parte machucada. A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 8 de 30
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parte machucada.

— Na próxima vez, respeite a fita — respondo, fechando a caixa antes de transformar o cuidado numa desculpa para permanecer perto. No fim da tarde, Jules envia uma seleção para aprovação. As imagens da fachada e da sala estão boas. A fotografia diante da tela parece leve. A sequência da queda não aparece. Aprovo seis imagens e retorno ao reparo enquanto Sofia prepara a legenda da publicação. Às seis e vinte, meu telefone começa a vibrar sobre a bancada. Noor pergunta se pretendo contar alguma coisa ou se deve descobrir pela internet. Abro a página do Aurora e encontro a fotografia da queda. Sofia está com o braço em volta da minha cintura, minha mão repousa em sua nuca, e nossos rostos estão próximos. A cortina vermelha cria um fundo que parece escolhido por alguém empenhado em piorar a interpretação. A legenda afirma que as novas proprietárias impedem o cinema e uma à outra de cair. A publicação recebeu mais comentários em oito minutos do que todas as fotografias aprovadas durante a tarde. Sinto a irritação subir antes de encontrar Jules. — Eu programei a postagem antes de você pedir para não usar a foto — explica Jules, surgindo atrás da bilheteria. — Achei que tivesse cancelado. — Apague agora — ordeno, entregando o telefone para que ela veja a publicação que continua recebendo reações. Sofia lê os comentários por cima do meu ombro. A proximidade reacende a lembrança de sua mão na minha cintura, e dou um passo para abrir espaço. — Ela deve apagar, mas já existem compartilhamentos. Precisamos guardar os registros, porque a rádio pode perguntar — diz Sofia, mantendo a voz profissional. Jules remove a publicação, mas a imagem já circula em outras páginas. Uma conta local republicou com uma frase que nos chama de casal responsável por salvar o cinema mais romântico de Ghent. — Nós não somos um casal — digo, vendo novas reações surgirem sob a republicação. — Evidentemente — responde Sofia, rápido demais, sem levantar os olhos do telefone de Jules. A palavra deveria encerrar a questão. O tom me faz encará-la, mas Sofia cruza os braços e permanece concentrada na tela. Mais comentários aparecem. Pessoas perguntam pela história das proprietárias, pela próxima sessão e por fotografias antigas. A bilheteria registra quatro vendas em menos de dez minutos.

— Posso publicar uma correção. Digo que foi um acidente e que vocês são apenas sócias — oferece Jules, já abrindo o editor. Sofia olha para mim, esperando minha decisão apesar de divulgação ser responsabilidade dela. A consideração reduz parte da raiva que ainda sinto. — Não responda hoje. Qualquer frase será tratada como confirmação ou negação dramática — decido, retirando o telefone das mãos de Jules. Ela concorda e aceita uma nova regra: nenhuma imagem nossa será publicada sem aprovação expressa das duas. Não a repreendo mais. Quando Jules vai embora, Sofia permanece perto do balcão. A fotografia continua aberta no meu telefone através da republicação. — Eu não sabia que ela tinha programado. Não teria usado sem sua autorização — diz, segurando a alça do notebook junto ao corpo. — Acredito em você — respondo, e a confiança simples parece surpreendê-la mais do que uma acusação teria surpreendido. — Podemos corrigir amanhã. Explicamos que foi um acidente, agradecemos a preocupação e voltamos à campanha das memórias — propõe Sofia. Nenhuma de nós se move. A imagem entre nós mostra uma intimidade que o momento real não teve tempo de negar. — Sua mão ficou na minha cintura por bastante tempo — comento, arrependendo-me quando vejo o leve rubor aparecer no rosto dela. — Você estava caindo — responde, sustentando meu olhar apesar da cor que se espalha pelas bochechas. — Já tínhamos recuperado o equilíbrio. — Eu estava confirmando. — Por vários segundos? — Segurança estrutural exige paciência — conclui, e quase sorrio apesar de saber que estamos falando de outra coisa. Antes de sair, Sofia para diante do quadro de regras e acrescenta uma linha sob a que escrevi naquela manhã: “Não acreditar em fotografias sem contexto.” Ela hesita, depois escreve abaixo, em letras menores: “Mesmo quando parecem convincentes.” A porta se fecha quando termina. O cinema vende mais sete ingressos antes das oito da noite, todos depois da republicação. Pela manhã, precisaremos decidir como corrigir uma história que a cidade já prefere à verdade.

Continuo olhando para a fotografia. Conheço o acidente, a placa solta e o susto que nos empurrou uma contra a outra. Mesmo assim, não identifico com segurança qual parte da imagem é mentira.

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