CAPÍTULO 24 — A OUTRA DONA DO A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 29 de 30
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CAPÍTULO 24 — A OUTRA DONA DO

CINEMA POV: Elise Na manhã depois da última quarta-feira, encontro a declaração notarial sobre a mesa da cozinha, presa sob a cafeteira para impedir que Sofia a leve por engano junto com os documentos de Paris. A propriedade do Aurora agora pertence a nós sem condição, prazo ou ameaça de venda automática. O papel continua tendo oito páginas, quatro assinaturas e nenhuma orientação sobre como administrar uma relação entre duas cidades. Sofia está no quarto, dobrando roupas diante da mala aberta. Não tenta levar tudo. Escolhe peças para oito semanas de quatro dias em Paris e deixa o restante na prateleira que começou vazia. Observo da porta enquanto ela separa carregadores, dois livros e a camiseta cinza que deixou de pertencer exclusivamente a mim depois da terceira noite em que a procurou no armário. — Você está contando minhas meias? — pergunta, sem levantar o rosto da pilha. — Estou verificando se pretende levar as duas com luas. Preciso de pelo menos uma para manter autoridade no apartamento. — Sua autoridade já sobreviveu a pijama, travesseiro marcado e creme para as mãos. As meias não podem causar dano adicional. Ela coloca apenas um par na mala. O outro fica na gaveta, gesto pequeno demais para ser promessa e concreto o bastante para impedir que eu interprete o quarto como esvaziado. Na cozinha, criamos uma lista de responsabilidades depois do testamento. A anterior termina na décima segunda sessão. A nova não possui data final. Fico responsável por obras, fornecedores locais, licenças e operação diária. Sofia assume programação internacional, acessibilidade editorial, parcerias e comunicação. Decisões de venda, dívida e alteração estrutural continuam exigindo as duas assinaturas. — E mensagens sobre infiltração? — pergunta, adicionando o próprio nome ao documento. — Dependem da gravidade. — Defina gravidade sem usar uma fotografia de teto molhado às cinco da manhã. — Água sobre equipamento, pessoas ou documentos.

— Água sobre cama também merece atenção. Aprendi isso por experiência patrocinada pela hospedaria. Acrescentamos “emergências habitacionais” e assinamos. O papel vai para uma pasta azul marcada como “Gestão compartilhada”, título que Sofia considera pouco sedutor e eu considero adequadamente informativo. Depois encerramos o acordo de imagem pública. Retiro o envelope de trás do quadro, coloco as cópias sobre a bilheteria e leio cláusulas que já parecem escritas por duas mulheres menos corajosas. A proibição de beijos continua riscada. O aditamento protege nossa vida privada. A data de validade termina na sessão final, concluída na noite anterior. — Devemos destruir? — pergunta Sofia, segurando a cópia pelo canto. — Helena guardaria. — Helena também guardava contas pagas de 1997 e um guarda-chuva sem tecido. Arquivamos o acordo mesmo assim. Na capa, escrevo “encerrado após cumprimento da finalidade”. Sofia acrescenta abaixo: “Substituído por comunicação humana, com resultados variáveis.” No domingo, pintamos uma faixa da bilheteria antes da reforma principal. Noor cobre a confeitaria com plástico, Luca retira uma luminária e Jules aparece com uma câmera, embora tenha prometido passar o fim de semana estudando. — Isto é estudo — argumenta. — Estou documentando a transição de uma instituição cultural para um modelo operacional pós-crise. — Você está filmando Sofia com tinta no nariz — respondo. — Material histórico pode assumir formas inesperadas. Sofia tenta limpar a mancha e espalha tinta pela bochecha. Jules abaixa a câmera quando peço. Depois fotografa apenas a madeira restaurada, a nova altura do balcão e as duas placas de latão que serão instaladas perto da entrada. A primeira diz: “Cinema Aurora — fundado em 1924.” A segunda traz nossos nomes em linhas iguais: “Copropriedade e direção: Elise Margot Van Acker e Sofia Isabel Moreira.” Passo o polegar sobre as letras de Sofia. Durante anos, meu nome esteve ligado ao cinema apenas em notas de serviço, recibos e escalas de projeção. Agora aparece ao lado do dela na porta. — Está torta — digo quando Sofia segura a placa contra a parede. — Você ainda não colocou um parafuso. — A intenção já está torta.

Ela corrige dois centímetros para a esquerda. Noor observa da passagem e pergunta se pretendemos passar a vida inteira discutindo alinhamento. — Sim — responde Sofia. — Temos divisão igualitária de patrimônio e divergência permanente sobre objetos horizontais. A placa fica reta depois de três medições e uma intervenção de Luca. Quando aperto o último parafuso, Sofia passa o braço por minha cintura e apoia o queixo no meu ombro. — Agora é oficial — murmura, mantendo o queixo apoiado no meu ombro enquanto observa as duas linhas gravadas. — Já era oficial no cartório — respondo, embora passe a mão sobre nossos nomes outra vez. — Cartórios não usam latão nem permitem beijo comemorativo — argumenta, virando-me pela cintura para que eu fique de frente para ela. Viro o rosto. Ela pergunta se pode, embora ninguém esteja perto o bastante para confundir o gesto com campanha. Respondo que sim e beijo Sofia diante de nossos nomes. Na segunda-feira, acompanho-a até a estação com uma mala, uma bolsa de trabalho e uma caixa de pães que Noor declarou essenciais para relações internacionais. O trem parte às sete e doze. Sofia envia o número do assento, o horário previsto e uma fotografia da chave de bronze no bolso do casaco. Eu volto ao Aurora. Não permaneço na plataforma depois que o vagão desaparece. A promessa que preciso aprender a receber não está no lugar onde ela parte, mas nas escolhas que fazemos depois. Às dez, encontro uma mensagem dela: “Cheguei. A Maison Lumière preparou seis formulários, três reuniões e café aceitável. Continuo coproprietária.” Respondo com uma fotografia da nova placa, já coberta por uma marca de dedo que suspeito pertencer a Jules. A primeira semana exige mais ajustes do que nossas listas previram. Sofia participa de uma reunião da fundação por vídeo e discute legendas enquanto eu apresento cotações de rampa, carpete e cadeiras móveis. Na terça-feira, um fornecedor informa que a madeira escolhida para a bilheteria só chegará depois de seis semanas. Minha vontade inicial é substituir sem consultar Sofia para evitar atraso. Abro a conversa no telefone, escrevo três alternativas e envio fotografias antes de escolher. Ela responde durante o intervalo de uma sessão de teste em Paris. “Prefiro esperar duas semanas e manter a madeira aprovada. Se passar disso, use a segunda opção. Obrigada por não decidir sozinha.”

A frase não me acusa. Mesmo assim, leio duas vezes antes de confirmar com o fornecedor. Compartilhar responsabilidade continua menos confortável do que carregar tudo e reclamar em silêncio. Também funciona melhor. Na quarta-feira, o Aurora exibe um filme sem relação com o testamento. Cento e seis pessoas compram ingressos, número que ninguém precisa apresentar a um notário. Noor vende torta, Peeters ocupa o A-12 e Jules inicia uma votação para escolher o primeiro clube permanente da nova sala flexível. A noite continua sem Sofia no prédio. Ela aparece numa tela no escritório, revisando a ordem dos curtas do mês seguinte. Sua voz chega com pequeno atraso, e a imagem congela quando faz uma expressão indignada diante da minha sugestão de reduzir um intervalo. — Você congelou com aparência autoritária — aviso. — Isso não limita muito o diagnóstico. O intervalo continua com quinze minutos. — Doze — respondo, anotando a mudança na programação antes que a conexão falhe outra vez. — Quatorze, e Noor pode vender café antes da sessão — rebate Sofia, aproximando o rosto congelado demais da câmera. — Treze — proponho, deixando a caneta suspensa sobre a folha. — Fechado — aceita, e a imagem volta a se mover no instante em que sorri. Quando a chamada termina, sinto falta do peso de sua mão sobre a minha e do modo como ocupa a cadeira sem permanecer sentada corretamente. A saudade não transforma o acordo numa falha. Apenas confirma que a presença dela tem forma específica. Na quinta-feira, o trem atrasa quarenta e sete minutos. Sofia avisa antes do horário previsto, envia a nova chegada e não pede desculpas por uma empresa ferroviária europeia. Eu continuo no cinema em vez de ir para a estação. O eletricista precisa terminar uma vistoria, e nosso acordo proíbe transformar recepção em prova de amor. Às dez e vinte e três, a porta lateral abre. Sofia entra com a mala atrás de si, o cabelo preso de maneira instável e uma credencial vermelha da Maison Lumière pendurada no pescoço. — A outra dona do cinema chegou — anuncia Noor da confeitaria, antes que eu consiga atravessar o saguão. Sofia para perto da bilheteria. Seu olhar encontra a placa com nossos nomes e depois volta para mim. — Não é a outra — respondo, aproximando-me. — É uma das duas.

Noor ergue as mãos, alegando que pretendia apenas informar a chegada e recebeu correção patrimonial gratuita. Sofia deixa a mala junto à parede e me encontra no meio do saguão. O beijo acontece diante de Noor, Luca, três voluntários e um entregador que claramente não precisava assistir. Nenhum telefone se levanta. Seguro o rosto de Sofia e sinto o frio da rua em sua pele. Ela sorri contra minha boca, depois encosta a testa na minha. — Eu voltei na quinta — diz. — Você avisou do atraso. — Estou tentando oferecer romance dentro das limitações do transporte público. — Está funcionando. Subimos depois que o eletricista termina. Sofia abre a mala no quarto e coloca roupas na prateleira sem perguntar. Não todas. O apartamento de Paris continua existindo, assim como o trabalho que ocupa quatro dias de sua semana. Na sexta-feira, respeitamos a proibição de trabalho até as quatro da tarde. Falhamos depois disso porque Mina aparece com uma cortina antiga encontrada no porão e insiste que decidamos se possui valor histórico. — Tem mofo — digo, examinando o tecido sobre a mesa da cozinha. — Tem memória — corrige Mina. — A memória está crescendo em manchas verdes — observa Sofia, mantendo distância segura. A cortina vai para avaliação antes de qualquer decisão. Mina aceita apenas depois que Sofia promete fotografá-la para o arquivo e Noor ameaça impedir a entrada do tecido na confeitaria. Quando ficamos sozinhas, Sofia retira a credencial de Paris da bolsa e a coloca na prateleira ao lado da chave de bronze. Os dois objetos permanecem juntos sem parecer disputar território. — Tenho algo para dizer — começa, apoiando as mãos no encosto da cadeira. — Não envolve contrato, patrimônio, proposta ou vazamento. Minha atenção se concentra nela. Sofia costuma preencher nervosismo com movimento, mas permanece parada, sem procurar um objeto para corrigir ou uma frase para transformar em legenda.

— Eu amo você — diz. — Não como argumento para ficar em Ghent. Não como compensação pelos anos longe. Amo você dentro da vida que escolhemos construir, inclusive nas partes cansativas e mal organizadas. O quarto fica pequeno ao redor da frase. Durante anos, eu esperei que pessoas demonstrassem amor permanecendo úteis, disponíveis ou incapazes de partir. Sofia acaba de me oferecer algo que inclui trens, trabalho e retorno sem transformar nenhum deles em teste. Aproximo-me até nossas mãos se encontrarem sobre o encosto. — Eu amo você — respondo. — Quando está aqui, quando está em Paris e quando move vírgulas no orçamento depois de eu pedir que não mova. — Isso quase arruinou a declaração. — A vírgula estava correta antes. Ela ri, e o som quebra a solenidade antes que se torne pesada demais para nós. Puxo Sofia pela cintura e a beijo junto à mesa, entre a cortina condenada e duas canecas esquecidas. Mais tarde, descemos para abrir o Aurora. A sessão daquela noite não faz parte das doze, não decide herança e não será avaliada por fundação alguma. Jules entrega programas. Noor reclama da fila bloqueando a confeitaria. O senhor Peeters testa novamente o apoio do A-12 e pergunta quando instalaremos uma pequena placa com o nome dele. Sofia ocupa a bilheteria rebaixada para vender os últimos ingressos. A madeira definitiva ainda não chegou, e o acabamento provisório apresenta uma pequena diferença de cor que eu noto sempre que passo. Uma mulher pergunta quem pode autorizar uma sessão beneficente no mês seguinte. Aponta para mim, depois para Sofia, insegura sobre qual proprietária deve escolher. — Fale com as duas — respondo. Sofia levanta os olhos do computador e oferece metade do formulário. A mulher se posiciona entre nós, e começamos a organizar datas, direitos e acessibilidade sem que nenhuma assuma o trabalho inteiro. Quando as portas da sala se abrem, fico de um lado do corredor. Sofia ocupa o outro. Recebemos o público enquanto a marquise acende sobre nossos nomes. No bolso, minha chave de bronze toca a chave comum do apartamento. Sofia carrega a segunda, junto ao bilhete do trem de segunda-feira. Às sete, fechamos as portas da sala ao mesmo tempo. Depois, ela segura minha mão no escuro e permanece ao meu lado enquanto o projetor acende.

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