CAPÍTULO 11 — UMA DANÇA NO A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 13 de 30
Obra Menu

CAPÍTULO 11 — UMA DANÇA NO

HALL POV: Sofia Jules cola quatro marcas coloridas no piso do saguão e anuncia que cada uma representa um sentimento. A fita azul significa reencontro. A amarela, confiança. A vermelha, desejo contido. — A fita verde significa o quê? — pergunto, observando o pequeno quadrado diante da bilheteria. — Onde você precisa parar sem derrubar a câmera — responde Jules, ajoelhada no chão com um rolo entre os dentes. — Nem tudo precisa ser uma metáfora. A proposta do vídeo parece simples no documento enviado à Fundação De Zwaan: mostrar o Aurora como espaço vivo, destacar a parede de recados e apresentar as responsáveis trabalhando em harmonia. Na prática, envolve uma câmera deslizando pelo hall, vinte cartões presos com fita dourada, um aparelho de fumaça que Elise proibiu e uma dança criada por uma adolescente sem respeito por articulações adultas. — Não haverá fumaça — repete Elise, retirando o aparelho de perto da escada. — A fiação do saguão é antiga, e o detector foi instalado por alguém que desconfiava de torradas. — Seria uma névoa discreta — protesta Jules, segurando a câmera contra o peito. — Incêndios também costumam começar discretos. Elise usa calça preta e uma blusa verde-escura com as mangas dobradas. O cabelo está preso num coque baixo, revelando a linha do pescoço que tenho tentado não observar desde que ela chegou. Não consigo decidir se a campanha piorou minha atenção ou apenas retirou as desculpas. Agora existe um contrato autorizando certos toques, o que não tornou nenhum deles mais simples. Noor surge pela passagem lateral com uma caixa de biscoitos e lê o roteiro preso à prancheta de Jules. Sua expressão muda no item “movimento romântico espontâneo”. — Espontâneo com ensaio às duas e gravação às quatro — comenta, escolhendo um biscoito quebrado. — A juventude conseguiu industrializar a naturalidade. — Não é romântico — diz Elise.

— A palavra está impressa — respondo, apontando para o roteiro antes que Jules consiga esconder a folha. Jules arranca a página da prancheta, risca “romântico” e escreve “emocionalmente convincente”. Elise continua sem parecer convencida, embora a nova definição seja pior. O vídeo começará comigo abrindo a bilheteria. Elise descerá a escada do apartamento, caminhará até o centro do saguão e me oferecerá a mão. Dançaremos oito compassos antes de conduzir a câmera até a parede de memórias. — Não danço — aviso, lendo a sequência pela terceira vez. Mina entra no mesmo instante, carregando uma caixa comprida e usando óculos escuros apesar do céu nublado. Ela ouviu apenas a frase final, o que basta para parecer pessoalmente ofendida. — Elise dança — declara, depositando a caixa sobre o balcão. — Eu ensinei antes que ela decidisse que diversão precisava de agenda e autorização municipal. Elise fecha os olhos por um momento. Sofia de dezenove anos reconheceria o gesto como resignação. A versão atual ainda sente uma satisfação infantil ao testemunhá-lo. — Você sabia dançar e nunca comentou? — pergunto. — Também sei trocar uma tomada e preparar sopa de cebola. Nem toda habilidade precisa de campanha pública — responde, abrindo a caixa trazida por Mina. Dentro há dois pares de sapatos baixos, um vinho e outro preto, além de um disco antigo protegido por uma capa desbotada. A etiqueta traz o nome de uma valsa instrumental belga. — Helena usava essa música antes das sessões especiais — explica Mina. — Dizia que o hall precisava lembrar que já tinha sido salão de baile. Lembro de tardes em que a melodia atravessava o saguão enquanto minha tia conferia ingressos. Nunca perguntei de onde vinha. Na época, certas coisas pareciam destinadas a continuar disponíveis. Luca instala o toca-discos perto da parede de recados. Quando a agulha desce, o som chega com pequenos ruídos, depois ganha corpo entre o balcão e as portas de vidro. Elise troca as botas pelos sapatos pretos. O gesto deveria ter apenas função prática, mas observo seus dedos ajustarem a fivela e preciso fingir interesse numa caixa de tachinhas. — Vamos marcar os passos sem câmera — decide Jules, posicionando-se junto à porta. — Sofia começa na bilheteria. Elise vem da escada. Vocês se encontram na marca amarela. — Confiança — lembro.

— Exato. Depois Elise oferece a mão, Sofia aceita e vocês giram até a fita vermelha. — Desejo contido — acrescenta Noor, mastigando o biscoito e se instalando numa poltrona trazida da sala para acompanhar o desastre. Elise olha para o teto como se procurasse apoio numa autoridade superior. Não encontra, porque até o teto depende dela para não ceder. Ocupo meu lugar atrás da bilheteria. Jules conta até três, e a música recomeça. Abro a pequena porta, caminho até a marca azul e paro no ponto correto. Elise desce os últimos degraus. A luz lateral alcança sua blusa, os sapatos e a expressão séria demais para uma mulher prestes a participar de um vídeo com fita colorida no chão. Quando chega à marca amarela, ergue a mão. Não usa o código, porque o gesto já foi aprovado no roteiro, mas espera que eu escolha aceitá-la. Coloco meus dedos nos dela. Elise fecha a mão com firmeza e conduz meu corpo para o primeiro passo. Tento acompanhar, piso na ponta de seu sapato e quase atinjo sua canela. — Você disse que sabia seguir — comenta, segurando minha cintura antes que eu perca o equilíbrio. — Sei seguir instruções linguísticas. Meus pés trabalham sob outra administração. A mão dela permanece na minha cintura. O contato atravessa a camisa e desperta uma atenção imediata no ponto exato onde seus dedos repousam. Elise toca duas vezes meu pulso. Autorizo fechando os dedos em torno de sua mão. A confirmação é discreta, mas muda o modo como ela me segura. — Pare de olhar para os pés — pede. — Você precisa acompanhar meus ombros. — Seus ombros não informam qual parte do meu corpo está prestes a humilhar nossa campanha. — Confie em mim durante oito compassos. A frase parece maior do que a coreografia. Ergo o rosto e encontro seus olhos. O passo seguinte acontece sem que eu conte, guiado pelo movimento do braço dela. Conseguimos chegar à fita vermelha sem lesões. Noor bate palmas. Jules reclama que parecemos duas pessoas atravessando uma fiscalização de aeroporto. — Vocês precisam relaxar — orienta, aproximando-se para corrigir nossas posições. — Sofia, mão no ombro. Elise, mais perto da cintura. Olhem uma para a outra. — Você recebe algum treinamento específico para constranger adultas? — pergunto.

— Não. Adultos oferecem material suficiente sem treinamento. Repetimos a sequência. Na segunda tentativa, piso fora da marca. Na terceira, minha trança prende no botão da blusa de Elise. Na quarta, o toca-discos salta e Mina acusa Luca de desrespeitar equipamentos anteriores ao nascimento dele. Na quinta tentativa, encontro o ritmo. Elise conta sob a respiração, quase inaudível. Um, dois, três. Os passos deixam de parecer instruções e passam a caber no espaço entre nossos corpos. Minha mão repousa em seu ombro. A dela sustenta minha cintura com cuidado, ajustando a pressão quando giro. O contrato continua no quadro, mas não penso nele durante vários compassos. — Você sempre conta? — pergunto, enquanto cruzamos a marca azul pela segunda vez. — Quando preciso confiar no chão. — E em mim? Elise não responde imediatamente. Conduz o giro, espera que eu encontre o equilíbrio e só então aproxima o rosto do meu o suficiente para falar sem ser ouvida pelos outros. — Com você, preciso contar mais devagar. Meu passo falha. Ela me segura antes que a hesitação alcance meus pés, e o sorriso que surge em seu rosto contém mais calor do que qualquer fotografia autorizada. Jules interrompe o ensaio para ajustar a câmera. Noor leva Mina até a confeitaria sob o pretexto de impedir que os biscoitos acabem. Luca desaparece atrás do balcão com os cabos. Ficamos sozinhas no centro do saguão por alguns minutos. A música continua, baixa, girando no disco com uma leve aspereza. — Sobre ontem — começo, mantendo minha mão no ombro dela porque afastá-la pareceria mais estranho do que permanecer. — O cartão está no escritório — responde Elise. — Num envelope, como combinamos. — Não estava perguntando onde você guardou. Ela observa meu rosto. O polegar se move uma vez junto à minha cintura, pequeno demais para ser chamado de carinho e claro demais para passar despercebido. — Então pergunte — diz.

A frase me oferece mais espaço do que coragem. Quero saber se ela teria me procurado na estação, se teria me beijado na cabine caso eu não tivesse perguntado sobre partir, se ainda pensa no cartão quando fecha o escritório. Em vez disso, pergunto se ela se arrepende de termos encontrado a mensagem. É uma pergunta menor, mas pelo menos não é outra fuga completa. — Não — responde. — Arrependo-me de não ter sabido dela quando ainda poderia mudar sua viagem. A música termina. Nenhuma de nós se afasta até a agulha iniciar a faixa seguinte, e a demora transforma o silêncio numa escolha compartilhada. Jules volta antes que eu encontre outra pergunta. Traz um estabilizador para a câmera e a determinação de alguém que pretende obter material utilizável mesmo que precise dirigir nossas respirações. A gravação começa às quatro e dez. O sol aparece por alguns minutos, lançando luz dourada sobre o piso encerado e os cartões coloridos da parede. Na primeira tomada, uma bicicleta passa diante da porta. Na segunda, o senhor Peeters entra no enquadramento para informar que a fita vermelha está torta. Na terceira, Noor esquece a bandeja sobre o balcão. Na quarta, consigo dançar, mas Elise olha diretamente para a câmera e Jules declara que parece uma ameaça institucional. — Não sei parecer natural enquanto sou observada — responde Elise, cruzando os braços junto à marca amarela. — Olhe para Sofia — orienta Jules. — A câmera não precisa existir para vocês durante oito compassos. Elise me encara. A instrução muda o ar do saguão com eficiência maior do que qualquer aparelho de fumaça proibido. Voltamos às posições. Jules levanta a mão, a música começa e caminho da bilheteria até a marca azul. Elise desce a escada sem olhar para a câmera. Quando oferece a mão, toca duas vezes meu pulso. O código não constava naquela

1/1
Menu

Fazer anotação