CAPÍTULO 14 — REGRAS QUE JÁ
NÃO SERVEM POV: Elise Às seis e doze, o vestido preto está pendurado na cadeira do quarto, com a gola amassada no ponto onde Sofia a segurou antes de me beijar contra o balcão. Deveria colocá-lo no cesto de roupas. Em vez disso, aliso o tecido com os dedos e lembro da boca dela, do cuidado entre um beijo e outro e da pergunta feita quando ainda estávamos próximas: você quer continuar? Eu quis. Continuo querendo com uma intensidade que não cabe em nenhum item do acordo guardado atrás do quadro do saguão. Durmo pouco, preparo café demais e desço ao cinema antes das sete. A placa de lotação permanece sobre a bilheteria, cercada por copos vazios, programas dobrados e marcas de dedos no vidro. O Aurora está silencioso depois da noite cheia. A madeira do piso ainda guarda calor sob a sola das minhas meias, e o ar mistura caramelo, poeira e o produto usado por Noor para limpar a máquina de chá. Recolho os copos e verifico as portas, embora já tenha feito isso antes de subir. Depois abro o envelope do acordo e coloco as duas cópias sobre o balcão. A cláusula cinco continua inteira no documento assinado: “Não haverá beijos em nenhuma circunstância relacionada à campanha.” Sofia levou o pedaço rasgado da cópia de trabalho no bolso. A frase não proíbe o que fizemos. O beijo não pertenceu à campanha. Mesmo assim, o restante do texto parece ter sido escrito por pessoas que não imaginavam sobreviver ao próprio planejamento. Às sete e quarenta, crio um documento chamado “Aditamento um”. Às sete e cinquenta, apago “um” porque o título sugere uma sequência que não pretendo normalizar. Às oito e vinte e quatro, Sofia surge diante da porta com dois cafés e uma expressão que tenta parecer comum. Usa uma camisa branca, calça escura e os cabelos presos numa trança baixa. Abro antes que ela use a chave. Por um momento, ficamos separadas apenas pela soleira e pela lembrança de como nos despedimos horas antes. Depois de guardar os relatórios, caminhei com ela até a hospedaria. Beijamo-nos outra vez sob a marquise apagada, mais devagar, até Sofia encostar a testa na minha e dizer que precisava dormir antes de tomar decisões sentimentais com privação de sono.
— Bom dia — diz, levantando os cafés. — Trouxe cafeína, croissants e nenhuma declaração sobre cidades europeias antes das nove. — São oito e vinte e quatro. — Por isso a declaração continua protegida por seis minutos. Ela entra. Seu ombro roça o meu, e a reação do meu corpo não possui nada de profissional. Fecho a porta enquanto Sofia deixa os copos no balcão e observa as cópias abertas. — Você preparou um aditamento depois de me beijar até a meia-noite — comenta, aproximando-se do documento. — Seu modo de processar desejo continua muito belga. — Você levou uma cláusula rasgada como lembrança. Nenhuma das duas está em posição de criticar métodos. Sofia retira do bolso da bolsa o pequeno pedaço dobrado e o coloca ao lado do acordo. A frase proibindo beijos está vincada no centro e levemente manchada de tinta azul. — Dormi com isso na mesa de cabeceira — admite. — O que parece romântico até alguém lembrar que se trata de papel administrativo mutilado. — Você se arrependeu? — pergunto antes de oferecer café, croissant ou qualquer proteção para a resposta. Ela ergue os olhos. O humor deixa seu rosto sem desaparecer por completo, como se tivesse apenas recuado para dar espaço a algo mais honesto. — Do beijo, não. De ter puxado sua gola com força suficiente para exigir ferro a vapor, talvez. Você se arrependeu? — Não. A palavra sai simples. Sofia respira de modo diferente, um movimento pequeno que só percebo porque passei anos observando detalhes em superfícies antigas. Ela se aproxima, mas para antes de tocar. Não usa os dois toques no pulso. Apenas permanece diante de mim, esperando que eu escolha o que acontece sem recorrer ao sistema criado para as câmeras. — Posso beijar você de novo? — pergunta. — Pode. O beijo da manhã é mais curto que os da noite anterior, porém elimina uma dúvida que nenhuma revisão contratual resolveria. Sofia segura meu rosto com uma mão, e eu apoio os dedos em sua cintura. A boca dela tem gosto de café. Quando se afasta, mantém o polegar junto à minha bochecha e sorri como se tivesse encontrado uma resposta útil antes do horário permitido.
— Certo — diz, respirando perto da minha boca. — Ainda aconteceu à luz do dia. Isso reduz a possibilidade de delírio causado por lotação e caramelo. — Não elimina a falta de sono. — Podemos testar outra vez depois do almoço. Afasto-me porque a ideia recebe uma resposta física rápida demais. Sofia percebe, mas não comenta. Abre a caixa de croissants e se senta no banco alto diante da bilheteria. Coloco o aditamento entre nós. O documento precisa separar o acordo público daquilo que começou no hall vazio, sem transformar o segundo em outro compromisso com data final. — A campanha continua até a décima segunda sessão — começo. — A fundação ainda está avaliando o projeto, e interromper a narrativa agora criaria perguntas que desviariam atenção do Aurora. — Concordo, desde que a campanha não passe a usar o que acontece em particular — responde Sofia, limpando uma migalha da margem da folha. — Ontem não vira legenda, fotografia ou argumento para patrocínio. Escrevo a primeira alteração: nenhum momento privado será usado em comunicação sem consentimento específico das duas. A regra já existia de forma parcial, mas agora precisa proteger algo real. — Contato público continua exigindo autorização — acrescento. — Mesmo que estejamos nos beijando em particular. — Especialmente por isso. Não quero que uma câmera transforme vontade em obrigação. Sua resposta reduz uma tensão que eu ainda não havia nomeado. O namoro falso facilitava distinguir desempenho de escolha. Agora a fronteira fica mais difícil justamente porque parte da aparência se tornou verdadeira. Revisamos os sinais. Dois toques continuam significando permissão durante aparições. Um aperto continua significando parar. Fora da campanha, perguntaremos diretamente sempre que houver dúvida. Sofia lê a nova redação e risca a expressão “sempre que necessário”. Substitui por “sempre que qualquer uma quiser perguntar”, deixando a decisão livre de justificativa. — Não quero que consentimento pareça uma ferramenta usada apenas quando algo está errado — explica, devolvendo a caneta. — Perguntar também pode ser uma forma de cuidado, sem crise, relatório ou sirene. Concordo e coloco minhas iniciais ao lado da alteração. O gesto parece pequeno, mas meu corpo ainda lembra a forma como ela perguntou antes do beijo e esperou a resposta inteira.
A campainha toca. Noor entra pela passagem lateral com uma caixa de pães doces e para ao nos encontrar diante de duas cópias do acordo, três cafés e a cláusula rasgada sobre o balcão. Seu olhar passa pela gola alta que escolhi para esconder uma marca inexistente, depois pela boca de Sofia, depois pelas folhas. A expressão se torna perigosamente satisfeita. — Preciso saber se isso é uma reunião ou se devo voltar depois que a legislação terminar de cortejar vocês — pergunta, depositando a caixa perto dos croissants. — É uma revisão do acordo de imagem pública — respondo, cobrindo a cláusula rasgada com a mão. — Naturalmente. Relações saudáveis começam com anexos, numeração e duas pessoas tentando esconder papel de uma mulher que trouxe canela. Sofia engasga com o café. Noor oferece um guardanapo sem desviar os olhos de mim, demonstrando o tipo de lealdade que se expressa por humilhação controlada. — A sessão lotada gerou vinte e três pedidos de reserva hoje cedo — informa. — Também há três pessoas na confeitaria discutindo se o beijo de vocês já aconteceu. — Não houve beijo público — digo. Noor olha para Sofia. Sofia encontra um interesse súbito na dobra do guardanapo, comportamento que responde mais do que qualquer frase. — Eu perguntei sobre o público? — rebate Noor, fechando a caixa e recuando para a porta lateral. — Continuem. Pretendo praticar uma virtude chamada respeitar privacidade, embora ninguém reconheça meu sacrifício. Ela desaparece antes que eu consiga impedir o sorriso. Sofia espera o som da porta da confeitaria fechar, então empurra a caixa de pães para mais longe. — Ela sabe — afirma. — Noor suspeita de tudo e chama metade das suspeitas de conhecimento. — Desta vez, a metade está correta. Voltamos ao documento. A cláusula sobre histórias inventadas permanece. Podemos dizer que estamos envolvidas se decidirmos fazer isso algum dia, mas nenhuma pergunta pública determinará o momento. — Não quero anunciar nada agora — diz Sofia, girando a caneta entre os dedos. — Ainda estamos descobrindo o que estamos fazendo, e a cidade não precisa receber atualizações antes de nós. — Também não quero esconder como se fosse algo errado.
— Privado não significa errado. Significa nosso. Escrevo a frase na margem antes de perceber. Sofia inclina-se para ler e sorri, mas não faz piada sobre meu hábito de transformar falas em cláusulas. A parte seguinte é mais difícil. O acordo original termina na última sessão. O que acontece entre nós não pode receber a mesma data, mas também não pode exigir uma promessa que Sofia ainda não sabe fazer. — Não vou pedir que decida sobre Paris agora — digo, mantendo os olhos no documento porque seu rosto tornaria a frase mais difícil. — Nem usar o que começou entre nós como prova de que deveria ficar. Sofia pousa a caneta. Sua mão se aproxima da minha sobre o balcão, mas para antes de tocar, permitindo que eu escolha diminuir a distância. Viro a palma e entrelaço nossos dedos. — E eu não vou tratar Paris como uma saída automática sempre que ficar com medo — responde. — Minha vida existe lá, mas isso não significa que a decisão já esteja tomada. — Preciso que me conte quando surgir uma proposta, uma viagem ou qualquer mudança que possa afetar as sessões. — Conto. Sem esconder e-mails até ter uma resposta bonita. Você faz o mesmo com a fundação, compradores ou qualquer plano para o cinema. A exigência é justa. Acrescentamos que nenhuma das duas tomará decisões sobre trabalho, cidade ou propriedade para testar o sentimento da outra. Sofia também inclui uma frase proibindo ultimatos disfarçados de cuidado. Leio duas vezes antes de colocar minhas iniciais, reconhecendo a tendência que me fez recuar na cabine até receber garantia de futuro. — E o que somos? — pergunta quando chegamos ao fim da página. O saguão está vazio, mas a pergunta ocupa todo o espaço entre a bilheteria, a parede de recados e a escada para meu apartamento. — Não somos falsas — respondo, o que é verdadeiro e insuficiente. — Excelente. Eliminamos uma categoria. Restam apenas algumas centenas criadas por seres humanos entediados. Passo o polegar pela lateral de sua mão. Sofia observa o gesto com atenção, deixando o humor repousar sem usá-lo para interromper. — Quero descobrir — digo. — Devagar. Sem fingir que um beijo resolveu o que ainda não sabemos e sem agir como se a incerteza anulasse o beijo. — Isso parece perigosamente sensato.
— Não se acostume. Ela sorri. Depois se inclina e beija meus dedos, gesto tão leve que provoca uma reação maior do que deveria. O calor sobe pelo braço e altera minha respiração. — Eu quero descobrir também — responde. — Sem promessa sobre endereço, mas com honestidade sobre o que estou escolhendo enquanto estamos aqui. Decidimos não usar rótulos por enquanto. Não porque exista vergonha, mas porque nenhuma das duas quer transformar uma palavra em prazo, garantia ou argumento. A campanha continuará. Em particular, poderemos nos beijar, tocar e passar tempo juntas sem roteiro. Qualquer passo além disso será conversado quando acontecer, não previsto por um contrato ansioso. Às dez e cinco, assinamos o aditamento. Sofia desenha uma estrela minúscula ao lado das iniciais, e eu deveria reclamar da informalidade. Em vez disso, acrescento outra junto à minha assinatura. Guardamos o documento principal e a revisão no envelope. A cláusula cinco não é destruída. Riscamos a proibição, escrevemos “não aplicável a escolhas privadas” e colocamos as iniciais das duas. — Muito romântico — comenta Sofia, observando a alteração. — Algumas pessoas recebem flores. Eu recebo uma exceção contratual com tinta preta. — Noor trouxe pães doces. Isso cobre a parte floral da manhã. O restante do dia exige trabalho real. Revisamos o plano de acessibilidade, respondemos à fundação e organizamos as reservas da quinta sessão. A diferença aparece em detalhes pequenos. Sofia encosta a cabeça no meu ombro enquanto lê um e-mail. Eu seguro sua cintura ao passar atrás do banco, sem verificar se existe câmera. Nenhum gesto precisa terminar imediatamente. Também não precisa se transformar em algo maior para provar que foi verdadeiro. Depois do almoço, encontro Sofia no escritório, cercada por folhas e com o lápis amarelo atravessado no coque. Ela corrige estimativas de tradução para sessões com audiodescrição. — O teste prometido continua pendente — diz sem levantar os olhos da planilha. — Que teste? — Verificar se o beijo da manhã resistiu ao almoço. Fecho a porta do escritório. Sofia abandona o teclado e me observa aproximar, ainda sentada diante da mesa de Helena.
— Posso? — pergunto. — Pode. Seguro seu rosto e a beijo devagar. Sofia envolve minha cintura e me puxa entre seus joelhos, sem pressa, enquanto a planilha permanece aberta atrás de mim. O beijo não carrega a urgência da meia-noite. É mais calmo, explorado em pequenos movimentos, com pausas em que nossos olhos permanecem abertos e nenhuma desvia. Quando me afasto, Sofia toca minha boca com o polegar. A expressão satisfeita dura até o computador emitir um alerta de salvamento automático. — Confirmado — decide. — O beijo resiste a carboidratos, luz natural e estimativas financeiras. — Ainda precisamos testar contra fornecedores atrasados. — Você está começando a compreender metodologia. Volto à planilha antes que a proximidade transforme a tarde numa série de testes sem utilidade para a fundação. Sofia segura minha mão por mais alguns segundos, depois permite que eu me afaste. Fechamos o cinema às oito. Nenhuma sessão acontece naquela noite, e o saguão parece maior sem público, câmeras ou pessoas oferecendo opiniões sobre nossa vida. Sofia veste o casaco diante da parede de recados. Seu cartão vermelho continua no canto inferior: “O Aurora é o lugar para onde eu voltei.” O meu permanece ao lado. — Quer que eu acompanhe você? — pergunto. — Quero. Mas não porque existe uma cláusula sobre segurança noturna, imagem pública ou desempenho romântico diante de ciclistas. — Ainda bem. Não pretendo redigir outro aditamento hoje. Caminhamos até a hospedaria sem dar as mãos durante a rua mais movimentada. Quando entramos numa passagem estreita junto ao canal, Sofia encaixa os dedos nos meus sem usar o código. A escolha é simples. Não resolve Paris, não garante o Aurora e não altera a data da última sessão. Mesmo assim, permanece verdadeira durante todo o caminho. Diante da hospedaria, Sofia se volta para mim. As garças do papel de parede aparecem pela janela atrás dela, preparadas para julgar qualquer decisão sentimental tomada no corredor. — Então estamos descobrindo — diz, mantendo as mãos presas às minhas. — Devagar.
— Com possibilidade de repetição de testes. — Mediante consentimento e sem relatórios. Ela me beija, breve e quente, antes de abrir a porta. Depois permanece na soleira, ainda segurando meus dedos, como se nenhuma de nós precisasse correr para transformar o momento em outra coisa. — Boa noite, Elise. — Boa noite, Sofia. Ela entra. Eu espero a porta fechar antes de voltar ao cinema, consciente de que o acordo revisado continua guardado atrás do quadro e já não define a parte mais importante do que fazemos. Quando chego ao Aurora, retiro do bolso a caneta usada nas alterações e percebo uma pequena estrela desenhada por Sofia perto da tampa. Não a limpo. Coloco-a na gaveta da bilheteria, ao lado das duas chaves de bronze que ainda esperam que estejamos prontas.