CAPÍTULO 20 — A NOITE EM QUE A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 25 de 30
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CAPÍTULO 20 — A NOITE EM QUE

TODOS VIERAM POV: Elise A proposta de Paris permanece sobre a mesa da cozinha quando acordo, presa sob a caneca vazia de Sofia para que a corrente da janela não espalhe as páginas pelo apartamento. O plano do Aurora Vivo está ao lado. Entre os dois documentos, a lista da sexta sessão registra cento e vinte e sete reservas, como se três futuros incompatíveis pudessem ser organizados numa superfície de madeira. Sofia dorme voltada para mim, com uma mão sob o travesseiro e a outra fechada sobre a barra da minha camiseta. Não procuro sinais de decisão em seu rosto, embora ainda transforme sua tranquilidade em argumento, hábito injusto que preciso abandonar. A Maison Lumière espera uma resposta até sexta-feira ao meio-dia. É quinta. A sexta sessão acontece naquela noite, e a fundação ainda não respondeu sobre o plano revisado. Levanto, preparo café e escrevo os horários do dia num papel. Nenhuma lista resolve tudo, mas abandonar uma defesa de uma vez seria apenas outra forma de imprudência. Sofia aparece na cozinha usando minha camiseta e meias diferentes, uma dela e outra minha. Para diante da mesa, lê os documentos e pega o café sem tocar na proposta. — Sonhei que o senhor Peeters assumia a direção da Maison Lumière e exigia que todos os filmes fossem exibidos no A-12 — diz, apoiando o quadril na bancada. — Isso parece uma ameaça produzida por excesso de açúcar e convivência com a terceira idade organizada — respondo, enquanto ela bebe café e observa a lista de reservas. — Cento e vinte e sete. Ainda temos trinta e sete lugares. Posso criar uma campanha de última hora sem mencionar beijos, Paris ou mortalidade institucional. — Jules publicou o cartaz à meia-noite, e Noor ofereceu desconto para quem comprar ingresso e café. Tome banho antes de transformar ansiedade em publicidade. Sofia me olha por cima da caneca. A boca se curva, mas não usa o humor para negar a palavra ansiedade. Coloca o café na mesa e se aproxima. — Não respondi à oferta e também não mudei de ideia durante o sono — informa. Quando digo que sei, ela acusa meu hábito de esperar que duas palavras carreguem quinze. — Pode perguntar como estou. Isso não me obriga a escolher — diz, apoiando as mãos na minha cintura e me obrigando a abandonar o papel com os horários.

— Como você está? — pergunto, segurando seu olhar em vez de antecipar a resposta. Sofia pensa antes de responder. A pausa não parece afastamento. Tornou-se o espaço onde ela decide não oferecer frases úteis apenas para encerrar uma conversa. — Orgulhosa por terem me chamado. Assustada com a possibilidade de aceitar. Assustada com a possibilidade de recusar. E irritada porque o cargo é melhor do que deveria ser para facilitar minha vida. Seguro seu rosto. Não beijo imediatamente, porque não quero usar carinho para cobrir a parte difícil. — Eu continuo querendo que você fique — digo. — Também continuo querendo que a decisão não destrua uma parte sua que depois será usada contra nós. — Essa é uma exigência muito razoável para antes das sete — responde. — Não reformule. Ainda estou me recuperando de descobrir que você possui essa capacidade. Beijo Sofia devagar. Ela envolve meu pescoço e aproxima o corpo do meu, mas interrompemos antes que a cozinha transforme o cronograma em peça decorativa. Descemos às oito. A sessão daquela noite se chama “A Cidade Cabe Aqui”, título escolhido pelo clube de cinema para uma mostra de três curtas locais seguida por A Rua das Pequenas Luzes, uma comédia flamenga de 1984. Helena detestava o filme porque o cachorro recebia mais falas do que todas as mulheres. Mina o adorava pelo mesmo motivo e prometeu apresentar a sessão sem iniciar uma discussão sobre equilíbrio narrativo. No saguão, Jules já colocou setas coloridas no piso para orientar a fila. Luca testa os fones de audiodescrição, e Noor organiza caixas de tortas salgadas junto ao novo refrigerador temporário. O senhor Peeters está diante da planta do Aurora Vivo, lendo as anotações sobre retirada de poltronas com a expressão de alguém examinando uma traição governamental. — Vinte e oito assentos são uma sala inteira de pessoas — reclama quando me aproximo. Pergunta pelo A-12 e pelo apoio solto antes que eu termine de explicar circulação e acessibilidade. — O A-12 permanece, e o apoio será reparado quando o senhor parar de testar a resistência toda semana — respondo, fechando a planta antes que ele encontre outra ameaça. Ele aceita a resposta com um resmungo. Depois tira um envelope do bolso e coloca sobre a bilheteria. Dentro há quatrocentos euros e um bilhete: “Para o apoio do A-12 e outro assento que ninguém escolhe.”

— Preciso registrar a doação — aviso, e ele manda que eu registre, alegando ter passado setenta e três anos preenchendo papéis para impedir jovens de usarem formulários como ameaça. Jules fotografa apenas o envelope, com autorização. O senhor Peeters exige que seu nome não apareça, mas permite que a frase seja colocada na parede de recados. Às dez, as reservas chegam a cento e quarenta e seis. Ao meio-dia, restam nove lugares. Às duas, a sessão está esgotada. A placa volta para a bilheteria. Jules acrescenta “de novo” abaixo da palavra ESGOTADO, e desta vez não peço que retire. O segundo sold out produz menos espanto e mais responsabilidade. Sofia passa a manhã coordenando legendas, voluntários e uma lista de espera criada em três idiomas. Trabalha com o telefone preso entre ombro e rosto, o lápis amarelo no cabelo e uma concentração que me faz desejar tocá-la nos momentos menos adequados. Quando percebe meu olhar, Sofia pergunta se avalio sua competência ou a camisa presa no cós. Corrige o tecido e ameaça cobrar consultoria de imagem. — Inclua na proposta de Paris — respondo, antes que prudência alcance a frase. A leveza desaparece do rosto dela, e peço desculpas sem tentar justificar. — Não trate o nome da cidade como objeto frágil — diz. — Só não quero que apareça em cada conversa como uma pessoa esperando na porta. Assinto. A proposta está no apartamento, e meu medo não precisa ocupar todas as tarefas do cinema. Às quatro, vinte e oito pessoas permanecem na lista de espera. Uma hora depois, quarenta e três aparecem sem ingresso porque uma página local publicou, por conta própria, que a sessão teria entrada livre. Crianças, idosos e estudantes enchem a calçada. O limite da sala continua em cento e sessenta e quatro. Nenhuma boa intenção altera capacidade, saídas ou seguro. Explico isso ao grupo, recebendo de volta decepção, algumas reclamações e duas sugestões de ignorar a fiscalização. Sofia sobe num banco junto à bilheteria antes que a fila se disperse. — Podemos fazer uma segunda exibição às dez e meia — anuncia. — O ingresso terá metade do preço, e quem não puder esperar recebe prioridade na próxima quarta-feira. Luca olha para o projetor. Noor calcula comida. Jules já abre uma nova página de reservas. Todos esperam minha resposta porque o prédio continua sob minha responsabilidade. A exibição extra não conta entre as doze exigidas pelo testamento e exige horas extras, limpeza e nova verificação técnica. Também coloca pessoas dentro do cinema em vez de mandá-las embora por um erro que não criamos.

— Dez e quarenta e cinco — corrijo. — Precisamos de trinta minutos para limpar a sala e testar o projetor. O limite continua igual, e ninguém entra sem bilhete. A calçada reage com aplausos. Sofia desce do banco, segura meu rosto e afirma que fico muito atraente reorganizando ideias impulsivas em conformidade com normas de segurança. — Venda os ingressos antes que eu recupere o bom senso — respondo, embora já esteja sorrindo diante de dezenas de testemunhas. A segunda exibição recebe oitenta e três reservas em quinze minutos. Noor chama duas funcionárias da confeitaria. Luca pede jantar suficiente para alimentar a cabine. Jules recruta estudantes para limpeza. Mina aparece às seis com o casaco vermelho de Helena e uma caixa de programas antigos. Ao saber da sessão extra, aceita apresentar as duas em troca de café preparado por alguém acima de vinte anos. Thomas Verhaegen chega pouco depois. Não veio em nome formal da fundação, mas traz a esposa, dois ingressos e o olhar de quem já recebeu notícias sobre a confusão na calçada. Mostro a lista de espera, a postagem incorreta e o plano para a sessão extra. Ele observa os voluntários organizarem pulseiras de cores diferentes. — Isto não cabia na proposta inicial — comenta, e respondo que quase nada das últimas semanas cabia, embora receitas, despesas e horas extras estejam sendo registradas separadamente. Sofia surge ao meu lado com uma caixa de pulseiras. Thomas pergunta como conseguimos tanta gente numa quinta-feira fria. — Eles vieram porque alguém conhecido convidou, porque viram a parede de recados ou porque querem descobrir se o cachorro do filme realmente merece tantas falas — explica. — Não existe um único motivo, o que é melhor para a sobrevivência do cinema. Thomas assente. Antes de seguir para a sala, informa que o conselho da fundação analisará o plano na sexta à tarde. A decisão chegará até segunda-feira. A decisão chegará horas depois do prazo da Maison Lumière. Sofia aperta a caixa de pulseiras, gesto que apenas eu percebo antes que Thomas se afaste. — Você está bem? — pergunto. — Estou. Só gostaria que instituições coordenassem calendários antes de interferir em vidas alheias. — Podemos sair por cinco minutos.

— Não podemos. Há duzentas e quarenta e sete pessoas distribuídas entre duas sessões e uma equipe que acredita que fita colorida substitui treinamento. — Isso foi quase uma frase minha. — Conviver tem consequências. Ela toca minha mão antes de voltar à bilheteria. O gesto dura pouco, porém não parece fuga. Sofia escolhe permanecer na tarefa sem fingir que a notícia não pesa. A primeira sessão começa com todos os cento e sessenta e quatro lugares ocupados. Na apresentação, Mina conta que Helena proibiu o filme durante seis anos depois de perder uma discussão sobre o cachorro. — Ela voltou a exibi-lo quando percebeu que proibição aumenta interesse, aprendizado que infelizmente aplicou em poucas áreas da vida — diz Mina ao microfone. A plateia ri. Junto à cortina, observo Sofia ajustar as legendas laterais, e meu corpo reconhece seus movimentos com uma familiaridade recente, já difícil de imaginar ausente. Durante o segundo curta, Noor me chama ao saguão. Há uma mesa coberta de envelopes, potes com moedas, cartões de visita e folhas de papel. A notícia da sessão extra circulou, e pessoas começaram a oferecer ajuda ao Aurora Vivo: horas de carpintaria, consultoria de acessibilidade e uma escala de pais para pintura. — Eu pedi apenas que deixassem contato — explica Noor. — Eles começaram a escrever o que podiam fazer. Humanos ficam perigosamente cooperativos quando recebem canetas e torta. Nenhuma oferta resolve as dívidas sozinha. Juntas, reduzem custos e provam que o plano não depende apenas de Sofia e de mim. Mina aparece atrás de nós durante o intervalo. Vê a mesa e segura meu braço. — Helena gostaria de ter visto isto. — Teria reclamado que ocupamos a passagem. — E depois guardaria cada papel numa caixa sem etiqueta. Sofia se junta a nós. Noor entrega uma folha onde alguém escreveu: “Posso hospedar tradutores durante o festival internacional, quando vocês criarem um.” — Festival internacional? — pergunta Sofia, relendo a linha. — A cidade está planejando sua agenda profissional sem autorização — diz Noor. — Talvez devesse processá-la por excesso de confiança. Sofia sorri, mas seus olhos ficam úmidos. Uma mulher ao lado reconhece a fotografia do beijo e comenta que Ghent finalmente conseguiu fazê-la ficar.

A frase chega envolvida em carinho e produz exatamente a pressão que prometemos evitar. Antes que Sofia precise responder, coloco-me entre ela e a mesa. — Sofia ainda não anunciou qualquer decisão sobre onde viverá — digo. — O trabalho que fez aqui não pertence menos ao Aurora se a vida dela incluir outra cidade. A mulher se desculpa. Sofia permanece quieta até ficarmos sozinhas junto à parede de recados. — Obrigada — diz. — Ninguém pode usar esta noite para decidir por você. — Nem você? A pergunta não é provocação. Ela precisa ouvir a resposta inteira. — Nem eu. Quero que fique, mas não quero uma cidade inteira transformando gratidão em dívida. Sofia segura minha mão e a leva até a boca. Beija meus dedos num corredor cheio, sem olhar para câmeras ou procurar aprovação. — É por isso que ir embora não parece mais simples — responde. Não peço que explique. A sessão recomeça, e ambas voltamos ao trabalho antes que o corredor se torne lugar de promessa. O filme termina às nove e quarenta sob aplausos. O cachorro recebe a maior reação da noite, confirmando a análise de Helena e arruinando qualquer possibilidade de justiça narrativa. Enquanto a primeira plateia sai, oitenta e três pessoas aguardam no saguão e na confeitaria. Voluntários recolhem copos, limpam poltronas e conferem pulseiras. O senhor Peeters permanece para a segunda exibição. Informa que pagará outro ingresso porque deseja confirmar se o cachorro melhora após revisão crítica. Às dez e quarenta e sete, a tela acende novamente. Restam lugares vazios, mas o cansaço, as conversas e o cheiro de café fazem a sala parecer cheia. Sento na última fileira com Sofia durante os minutos iniciais. Seus ombros finalmente relaxam contra a poltrona. Seguro sua mão sob o apoio, fora do alcance dos celulares. — Duzentas e quarenta e sete pessoas — diz. — Na primeira sessão, tínhamos onze. — Não use números sem separar as duas exibições. Uma foi oficial, a outra extraordinária. — Você conseguiu transformar emoção em nota contábil.

— Alguém precisa impedir que ela declare independência fiscal. Sofia apoia a cabeça em meu ombro. O filme continua, mas observo nossos dedos unidos e penso na oferta sobre a mesa. — Amélie quer que eu visite o escritório amanhã antes de responder — informa. — Posso pegar o trem das seis e vinte e quatro e voltar no fim da tarde. Meu peito aperta antes que eu responda. A visita torna Paris concreta de um modo que nenhuma página impressa conseguiu. — Você quer ir? — Quero ver o lugar, conhecer a equipe e descobrir o que estão pedindo além do contrato. Não quero aceitar uma ideia. Também não quero recusar uma. — Então vá. Sofia levanta a cabeça. O rosto procura sinais de afastamento, e permito que veja o medo em vez de cobri-lo com apoio impecável. — Quero que volte — acrescento. — Não como resposta definitiva. Amanhã. Quero que volte amanhã e me conte tudo. A mão dela fecha sobre a minha. — Eu volto. A frase não promete Ghent para sempre. Promete um trem de retorno na mesma noite, medida pequena e concreta que consigo receber sem exigir mais. A segunda sessão termina depois da meia-noite: cento e sessenta e quatro ingressos oficiais, oitenta e três extras, trezentos e vinte euros em doações e vinte e nove ofertas voluntárias. Jules escreve “A noite em que todos vieram” no relatório. Não corrijo o exagero. Depois de onze pessoas, duzentas e quarenta e sete já parecem uma cidade inteira. Fechamos o Aurora às duas. Sofia sobe comigo apenas para buscar a bolsa e trocar a camisa. O trem parte cedo demais para dormir de verdade. Na cozinha, a proposta continua sob a caneca. Ela coloca o bilhete da sessão ao lado e guarda uma cópia do plano Aurora Vivo na bolsa. — Não estou levando isto para convencer Paris — explica. — Quero mostrar o tipo de projeto que aprendi a construir aqui. — É seu trabalho também. Sofia me beija junto à mesa e mantém a testa encostada na minha ao repetir que ainda não decidiu, mas quer voltar no dia seguinte. Digo que ouvi.

Deita por duas horas com a cabeça no meu peito, embora nenhuma de nós durma profundamente. Às cinco e quarenta, caminhamos até a estação. A cidade está vazia depois da noite em que todos vieram, coberta por copos recolhidos, cartazes úmidos e luzes sendo apagadas. Na plataforma, Sofia segura minha mão até o aviso de embarque. Não prometo esperar no mesmo lugar, porque estarei no cinema trabalhando. Ela não pede. — Mande mensagem quando chegar — digo. — Mando. E quando sair de lá. — Não edite as partes difíceis. — Cláusula mantida. Beijo-a antes que as portas abram. Sofia entra, encontra um lugar junto à janela e apoia a mão no vidro. O trem parte às seis e vinte e quatro. Permaneço na plataforma apenas até o último vagão desaparecer, depois volto para o Aurora com a lista de duzentas e quarenta e sete pessoas na bolsa e o pedido que fiz inteiro: quero que ela volte hoje.

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