CAPÍTULO 22 — AS DUAS METADES A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 27 de 30
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CAPÍTULO 22 — AS DUAS METADES

POV: Elise Na segunda-feira, às nove e cinquenta e sete, Sofia coloca o telefone sobre a mesa da cozinha e deixa o e-mail da Maison Lumière aberto entre nossas canecas. A contraproposta foi aceita com uma alteração. Durante oito semanas, ela trabalhará quatro dias em Paris. Depois, passará a três dias presenciais e dois remotos, com revisão formal após seis meses. A parceria com o Aurora também recebeu aprovação para um projeto-piloto. A empresa enviará dois filmes restaurados para sessões acessíveis, desde que concluamos as doze quartas-feiras e entreguemos o cronograma da fundação. Sofia lê o texto outra vez. Usa minha camiseta, a própria calça e uma das meias com luas que passou a retirar da gaveta sem pedir autorização administrativa. — Eles mantiveram o salário, a equipe e a autonomia editorial — diz, apoiando os dedos na borda do aparelho. — Também aceitaram avaliar o festival depois da primeira sessão-piloto. — É uma boa proposta. Minha resposta sai inteira, embora eu sinta a ausência futura ocupando a cadeira onde ela está sentada. Quatro dias em Paris significam malas, trens e noites em que a caneca ao lado da minha permanecerá no armário. Sofia observa meu rosto sem buscar uma versão mais confortável da reação. Nosso aditamento continua funcionando justamente quando preferiríamos que uma cláusula resolvesse o assunto por nós. — Quero aceitar — afirma. — Não porque Paris venceu. Quero o trabalho e consegui negociar espaço para continuar no Aurora. — Então aceite. Ela não toca no botão. Em vez disso, empurra o telefone alguns centímetros e segura minha mão sobre a mesa. — Diga a parte que ainda está tentando organizar. Passo o polegar pela lateral de seus dedos. Posso imaginar a agenda, as passagens e a mochila junto à porta. Consigo também imaginar Sofia recusando e transformando cada dificuldade do cinema numa lembrança do cargo perdido. — Vou sentir sua falta — admito. — E tenho medo de aprender a dividir uma vida com horários que não controlamos.

— Eu também. Posso manter o apartamento de Paris durante os seis meses iniciais e voltar nas noites de quinta. Depois revisamos o que funciona sem fingir que sabemos antes de viver. — As sessões do projeto-piloto precisam acontecer nos fins de semana. Não quero que você trabalhe quatro dias lá e passe as noites de quarta em trens para provar compromisso. Sofia sorri, embora seus olhos permaneçam atentos. — Isso foi apoio, pedido ou ameaça contra transporte ferroviário? — Os três. Também quero uma noite por semana em que nenhuma de nós trabalhe para organização alguma. — Sexta-feira, salvo festival, emergência hidráulica ou ataque de periquitos. — Periquitos não constituem emergência reconhecida. — Você não os conheceu. A conversa continua por quarenta minutos. Definimos que nenhum atraso será interpretado como abandono sem uma mensagem, que decisões do Aurora não esperarão a presença física de Sofia e que eu não acumularei trabalho para parecer indispensável. Ela acrescenta que Paris não receberá todas as partes ambiciosas de sua vida enquanto Ghent fica responsável apenas por afeto, contas e reparos. O festival internacional deverá nascer como trabalho sério, não compensação romântica. Quando terminamos, Sofia abre o e-mail de resposta. Mantém minha mão na dela enquanto escreve que aceita os termos revisados e confirma a data de início após a décima segunda sessão. — Quer ler antes de eu enviar? — pergunta, deixando o cursor sobre o botão. — Não. A resposta profissional é sua. Ela envia. O telefone confirma o recebimento sem música, fogos ou qualquer consideração pelo fato de uma vida ter acabado de adquirir outro formato. Sofia solta o ar, levanta-se e vem até mim. Seguro sua cintura quando ela para entre meus joelhos. — Ainda estou aqui — diz. — Eu sei. — E vou continuar voltando enquanto nós duas escolhermos isto. Não peço que transforme a frase em promessa maior. Beijo seu abdômen por cima da camiseta, e ela passa os dedos pelo meu cabelo antes de se inclinar para alcançar minha boca.

A sétima quarta-feira acontece dois dias depois, com uma mostra de animações sem diálogo e uma oficina de linguagem visual conduzida por estudantes surdos. Cento e vinte e uma pessoas ocupam a sala. Na oitava, Jules apresenta curtas produzidos por adolescentes e ameaça retirar o microfone de qualquer adulto que explique juventude para jovens. Vendemos cento e trinta e nove ingressos e recebemos sete propostas de estágio. A nona sessão usa audiodescrição ao vivo num filme noir. O senhor Peeters reclama que o narrador descreveu a cortina como vinho quando, segundo ele, era bordô. Depois doa cinquenta euros para novos fones. Na décima sessão, Sofia organiza uma noite portuguesa e brasileira, com dois curtas, um documentário e doces que Noor aceita vender após três reuniões sobre nomes, alergias e porcentagem de açúcar. Mina dança no saguão com uma senhora que conheceu na fila. Luca projeta fotografias de Lisboa e Recife na parede lateral. Sofia termina a noite traduzindo perguntas entre quatro idiomas e rindo até perder a voz. A rotina não elimina Paris. Passagens começam a aparecer presas no quadro da cozinha ao lado das sessões, reuniões da fundação e noites reservadas apenas para nós. Sofia leva mais roupas para a prateleira vazia. Não muda tudo de uma vez. Acrescenta uma blusa, dois livros, um carregador e um pote de creme que passa a disputar espaço com o meu. Eu retiro ferramentas do armário do corredor e as levo ao depósito. Descubro que possuir uma caixa no lugar correto reduz menos minha utilidade do que temi durante anos. A décima primeira sessão recebe uma versão restaurada de uma comédia de 1936. A Maison Lumière envia a cópia como teste informal, acompanhada por legendas acessíveis e uma lista de problemas que Sofia corrige antes do intervalo. Cento e cinquenta e oito pessoas comparecem. Ao final, Thomas confirma que a primeira parcela da fundação será liberada assim que apresentarmos a documentação da última quarta-feira. Quando a sala esvazia, o senhor Peeters permanece no A-12. O apoio de braço foi restaurado naquela manhã com parte de sua doação, e ele o testa em cinco posições diferentes. — Está melhor — declara, como se elogio completo pudesse comprometer sua reputação. — O assento ao lado continua sem personalidade. — O A-13 agradece a avaliação e seguirá existindo apesar dela — responde Sofia, recolhendo um programa caído sob a fileira.

Luca aparece com uma pequena escova, óleo mineral e duas luvas. Durante a semana, limpou o mecanismo da placa de bronze sob o A-12 e retirou a oxidação do segundo cilindro. — Agora as duas chaves devem girar — informa. — Desde que sejam inseridas ao mesmo tempo e ninguém tente demonstrar força contra metal de quase um século. O senhor Peeters se levanta apenas depois de exigir supervisão. Noor, Jules, Mina e Luca ocupam a fileira B, formando uma plateia que nenhum teste mecânico merece. Retiro as chaves da gaveta da bilheteria. A estrela gravada em cada cabeça de bronze está mais escura nas bordas, marcada pelo uso durante semanas de tentativas fracassadas. Entrego uma a Sofia. Ela se ajoelha de um lado da poltrona, enquanto ocupo o outro. A placa fica entre nós, com os dois cilindros alinhados sob a frase de Helena. “Quando as duas estiverem prontas.” — Continuo sem saber pronta para quê — diz Sofia, encaixando a chave no cilindro esquerdo. — Paris, Ghent, propriedade, ferrugem ou humilhação pública diante de um homem que critica poltronas. — Talvez pronta signifique apenas capaz de girar a chave sem tentar decidir sozinha o que existe dentro. Sofia me olha por cima do assento. A resposta não encerra o medo, mas parece suficiente para o mecanismo. — No três? — pergunta. — No três. Conto devagar. Nossas mãos giram ao mesmo tempo. O cilindro de Sofia oferece resistência durante meio segundo, depois acompanha o meu com um estalo seco. A placa se desloca alguns milímetros. Luca se aproxima, mas para quando ergo a mão. Quero abrir com Sofia, sem transformar a descoberta em outro reparo executado por alguém mais preparado. Puxamos a pequena porta. Atrás dela existe uma caixa rasa revestida de veludo vermelho, protegida por uma tampa de vidro empoeirada. No interior, encontro um envelope, uma moldura de latão vazia e uma fotografia nossa sentadas no A-12 e no A-13 aos dezenove anos. Sofia segura um saco de caramelos. Eu olho para ela em vez da câmera. Mina leva a mão à boca. Jules baixa o telefone antes que qualquer uma precise pedir. Até o senhor Peeters fica quieto, talvez por respeito ou por não encontrar defeito imediato na moldura.

O envelope traz uma frase na letra de Helena: “Para as duas proprietárias, quando pararem de achar que metade significa falta.” Abro. A folha contém poucas linhas, escritas com a tinta azul que ela usava para contas e ameaças dirigidas a fornecedores. As chaves pertenciam ao caixa antigo. Nenhuma funcionava sozinha, porque dinheiro, decisões e problemas precisavam de duas pessoas presentes. O sistema não durou. A ideia merecia outra tentativa. Sofia lê sobre meu ombro. Sua mão repousa em minhas costas, firme o bastante para que eu perceba quando sua respiração muda. Dentro da moldura, coloquem o ingresso vermelho que rasgaram na cabine, caso tenham cometido a tolice sentimental de guardar as partes. Vi cada uma sair com um pedaço e decidi não perguntar. Não colem as bordas. Elas se encaixam melhor quando continuam mostrando onde foram separadas. A fotografia treme entre meus dedos. Dez anos atrás, depois do quase-beijo, Sofia tentou retirar o ingresso do bolso para devolver a Helena. O papel prendeu no fecho da bolsa e rasgou. Fiquei com a parte que caiu no chão. Ela guardou a outra sem que nenhuma comentasse. Durante anos, mantive meu pedaço dentro de um manual do projetor, marcado na página sobre interrupções inesperadas. — Você ainda tem? — pergunto, embora a forma como Sofia leva a mão ao bolso interno do casaco já ofereça resposta. Ela retira uma carteira pequena e abre um compartimento atrás do documento de identidade. O papel vermelho está desbotado, com metade da estrela do Aurora e a data da noite na borda. Levanto e vou até a cabine. Ninguém nos segue de imediato. No manual do projetor, entre duas páginas amareladas, encontro minha metade protegida por um envelope transparente. Quando volto, Sofia está sozinha junto ao A-12. Os outros se afastaram para o saguão, levando consigo uma quantidade incomum de discrição e nenhuma garantia de que Noor não esteja ouvindo atrás da cortina. Colocamos os dois pedaços sobre o vidro da moldura. As bordas rasgadas coincidem sem desaparecer. A estrela fica inteira, mas uma linha irregular atravessa o centro. — Passei anos pensando que guardar isto era uma fraqueza específica — diz Sofia. — Descobrir que você fez o mesmo prejudica bastante minha originalidade. — Eu escondi dentro de um manual técnico. Minha fraqueza possuía sistema de arquivamento.

Ela sorri, mas seus olhos permanecem na data. O início do trabalho em Paris acontecerá dez dias depois da última sessão, prazo suficiente para organizar malas e insuficiente para fingir que nada mudará. — Não quero colar agora — afirma. — A carta dizia para não esconder a borda. Também não quero fechar a moldura antes da última quarta-feira. — Concordo. Podemos colocá-la na cabine depois que o testamento for cumprido. Guardamos as metades lado a lado dentro da caixa, sem prender. A moldura continua aberta, esperando uma decisão que já possui forma, mas ainda não recebeu lugar definitivo. No fundo do envelope, Helena acrescentou outra linha. Dividi o prédio porque nenhuma de vocês deve carregar sozinha a cabine, as contas, a plateia e a culpa. O restante da vida não entra no inventário. Leio em silêncio. Sofia não transforma a frase em argumento contra Paris nem em prova de que Ghent pode conter tudo. — Posso querer o Aurora, você e o trabalho — diz. — Ainda vou falhar em alguns horários, perder trens e precisar mudar planos. — Eu posso querer você sem tratar cada ausência como abandono. Também vou errar e talvez tentar consertar coisas que deveriam ser conversadas. — Então conversamos antes de usar uma chave inglesa emocional. — Essa ferramenta não existe. — Você possui três modelos no depósito. Fecho o compartimento sem trancar. As chaves ficam em nossas mãos, uma para cada proprietária, inteiras apesar de abrirem apenas quando usadas juntas. No saguão, Jules atualiza o quadro das sessões. Onze marcas verdes aparecem ao lado das datas concluídas. A última quarta-feira permanece vazia, cercada por reservas, tarefas e uma pequena estrela desenhada por Sofia. Ela escreve “Paris” no calendário da semana seguinte ao encerramento e, abaixo, “volta quinta à noite”. Depois acrescenta “sexta sem trabalho” num quadrado que eu havia deixado livre. O calendário não resolve os próximos anos. Organiza apenas o primeiro mês de uma vida que teremos de ajustar depois de vivê-la, falha humana que nenhum contrato consegue eliminar.

Subimos para o apartamento com as duas chaves no bolso e as metades do ingresso protegidas sob o A-12. Na cozinha, há quatro canecas sobre a mesa porque nenhuma de nós lembrou de guardar as anteriores. Sofia lava duas. Eu seco as outras. Quando terminamos, deixamos uma de cada lado da pia para o café da manhã, sem discutir a qual cidade pertence o dia seguinte.

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