CAPÍTULO 16 — SEM FOTOGRAFIAS A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 21 de 30
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CAPÍTULO 16 — SEM FOTOGRAFIAS

POV: Elise Acordo com a mão de Sofia fechada sobre a minha e o braço dormente sob o travesseiro. A chuva artificial no telefone terminou durante a madrugada. No quarto, restam o ruído dos canos, a claridade pálida atravessando a cortina e a respiração dela junto ao meu ombro. Sofia dorme de lado, com meu travesseiro quase inteiro sob a cabeça e uma perna atravessada sobre o espaço que defini como minha metade da cama. A expressão espacial defendida na noite anterior venceu enquanto eu dormia. Não me incomoda o suficiente para recuperar território. Fico imóvel, observando a camiseta larga subir alguns centímetros na cintura e os cabelos espalhados no lençol. A confiança daquela desordem me atinge com mais força do que os beijos. Ela não parece pronta para partir. Também não parece presa. Meu polegar se move sobre seus dedos antes que eu decida se deveria acordá-la. Sofia abre os olhos, demora a entender onde está e olha para nossas mãos. — Bom dia — diz, com a voz baixa de sono. — Preciso saber se invadi seu lado ou se a cama sofreu uma mudança de fronteira durante a noite. — Você ocupou setenta por cento do colchão. — Então deixei trinta por cento para negociação. Isso demonstra maturidade diplomática. Ela não solta minha mão. Aproxima o rosto, pergunta se pode me beijar e espera até eu responder. O beijo é lento, ainda sem café, com um sorriso surgindo quando Sofia percebe a marca do travesseiro na minha bochecha. Tento afastá-la, mas ela segura meu pulso. — Não esconda. É a prova de que você dorme como uma pessoa e não fica em pé dentro de um armário de ferramentas. — Tenho uma cama. A prova já existia. — A cama poderia ser decorativa. Você possui várias coisas apenas porque decidiu restaurá-las.

Levanto antes que ela encontre outro argumento. Sofia permanece sob o edredom, observando-me procurar um casaco e tentando não rir das meias com luas. A proprietária da hospedaria liga durante o café. O quarto ficará interditado até segunda-feira, mas ela encontrou uma vaga num hotel pequeno perto da estação e pagará a diferença. Sofia aceita. A resposta deveria me aliviar, porque resolve a emergência sem transformar meu apartamento numa decisão precipitada. Em vez disso, olho para a caneca extra sobre a mesa e sinto a manhã perder alguma coisa. — Posso ficar aqui até o horário de entrada? — pergunta, desligando o telefone. — Prometo não reivindicar gavetas nem estabelecer residência fiscal. — Pode ficar quanto quiser hoje. Ela ergue uma sobrancelha. Percebo que a frase saiu ampla demais para quem ainda exige cautela até de convites domésticos. — Hoje — repito. — Depois precisamos trabalhar. — Entendido. Hospitalidade limitada por calendário e resistência emocional. Sofia termina o café enquanto respondo a mensagens da fundação. O parecer ainda não chegou. Thomas pede novas cotações de acessibilidade e confirma que a análise financeira está em andamento. O cinema abre ao meio-dia para retirada de ingressos. Noor chega cedo, vê Sofia usando minha camiseta e não comenta. O esforço deixa seu rosto tenso. — Trouxe pães — anuncia, colocando uma sacola no balcão. — Também trouxe a virtude do silêncio, que pesa mais do que parece. — Você poderia praticá-la sem explicar — respondo. — Seria desperdício de desenvolvimento pessoal. Sofia leva a mala para o hotel depois do almoço. Passamos o restante da tarde separadas entre fornecedores, reservas e uma reunião com a escola de idiomas. Às cinco, encontro-a diante da parede de recados, prendendo uma mensagem de uma criança que pede filmes com dragões e menos beijos tristes. A luz do saguão alcança seu rosto. Penso na cama vazia acima de nós, na caneca que lavei antes de sair e na facilidade assustadora de imaginar outro café. — Sofia — chamo, parando junto ao balcão. — Se for sobre a posição do cartão, usei o nível. Estou aprendendo a conviver com sua religião.

— Quero levar você para jantar. Ela se vira devagar. O sorriso não aparece de imediato, como se precisasse confirmar que ouviu a frase correta. — Isso é uma reunião com alimento ou um encontro? — pergunta, deixando o cartão e a tachinha sobre o balcão. — Um encontro. Sem campanha, fundação, entrevistas ou fotografias. Sofia apoia uma mão no peito, numa encenação de surpresa que não consegue esconder o brilho dos olhos. — Você planejou? — Sim. — Há uma reserva? — Sim. Ela se aproxima, reduzindo a distância até eu sentir o perfume cítrico que já reconheço antes de vê-la. — Existe uma lista? — Apenas mental. — Estou emocionada com sua disposição para o risco — diz, e o sorriso enfim aparece. Sofia aceita. Combinamos às sete e meia diante do Aurora. Ela vai ao hotel trocar de roupa, e eu passo uma hora escolhendo entre duas blusas quase idênticas. Mina aparece sem avisar quando estou fechando o escritório. Examina minha roupa, ajusta o colarinho e pergunta onde será o encontro. — Não vou contar — respondo, guardando o telefone na bolsa. — Então é realmente um encontro. Durante a campanha, vocês informam tudo a uma adolescente com câmera. — Jules não saberá. — Uma decisão sábia e temporária. Adolescentes descobrem segredos pelo modo como adultos seguram copos. Antes de ir, Mina entrega um pequeno estojo de tecido. — Coloque os telefones aqui — orienta. — Helena fazia isso quando queria uma noite sem ser convocada por problemas que sobreviveriam até o dia seguinte.

O estojo possui dois compartimentos e um fecho dourado. Aceito porque discutir prolongaria a visita e porque a ideia resolve uma preocupação que ainda não formulei. Sofia chega usando um vestido verde simples, botas e um casaco claro. Os cabelos estão soltos. Ela para sob a marquise e observa minha blusa azul como se também tivesse passado tempo demais escolhendo roupa. — Você está bonita — digo antes que a cautela transforme o elogio em comentário sobre tecido. — Você também. Parece alguém prestes a restaurar um edifício e quebrar o coração de uma funcionária municipal no intervalo. — Não existe funcionária municipal no plano. — Excelente. Já começamos com exclusividade. Mostro o estojo. Sofia coloca o telefone num compartimento e pergunta se existe rastreamento, lacre notarial ou penalidade por reincidência. Guardo o meu no outro lado e fecho o zíper. — Sem fotografias — digo. — Nem nossas, nem para a campanha, nem para provar que a noite aconteceu. Sofia me observa com cuidado. Depois segura minha mão, sem pedir porque já combinamos perguntar apenas quando houver dúvida. — Gosto disso — responde. — Algumas coisas ficam mais honestas quando ninguém precisa escolher o melhor ângulo. Caminhamos até um pequeno cais ao norte do centro. Reservei um barco elétrico coberto, usado para passeios privados fora da temporada turística. O proprietário entrega a chave, explica o percurso e reconhece Sofia da sessão de Casablanca. Pede uma fotografia conosco diante do barco. Sofia olha para mim antes de responder. O gesto simples confirma que a noite pertence às duas, não à pessoa mais rápida diante de uma pergunta. — Hoje não estamos trabalhando — diz com gentileza. — Mas posso assinar um ingresso quando estivermos no cinema. O homem aceita sem insistir. Partimos alguns minutos depois, com uma cesta de comida sob o banco e uma manta dobrada entre nós. O motor quase não faz ruído. O barco avança devagar pelo canal, passando por fachadas estreitas, pontes baixas e janelas acesas sobre a água escura.

Sofia segura o leme nos primeiros minutos e quase encosta na margem ao tentar apontar uma escultura. Tomo o controle antes que transforme nosso encontro em relatório de seguro. — Eu estava testando sua capacidade de reagir sob pressão romântica — protesta, acomodando-se ao meu lado. — Você estava olhando para trás enquanto conduzia. — O passado exige atenção. Aprendemos isso de forma cara. A frase reduz o humor sem eliminá-lo. Continuo guiando até uma parte mais tranquila do canal, onde antigas casas de armazém foram transformadas em oficinas. Atraco numa pequena plataforma coberta. O proprietário deixou uma mesa, duas cadeiras e uma luminária. Da rua, o lugar parece apenas um depósito fechado. Sofia examina a cesta. Há pão, queijo, peras, torta de legumes e uma garrafa de limonada. Nenhum prato exige interpretação ou campanha temática. — Você preparou tudo isso? — pergunta, retirando os guardanapos dobrados. — Noor ajudou com a comida. Eu escolhi o lugar. — Então duas pessoas planejaram e nenhuma publicou. A civilização ainda possui chances. Comemos olhando para o canal. Sem os telefones, o silêncio não pede preenchimento. Sofia comenta os reflexos nas janelas, pergunta sobre a história dos armazéns e rouba a metade maior da torta. Conto sobre meu trabalho num antigo salão de reuniões perto dali. Ela fala de uma tradução que entregou para um documentário sobre pescadores portugueses e imita o diretor tentando explicar legendas em inglês. A conversa fica fácil até Sofia mencionar a estação. — Passei lá hoje para deixar a mala — diz, partindo um pedaço de pão. — Pensei naquela viagem. Minha mão para sobre o copo. Não quero transformar o primeiro encontro real numa autópsia da despedida. Também não quero continuar escolhendo momentos seguros que nunca chegam. — Eu também penso nela — respondo. Sofia espera. Não oferece explicação por mim nem procura uma piada para aliviar o espaço. — Quando você partiu, eu voltei ao Aurora e encontrei a caixa de caramelos na cabine — começo. — Tinha dois no fundo. Joguei fora e me arrependi antes de chegar à lixeira.

Ela baixa os olhos para as mãos. — Durante meses, eu evitava sentar no A-12. Trabalhava na fileira inteira, consertava o apoio, limpava o tecido, mas não sentava. — Elise... — Preciso terminar. Sofia assente. O canal move pequenos pontos de luz no teto da plataforma, e o cheiro úmido da madeira me leva de volta às manhãs em que abria o cinema esperando uma carta. — Sua partida me feriu — digo. — Não apenas porque você foi embora. Você tinha direito de aceitar Paris. O que me feriu foi perceber que eu havia tornado tão fácil para você acreditar que não era querida. Ela aperta os dedos sobre o guardanapo, mas continua sem interromper. — Depois, transformei isso numa história mais simples. Dizia a mim mesma que você sempre partiria, que pessoas ficavam enquanto precisavam de mim e escolhiam outra vida assim que podiam. — Eu ajudei a construir essa história — responde, com a voz baixa. — Ajudou. Você não voltou à cabine, não ligou da estação e aceitou meus e-mails neutros como resposta suficiente. Eu fiquei com raiva de você por não insistir e de mim por esperar que insistisse. Sofia respira fundo. Os olhos ficam brilhantes, mas ela não desvia. — Eu senti vergonha — continuo. — Helena sabia. Não contou sobre o cartão, mas percebeu que eu esperava mensagens. Disse que eu estava usando abandono como prova de independência. — Isso parece exatamente algo que ela diria enquanto empilhava contas vencidas e fingia que não estava preocupada. — Fiquei sem falar com ela por dois dias. — Para você, isso equivale a incendiar uma ponte. A risada que escapa é curta e dolorosa. Sofia estende a mão sobre a mesa, mas para antes de tocar. Ofereço a minha. — Eu via seu nome nos créditos — digo, fechando os dedos nos dela. — Procurava os filmes que você legendava. Às vezes ficava orgulhosa. Às vezes odiava que sua vida parecesse continuar sem esforço.

— Não continuou sem esforço. Eu só aprendi a montar uma versão apresentável. — Eu sei agora. Sofia passa o polegar sobre meus dedos. Não promete que nunca partirá, e agradeço em silêncio por ela não transformar culpa em garantia. — Eu lamento ter ido embora daquele jeito — diz. — Não por ter aceitado o trabalho. Eu precisava daquela oportunidade. Lamento ter deixado uma pergunta no lugar de uma conversa e depois usado seu silêncio para justificar o meu. A resposta não apaga o que houve. Também não tenta reduzir meu sofrimento à falta de informação, como se compreender o cartão resolvesse todos os anos seguintes. — Não quero que nossa relação atual seja uma reparação — digo. — Você não precisa ficar comigo para compensar a mulher que embarcou naquele trem. — E você não precisa aceitar menos do que deseja apenas para provar que não está me prendendo. O ponto encontra um lugar sensível. Olho para nossas mãos sobre a mesa, unidas sem câmera, código ou prazo. — Estou tentando aprender a pedir — admito. — Então peça alguma coisa agora. Penso antes de responder. Sofia não parece tensa, mas seu polegar parou sobre minha pele. — Quero que, quando sentir medo, você me conte antes de comprar uma passagem ou aceitar uma proposta em segredo. — Posso fazer isso. — Não quero saber apenas quando já tiver decidido. — Também posso fazer isso. Ela inclina a cabeça. — Minha vez. Quero que você não recue e chame isso de cuidado sem me deixar participar da decisão. A cabine retorna inteira à memória. Assinto. — Posso fazer isso. A conversa não produz solução para Paris. Produz duas promessas menores, difíceis o bastante para merecer confiança.

Voltamos ao barco quando o frio aumenta. Sofia assume o leme sob supervisão e consegue percorrer o canal sem atingir pontes, turistas ou patrimônio tombado. Perto do cais, uma jovem nos reconhece e ergue o telefone. Pergunta se pode fotografar “o casal do Aurora” no barco. Sofia mantém uma mão no controle e olha para mim. Não há irritação em seu rosto, apenas espera. — Hoje não — respondo. — Mas obrigada por acompanhar as sessões. A jovem guarda o aparelho e pergunta sobre ingressos. Sofia fornece o endereço do site sem tocar no estojo onde nossos telefones continuam fechados. Quando desembarcamos, sinto alívio. Recusar a fotografia não parece esconder Sofia. Parece proteger uma noite que ainda não terminou. Caminhamos de volta pelo Patershol, onde as ruas estreitas guardam cheiro de pão, cerveja e pedra úmida. A cidade está movimentada, mas ninguém volta a nos abordar. Diante do Aurora, retiro os telefones do estojo. Existem mensagens de Jules, da fundação e de um fornecedor de cadeiras. Nenhuma exige resposta imediata. Sofia confere a tela e guarda o aparelho sem abrir a câmera. — Então — diz, encostando-se à porta do cinema. — Como avaliamos um encontro sem fotografias, pesquisas de satisfação ou comentários de desconhecidos? — Pela vontade de repetir. — E você quer repetir? — Quero. Ela sorri sem ironia. O gesto aberto me deixa mais vulnerável do que a conversa no cais. — Posso beijar você? — pergunta. — Pode. Seguro seu rosto entre as mãos e a beijo sob a marquise apagada. Sofia envolve minha cintura, aproximando-se com calma, sem transformar o beijo em resposta para tudo que dissemos. Quando nos afastamos, ela retira do bolso o recibo do aluguel do barco e pede a caneta que guardo na bolsa. No verso, escreve: “Encontro real. Sem campanha, sem naufrágio e sem provas fotográficas.”

Entrega o papel. Acrescento a data, dobro ao meio e guardo na carteira. — Não publicar — avisa, segurando minha mão enquanto destranco a porta. Escrevo as duas palavras abaixo da data antes de guardar o recibo novamente.

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