba o efeito da provocação. As duas entram nos orifícios com facilidade. Sofia segura uma; eu seguro a outra. Tentamos girar para o mesmo lado, mas apenas a minha se move alguns milímetros. — Talvez em direções opostas — sugere ela, aproximando a mão da minha para ajustar o ângulo. — No três? Concordo. Nossos dedos ficam separados pela largura de uma chave, e o espaço sob a poltrona obriga nossos rostos a permanecer próximos. O perfume cítrico dela se mistura à poeira e ao metal.

Sofia conta devagar. Quando chegamos ao três, ambas giramos. A chave dela trava; a minha avança até metade e para com um ruído áspero vindo da placa. — Não force — peço, segurando seu pulso antes que tente novamente. — O mecanismo pode estar oxidado, e quebrar uma das chaves não nos deixará mais inteligentes. Meu polegar repousa sobre a parte interna do pulso dela. Sinto a batida rápida sob a pele, mas não sei se vem do esforço, da posição ou de algo que prefiro não interpretar. Sofia olha para minha mão. Solto-a e recuo, batendo o ombro na parte inferior do A-11. O impacto não é forte, porém ela leva a mão à minha nuca antes que eu diga qualquer coisa. — Você se machucou? — pergunta, inclinando-se para examinar o ponto onde bati. Seus dedos afastam uma mecha do meu cabelo com cuidado. — Não foi nada. O cinema decidiu equilibrar o número de agressões da manhã. A mão dela permanece por um instante além do necessário. Quando se afasta, a ausência do toque parece mais nítida do que deveria. Saímos debaixo das poltronas e nos sentamos no corredor. A placa continua trancada, as duas chaves pendendo dos orifícios como uma promessa mal formulada. — Você consegue esperar? — pergunta Sofia, ainda olhando para o mecanismo como se pudesse convencê-lo a abrir. — Consigo quando a alternativa é quebrar uma peça que não entendemos — respondo, recolhendo as ferramentas. — Isso é perturbador. Eu já estava preparada para destruir patrimônio histórico em nome da curiosidade. Retiro as chaves e guardo a minha. Sofia limpa a dela na barra da camiseta antes de colocá-la no bolso, deixando uma marca escura no tecido branco. Aquele assento não foi apenas o lugar onde começamos a assistir ao filme. Foi onde Sofia sentou com o joelho pressionado ao meu, onde dividimos uma caixa de caramelos e passamos metade da sessão olhando uma para a outra. Depois, quando os créditos terminaram, subimos à cabine para desligar o projetor. Ela ficou diante de mim, com a boca perto demais, e perguntou se eu queria que partisse no dia seguinte. Eu disse que queria que fizesse o que fosse melhor. Sofia interpretou minha covardia como autorização. — Você lembra — diz ela.

Não é uma pergunta. Sofia observa o A-12, agora sem máscara, sem sorriso e sem qualquer proteção além da distância curta entre nós. — Lembro de muitas sessões — respondo, recolhendo uma escova caída para ocupar as mãos. — Trabalhei aqui durante anos. — Essa não foi uma sessão comum. O ar da sala parece mais frio. Caminho até a bandeja de objetos encontrados e separo as moedas por tamanho, embora não exista necessidade alguma de organizar dinheiro que será colocado numa caixa. — Temos seis dias para vender noventa ingressos — digo. — A lembrança não altera a meta. Sofia permanece sentada no corredor. Quando responde, sua voz está mais baixa, mas não frágil. — Eu sei. Só queria confirmar que não inventei tudo sozinha. A frase alcança uma parte de mim que permaneceu irritada por tempo demais para admitir que também sentiu falta de confirmação. Levanto os olhos, mas ela já colocou a máscara e voltou ao A-13. Continuamos pela fileira A. O trabalho devolve ritmo às mãos, mas não apaga a pergunta deixada entre as poltronas. Cada vez que Sofia se inclina, percebo seu corpo antes do problema que está tentando resolver. Ao meio-dia, Noor surge com sanduíches e encontra as duas chaves sobre o braço do A-12. Sofia explica a descoberta com entusiasmo suficiente para substituir qualquer tensão por uma investigação comunitária. — Duas chaves para uma poltrona — resume Noor, levantando uma sobrancelha. — Helena estava menos interessada em sutileza do que eu lembrava. — É um mecanismo antigo — respondo, retirando as chaves antes que Noor desenvolva a interpretação. — Pode guardar documentos ou apenas uma estrutura de manutenção. — Naturalmente. Quando penso em romance, também penso em estrutura de manutenção. Sofia engasga com o primeiro gole de água. Noor oferece um guardanapo sem demonstrar arrependimento, depois se acomoda no A-10 e declara que veio fiscalizar as condições de trabalho. Enquanto comemos, Sofia apresenta o esboço da primeira campanha. Quer publicar fotografias do cinema, histórias enviadas por moradores e uma contagem regressiva para Casablanca.

Noor aprova a ideia, mas insiste que a comunicação não deve transformar Helena em santa. Sugere incluir uma lembrança sobre a vez em que expulsou um vereador por atender ao telefone durante a sessão. — Isso vende ingressos — diz Sofia, digitando no celular. — “Venha ao cinema onde até políticos aprendem a ficar em silêncio.” — Você não pode usar isso num anúncio oficial — digo, apesar de já imaginar o texto estampado sob a marquise. — Posso usar numa rede social com pontuação estratégica. Noor olha de mim para Sofia e sorri como alguém que reconhece um hábito antigo retornando ao lugar de origem. Não comenta, talvez porque exista comida suficiente para mantê-la ocupada. Depois que ela vai embora, passamos à fileira B. Sofia coloca música baixa no celular, uma seleção de canções antigas que Helena ouvia durante a limpeza. A escolha não é casual. Reconheço a faixa que tocava na cabine naquela noite, mas não peço que mude. Sofia também não comenta quando a melodia começa. Trabalhamos sem falar durante a canção inteira. O silêncio não é confortável, porém contém uma espécie de cuidado, como se ambas estivéssemos segurando a mesma caixa frágil por lados opostos. No B-6, encontro um pacote fechado de caramelos vencido há sete anos. Sofia o ergue como uma descoberta arqueológica e propõe leiloá-lo para pagar parte da caldeira. — Você ainda gosta deles? — pergunto antes de lembrar que não deveria saber ou querer saber a resposta. — Dos caramelos? Sim. Das intoxicações alimentares, perdi o entusiasmo depois dos vinte e cinco. Ela gira o pacote na mão. O sorriso retorna, mas não alcança os olhos quando acrescenta que deixou de comprar aquela marca porque o gosto a fazia lembrar do Aurora. Não respondo. A lembrança da caixa dividida no A-12 torna a pergunta anterior menos inocente e minha atenção menos segura. No fim da tarde, liberamos cinco poltronas e marcamos três para reparo. O progresso parece pequeno diante das contas, mas as fileiras limpas recuperam parte da cor. Sofia tira uma fotografia do salão e se posiciona perto do palco, procurando um ângulo que esconda as áreas interditadas sem mentir sobre o estado do espaço. — Venha cá — chama, apontando para o A-12. — Preciso de alguém na imagem para dar escala, e você parece mais confiável do que um casaco vazio.

— Use o tripé. — O tripé não herdou metade do prédio nem possui uma reputação local de competência intimidadora. Sento no assento indicado, contrariada pelo lugar e pela facilidade com que ela percebe isso. Sofia ergue o celular, mas não fotografa de imediato. — Helena marcou esse assento porque sabia — diz, baixando o aparelho. — Não apenas por causa da fechadura. Ela sabia o que aconteceu naquela noite. — Helena sabia quando alguém escondia chocolate no escritório. Não era difícil perceber duas adolescentes incapazes de se olhar durante uma semana. — Eu tinha dezenove anos. — E a maturidade de uma adolescente incapaz de se olhar durante uma semana. Sofia ri, mas o som perde força quando se aproxima. Ela para ao lado da poltrona, uma mão apoiada no encosto diante de mim. — Eu olhava — corrige. — Você é que sempre desviava. Ergo o rosto. A posição coloca seus olhos acima dos meus, iluminados pelas lâmpadas laterais. Uma mecha escapou do coque e repousa junto à bochecha. — Você partiu na manhã seguinte — lembro, mantendo a voz firme apesar da proximidade. — Porque achei que tinha recebido uma resposta. — Não recebeu — admito, apertando o braço da poltrona para manter as mãos ocupadas. — Recebeu uma frase covarde, porque eu não soube pedir que ficasse. Sofia absorve a confissão sem movimento. O sorriso desaparece por completo, e uma vulnerabilidade antiga atravessa seu rosto antes que consiga escondê-la atrás de qualquer comentário. — Isso é quase uma conversa sobre nossa história durante o expediente — diz, indicando o quadro de regras no saguão com um gesto do queixo. — Então registre como infração compartilhada — respondo, apontando para o quadro de regras no saguão sem encontrar coragem para encerrar a conversa de outro modo. Ela se afasta um passo, devolvendo espaço ao corredor. O ar entre nós volta a circular, e odeio a facilidade com que meu corpo percebe a diferença. Sofia tira a fotografia. Na tela, apareço sentada no A-12, cercada por poltronas vermelhas e luz dourada. Não pareço confiável ou intimidora. Pareço uma mulher esperando alguma coisa.

— Não publique essa — peço, observando meu próprio rosto na tela e reconhecendo uma espera que não quero oferecer a desconhecidos numa campanha. Ela olha novamente para a imagem. Dessa vez, não pergunta o motivo nem faz brincadeira, apenas reduz o brilho da tela antes de guardar o celular. — Não vou publicar — garante, prendendo o aparelho no bolso traseiro. — Algumas coisas não pertencem ao público, mesmo quando poderiam render uma campanha eficiente. A resposta me acompanha enquanto recolhemos ferramentas. É uma promessa pequena, mas Sofia costumava tratar limites como sugestões quando acreditava que poderia transformar tudo em diversão. Antes de fechar a sala, volto ao A-12 e passo a mão sob a armação. A placa de bronze está imóvel, porém sinto uma ranhura ao lado das fechaduras que não havia notado antes. Acendo a lanterna do celular e encontro quatro palavras gravadas sob a estrela, quase escondidas pela oxidação e pela poeira acumulada na madeira. Sofia se ajoelha ao meu lado para ler, deixando o braço encostado ao meu sem que nenhuma de nós recue ou finja procurar outra ferramenta. — “Quando as duas estiverem prontas” — lê Sofia, passando a ponta do dedo pela gravação enquanto sustenta a proximidade que ambas evitamos durante todo o dia. Ela solta o ar devagar. Permaneço olhando a madeira até entender que Helena não deixou apenas uma fechadura, mas uma condição impossível de medir. As chaves talvez funcionem quando forem giradas juntas; nós duas ainda não sabemos permanecer no mesmo lugar sem tentar proteger a parte que saiu ferida.

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