parte de doze semanas e esperar para descobrir depois o que significou para você. A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 16 de 30
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parte de doze semanas e esperar para descobrir depois o que significou para você.

Sofia baixa os olhos. O humor não aparece para protegê-la, e a honestidade da expressão torna difícil manter minha decisão. — Não seria parte do acordo — diz, levantando os olhos novamente. — Para mim, também não seria pequeno — respondo, incapaz de transformar a frase numa proteção menos dolorosa. O silêncio cresce entre nós, acompanhado pelos movimentos do público no andar inferior. Alguém bate palmas uma vez, talvez para pedir informações, e a realidade volta com a impaciência de quem pagou ingresso. Sofia recua. Recolhe o lápis, prende o cabelo novamente e fecha o roteiro numa página limpa. — Certo — responde. — Terminamos o filme. Nenhuma ironia. Nenhuma acusação. A ausência das duas coisas pesa mais do que uma discussão. Luca retorna e encontra o sistema reserva pronto. Sofia explica a solução, assume o microfone e desce para avisar que a exibição continuará com tradução ao vivo nos minutos finais. O público recebe a notícia com aplausos. Ela fala com segurança, faz uma piada sobre filmes antigos exigirem compromisso até dos equipamentos e não olha para a cabine.

Reiniciamos a sessão após dezenove minutos. Sofia traduz as últimas cenas da lateral da sala, sem subir novamente. Sua voz acompanha a despedida na estação enquanto fico sozinha junto ao projetor desligado. Na tela, uma mulher permanece na plataforma e observa o trem levar a outra. O público fica quieto até os créditos, depois aplaude a sessão inteira, incluindo a falha e o final recuperado. Vendemos cento e quatro ingressos, recebemos quarenta e sete novos cartões para a parede e duas mensagens da fundação elogiando a resposta ao problema técnico. Os números deveriam produzir alívio. Em vez disso, conto quantas vezes Sofia atravessa o saguão sem precisar chegar perto de mim. Fechamos o cinema depois das onze. Ela guarda o notebook, confere as reservas da próxima semana e informa que chegará cedo para a visita da comissão. — Sofia — chamo antes que ela alcance a porta. Ela para, mas não se vira de imediato. Quando finalmente olha para mim, a distância entre nós parece maior do que a sala inteira. — Eu não recuei porque não queria — digo. — Eu sei — responde, com a mão ainda fechada sobre a alça da bolsa. — E não foi uma punição pela possibilidade de Paris — acrescento, porque preciso que ao menos essa parte fique limpa. — Também sei — diz, finalmente me olhando. Sua voz permanece calma, porém os dedos apertam a alça da bolsa. Quero atravessar o saguão, tocar duas vezes seu pulso e pedir outra oportunidade de explicar. Não faço isso. Pedir contato depois de recusá-lo apenas para aliviar minha culpa seria transformar consentimento em conforto próprio, coisa que o acordo nunca permitiu. Sofia abre a porta. O sino toca acima dela, breve e claro. — Boa noite, Elise. — Boa noite, Sofia. Ela sai sem olhar para trás. Fico diante da bilheteria, sob o quadro onde nosso acordo está guardado, ouvindo a fechadura encaixar quando fecho a porta. Na planilha, marco a terceira sessão como concluída e registro cento e quatro presentes. Não existe campo para a cena interrompida na cabine, nem para a razão de eu ter recuado quando Sofia ficou perto o bastante para terminar uma espera de dez anos.

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