CAPÍTULO A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 28 de 30
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CAPÍTULO

23 QUARTA-FEIRA

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A

ÚLTIMA

POV: Sofia Na última quarta-feira, acordo antes do despertador e descubro que o fim de uma obrigação testamentária se parece muito com qualquer manhã: uma meia desaparecida, café insuficiente e Elise lendo mensagens na cama com os óculos tortos. A diferença está no calendário preso à parede. Onze quadrados exibem marcas verdes. O décimo segundo contém uma estrela, cento e sessenta e quatro reservas e a anotação de Elise: “Confirmar extintores às 14h.” Paris aparece na segunda-feira seguinte, escrito abaixo do número do meu trem. Quinta à noite está reservada para o retorno. Sexta traz a frase “sem trabalho”, sublinhada duas vezes porque aparentemente nossa vida amorosa precisa de proteção contra duas mulheres empregadas. — Você está olhando para o calendário há três minutos — diz Elise, sem afastar os olhos do telefone. — Ele não mudou desde ontem. — Estou tentando decidir se parece planejamento adulto ou mural de investigação criminal. — As duas coisas usam horários, fotografias e pessoas que mentem sobre disponibilidade. Sento na beirada da cama. Minha mala para Paris continua fechada junto ao armário, ainda vazia. Poderia começar a arrumá-la naquela manhã. Em vez disso, pego a camisa deixada sobre a cadeira e encontro uma fita métrica no bolso. — Você está armazenando ferramentas nas minhas roupas. Ergo a fita métrica entre dois dedos, apresentando a prova com a solenidade exigida por crimes domésticos. — Essa camisa é minha — responde Elise, sem demonstrar culpa por misturar vestuário, ferramentas e métodos discutíveis de organização. — Esse argumento enfraquece meu sentimento de pertencimento doméstico. Deixo a fita sobre a mesa, onde ela continua parecendo mais útil do que eu antes do café. Elise estende a mão, puxa-me de volta para a cama e beija meu ombro. A proximidade dura pouco porque o telefone dela vibra com uma mensagem do escritório notarial Van Loen. O representante chegará às seis da tarde. Depois da sessão, verificará bilheteria, despesas, presença das duas proprietárias e a média total de ocupação. Se os números estiverem corretos, a condição de Helena será declarada cumprida.

Não existe música no e-mail. Nenhuma animação mostra um prédio escapando de demolição. O notariado continua incapaz de respeitar clímax. — Ainda podemos falhar por um erro contábil? — pergunto, lendo por cima do ombro dela. — Luca conferiu os ingressos, Noor separou as vendas da confeitaria e eu revisei as despesas três vezes. — Então podemos falhar por excesso de confiança humana, o método mais tradicional. Elise coloca o telefone na mesa e segura meu rosto. — Hoje haverá uma sessão. Depois haverá outra coisa para administrar. Não precisamos transformar cada minuto numa despedida. A frase contém Helena, Paris e a parte de mim que ainda acredita que escolher uma coisa exige anunciar a morte de todas as outras. — Você está se tornando irritantemente boa nisso — digo, tocando a curva de sua mandíbula para impedir que o elogio pareça uma acusação completa. — Em quê? — pergunta Elise, inclinando o rosto contra minha mão sem abandonar a expressão desconfiada. — Em impedir que eu crie tragédia onde existe apenas agenda. A frase merece resistência, mas meu corpo já relaxou sob o olhar dela. Ela me beija antes que eu consiga acrescentar outra defesa. Quando descemos, a rua já está coberta por cartazes da sessão. O programa final recebeu o título “Luzes Acesas”. Exibiremos três minutos de imagens enviadas pela comunidade e, depois, Os Guarda-Chuvas de Sint-Baafs, uma comédia de 1968 que Helena projetava sempre que a chuva durava mais de quatro dias. A cópia foi restaurada pelo arquivo regional. Eu preparei legendas em francês e neerlandês; a Maison Lumière revisou a versão acessível como parte da parceria-piloto, embora meu contrato ainda não tenha começado. No saguão, Jules prende a última estrela verde no quadro. Noor coloca uma torta sobre o balcão com “12/12” escrito em açúcar, e o senhor Peeters reclama que a barra parece uma operação matemática incompleta. — Deveria dizer doze de doze sessões — explica. — Números sem unidade produzem desordem. — O senhor pode comer a unidade depois da conferência — responde Noor, retirando a torta do alcance da bengala.

Mina chega usando o casaco vermelho de Helena e carregando uma caixa de programas antigos. Luca surge da cabine com graxa no rosto, três cabos no ombro e a expressão tranquila de alguém que passou a madrugada discutindo com uma máquina. Nada pega fogo. Nenhum cano rompe. O sistema de legendas aceita o arquivo sem protesto, comportamento tão suspeito que verifico quatro vezes. Às dez, Julian De Wilde atravessa a porta com uma pasta cinza. A proposta do grupo comprador ainda permanece válida, embora o cumprimento do testamento retire a venda automática e transforme qualquer negociação futura numa decisão nossa. Ele nos encontra sobre a planta do Aurora Vivo, discutindo a largura de uma passagem. — Não vim estragar a comemoração — avisa. — O conselho manteve a oferta até as cinco. Depois disso, o capital será destinado a outro prédio. Elise cruza os braços, mas não o trata como inimigo. Julian nunca mentiu sobre o projeto, e a proposta eliminaria as dívidas enquanto preservaria parte da fachada. Também encerraria o cinema como cinema. Ele entrega uma cópia para cada uma. O valor continua em um milhão trezentos e cinquenta mil euros, descontadas obrigações e custos de transferência. Minha metade pagaria anos de aluguel em Paris, financiaria uma empresa própria e retiraria do meu calendário a necessidade de voltar em trens lotados toda quinta-feira. A facilidade dessa versão de vida permanece real. Seria desonesto fingir que dinheiro, tempo e descanso não possuem atração apenas porque cento e sessenta e quatro pessoas compraram ingresso. — Não precisam responder juntas — diz Julian. — A venda exige ambas as assinaturas, mas cada uma merece decidir sem usar a outra como justificativa. Ele oferece a caneta. Elise não olha para mim antes de devolver a própria cópia. — Minha resposta continua não — diz Elise, empurrando a caneta de volta sem teatralidade nem espaço para que Julian interprete firmeza como provocação. Julian recebe a recusa sem surpresa. Depois volta-se para mim, e o saguão inteiro parece reduzir o volume, embora Noor continue discutindo açúcar com Peeters perto da confeitaria. — Vou ler — digo, segurando minha cópia pela borda antes que a caneta oferecida transforme silêncio em consentimento. Elise não se move. Não tenta interpretar minha demora como ameaça, lição que nos custou tempo suficiente para merecer uso. Julian assente e avisa que estará no café da esquina até as cinco. Quando sai, dobro a proposta e coloco no bolso interno do casaco.

— Você está bem? — pergunta Elise, aproximando-se apenas depois que a porta fecha e a proposta deixa de ter testemunha. — Estou considerando uma quantia obscena e uma vida com menos manutenção predial. — Considere inteira — responde, apoiando uma mão no balcão para não estender a decisão até mim antes que eu a peça. — Mesmo que minha resposta prejudique você? — A venda precisa das duas. Minha escolha não desaparece porque a sua talvez seja diferente. A resposta não facilita nada. Apenas impede que eu transforme Elise em obstáculo, método que sempre deixou minhas partidas mais limpas no papel do que dentro do corpo. Passo a manhã conferindo arquivos, voluntários e a pequena montagem enviada pela cidade. Existem imagens do aguaceiro no canal, da dança no hall, da parede de recados e do senhor Peeters dormindo durante um curta estudantil. Ele nega ter dormido. Afirma que fechou os olhos para avaliar o desenho sonoro sem distração visual. Jules inclui a explicação nos créditos. Às duas, recebemos o relatório consolidado. Onze sessões oficiais reuniram mil trezentos e cinquenta e nove espectadores. Com a lotação daquela noite, chegaríamos a mil quinhentos e vinte e três, média superior a cento e vinte e seis pessoas por sessão. A exibição extraordinária da sexta quarta-feira não entra na conta. Noor protesta que oitenta e três seres humanos não deixam de existir por não caberem numa cláusula. Elise promete incluí-los no relatório comunitário. O notário continuará tratando pessoas como categorias financeiras, tradição institucional que sobrevive a guerras, romances e sistemas digitais. Pouco antes das quatro, levo a proposta de Julian para a sala. Sento no A-13. O A-12 está vazio, restaurado e com o compartimento fechado sem trancar. As metades do ingresso aguardam dentro da moldura aberta. Retiro-as com cuidado e observo a linha rasgada atravessar a estrela. Minha vida também possui uma linha visível. Paris não apaga Ghent. O Aurora não elimina a profissional que construí longe daqui. Tentar colar tudo até esconder a separação apenas criaria uma superfície falsa. Abro a proposta de compra sobre os joelhos. No verso, escrevo três números: setenta e cinco mil da fundação, vinte e nove contribuições comunitárias e três dias presenciais em Paris depois das oito semanas iniciais.

Nenhum garante sucesso. Juntos, tornam a venda uma escolha por facilidade, não necessidade. Uso a caneta marcada com a pequena estrela para escrever abaixo da assinatura: “Recuso a proposta e permaneço coproprietária do Cinema Aurora.” Leio a frase. “Permaneço” parece passivo demais para uma decisão que exigirá passagens, reuniões remotas, turnos divididos e uma quantidade imoral de mensagens sobre carpete. Risco a palavra e escrevo: “Escolho continuar coproprietária do Cinema Aurora.” Dobro o papel, guardo as metades do ingresso e volto ao saguão. Julian retorna às quatro e quarenta. Entrego a proposta sem assinatura e sem discurso sobre comunidade, amor ou prédios históricos. Ele lê minha frase, fecha a pasta e aperta minha mão. — Espero que funcione — diz Julian, mantendo o aperto de mão por um segundo antes de recolher a pasta. — Eu também. Seria constrangedor rejeitar tanto dinheiro para falhar por causa de um refrigerador. — Caso mude de ideia algum dia, outros compradores existirão. A escolha não precisa virar religião. Gosto dele um pouco mais por não tentar transformar a recusa em porta selada. Depois que sai, Elise aproxima-se, mas espera até ficarmos atrás da bilheteria. — Você escolheu? — pergunta Elise, parando perto o bastante para tocar e longe o bastante para não transformar proximidade em resposta. — Escolhi continuar dona. Paris receberá quatro dias por semana durante oito semanas. O Aurora recebe meu trabalho, minha assinatura e o direito de me acordar por problemas que Luca deveria resolver. — Eu não acordo você por problemas técnicos. — Você me envia fotografias com círculos vermelhos às seis da manhã. Isso é despertar com documentação. Elise segura minha cintura e me beija. Não existe aplauso, embora Jules apareça no corredor, veja nossos rostos e volte na direção oposta com uma discrição que ficará insuportável no minuto em que completar dezoito anos. Às seis, a fila contorna a esquina. O representante do notário chega com um computador, uma pasta e sapatos incapazes de sobreviver ao carpete antigo.

A sala lota antes das sete. O senhor Peeters entra por último e encontra um programa sobre o A-12, junto à fotografia de Helena. — Poltronas são para pessoas — declara, entregando a fotografia a Mina. — Mortos não precisam de apoio lombar. Ele ocupa o B-4, o assento indicado no Festival das Lanternas. O gesto contém mais afeto do que qualquer homenagem planejada, então ninguém comenta. Elise e eu sentamos juntas na fileira A. Quando as luzes diminuem, a montagem da comunidade começa sem apresentação. O Aurora aparece molhado, cheio, vazio, coberto por cabos e cercado por lanternas. Pessoas contam onde se sentaram, quem conheceram e quais legendas estavam erradas. Uma criança diz que deseja mais dragões. Noor informa que o cinema quase fechou e que isso teria prejudicado as vendas de canela. Mina fala sobre Helena como quem ainda espera ser interrompida. Na imagem final, Jules filma a parede de recados. Meu cartão antigo aparece por dois segundos, seguido pelo novo: “O Aurora é o lugar para onde eu voltei.” A montagem termina. Ninguém aplaude de imediato. Depois o senhor Peeters bate a bengala no piso, e a sala inteira acompanha. Elise encontra minha mão sobre o apoio restaurado. Seguro seus dedos enquanto o longa começa, com um homem atravessando Sint-Baafs sob um guarda-chuva quebrado e culpando a cidade pelo vento. As legendas funcionam. A audiodescrição entra nos intervalos corretos. O projetor mantém luz e som durante noventa e sete minutos, demonstração rara de que equipamentos também conseguem respeitar ocasiões. No fim, a protagonista abandona o próprio guarda-chuva na porta de um café porque decide caminhar sob a chuva com a mulher que passou o filme inteiro consertando objetos de outras pessoas. Helena sempre alegou que gostava da cena por causa da previsão meteorológica incorreta. Ninguém acreditava. As luzes se acendem diante de cento e sessenta e quatro pessoas. Continuo sentada por alguns segundos, vendo o número se transformar em corpos que vestem casacos, recolhem bolsas e permanecem porque ainda esperam alguma coisa. Subimos ao palco. Mina entrega o microfone a Elise. Ela agradece voluntários, parceiros, doadores e a equipe. Depois fala sobre o plano de reforma, as poltronas que sairão e as partes do prédio que continuarão.

Quando me entrega o microfone, o texto preparado desaparece da minha cabeça. Observo a sala, a parede lateral onde improvisamos legendas e a cabine onde quase beijei Elise aos dezenove anos. — Há doze semanas, eu tinha uma passagem de volta e nenhuma intenção de aprender sobre caldeiras — começo. — Continuo sem interesse em caldeiras, mas agora possuo responsabilidades legais sobre uma. A plateia ri. Elise encosta o ombro no meu. — Na segunda-feira, começo um trabalho em Paris. Também continuarei como coproprietária do Aurora. Não porque descobri uma maneira elegante de estar em dois lugares. Ainda teremos atrasos, cansaço, reuniões ruins e trens que escolherão violência. Noor assente com gravidade perto da cortina. — Estou escolhendo participar das soluções, inclusive quando eu estiver numa tela no escritório e Elise ameaçar desligar a chamada porque movi uma vírgula no orçamento. — Eu nunca ameaçaria por uma vírgula — diz Elise. — Apenas por números. — Esta é a mulher com quem administro um cinema. Desta vez, o aplauso vem acompanhado por risadas. Não anuncio que fiquei. A palavra ficou pequena para o formato da vida que estamos construindo. O representante do notário sobe ao palco depois do encerramento. Confere a catraca digital, os relatórios e nossas assinaturas de presença. A média final fica em cento e vinte e seis vírgula nove espectadores por sessão. O resultado operacional das doze quartas-feiras é positivo, mesmo depois de aluguel de equipamentos, licenças e reparos emergenciais. A meta de ocupação foi superada, e ambas comparecemos a todas as sessões. Às dez e cinquenta e dois, ele assina a declaração. A condição testamentária está cumprida. O Cinema Aurora deixa de estar sujeito à venda prevista por Helena e permanece dividido igualmente entre Elise Margot Van Acker e Sofia Isabel Moreira. Meu nome aparece ao lado do dela sem prazo, observação ou passagem de retorno. Assino o recebimento. Elise assina depois. O representante recolhe os documentos, aceita uma fatia da torta e vai embora antes que Mina encontre uma função cerimonial para ele. Jules pinta o décimo segundo quadrado de verde. Noor abre duas garrafas de espumante. Peeters prova a cobertura e informa que a fração continua sem unidade. A comemoração ocupa o saguão até perto da meia-noite. Existem abraços, fotografias autorizadas e uma discussão sobre quem guardará a placa ESGOTADO.

Quando a última pessoa sai, Elise e eu levamos a moldura para a cabine. Colocamos as metades do ingresso sob o vidro, alinhadas pela estrela e separadas pela linha irregular. Não usamos cola. Fecho os pequenos encaixes de latão enquanto Elise segura a moldura. Depois penduramos o ingresso acima da mesa de projeção, ao lado da fotografia das duas garotas que ainda não sabiam pedir. Abaixo, prendo uma cópia da declaração notarial. Não por sentimentalismo, explico, mas porque documentos ficam menos perigosos quando podem ser encontrados. Elise beija minha testa e entrega uma das chaves de bronze. Guardo-a no bolso junto ao bilhete do meu trem para Paris. Descemos. Passa da meia-noite quando apagamos a marquise. A última quarta-feira terminou, e o calendário ainda contém compromissos demais para permitir qualquer ilusão de encerramento. Na cozinha, tiro a mala vazia de junto do armário e coloco sobre a cama. Elise abre a gaveta onde guardou etiquetas, adaptadores e uma lista de coisas que acredita que esquecerei. Desta vez, arrumar uma mala não se parece com desaparecer.

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