EPÍLOGO — SESSÃO PARA DUAS
POV: Sofia Um ano depois da última quarta-feira, acordo com Elise tentando retirar um rolo de fita adesiva debaixo do meu travesseiro sem admitir que foi ela quem o deixou ali. — Antes que faça uma acusação, a fita pertence ao festival — diz, ajoelhada ao lado da cama e mantendo dois dedos sobre a ponta azul que aparece sob meu ombro. — Isso não explica por que o festival dormiu comigo. Nem por que minha namorada armazena material de montagem em lugares destinados a crânios humanos. Elise puxa a fita, verifica se meu cabelo não ficou preso e deposita o objeto sobre a pilha de credenciais. Usa uma camiseta preta com o nome do Aurora nas costas e meias com pequenas câmeras bordadas, presente de Jules comprado para destruir sua autoridade. O apartamento acima da bilheteria deixou de parecer o espaço onde Helena viveu e Elise guardou coisas que não sabia perder. A mesa ganhou duas cadeiras de trabalho. O armário contém minhas roupas em mais de uma prateleira, escândalo doméstico alcançado sem anexos. Meu antigo apartamento em Paris foi devolvido depois da revisão de seis meses na Maison Lumière. Trabalho dois dias por semana na cidade, três em Ghent e passo semanas inteiras lá durante restaurações maiores. Na prática, isso significa que possuo duas escovas de dentes, uma mala que nunca fica completamente vazia e opiniões fortes sobre tomadas disponíveis em trens internacionais. Minha casa, porém, fica sobre um cinema. Sei disso porque o piso vibra quando Luca testa o som e porque Noor bate no cano da cozinha quando precisamos descer. Três batidas chegam antes das sete. — Ela aperfeiçoou um sistema de convocação hidráulica — digo, sentando na cama. — Helena ficaria orgulhosa e o encanador pediria demissão. — Noor está acordada desde cinco e meia. Isso elimina qualquer compromisso dela com o direito ao descanso das outras pessoas. Hoje começa o primeiro Festival Internacional Aurora Entre Línguas, quatro dias de filmes restaurados, sessões acessíveis, oficinas e debates com tradutores que atravessaram cinco países para discutir escolhas de pontuação. É o tipo de evento que eu sonhava criar antes de saber que sonhos também exigem licenças, patrocinadores e alguém disposto a telefonar para uma distribuidora às onze da noite.
A Maison Lumière enviou seis filmes. O arquivo regional emprestou dois. Uma cinemateca de Lisboa cedeu a cópia restaurada de Maré Baixa, com legendas elaboradas pela minha equipe e consultoria de espectadores surdos de três cidades. Elise restaurou o hall, a cabine e a marquise sem transformar o prédio num retrato imóvel. A bilheteria possui uma seção rebaixada, a antiga sala de arquivo virou espaço flexível e o carpete novo não tenta matar ninguém na fileira C. Vinte e oito poltronas saíram. O senhor Peeters organizou uma cerimônia de despedida para três delas e depois negou qualquer envolvimento emocional. O A-12 e o A-13 permanecem no centro da sala. O apoio de braço foi restaurado, embora Peeters ainda o teste antes de cada sessão como se esperasse uma traição mecânica. Na cabine, o ingresso vermelho emoldurado ocupa a parede acima da mesa de projeção. As duas metades continuam separadas pela linha irregular, acompanhadas por nossa fotografia aos dezenove anos e pela declaração que confirmou a propriedade. A moldura não transformou o rasgo em decoração perfeita. Mostra o lugar em que o papel cedeu e a forma como as partes ainda se reconhecem. Descemos às sete e dez. O saguão já contém caixas, cabos, flores, voluntários e Jules comandando uma equipe de quatro pessoas com a confiança de quem completou dezoito anos e decidiu que adultos precisam de supervisão. Ela agora estuda cinema em Bruxelas, administra as redes do Aurora mediante pagamento e continua ameaçando nossa dignidade com enquadramentos espontâneos. — Vocês estão nove minutos atrasadas — informa, entregando a Elise uma prancheta. — A diretora técnica do festival não pode chegar depois do fornecedor de guardanapos. — O fornecedor de guardanapos dorme no prédio ao lado — responde Elise, verificando a lista. — E você não é responsável por medir meu atraso. — Sou responsável por retenção de público. Romance doméstico é parte da marca, infelizmente. — O acordo de imagem foi encerrado há um ano — lembro, prendendo minha credencial no casaco. — Seu modelo de exploração sentimental perdeu validade. Jules aponta a câmera para a placa de programação em vez de responder. A escolha mostra crescimento ou medo de perder o equipamento, ambos úteis. Noor ocupa a nova bancada refrigerada e organiza doces inspirados nos filmes do festival. Cada etiqueta apresenta ingredientes em três idiomas, mérito obtido depois de eu quase provocar um incidente com amêndoas na edição de estreia das noites temáticas. — A torta de maracujá não pode ficar perto dos pastéis — avisa, sem levantar o rosto. — E ninguém chama aquilo de pastel de nata se foi assado por uma belga de Kortrijk.
— A receita foi revisada por Mina — respondo. — Mina considera manteiga um argumento, não um ingrediente. Mina surge usando o casaco vermelho de Helena, agora com um broche dourado em forma de projetor. Carrega uma caixa de figurinos para a sessão infantil e declara que Noor está proibida de criticar alimentos antes de provar dois. O senhor Peeters chega às oito, duas horas antes da abertura das portas. Traz um envelope com recortes sobre o festival e pergunta por que seu nome aparece apenas uma vez no programa. — Porque o senhor não dirige, traduz, restaura nem financia o evento — explica Elise, recebendo o envelope. — Financiei dois apoios de braço — insiste Peeters, tocando a bengala no piso para atribuir gravidade econômica à contribuição. — Seu nome aparece na página de doadores — responde Elise, virando o programa até a seção correta e apontando a linha com a unha. — Em fonte pequena — conclui ele, aproximando o papel dos óculos como se preparasse uma perícia tipográfica. Jules aumenta o tamanho em um ponto para evitar um conflito que ameaça durar até a sessão de encerramento. Peeters aceita depois de medir a alteração com uma régua retirada do bolso. Às dez, a marquise acende. O nome do festival ocupa o centro, cercado por títulos em francês, neerlandês, português, espanhol e árabe. A fila alcança a esquina antes da abertura. Há estudantes, famílias, idosos, profissionais de acessibilidade, turistas e moradores que ainda tratam cada sessão como assunto de bairro. Elise fica de um lado da entrada. Eu permaneço do outro, repetindo o gesto da noite em que encerramos a história principal de um testamento e começamos a administrar o que veio depois. Desta vez, ninguém precisa comprovar presença. Mesmo assim, quando as portas abrem, nossas mãos se encontram por um instante entre as pessoas. A sessão inaugural lota os cento e trinta e seis lugares. Yasmin Benali apresenta o trabalho de audiodescrição e corrige o moderador quando ele tenta resumir a contribuição dela como “sensibilidade especial”. — Minha contribuição se chama competência — diz ao microfone, recebendo o aplauso mais alto da manhã.
Inès conduz uma oficina de tradução entre português e espanhol. Théo transforma uma conversa sobre direitos autorais numa batalha pessoal contra formulários de distribuidores. A Maison Lumière ocupa a fileira lateral, perto do espaço reservado para cadeiras de rodas. Amélie observa tudo com os óculos vermelhos e a satisfação discreta de quem aceitou uma contraproposta sem prever que ela produziria quatro dias de trabalho adicional. Entre sessões, Elise e eu nos cruzamos no hall, na cabine e na sala flexível. Às vezes trocamos um beijo rápido. Em outras, apenas entregamos chaves, listas ou copos de água. Nosso relacionamento adquiriu tarefas menos fotogênicas: discutir passagens caras, reorganizar semanas quando uma restauração atrasa e lembrar que cansaço não constitui leitura confiável da intenção alheia. Também inclui manhãs em que encontro café pronto, sextas sem trabalho respeitadas até o almoço e mensagens de Elise perguntando se comi antes de uma reunião em Paris. Não vivemos numa solução. Vivemos num sistema que precisa de ajuste, manutenção e conversas que não podem ser terceirizadas para um contrato. Às sete da noite, exibimos Maré Baixa. A cópia restaurada enche a tela com barcos azuis, rostos marcados por sal e uma mulher que retorna a uma vila depois de vinte anos para vender a casa da mãe. As legendas funcionam. A audiodescrição entra nos intervalos planejados. O público permanece quieto até o último plano, quando a protagonista deixa a mala no chão e abre as janelas em vez de assinar a venda. Elise segura minha mão na fileira lateral. Não preciso olhar para ela para saber que pensou em Helena, no impermeável azul e nas cartas entregues tarde demais. Depois dos créditos, subimos ao palco. Agradeço à equipe, aos arquivos parceiros e à cidade. Elise apresenta a segunda edição antes que eu consiga impedir, comprometendo-nos publicamente com um futuro que ainda não possui orçamento. — Isso foi uma decisão compartilhada? — pergunto ao microfone, enquanto a plateia ri e ela mantém a expressão séria. — Você incluiu uma linha sobre continuidade no projeto aprovado — responde Elise, mantendo o microfone perto da boca e a expressão de quem já considera o assunto decidido. — Continuidade não significa repetir quatro dias de privação de sono — retruco, inclinando-me para ela enquanto a plateia acompanha nossa disputa com interesse indevido. — Discutiremos no relatório final — encerra Elise, devolvendo o microfone ao suporte antes que eu acrescente despesas emocionais ao orçamento.
A troca entra na gravação oficial. Jules informa depois que será usada no vídeo de encerramento, outra pequena punição aplicada por adolescentes remunerados. O último debate termina perto das onze. Voluntários recolhem copos, convidados seguem para hotéis e Noor fecha a confeitaria depois de contar as vendas três vezes. Mina leva Peeters para casa. Ele protesta que ainda possui energia para revisar as legendas do dia seguinte, mas adormece sentado enquanto espera o táxi. Quando a porta principal fecha, encontro Elise junto à bilheteria. Ela retirou a credencial, soltou o cabelo e segura dois pequenos retângulos vermelhos. — Ainda falta uma sessão — diz. Consulto o programa dobrado no bolso. A última exibição terminou, e nenhuma atividade oficial permanece aberta. — O festival encerrou por hoje. Posso provar com quatro planilhas e uma equipe fugindo do prédio. — Esta não está no programa. Ela me entrega um dos ingressos. O papel foi cortado na antiga máquina do Aurora, com bordas serrilhadas e a estrela dourada impressa no canto. Meu nome aparece na linha do espectador. O assento indicado é A-13. A sessão se chama “Para decidir juntas”. A data é a de hoje, mas o horário traz apenas a palavra “depois”. Elise segura o segundo bilhete. O nome dela ocupa a linha correspondente, com o assento A-12. — Você criou ingressos clandestinos durante um festival sobre acessibilidade e direitos — observo, virando o papel. — Estou dividida entre emoção e necessidade de registro contábil. — Não houve venda. Também usei papel do estoque pessoal de Helena. — Isso piora a situação patrimonial. Ela estende a mão. Coloco a minha sobre seus dedos, e seguimos pela sala vazia até a cabine. A luz de serviço permanece acesa. O ingresso vermelho emoldurado observa a mesa, preservando duas garotas que demoraram dez anos para descobrir que silêncio não constitui método de comunicação. Elise posiciona nossos novos bilhetes lado a lado sob a moldura. Só então percebo que cada um contém metade de uma frase impressa junto à borda serrilhada. No meu, leio: “Quer continuar escolhendo”.
No dela: “esta vida comigo?” Meu peito aperta antes que eu consiga recorrer ao humor. Elise retira do bolso uma pequena caixa, mas não a abre de imediato. — Eu pensei em esconder isto sob o A-12 — diz. — Depois lembrei que objetos importantes demais já passaram tempo suficiente dentro de compartimentos. Ela abre a caixa. O anel é simples, de ouro pálido, com uma pequena gravação interna que não consigo ler daquela distância. — Sofia Isabel Moreira, casa comigo? — pergunta, sem ajoelhar, sem plateia e sem usar o festival como cenário público para uma resposta que pertence a nós. A mulher que fugia antes de ouvir pedidos inteiros procura uma frase capaz de conter Paris, Ghent, trens atrasados, contas, filmes e o lado da cama que continuo ocupando além do permitido. Nenhuma parece suficiente. Então respondo a pergunta recebida, em vez de editar o futuro antes de vivê-lo. — Caso. Elise fecha os olhos por um segundo. Quando volta a me encarar, sua mão treme levemente ao retirar o anel da caixa. — Posso? — pergunta. — Pode. Ela coloca o anel no meu dedo. A gravação interna fica visível por um instante: “Duas presentes.” Seguro seu rosto e a beijo diante da moldura. Elise ri contra minha boca quando esbarro na mesa e quase derrubo uma lata de película vazia. — Este pedido possui problemas de segurança — murmuro, mantendo as mãos em sua cintura. — Incluirei no relatório. — Também quero escolher seu anel. Você não pode monopolizar decisões simbólicas só porque possui acesso ao estoque de ingressos. — Concordo. Beijo-a outra vez, mais devagar. Quando nos afastamos, pego os dois bilhetes e encaixo as bordas serrilhadas. A frase fica inteira sem esconder a linha entre os papéis.
Não colamos. Colocamos os ingressos sobre a mesa para decidir depois onde serão guardados, hábito mais saudável do que transformar todo momento importante em objeto escondido. Descemos à sala e ocupamos o A-12 e o A-13. O festival recomeçará em poucas horas, e deveríamos dormir. Em vez disso, Elise liga o projetor sem carregar filme algum. A tela recebe apenas um retângulo branco. Luz suficiente para mostrar as fileiras vazias, o carpete novo e as portas que abriremos novamente pela manhã. — Esta é a sessão? — pergunto, apoiando a cabeça em seu ombro enquanto o retângulo branco ilumina nossos joelhos. — É. Sem filme, público ou avaliação — responde Elise, acomodando nossos dedos sobre o apoio restaurado. — Uma programação ousada. A crítica pode considerar falta de conteúdo — observo, embora meu corpo já tenha relaxado contra o dela. — A crítica pode ir dormir — decide, beijando meu cabelo sem desviar os olhos da tela vazia. Seguro a mão dela sobre o apoio restaurado. O anel ainda parece estranho no meu dedo, presença nova que não exige que eu abandone nenhuma cidade para merecê-la. A sala permanece acesa apenas pelo projetor. Acima de nós, dois ingressos esperam na cabine. Do lado de fora, nossos nomes continuam na placa de latão, em linhas iguais. Quando a luz apaga, Elise não solta minha mão. Eu também não. A sessão para duas termina apenas porque precisamos abrir as portas para todos outra vez pela manhã.